Não existe um jeito fácil ou confortável de falar sobre casos extremos de violência na adolescência. É como se, de repente, aquela crença no mundo, um pouco baseada na esperança de um futuro melhor, com gerações mais evoluídas e conscientes, fosse arrancada de nós.
Por mais que queiramos evitar, fica impossível lutar contra os pensamentos que nos atravessam e dão calafrios a cada novo caso de violência: “E se fosse o meu filho?”. Então, ativamos um modo de defesa quase instantâneo, na tentativa de afastar a possibilidade de viver algo parecido, com explicações simplistas para as atitudes violentas, como “ele deve ter algum problema”.
Às vezes, generalizamos, apontando que todos os meninos são agressivos ou ainda que “adolescentes são difíceis ou problemáticos”, o que também não é nem um pouco justo — e só aumenta a desconexão e o afastamento.

Buscar uma resposta imediata e definitiva, para passar logo pelo problema, sem precisar se debruçar muito sobre ele, é quase instintivo. Mas a educadora parental Lua Barros, autora do livro Eu não nasci mãe (Companhia Editora Nacional) e mãe de quatro crianças, propõe outro caminho: olhar para esses episódios como um alerta, não para justificar o injustificável, mas para ampliar o foco.
Ela defende que, quando uma criança ou um adolescente chega a um ponto de ruptura tão grave, há quase sempre uma falha anterior, não de um indivíduo isolado, mas de uma rede inteira. “Crianças e jovens precisam do aparato social e familiar para florescer. Eles não conseguem ler o mundo sem essas duas margens”, defende a especialista. Em vez de procurar apenas um culpado, é urgente notar que há uma ausência. Um buraco.
“Quando casos extremos de violência são cometidos por pessoas que ainda não atingiram a maior idade, precisamos refletir de forma ampla sobre o quê e sobre quem compõe o mundo dessas crianças e jovens, porque há uma falha nessa matriz. Há alguém que foi deixado para trás”- Lua Barros
eles não são “assim mesmo”: como lidar com casos de violência na adolescência
Existe, na sociedade, uma certa tendência a classificar a adolescência, como se fosse uma fase naturalmente problemática. Dizer que “adolescentes são difíceis”, “são assim mesmo” ou que “todo adolescente é um pouco problemático” impacta a educação e o desenvolvimento. Sem falar que as afirmações são generalistas, rasas e ainda estão longe de ser verdadeiras.
“Conheço muito mais adultos difíceis do que adolescentes difíceis”, afirma Lua. Segundo ela, apontar comportamentos desafiadores nos adolescentes fala mais sobre as crenças, questões e limitações do adulto, do que do jovem. “A adolescência é uma ponte para vida adulta, um tempo de transição, de contestação, experimentação. Nós precisamos desse período para chegar à vida de forma mais saudável”, explica.
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A educadora reconhece que não é uma fase simples, mas lembra também que é muito bonita e cheia de potencial. “Cabe aos adultos, que são pessoas que já fizeram essa travessia, ajudar os jovens durante essa jornada, porque eles precisam reconhecer que dão conta, que são capazes. Nós estamos falhando nessa missão com eles”, aponta.
As meninas, hoje, enfrentam pressões estéticas, comparações, sexualização e adultização. Os meninos são inundados com um universo de masculinidade tóxica, que acaba naturalizando a agressividade, como se fosse normal reprimir emoções e agir com violência — entre eles, com as meninas e com os animais, entre outros grupos sociais, que seriam considerados “mais vulneráveis”.
Acontece que essa normalização da agressividade, muitas vezes, feita a partir de uma justificativa biológica, é um equívoco. “Afirmar que meninos são mais agressivos e que têm mais dificuldade em lidar com as emoções é um atraso. O que falta para esses garotos são modelos masculinos que entendam o quanto essa armadilha do patriarcado também os transforma em vítimas”, destaca a educadora parental.
Cadê a criança que estava aqui?
Além disso tudo, é preciso reconhecer que, de fato, a chegada da adolescência pode gerar um estranhamento tanto para o próprio jovem, quanto para a família. “Há um certo luto, porque aquela criança fofa e querida não está mais lá”, lembra Lua. “Agora, quem ocupa seu lugar é alguém peludo e, às vezes, mal-humorado, que parece não fazer a menor questão de abrir espaço para o pai ou a mãe”, descreve.
São diferenças normais e esperadas para a mudança de fase; uma etapa importante para o desenvolvimento. Os pais podem se sentir um pouco perdidos e os adolescentes, mais ainda. Afinal, o comportamento vai mudar, eles começam a demandar mais espaço, mais individualidade, começam a descobrir os próprios interesses, que podem ser diferentes ou mesmo opostos aos da família, passam a querer encontrar a própria identidade, aproximando-se mais dos amigos e distanciando-se um pouco do núcleo familiar.
“Ao começar a questionar a própria história, o adolescente pode sentir que não pertence àquele núcleo, pode sentir uma falta de identificação”, diz a especialista. “Por sua vez, a família reforça isso, porque tem muitas expectativas em relação a esse filho, que não se concretizam. Nesse cenário, os amigos se tornam refúgio e referência, se tornam o espaço de pertencimento”, destaca.
Ao mesmo tempo, há uma outra parte dele também com dificuldades de entender o que está acontecendo e o que ele está sentindo.
“Esse jovem também sente falta da família, também sente solidão e raiva por não caber, por não ser visto ou reconhecido. O ‘mal comportamento’ é a maneira que ele tem de comunicar o que sente” – Lua Barros
Não é fácil, nem para os adultos, nem para os jovens, chegar a um equilíbrio. Identificar e respeitar as transformações que vêm junto do crescimento é diferente de normalizar a distância total ou mesmo o abandono emocional desse adolescente. “Se a gente não tomar cuidado, esse abismo (que faz parte) pode se tornar uma dinâmica familiar que gera muito desencontro e desconexão”, alerta Lua.
Ela lembra que é fundamental as famílias darem espaço para os jovens, mas que também se mantenham curiosas sobre eles; que façam questão deles e demonstrem interesse em enxergá-los, reconhecê-los, em estar com eles. “Saber qual é o seu lugar nessa nova engrenagem é importante. Os pais deixam de ser a única referência, mas precisam se manter como guias”, diz a educadora.
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educação não violenta x permissividade
Parece estar cada vez mais claro que ninguém nasce sabendo ser pai ou mãe. Com a chegada de um bebê, cada vez mais buscamos informações, lemos, estudamos, trocamos experiências, procuramos aprender. Mas é mais raro que isso aconteça quando esses mesmos filhos chegam à adolescência, uma fase com a qual também precisamos entender como lidar.
Talvez seja pela crença de que, se você já educou uma criança até ali, o restante vai ser fácil, instintivo, quase natural. Mas não é. É fundamental dar um passo atrás e reconhecer o que não sabemos. Além, é claro, de entender que vamos falhar.
“Somos uma geração de pais que lida com os filhos a partir de um ideal, uma fantasia sobre a relação parental”, lembra Lua. “Não queremos cometer os erros do passado. Aliás, não queremos cometer nenhum tipo de erro. Só que isso não é possível ou real quando estamos educando uma criança”, complementa.

Quem teve uma educação violenta, muitas vezes, acredita que o único caminho é reproduzi-la. Daí aquelas frases como: “Apanhei e não morri” e “agradeço meus pais pelas surras, porque virei gente”. Infelizmente, esse tipo de discurso ainda é comum. Por outro lado, há quem lute para quebrar o ciclo. Mas é preciso entender que uma educação não violenta é diferente de uma educação permissiva ou de falta de margens e limites.
“Uma criança criada de maneira violenta pode acreditar que não merece ser amada, que não deve confiar em ninguém, que o mundo não é um lugar bom”, diz Lua. “A maior violência é não saber que tem valor. De qualquer maneira, quebrar esses ciclos demanda muito trabalho interno, muita vulnerabilidade e muito apoio para que a gente se perdoe no caminho, que será composto de erros e acertos”, lembra a especialista.
Às vezes, na melhor das intenções, justamente por desejar relações respeitosas e livres de autoritarismo, algo que pode tê-los machucado no passado, os pais abrem mão de um papel que requer, sim, certa autoridade para fazer valer regras sociais importantes para a segurança da criança e o convívio no coletivo, como lembra a educadora.
“Esse medo de errar e de não ser amado pelos filhos faz com que os pais, mães e cuidadores acreditem que precisam atender todas as vontades dessas crianças – e que frustrá-las é uma grande violência. Na verdade, a frustração é pedagógica para que a criança entenda que não está sozinha no mundo”, aponta a educadora.
Veja também: Por que é importante a criança aprender a lidar com a frustração ainda na infância?
O QUE SEU FILHO FAZ NA INTERNET?

A falta de limites também é uma forma de abandono e de uma ausência prejudicial. É a partir daí que, muitas vezes, acabamos deixando nossos filhos vulneráveis, com pouca ou mesmo nenhuma supervisão, em um ambiente tentador e repleto de riscos, como a internet.
Adolescentes requerem mais espaço e mais individualidade, mas não é normal passar o tempo inteiro nas telas, de portas fechadas. É preciso saber o que seu filho está fazendo na internet, assim como você quer saber o que ele faz quando está fora dela, na rua, no shopping, na casa de um amigo. “É fundamental ficar alerta para a idade da criança e a plataforma que ela está frequentando. Isso não é bobagem”, ressalta Lua.
“Também é fundamental acompanhar de perto, se sentar, ver, brincar junto, regular as interações e fiscalizar com quem seu filho fala, como fala e o que está vendo, de forma curiosa e atenta. Esse assunto é sério, mas de alguma maneira, os pais não estão querendo ver ou pegar para si a responsabilidade de cuidar da parte que os cabe. A questão é complexa e sabemos que, do lado de lá, há empresas bilionárias, investindo muito dinheiro para manter as crianças capturadas. Parece uma luta inglória e, por isso, talvez, muitas famílias queiram desistir, mas não podemos deixar de regular e cuidar da parte que nos cabe”, alerta.
enxergue seu filho, de verdade
A principal forma de educar é enxergar. Primeiro a criança, depois o adolescente. Só assim é possível identificar quando está tudo bem, quando há algum problema, quando há alguma lacuna, seja ela qual for. Só assim é possível entender quem é seu filho e como oferecer o melhor suporte, que inclui ensiná-lo a viver em sociedade e a respeitar os outros, sem deixar de respeitar a si mesmo. A missão não é fácil, nem mesmo para os adultos.
E, sim, existem os casos em que os comportamentos de violência na adolescência representam sintomas de condições mentais reais, que se manifestam de formas diferentes e que pedem tratamentos diferentes também. “Transtornos graves e psicopatias podem aparecer na infância e precisam de tratamento psiquiátrico, terapia e outras intervenções”, lembra Lua.
Mas esses casos não são os mais comuns. Na maioria das vezes, o que vemos são desafios emocionais que fazem parte da vida. “Quando não cuidamos, eles se manifestam através de nosso comportamento. Eu costumo dizer que um mal comportamento indica algum tipo de sofrimento. Uma criança ou adolescente que sofre bullying, que sente medo, que não se sente visto, amado, acolhido e que não tem suas emoções validadas, vai encontrar caminhos para conviver com tudo isso. Muitas vezes, esses caminhos podem ser violentos ou agressivos”, completa.
A urgência, portanto, é olhar e trazer esses adolescentes — meninos e meninas — para perto, em vez de afastá-los. Talvez assim seja possível recuperar o diálogo e a conexão antes que a violência vire a principal resposta.
Estante quindim
Conheça três livros, já entregues pelo Clube Quindim, que trazem temáticas recorrentes do período da adolescência que podem ajudar a iniciar diálogos importantes por aí:









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