“Seja boazinha”, “menina bonita não grita”, “você fica feia chorando”, “engole o choro”.  Por gerações e gerações, desde muito cedo na infância, as meninas escutam variações destas frases. O resultado é que elas aprendem que a raiva é algo inadequado, quase um defeito de personalidade, que deve ser evitado ou, pelos menos, bem varrido para debaixo do tapete. Enquanto os meninos ainda têm as demonstrações de raiva toleradas ou mesmo incentivadas, ainda que na forma de agressividade ou violência, elas são ensinadas a serem doces, agradáveis, compreensivas e silenciosas. 

No entanto, o impacto de crescer acreditando que não pode demonstrar incômodo, frustração ou irritação é algo que atravessa toda a infância, a adolescência e a vida adulta. Para a psicanalista, escritora e educadora parental Elisama Santos, autora de “Educação não violenta” (Editora Paz & Terra), a raiva incomoda, porque demonstra limites de uma forma muito contundente, enquanto as meninas são educadas para ser o oposto, para performar uma perfeição. “A feminilidade ainda está associada a esse tipo de comportamento, as garotas aprendem que ser mulher é ser doce, ‘fofa’”, explica. “Assim, vamos afastando as mulheres da escuta das próprias sensações e sentimentos”, afirma.

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A raiva não é um problema

Por ser um sentimento que incomoda quem sente e, mais ainda, quem está ao redor, estamos acostumados a enxergar e a tratar a raiva como uma emoção negativa. Mas é primordial lembrar que ela tem uma função imprescindível: comunicar quando algo não está bem – e propulsionar uma ação. “A raiva é uma emoção que nos move bastante”, descreve. “Todas as emoções têm o intuito de nos mover, mas a raiva traz uma enorme quantidade de energia junto com ela”, diz a educadora parental. 

Elisama explica ainda que, muitas vezes, a raiva aparece como uma espécie de proteção para sentimentos mais vulneráveis. “Com frequência, o que acontece é que estamos sentindo alguma outra emoção que nos vulnerabiliza e a raiva vem como uma capinha”, diz. “Quando acolhemos a raiva, conseguimos acessar o que está por baixo dela”, acrescenta. Por trás da raiva, podem se esconder sentimentos como tristeza, medo, angústia, frustração ou sensação de injustiça. “Tem horas em que essa tristeza precisa virar raiva para virar atitude, para você falar ‘chega’”, afirma. 

Meninas também sentem raiva. Imagem do livro Eu fico irada
Imagem do livro “Eu fico irada!”, de Sandra V. Feder e Rahele Jomepour Bell (Pallas Míni). Foto: Rodrigo Frazão.

Por isso, o objetivo não deve ser aprender a “controlar” emoções ou repreendê-las, como as meninas costumam ser ensinadas. O que a gente precisa é aprender a reconhecer, nomear e expressar a própria raiva de forma saudável, entendendo que ela não é um problema, mas um sentimento humano e necessário, que nos ajuda.

Quando a raiva é engolida

Emoções reprimidas não desaparecem, mas mudam de forma. Por isso, quando ensinamos às meninas que sentir raiva é inadequado, os efeitos são muitos e podem perdurar pela vida toda.  “São muitas as consequências da ausência de demonstração dos limites”, alerta Elisama. “A gente implode”, afirma.

Os impactos são sentidos em várias áreas da vida. Não é à toa que mulheres frequentemente adoecem emocional e fisicamente diante da dificuldade de expressar necessidades e limites. Além disso, ensinar uma menina a ignorar constantemente o próprio desconforto pode fazê-la acreditar, no futuro, que relações dolorosas são normais.

“Há uma tendência muito maior das mulheres permanecerem em relações abusivas, em relações que as ferem, exatamente pela normalização do incômodo na relação”, lembra a educadora. “Ensinar que se sentir incomodada, silenciada, achar que sua opinião não importa, ceder o tempo inteiro em nome do outro… Tudo isso resulta em um preço alto demais a pagar”, observa. “É importante que as meninas possam nomear o próprio incômodo para que se acostumem a perceber as relações que pedem muito mais do que elas podem e precisam dar”, completa.

Validar a emoção não é permitir agressividade

Reconhecer a raiva e buscar entender o que ela está apontando, além de se permitir sentir, sem achar que é algo errado ou inadequado, é uma coisa. Transformar isso em uma autorização para a violência e agressividade, caindo no outro extremo (como ocorre, frequentemente, na educação dos meninos), é outra, bem diferente. Mas como, então, acolher a raiva sem transformar tudo em permissividade?

Meninas também sentem raiva. Imagem do livro Por que choramos
Imagem do livro “Por que choramos?”, de Fran Pintadera e Ana Sender (WMF Martins Fontes). Foto: Rodrigo Frazão.

O primeiro passo, para Elisama, é separar sentimento de comportamento. “A gente acolhe aceitando que aquele sentimento existe. É possível redirecionar o comportamento, sem reprimir o sentimento. Isso significa dizer frases como:

  • “Estou vendo que você está frustrada”.
  • “Você ficou com raiva, e é normal se sentir assim”.
  • “Existem formas mais saudáveis de você botar sua raiva para fora”.

Ao mesmo tempo, os limites continuam existindo.

  • “Eu sei que você está muito chateada, mas não vou admitir que você bata para demonstrar sua raiva. Aqui em casa, ninguém bate em ninguém”.

Para crianças pequenas, alguns caminhos concretos podem ajudar a descarregar a emoção. “Rugir que nem um leão, desenhar essa raiva toda, respirar, olhar o céu”, cita. “A criança precisa perceber que a raiva vai vir, ela é natural da existência, e ela vai embora quando é acolhida”, lembra.

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“Não gosto de sentir isso”

Mesmo quando têm espaço para se expressar, muitas crianças dizem que não gostam de sentir raiva. Isso acontece, sobretudo, com as meninas, quando elas começam a perceber e a internalizar as expectativas sociais, que rejeitam esse sentimento. Elas se veem, então, inadequadas, como se houvesse algo de errado com elas. Para Elisama, isso também faz parte do processo de educação emocional. “Nem toda emoção, a gente vai gostar de sentir”, afirma. “Nem tudo vai ser gostoso”, pontua. Você pode odiar a tristeza ou a frustração, mas é preciso saber que existe, acolher e escutar essas emoções, para lidar com elas.

O objetivo, segundo ela, não é fazer a criança amar emoções difíceis, mas entender que elas fazem parte da experiência humana. “A gente não quer que a criança se sinta confortável por estar triste”, explica. “A gente quer que ela entenda que o desconforto das emoções também é importante”, resume.

Criando mulheres que conseguem dizer “não”

Permitir que meninas sintam raiva vai muito além das birras da infância e das crises da adolescência. A discussão é também sobre a construção de autonomia, autoestima, autoconhecimento, segurança emocional e capacidade de estabelecer limites. “Quando a menina aprende a reconhecer as próprias emoções, ela cresce sendo alguém que consegue perceber os próprios limites e comunicá-los”, afirma Elisama. 

Isso desafia expectativas sociais profundamente arraigadas. “Nós, infelizmente, como sociedade, ainda confundimos a assertividade feminina com grosseria”, diz. “Existem coisas que as pessoas aceitam dos homens e ainda falam: ‘Nossa, aquele é um cara firme’. Mas se a mesma atitude partir de uma mulher, ela é vista como grossa”, exemplifica.  

Meninas também sentem raiva. Mãos apontando para uma menina
Foto: Canva

Para ilustrar como essa diferença de tratamento acontece e começa cedo, Elisama conta uma experiência pessoal envolvendo os próprios filhos. “As pessoas me encontravam e olhavam para a minha filha e falavam docemente, abaixando na altura dela: ‘Oi Helena, que linda, como você está?’. Em seguida, a mesma pessoa que tinha falado com a Helena com uma voz macia, doce, levantava-se, engrossava a voz e se direcionava a Miguel: ‘E aí, garotão?’. A gente coloca como se fosse algo natural que os meninos não soubessem lidar com as emoções, que fossem mais grossos, e as meninas, mais sensíveis”, afirma. “Mas esta é uma construção social, não é algo que está no DNA feminino ou masculino”, lembra.  

Na vida adulta, a mesma lógica continua. “Se você vai fazer, por exemplo, um amigo secreto na empresa ou uma festa surpresa para alguém, duvido que escolha um homem para organizar isso”, provoca. “Você vai pensar em uma mulher, porque ela provavelmente vai pensar em todos. É como se ser muito boa nisso fosse algo natural e não um comportamento aprendido”, destaca. 

Para ela, transformar essa lógica passa necessariamente pela infância. “É preciso ensinar nossas meninas a serem corajosas”, afirma. O que elas sentem importa. E elas também precisam saber que nem sempre vão sentir apenas o que agrada a elas mesmas e aos outros. “Parecer bonita, parecer simpática, parecer doce, enquanto se paga toda essa aparência com a nossa alegria, com a nossa energia, é um preço alto demais”, conclui. Ensinar meninas a acolherem a própria raiva não significa criar crianças agressivas, mas criar mulheres capazes de perceber quando algo dói, incomoda ou ultrapassa seus limites – e fazer algo para interromper isso.

Estante Quindim

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O duelo (autora Inês Viegas Oliveira, editora Camaleão)
O duelo, de Inês Viegas Oliveira
Eu fico irada! (autoras Sandra V. Feder e Rahele Jomepour Bell, editora Pallas Míni).
Eu fico irada!, de Sandra V. Feder e Rahele Jomepour Bell
A vida secreta das emoções (escritora Tina Oziewicz, ilustradora Aleksandra Zając, editora WMF Martins Fontes)
A vida secreta das emoções, de Tina Oziewicz e Aleksandra Zając