Quem convive com uma criança certamente já passou por momentos em que uma mentira surgiu durante uma conversa, brincadeira ou até em uma situação mais desafiadora, levando ao questionamento de: “por que as crianças mentem?”. Os motivos por trás desse tipo de comportamento são diversos. Entre eles está o contexto da própria infância, quando, por diversas vezes, a imaginação e a fantasia acabam se misturando com a realidade, sobretudo nos primeiros anos de vida. 

Durante a primeira infância, “a criança ainda vive em um pensamento muito marcado pela fantasia. Ela não separa completamente o que imagina, deseja e sente da realidade objetiva. Por isso, muitas vezes, aquilo que o adulto chama de mentira é, na verdade, uma forma infantil de organizar a experiência”, explica Monica Pessanha, psicanalista com mestrado em Educação Infantil pela PUC-SP e coautora do livro “Educando filhos para a vida”. 

Por que as crianças mentem
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A especialista relembra os estudos do pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott (1896-1971): ele dizia que “a criança vive num espaço entre o mundo interno e externo, onde brincar, fantasiar e experimentar fazem parte do desenvolvimento emocional saudável. A consciência mais clara de ‘enganar o outro’ vai se formando aos poucos, com a maturidade cognitiva, social e moral, especialmente a partir da entrada na vida escolar”, conta ela.

A intenção de enganar alguém não costuma ser o motivo que leva uma criança a mentir. Em complemento à falta da plena separação entre fantasia e realidade, uma mentira contada na infância pode ser uma resposta a situações que envolvem medo, insegurança, frustração ou desejo de agradar.

“Muitas falas infantis não são tentativas de enganar, mas expressões simbólicas de desejos, medos ou conflitos. A criança fala a partir do que sente, não a partir de um compromisso racional com a verdade factual. Do ponto de vista psicanalítico, a fantasia é uma linguagem fundamental da infância. Sigmund Freud mostrava que a fantasia é uma forma de elaborar tensões internas e experiências emocionais. Então, frequentemente, a chamada ‘mentira’ é uma tentativa de dar forma a algo que ainda não consegue ser dito de outro modo”, continua Monica.

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Para Marta de Oliveira Gonçalves, doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP, especialista em psicopedagogia e neurociência na escola, algumas fases ajudam a entender o contexto em que uma mentira pode surgir: “Até os 3 ou 4 anos, a criança ainda mistura verdade, imaginação e intenção. […] [Também] pode haver até alguma confusão com os sonhos. […] Aos poucos, por volta dos 4 a 5 anos, a criança já vai tendo mais capacidade de mentir por querer. E a maior consciência vem depois dos 6 ou 7 anos, quando isso vai acontecendo de maneira mais evidente. Então, geralmente a partir dos 8 anos, a criança já tem mais clara as intenções e as implicações sociais de uma mentira”.

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por que as crianças mentem: como diferenciar fantasia da mentira

Para entender como diferenciar uma fantasia de uma mentira mais consciente, a psicanalista Monica oferece alguns caminhos:

  • Fantasia: surge de forma leve, criativa, espontânea, ligada ao brincar. 
  • Mentira defensiva: costuma vir acompanhada de medo, tensão, rigidez e preocupação em esconder.
  • Depois de broncas, punições ou cobranças excessivas: geralmente, são mentiras ligadas à tentativa de autoproteção. 

“Vemos que a criança raramente mente por maldade. Na maioria das vezes, ela mente para não perder o amor, a aprovação ou a sensação de segurança” – Monica Pessanha

O Child Mind Institute, uma organização dos Estados Unidos focada na saúde mental de crianças, lista algumas outras razões que podem levar os pequenos a mentir:

  • Testar um novo comportamento;
  • Aumentar a autoestima, tentando impressionar os outros, e ganhar aprovação;
  • Tirar o foco de si mesma: crianças com ansiedade ou depressão podem mentir sobre seus sintomas para desviar a atenção ou minimizar problemas, porque não querem que os outros se preocupem com elas;
  • Falar antes de pensar: em casos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), a mentira pode vir por impulsividade.

quando a mentira é um sinal de alerta

A partir da compreensão das fases que a criança experimenta (até ter ferramentas suficientes para diferenciar fantasia de realidade) e do entendimento do contexto em que situações de mentira podem estar acontecendo, é importante que os pais e responsáveis liguem o sinal de alerta se o ato de mentir se tornar mais frequente

Outro ponto de atenção é se a mentira contada é algo que pode prejudicar outras pessoas ou até a própria criança. “É preciso perceber se a criança tem consciência de que a mentira é algo errado, de que esse comportamento levou ou pode levar a alguma consequência”, pontua a dra. Marta. O seguimento dessa observação se dá em relação ao que está ocorrendo ao redor da criança e da compreensão de se ela precisa de ajuda — o que pode envolver questões de autoestima ou algo relacionado ao vínculo familiar, por exemplo.

“É preocupante quando a criança: mente quase sempre; demonstra medo excessivo de errar; parece viver em constante vigilância; não confia nos adultos; apresenta baixa autoestima. Nesses casos, a mentira não é o problema central. Ela é um sintoma de insegurança emocional, e indica que a criança não se sente suficientemente segura para ser verdadeira”, afirma a psicanalista Monica.

Como ensinar crianças sobre a aceitação do perder_meio. Pai conversando filho
Foto: Canva

A especialista recomenda que a abordagem, quando necessária, comece pela escuta e não pela acusação. Assim, ela recomenda que, antes de  perguntar “por que você mentiu?”, é mais importante questionar pontos como:

  • “O que você sentiu?”
  • “Você ficou com medo?”
  • “Teve algo difícil nisso?”

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Quando o adulto mostra interesse pelo mundo emocional da criança, ela se sente autorizada a falar com mais verdade. Depois, sim, é possível trabalhar limites e combinados. A ideia é transformar o erro em aprendizado, e não em vergonha. […] O ponto central é proteger o vínculo. Reações baseadas em humilhação, rótulos ou ameaças tendem a piorar o problema, porque aumentam o medo e reforçam a necessidade de esconder. O caminho mais saudável é combinar firmeza com acolhimento. É importante dizer, com calma: ‘Eu prefiro que você me conte a verdade. Mesmo quando erra, eu estou aqui’. Isso ensina responsabilidade sem destruir a confiança. A honestidade se constrói num ambiente emocionalmente seguro”, explica.

Manter a tranquilidade se a mentira acontecer é fundamental para que a criança compreenda que falar a verdade é sempre melhor, explicando a ela que mentiras trazem consequências. No entanto, isso não deve ser feito a partir do medo. Um exemplo está na seguinte substituição trazida pela psicanalista Monica:

Em vez de falar…

“Ninguém vai confiar em você.”

…É mais saudável dizer:

“Quando a gente não fala a verdade, as pessoas ficam confusas e tristes.”

E, quando a verdade vier, é fundamental reforçar a importância disso: “‘Fico feliz que você contou a verdade para mim, você foi muito corajoso’ é um exemplo de retorno que irá fortalecer a verdade, sem ficar tanto em cima da mentira [que foi contada]”, complementa a dra. Marta. Ela ressalta que a tendência, a partir de intervenções como essa, é que o ato de contar mentiras passe. Caso contrário, o ideal é procurar por ajuda profissional.

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como a literatura infantil pode ajudar a dialogar sobre o que é mentira e suas consequências

A mentira e suas consequências percorrem as histórias infantis há tempos — desde clássicos, como Pinóquio, até obras bem mais recentes. A partir de narrativas em que os personagens se envolvem com uma situação dentro dessa temática, os pais e outros cuidadores têm em mãos uma ferramenta que servirá como ponto de partida para conversar sobre o assunto com as crianças

Talvez...
Imagem do livro ‘Talvez…’, de Chris Haughton | Foto: Rodrigo Frazão

Após a leitura de um livro que apresenta o assunto, algumas abordagens são bastante valiosas: “Falar sobre o que levou o personagem a mentir, o que a criança acha disso, o que ela faria no lugar dele… Essa é uma pauta que deve estar presente nas famílias”, diz a dra. Marta. 

A criança se reconhece no personagem sem se sentir atacada”, afirma Monica. “Esse tipo de conversa transforma a leitura em educação emocional. É um espaço seguro para falar sobre erros, sentimentos e escolhas”, finaliza.

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Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que podem ajudar a iniciar diálogos sobre mentir e as consequências dessa atitude:

As mentiras de Paulinho
As mentiras de Paulinho, de Fernanda Lopes de Almeida e Michele Iacocca
Este chapéu não é meu (autor Jon Klassen, editora WMF Martins Fontes)
Este chapéu não é meu, de Jon Klassen
Talvez Capa transparente e1772644783218
Talvez…, de Chris Haughton