Se você usou redes sociais ou conversou minimamente com alguém que esteja nelas ao longo dos últimos dias, é provável que tenha se deparado com um nome: Felca. O jovem influenciador fez um vídeo impactante e furou todas as bolhas possíveis, alertando para um tema de importância central: a exploração de crianças e adolescentes, que acontece de maneira violenta e explícita nas redes sociais. Não se trata, exatamente, de um assunto novo, mas a denúncia, detalhada por ele em um filme de 50 minutos, expôs exemplos graves e jogou um forte holofote sobre o problema.
Além de trazer casos em que crianças são expostas, muitas vezes, pela própria família, que lucra com o conteúdo na internet, Felca mostrou cenas incômodas, de menores em situações completamente inadequadas para a idade, em festas, com álcool, performando danças sensuais, usando roupas de adultos, com a intimidade invadida, totalmente desprotegidas.
Embora tenha se intensificado com a internet, a adultização de crianças é um tema discutido há bastante tempo. “Curiosamente, assim como as redes sociais expõem as crianças, elas também representaram, nesse caso, uma forma de fazer as denúncias”, observa a professora Fernanda Kimie Tavares Mishima, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP. Para ela, a preocupação só conseguiu atingir um âmbito maior, por ter sido divulgada por alguém que está nessas redes. A ferramenta é importante, mas é preciso observar o uso que se faz dela.
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Infância em risco
O vídeo chamou a atenção do público na internet e fora dela. Alguns dos perfis denunciados foram rapidamente retirados do ar e passaram a ser investigados. Diferentes setores da sociedade se empenharam em debater o assunto. A preocupação com algo que já acontecia, mas não mobilizava, ganhou força. Ficou mais clara do que nunca a urgência de interromper ou pelo menos agir para tentar frear essa violação dos direitos das crianças. Mas, antes, é importante entender melhor a que riscos a infância e a adolescência estão vulneráveis.
Duas palavras vêm ganhando as discussões acerca da publicação de Felca: adultização e erotização. Os termos têm significados diferentes, mas caminham frequentemente juntos.
O que é adultização?
“O processo de desenvolvimento humano passa por fases, entre elas, a infância, a adolescência, a fase de jovem adulto, adulto, idoso”, aponta a psicóloga Fernanda. Ao longo destas etapas acontece, gradativamente, o desenvolvimento físico e emocional de uma pessoa. A adultização consiste em tirar a criança da fase em que ela está e colocá-la abruptamente em um espaço que não é o dela, pulando etapas indispensáveis para o crescimento saudável. “É algo muito violento”, afirma.
As crianças são adultizadas quando são estimuladas a se comportarem como adultos, com roupas, gestos, responsabilidades, modo de falar, de pensar, de agir. “Para praticar um esporte, por exemplo, você começa aos poucos, passa pelos treinos de iniciante, vai melhorando, aprimorando suas habilidades. Agora, imagina ter de correr uma maratona sem treino algum”, compara a psicóloga. A adultização é isso, passar a jogar com as regras do mundo adulto, ser vista como adulto, cobrada como adulto, sem ter passado pelas etapas que nos preparam para isso – o que, é claro, tem consequências, como a erotização.
O que é erotização?
A erotização é uma das consequências, a curto prazo, da adultização. Embora possa acometer tanto meninos, como meninas, são elas que costumam sofrer mais com isso. Como a adultização implica em pular etapas, em muitos casos, as crianças são encorajadas a se comportarem como adultas. “A erotização transforma a criança adultizada em objeto sexual, em algo passível de ser desejado, algo que pode servir aos propósitos de um público adulto”, explica Fernanda.
Ela lembra que alguns dos canais denunciados por Felca traziam conteúdos feitos com adolescentes que se aproximavam de conteúdos pornográficos, pensados para os adultos. “É muito sério colocar meninas e meninos no movimento de suprir as necessidades sexuais de público adulto. É perverso e violento”, ressalta. Os resultados são desastrosos.
Os riscos de pular etapas
A erotização tem uma série de consequências pesadas. A criança se vê na obrigação de fazer o que não quer e o que ela nem sabe o que é. “Ela não conhece o propósito, não vê sentido naquilo, mas faz porque está fragilizada. A criança foi colocada ali por um adulto e ela sente que tem de cumprir esse papel”, explica a psicóloga.
Com isso, a exposição e a vulnerabilidade levam a criança a diferentes tipos de violência e abusos, como o de meninas se tornarem mães ainda na infância e serem culpabilizadas por isso.
Nesta semana, a revista AZMINAS publicou a investigação “Meninas mães”, que mostra que, a cada meia hora, uma menina é abusada, engravida e perde a infância. E, para piorar, é obrigada, na maioria das vezes, a levar tal gestação adiante, mesmo que pudesse estar respaldada judicialmente para realizar um aborto.
Esse é apenas um dos tipos de violências que meninas sofrem com a adultização.
A vítima desse processo de ser colocada como adulta antes do tempo gera uma cadeia de culpa, medo, angústia, vazio, dependência extrema, ansiedade, depressão. “Algumas crianças não conseguem mais ficar sozinhas, ter autonomia, desenvolver a capacidade de tomada de decisões”, diz a psicóloga.
São retirados das crianças os prazeres genuínos da infância, como brincar, participar de jogos coletivos, fazer amigos, se sentirem amadas, protegidas e cuidadas. Quando são adultizadas e erotizadas, antecipa-se a sexualidade genital – que só deveria se desenvolver no final da adolescência. “O adulto a coloca como um objeto desejável e ela se sente deslocada, invadida, ocupada. A criança é atravessada por desejos que não são dela”, aponta. Os impactos maiores são vistos tanto na aparência, quanto na forma de falar. Algumas passam a ter comportamentos inadequados, sexualizados. Outras se retraem. “Podem vir a se tornar adultos emocionalmente dependentes e extremamente passíveis de sofrer abusos, porque não conseguem sair do círculo de violência”, acrescenta Fernanda.
Crianças adultizadas passam a querer se adequar à aparência adulta: só querem se vestir com roupas que remetem a adultos, não querem ser vistas sem maquiagem. “Enquanto o rosto ainda está em desenvolvimento, elas expressam o desejo de fazer procedimentos como botox e cirurgias”, exemplifica a especialista.
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A culpa é de quem?
Na Idade Média, o conceito de infância não existia e a criança era vista como um miniadulto. “Elas podiam se casar, trabalhar e participar das mesmas atividades, sem distinção dos adultos”, aponta a psicóloga Fernanda. Foi só a partir do século 18 que as pessoas começaram a entender que, nos primeiros anos de vida, os seres humanos ainda estão em fase de desenvolvimento e precisam de um olhar específico, além de cuidados especiais. Entenda melhor aqui!
Em muitos países, como o Brasil, a proteção à infância é um direito garantido por lei, como lembra o advogado João Francisco Coelho, da área Digital, do Instituto Alana. Ele aponta que é um princípio constitucional a responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias e sociedade. “Isso inclui o setor empresarial, enquanto parte da sociedade civil” ressalta.
Para o especialista não há como isolar nenhum dos atores quando se pensa em uma resposta para o fenômeno da adultização. “É preciso olhar de maneira ampla, enxergar de forma crítica as mídias digitais e a forma como elas serão introduzidas na vida das crianças, entender como os governos podem contribuir para isso, principalmente pela regulação”, afirma.
Segundo João, é essencial que as mídias sejam reguladas com parâmetros que não contribuam para essa adultização. Além disso, ele ressalta que é preciso olhar para empresas que contribuem, muitas vezes, com o fenômeno, com a hiperexposição das crianças e a monetização da imagem delas. “Para fazer frente a isso, precisamos pensar em uma regulação que faça com que esses espaços coloquem a proteção das crianças, em primeiro lugar, em detrimento, inclusive, dos seus próprios interesses”, declara.
Proteger as crianças, é, portanto, um cuidado conjunto, que se inicia dentro de casa, com uma família que cuide e zele pela infância. “O segundo ambiente é a escola, que tem esse desafio de olhar para a segurança das crianças”, lembra a psicóloga Fernanda. Então, vêm os governos, com políticas públicas, campanhas de conscientização e regulação.
Embora a exposição das crianças a esse risco já existisse antes, isso aumentou na internet e teve um ponto alto na pandemia. Para Fernanda, foi um momento em que as famílias ficavam em casa e usavam as mídias e a exposição das crianças como uma forma de contato social, em tempos de restrição. “Acontece que, quando saímos da pandemia e conseguimos nos socializar novamente, essa exposição não diminuiu. Pelo contrário. Houve ganhos financeiros para as empresas, para os pais. As pessoas viram que, ao expor os filhos, poderiam gerar uma renda. Virou uma falta de controle”, avalia, defendendo que a regulação e a conscientização são urgentes.
Para o advogado do Instituto Alana, as regras devem considerar que os algoritmos das redes sociais, hoje, priorizam a manutenção do engajamento dos usuários, acima de qualquer coisa. “Eles são míopes às violações dos direitos das crianças e recomenda conteúdos apenas com base no que vai gerar engajamentos, o que pode ajudar a criar essas redes de pedofilia, colocando pessoas mal-intencionadas em contato com vídeos de crianças”, descreve. Segundo ele, o primeiro passo é adequar esses sistemas de recomendação algorítmica, para que os parâmetros não sejam unicamente voltados à ampliação do engajamento e a captura da atenção.
“Outro ponto importante é a moderação de conteúdo”, argumenta. É preciso garantir que, uma vez que as plataformas sejam notificadas de violações de direitos, as publicações sejam moderadas e removidas. “Por último, precisamos pensar em regras para a exposição das crianças nas redes. Não dá para ser da forma como acontece hoje, em que qualquer criança, adolescente ou familiar com um celular pode produzir conteúdo, sem qualquer tipo de acompanhamento e consideração, e comece a monetizar. As regras sobre produção de conteúdo por crianças e adolescentes no ambiente digital precisam ser mais estritas para evitar essa situação de abuso”, aponta.
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Enquanto isso, NAS FAMÍLIAS…
Que é preciso ter regras e responsabilizações sobre conteúdo inadequado, que fere os direitos das crianças, (quase) todo mundo entendeu. Mas o que fazer enquanto isso?
É essencial que os pais entendam o que significa expor os filhos na internet. Uma vez que o conteúdo está online, há pouco controle sobre como ele pode ser usado, distorcido, descontextualizado.
“Não é que os pais não devam compartilhar nada, mas é importante pensar em como fazer isso – e na responsabilidade que se coloca sobre as crianças”, diz Fernanda. “Quando eu publico uma foto minha, com meus filhos, em um parque, mostrando um momento em família, é uma situação. Quando eu faço quase um roteiro, obrigo a fazerem isso ou aquilo, a falar o que eu quero, deixa de ser uma experiência espontânea e vira uma encenação”, exemplifica.
Além disso, ela lembra que, como pais, temos controle do que postamos ou não, mas não sobre o que as pessoas vão fazer com isso. “É preciso pensar, antes de postar qualquer coisa que se refira aos filhos”, recomenda.
Conforme os filhos crescem e começam a usar as redes sociais, é fundamental manter o diálogo, falar dos riscos, explicar o que pode e o que não pode, as possíveis consequências. Acima de tudo, é importante saber o que seu filho está fazendo. Até porque, até que ele se torne maior de idade, a responsabilidade é da família.
“Muitas famílias acham um alívio a criança ou o adolescente ficar no celular, fazendo o que quiser, e se ausentam da sua responsabilidade, passando a responsabilidade de cuidado para um aparelho eletrônico”, diz Fernanda. “Os adultos precisam deixar os próprios celulares um pouco de lado e olhar para os filhos, responsabilizando-se pela educação e pela saúde, física e emocional, das crianças e adolescentes”, completa.
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Estante Quindim
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