Dezembro é um mês que nunca chega sozinho. O clima que cerca os últimos 31 dias do ano sempre vem acompanhado da expectativa pela felicidade. O sentimento festivo invade as ruas, entra pelas casas e se faz presente no cotidiano das pessoas… Até daquelas que não estão passando por uma fase alegre da vida. E isso inclui as crianças.
As mais diversas dores podem estar sendo vividas pelas famílias — dores que podem até se tornar mais intensas conforme o Natal e o Ano Novo batem à porta. Sentimentos de tristeza, frustração, angústia e saudades se fazem presentes pela perda de um familiar, no adeus a um animal de estimação, nas dificuldades financeiras da família, na separação dos pais, em um ano difícil nos estudos ou até em uma mudança de escola ou de cidade.
Em meio a cenários como esses, esperar por um fim de ano perfeito pode ser tão fantasioso quanto o Papai Noel. Mesmo assim, o fato é que as festas de dezembro virão, trazendo como companhia a cobrança por uma celebração feliz. “Junto disso, houve um forte movimento de comercialização da data, que reforça a ideia de ceias fartas, casas impecavelmente decoradas e presentes em abundância — como se tudo isso fosse indispensável para viver a ocasião plenamente”, explica Érika Arantes de Oliveira Cardoso, mestre e doutora em Psicologia, coordenadora do Lute (Grupo de Estudos de Lutos e Terminalidades da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto).

A esse cálculo, soma-se ainda o simbolismo da virada entre dezembro de um ano e janeiro do outro: “O fim de ano exacerba os sentimentos já presentes, ligados às variadas dores que possam estar sendo vividas, por se tratar de uma passagem. Você está encerrando uma questão e iniciando outra”, conta Kauê da Costa Alves, psicólogo clínico e psicanalista, mestre pela Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP.
Direto do Instagram: 10 ideias de presentes de Natal para crianças que focam na presença e no vínculo
tempo de reflexão (e de cobranças!)
Não conseguir colocar em prática celebrações de fim de ano que atendam às expectativas sociais pode acabar gerando até uma nova dor. “Quando o Natal não acontece como o idealizado — seja pela ausência de familiares (por morte, doença, separação ou impossibilidade de estarem fisicamente juntos), seja por dificuldades financeiras que impedem a celebração considerada ‘tradicional’ —, a criança pode interpretar essa realidade como um reflexo do próprio valor.
Para muitas, sobretudo as menores, é comum pensar que não receberam o que esperavam porque ‘não mereceram’, como se estivessem sendo punidas por algo que fizeram ou deixaram de fazer”, pontua a psicóloga Érika.
De acordo com a especialista, tudo isso tem conexão com a ideia de “merecimento” que acompanha essa época do ano, “a antiga e ainda presente lógica de que só ganha presente a criança que ‘se comportou’. Em um momento já carregado de expectativas sociais de felicidade, união familiar e abundância, essa ideia pode intensificar sentimentos de culpa, inadequação ou falha pessoal”, continua Érika, ressaltando que este é apenas um dos fatores que podem afetar as crianças durante esse período. Ainda existem todas as outras dores que algumas delas podem estar passando, junto de suas famílias.
AS dores que invadem e crescem em dezembro
Chegar ao fim do ano após ter vivenciado a perda de pessoas próximas, como um familiar, um cuidador ou um animal de estimação torna o luto um personagem importante do mês de dezembro. “O sofrimento costuma se intensificar em datas simbólicas, trazendo sentimentos de tristeza, saudade e confusão”, diz a psicóloga Érika. “Há também as perdas simbólicas, como a separação dos pais ou conflitos familiares. As disputas sobre onde passar a data, as brigas e as tensões entre os adultos podem fazer a criança se sentir dividida ou até responsável pela harmonia entre eles”, afirma ela.
A especialista ainda aponta outro aspecto importante desse período do ano: é comum usar a época para fazer um balanço do que foi vivido e realizado ao longo dos últimos 12 meses. “Mesmo nas crianças, [surge] a sensação de que precisam reavaliar seu ‘desempenho’ no ano que se encerra. Nesse contexto, dificuldades escolares, baixo rendimento ou conflitos com colegas podem potencializar sentimentos de menos-valia e baixa autoestima”, conta.
Para Érika, essas dores não anulam a importância das festas, “mas mostram como o fim do ano pode ser emocionalmente complexo para as crianças, que vivenciam esse período de maneira muito mais sensível do que muitas vezes imaginamos”.
o que fazer para acolher as dores de fim de ano das crianças?
Reconhecer que a dor existe e que a criança tem direito a sentimentos — como tristeza, medo, frustração e saudade — que destoam da tão esperada alegria de fim de ano é o primeiro passo. “Validar e acolher o que a criança sente é essencial: mostrar que é possível viver o Natal de um jeito mais tranquilo, sem obrigações de alegria. O acolhimento não está em tentar apagar a dor, mas em oferecer presença, escuta e segurança emocional”, explica a psicóloga Érika.
Um dos caminhos para fazer isso em família está na criação de momentos de conexão entre os pais ou cuidadores e a criança. Para a especialista, isso pode acontecer por meio de uma conversa tranquila, em gestos que simbolizam a memória (como acender uma vela por alguém que faleceu, fazer um desenho ou compartilhar lembranças) ou apenas estando ao lado da criança para que ela compreenda que há um local de acolhimento ali, mesmo não sentindo a felicidade idealizada para essa época do ano.

Outra possibilidade é explicar que a situação de dor é transitória, ou seja, que o fim de ano vivido agora não necessariamente vai se repetir no próximo ano e nos seguintes. No entanto, é importante estar atento para não minimizar a dor: “O adulto pode ajudar a criança a compreender que o momento atual é difícil, mas não define todos os próximos anos. A intenção não é oferecer garantias que sejam irreais, e, sim, mostrar que os sentimentos mudam com o tempo e que é possível cultivar esperança mesmo em períodos dolorosos”, avalia a doutora.
A dica da especialista é fazer isso por meio de um diálogo acolhedor: o adulto pode nomear a dificuldade do momento e abrir espaço para que a criança expresse o que sente, suas tristezas, dúvidas ou medos. Em meio a isso, é importante trazer a ideia de que a dor que está sendo vivida agora pode, aos poucos, encontrar um lugar menos dolorido dentro da criança.
Assim, em outros anos, as festas poderão ser vividas de formas diferentes. “O essencial é que a criança sinta que seus sentimentos importam, que não precisa enfrentar tudo sozinha e que existe um adulto disponível para acolhê-la […]. O desafio não é mascarar a dor, mas criar espaço para que ela possa ser verbalizada, nomeada e cuidada”, diz a psicóloga Érika.
Para esse momento de acolhimento durante as festas de fim de ano, o psicólogo e psicanalista Kauê destaca a importância de sempre partir daquilo que a criança já sabe. Ele traz o exemplo do divórcio entre os pais: “É preciso entender em que ponto essa criança está e o que ela está sentindo. E perguntar isso diretamente, mesmo que seja preciso emprestar palavras. Por exemplo: ‘você está triste? Está desanimado? Com um sentimento ruim no coração?’. É assim que a criança pode construir uma ponte para um outro lugar”.
Mas é preciso atenção: para serem capazes de acolher as crianças em suas dores de fim de ano em meio às festas típicas desse período, é importante que os adultos também cuidem de si mesmos. Érika ressalta que, ao tentarem suportar tudo sozinhos, os pais ou cuidadores ficam frágeis emocionalmente, sem conseguir oferecer às crianças o apoio que precisam.
“O risco é de que o sofrimento de ambos acabe sendo potencializado: a criança pode até tentar silenciar a própria dor para ‘não incomodar’, aumentando ainda mais sua vulnerabilidade”, pontua. “Além disso, quando a criança vê um adulto que também sofre, mas que se cuida e se permite pedir ajuda, aprende algo muito importante: que ninguém precisa ser forte o tempo todo, que o cuidado é uma prática legítima, e que todos nós, em algum momento, precisamos de um outro para nos fortalecer”, continua ela.
um fim de ano possível
Mesmo que uma grande festa não seja viável diante das dificuldades e dores de fim de ano que afetam cada família, o momento pode ser vivenciado de outras maneiras. Érika explica que, “quando olhamos para o sentido mais profundo dessas festas — a possibilidade de celebrar a vida ao lado de quem se ama —, percebemos que não é o tamanho da festa que importa, mas a intenção que a sustenta. Assim, […] pequenos rituais podem carregar enorme valor simbólico: preparar uma comida simples juntos, inventar uma brincadeira, assistir a um filme em família, ouvir músicas que trazem memórias ou criar um gesto simbólico que represente união”.
Direto do Instagram: 5 ideias para ter um Natal mais brasileiro em 2025
Especificamente sobre o luto pela perda de uma pessoa próxima, Ana Lúcia Naletto, psicóloga clínica e escolar, com especialização em Psicologia da Infância e capacitada para o trabalho de apoio ao luto pelo Instituto Quatro Estações, afirma que a situação atinge a família como um todo. Nisso, pode haver dois cenários ocorrendo ao mesmo tempo: o do grupo familiar que talvez prefira não festejar, diante da dor da ausência; e o da criança, que, especialmente no Natal, quer viver a magia da data.
“É preciso lembrar que a criança vive o presente. [Dependendo da idade] ela ainda não tem a dimensão de tudo o que envolve aquela morte. Ela sente a saudade, a falta, mas vive o presente, e pode ter necessidade de viver a magia do Natal. Nesses casos, é importante tentar adequar as duas coisas. E, dentro do possível, ajudar a criança a viver aquele presente”, recomenda Ana Lúcia. A especialista também ressalta a possibilidade de conversar com a criança sobre como será o Natal: “A família pode abrir o jogo e dizer, por exemplo, que todos estão tristes e que a festa não será igual à de anos anteriores. Então, perguntar para a criança o que ela gostaria de fazer, chamá-la para ajudar a compor o fim de ano diante das dores que sentem”.
Érika conclui: “Cada família pode encontrar seu próprio jeito de marcar esse momento, respeitando o ritmo de cada um. Trazer para as comemorações a marca afetiva da família é o que permite à criança construir lembranças realmente significativas. São essas vivências simples, verdadeiras e possíveis que se transformam em legado emocional e podem fortalecer gerações futuras”.
estante quindim
Conheça três livros já entregues à Família Quindim para dialogar com as crianças sobre as dores de fim de ano de forma acolhedora e respeitando o tempo da criança:








Meninas também sentem raiva: por que precisamos validar este sentimento
Como contribuir para a construção do senso de justiça nas crianças?
Conflitos geracionais: Como resgatar o que foi importante na sua infância sem ignorar que o mundo está mudando?