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Solidão na infância: o que as crianças de hoje precisam para criar vínculos reais

Solidão na infância

Foto: Canva

As crianças de hoje estão mais conectadas do que nunca. Elas conversam por aplicativos, jogam em rede, assistem aos mesmos conteúdos e compartilham interesses com pessoas de diferentes lugares, a qualquer hora do dia. Mas quando falamos em conexões que não acontecem por intermédio digital, o cenário é outro. No mundo real, as crianças convivem cada vez menos presencialmente umas com as outras. Será, então, que a infância está mais solitária?

As famílias estão menores, muitas crianças não têm irmãos, os primos são poucos e as oportunidades de brincar na rua ou em outros espaços públicos diminuíram. Em muitos casos, os amigos da escola são os únicos de convivência regular. 

Para a psicopedagoga e fonoaudióloga Telma Pantano, coordenadora da equipe multiprofissional do Hospital-Dia Infantil do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HC), essa mudança é perceptível. “Embora a conexão digital nos traga essa sensação de que as crianças estão se relacionando umas com as outras, elas têm menos oportunidade de convivência espontânea e presencial do que tínhamos em gerações anteriores“, afirma.

Para entender esse novo cenário da infância, é preciso olhar para as transformações que ocorreram nas famílias e na sociedade nas últimas décadas. “A redução do número de filhos, a vida em grandes centros urbanos, a insegurança em que vivemos, as rotinas mais estruturadas dessas crianças e o tempo de tela são fatores importantes para considerarmos nessa redução”, observa.

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quando a escola vira o único espaço de convivência

Durante muito tempo, a socialização infantil acontecia em diferentes ambientes: na rua, na casa dos avós, entre primos, vizinhos e grupos de crianças de diferentes idades. Hoje, para muitas famílias, boa parte dessas experiências desapareceu. “As pessoas perderam muito da vida coletiva, da convivência entre famílias. Os contextos de socialização estão muitas vezes restritos ao tempo em que a criança passa na escola”, avalia Telma.

Essa perda de experiências coletivas tem como resultado não apenas a redução das oportunidades de as crianças se divertirem, mas também interfere diretamente na aprendizagem social. “Quanto menos convivência, menor o número de experiências de resolução de conflitos e de empatia”, diz a especialista.

Foto: Canva

Conviver com outras crianças é muito mais do que brincar junto. É nesse encontro que surgem aprendizados fundamentais para toda a vida. São estas experiências que nos ajudam a desenvolver competências como empatia, cooperação, resiliência, resolução de conflitos e tolerância à frustração

Direto do Instagram: Por que é importante deixar as crianças conduzirem as brincadeiras?

Você já reparou que algumas situações simples do cotidiano, que ajudavam crianças a aprender sobre o outro, têm desaparecido? O fato de que é mais comum, hoje, que cada criança tenha a possibilidade de dormir em seu quarto é um exemplo disso.

“Quando a gente dividia espaços, aprendia a respeitar o outro, a acender a luz sem incomodar, a se trocar pensando em quem estava ali do lado”, aponta. Para a psicopedagoga, quanto mais os espaços se tornam individualizados e as famílias, reduzidas, mais importante se torna o papel de outros ambientes de convivência, como a escola, os esportes e as atividades coletivas. 

Atenção: jogos online não substituem o encontro físico

Diante dessa realidade, muitas crianças acabam encontrando nos jogos online uma importante forma de interação social quando não estão na escola. Mas será que eles conseguem suprir as necessidades de convivência?

Embora reconheça que a tecnologia possa ter uma função positiva em situações específicas, Telma reforça que o contato virtual não substitui as experiências presenciais. “Quando pensamos, por exemplo, em uma criança internada ou impossibilitada de conviver socialmente por questões físicas, o meio eletrônico pode ser um meio de socialização importante, mas é preciso ter essa convivência face a face para treinar habilidades sociais importantes, como leitura de expressões faciais, linguagem visual, uso de gestos e contato físico”, observa.

Na visão dela, as relações virtuais podem funcionar como complemento em certos momentos, mas são as experiências reais que ajudam a criança a compreender melhor a si mesma e aos outros

crianças ainda estão sofrendo com os resquícios da pandemia…

Por conta da pandemia de Covid-19, que paralisou o mundo em 2020, milhões de crianças passaram os primeiros anos de vida praticamente sem contato com outras crianças. Nesse caso, a situação era radical e a solidão na infância apareceu em muitos lares. Não tinha possibilidade de ir ao parque, para acreche ou escola. Algumas delas só começaram a construir relações sociais depois do fim do isolamento.

É um tipo de acontecimento que deixa cicatrizes profundas e, segundo Telma, os impactos ainda podem ser observados. “Ainda vemos crianças com muita dificuldade de comunicação social, regulação emocional e baixa tolerância à frustração“, aponta. A especialista lembra que o período também foi um gatilho importante para dificuldades emocionais já existentes.

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“Foi um marco para muitas crianças que desenvolveram quadros fóbicos [medos] e quadros ansiosos. Algumas já tinham essas vulnerabilidades anteriormente, mas o estressor ambiental foi muito forte”, explica. 

É verdade que muitas destas crianças e adolescentes conseguiram superar o prejuízo desse período de solidão na infância. “O cérebro tem plasticidade fantástica e muitas crianças se recuperaram rapidamente quando voltaram a frequentar a escola”, destaca. Outras, porém, ainda enfrentam desafios. “Continuamos vendo muita dificuldade em deixar de ser o centro ou em poder olhar um pouco mais para os outros”, analisa Telma.

solidão na infância x o valor de saber ficar só

A convivência em grupo é indispensável para a nossa espécie, que, aliás, dependeu da capacidade de cooperar, de se comunicar e de construir relações para sobreviver até aqui. Habilidades como empatia, linguagem, tolerância à frustração e resolução de conflitos não surgem espontaneamente, mas são aprendidas e lapidadas nas interações com outras pessoas. 

Mas isso não quer dizer que estar sozinho é sempre um problema. Pelo contrário: aprender a aproveitar a própria companhia também é primordial para o desenvolvimento. E, como lembra Telma, também é uma habilidade que estamos perdendo. “Os meios eletrônicos ensinam à criança que qualquer atividade tem que ser estimulada e iniciada pelo ambiente”, afirma. “Quando esse estímulo desaparece, muitas não sabem o que fazer. Então, vem aquela ‘sensação de que não tem nada para fazer‘”, descreve. Soou familiar?

Nesse contexto, perde-se uma oportunidade valiosa de desenvolvimento. “O ócio não se torna um ócio criativo e produtivo, que seria um momento de autonomia. Seria um momento muito importante para pensar: o que eu vou fazer? O que eu vou criar? Como vou construir alguma coisa sozinho?”, reflete.

Solidão na infância é uma coisa, ficar sozinho é outra

Para os adultos, pode ser difícil perceber quando uma criança está apenas curtindo um momento de tranquilidade e quando está sentindo a falta de vínculos. A diferença está no sofrimento emocional.

“A solidão na infância vem com tristeza, enquanto os momentos de solitude podem ser extremamente positivos. Quando a criança está sozinha e está bem, isso não necessariamente é um problema”, destaca. São períodos que podem favorecer a criatividade, a autonomia e a capacidade de entretenimento próprio. “Desde que sejam momentos temporários e passageiros“, observa. 

Algumas crianças são mesmo mais reservadas, como uma característica própria, o que nem sempre é sinônimo de sofrimento. Contudo, alguns sinais merecem atenção. “De novo: a tristeza é o grande marcador”, explica Telma. Além disso, outros sinais merecem a atenção dos pais, como irritabilidade excessiva, baixa autoestima, dificuldade para fazer ou manter amizades e dependência intensa de telas. “Pode haver também dificuldade de construir criatividade e de produzir outras brincadeiras ou atividades que não sejam através desses recursos externos”, lembra a especialista. 

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então, como ajudar as crianças a construir vínculos e afastar a solidão na infância?

Com medo de ver o filho isolado ou em sofrimento, muitos adultos acabam pressionando a criança a ser extrovertida ou popular, o que pode acabar tendo o efeito contrário e deixando-a ainda mais retraída. “Primeiro, é fundamental diferenciar o que é temperamento do que é falta de estímulo“, explica a psicopedagoga. 

Para ela, o foco deve ser não em querer mudar a criança, mas em oferecer experiências variadas. Isso pode acontecer de diferentes formas: esportes, atividades artísticas, grupos de interesse, passeios com amigos ou encontros em parques e espaços públicos. “Momentos de vida livre, não só com adultos, mas entre pares, são muito importantes”, destaca. 

Foto: Canva

E não é preciso fazer grandes programações, gastar dinheiro ou investir em cursos ou atividades mirabolantes. Pequenas oportunidades de convivência podem fazer grande diferença para afastar a solidão na infância. Levar o amiguinho para o parque ou para um espaço de brincadeiras já funciona bem, segundo a especialista. O que importa é permitir que seu filho viva uma das experiências das infâncias que ficam para a vida toda: crescer junto

ESTANTE QUINDIM

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam sobre as interações das crianças e a importância dessa troca entre elas para afastar a solidão na infância:

Olho d’água, de Marcelo Tolentino
Flores selvagens, de Liniers

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