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Conflitos geracionais: Como resgatar o que foi importante na sua infância sem ignorar que o mundo está mudando?

conflitos geracionais

Foto: Canva / Arte: Clube Quindim

Algumas vezes escutamos de pessoas nostálgicas frases como “Quando eu era criança, não tinha essas frescuras” ou “Na minha época, tudo era mais simples”. Conflitos geracionais é — e sempre foram — comuns e, diariamente, a nostalgia distorce a memória de muitos, deixando a impressão de que, antes, a vida era melhor. Há, é claro, pessoas que caminham no sentido contrário: enxergam na modernidade uma evolução contínua e inegável, ignorando no entanto coisas boas que, às vezes, ficaram mesmo perdidas no passado.

O embate entre o “antes” e o “agora” pode ser exaustivo e até mesmo desnecessário, afinal, cada época traz consigo seus próprios desafios e, junto deles, soluções que fazem sentido apenas para aquele tempo. É aqui que pais, mães e demais responsáveis acabam se sentindo perdidos: é possível resgatar coisas boas de sua própria infância no cuidado com os filhos? Quais mudanças, apesar de determinantes, fazem bem para as crianças de hoje e quais podem estar prejudicando a saúde física, cognitiva e emocional delas? 

Foto: Canva

Como diz Marília Velano — psicanalista, doutora em psicologia e pesquisadora na área de infâncias —, em entrevista ao Clube Quindim, todo encontro geracional traz suas próprias demandas, cabendo a nós entender melhor quais as questões do nosso tempo. “Eu acho difícil pensar num resgate, porque a vida é dinâmica, a própria constituição psíquica muda. Então, eu não sei o quanto essa nostalgia é verdadeira. Havia um ou mais ‘jeitos melhores’ de se fazer para aquele momento histórico. Agora a gente tem que descobrir o nosso”, explica.

Vale ressaltar que, para além das diferenças geracionais, também devemos considerar que há e houve múltiplas infâncias, de diferentes regiões, contextos e classes sociais. 

“na minha época…”: as crianças ficavam menos doentes?

Andar descalço, tomar banho de chuva, brincar na rua, comer fruta do pé. Muitos adultos que vivem em cidades grandes como São Paulo têm a impressão de que, quando criança, estavam mais expostos aos microrganismos e aos riscos de uma vida mais liberta, mas ao mesmo tempo adoeciam com menor frequência ou intensidade. E esta não é apenas uma impressão, mas uma tese que alguns cientistas chamaram de Teoria da Higiene

Segundo Tadeu Fernando Fernandes, presidente do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), esta é uma hipótese válida para explicar as diferenças no sistema imunológico de crianças em diferentes contextos.

“Nós estávamos estimulando nosso sistema imunológico. Quando a criança fica muito tempo em um ambiente totalmente fechado, não toma sol, não tem contato com o meio ambiente, só contato com vírus e bactérias que têm dentro das escolas, ela começa a ficar superdoente”, explica. É claro, há de se considerar que, no passado, havia outros tipos de doenças e a expectativa de vida era menor. “Temos que lembrar dos problemas do passado e enxergar os do presente. É a vida, é o preço que a gente paga pela evolução.”

Imagem do livro ‘Como se come uma manga’ de Juliana Perdomo e Paola Santos | Foto: Rodrigo Frazão

Hoje vivemos em um mundo diferente, mais violento, com o ar poluído e uma alimentação ultraprocessada (…). Então eu não concordo muito com o termo superprotecionismo (…). O que acontece é que os pais estão mais ansiosos, porque o mundo está mais ansioso”. — Dr. Tadeu Fernando Fernandes

E o QUE MUDOU NAS ESCOLAS?

Mudanças geracionais também são perceptíveis ao se observar a trajetória da educação brasileira. A psicopedagoga Célia Marques, de São Paulo (SP), diz que uma mudança positiva é o olhar mais atento para as dificuldades e transtornos de aprendizagens individuais que as crianças possam ter.

“Antigamente, essas crianças eram vistas como preguiçosas e incapazes, mas isso não é verdade.” Atualmente, temos profissionais capazes de observar cada criança, identificando o que é apenas uma dificuldade e o que pode ser um diagnóstico, como de TDAH. “Pode ser que já havia crianças com diversos transtornos antigamente, mas não se tinha esse cuidado [e as ferramentas necessárias] a ponto de diagnosticá-las”.

Elas não se encaixavam nos padrões de ensino e ficavam à margem da sala de aula, explica a psicopedagoga. “De uns anos para cá fomos fazendo esse movimento de transferir a culpa dos estudantes para a escola, que estava preparada apenas para atender às crianças ditas como ‘normais'”.

Há, no caminho contrário, o que alguns especialistas chamam de superdiagnóstico de transtornos de aprendizagem, ou seja, o número de crianças diagnosticadas nas últimas décadas cresceu exponencialmente. E isso se deve a uma série de motivos.

Para Marília Velano, há entre os responsáveis uma preocupação excessiva com qualquer sinal que eles vêm de desadaptação. “Parece que, para essa geração de responsáveis, essa nomeação diagnóstica é muito importante. Há uma leitura medicalizante da infância de que algo precisa ser encontrado”, diz.

Existe, inclusive, em muitas famílias, a angústia de que a criança (e os próprios adultos) tenham uma boa performance em todas as áreas da vida  — é o que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chama de sociedade do desempenho. “Então eu fico um pouco na dúvida do quanto de fato as pessoas estão mais presentes e olhando para as necessidades dos seus filhos ou estão só reagindo a essa ameaça de desadaptação”.

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o lado positivo dos conflitos geracionais: a criança ENTENDIDA COMO CIDADÃ

Uma outra mudança positiva que ocorreu no Brasil foi no lugar social da criança, tirando-a da posição de objeto (ou extensão) do adulto e afirmando sua própria existência enquanto um sujeito de direitos. “E isso teve muito a ver com o ECA mesmo, que mudou a forma como vemos as crianças”, comenta Marília.

Assim, tratamentos que antes eram vistos como adequados e comuns para pais e professores, como no caso de punições físicas e verbais, passaram a ser mal vistas por boa parte da sociedade. “Muito se confundiu autoridade com autoritarismo”, diz Célia. “O ECA veio para moderar essa relação do adulto com a criança”.

“Como diria Rousseau, ela não é um adulto em miniatura, é uma criança”. — Célia Marques

Imagem do livro ‘O livro das pessoas malvadas’ de Slade Morrison, Toni Morrison e Pascal Lemaître | Foto: Rodrigo Frazão

Antes era mais comum que os próprios educadores considerassem exemplares as crianças capazes de obedecer. Hoje há um maior consenso de que, mais importante do que sempre obedecer, é preciso que elas tenham condições para exercer a criatividade e encontrar soluções para os desafios diários. “Para isso, a gente precisa de um pouquinho de insubmissão — algo que os responsáveis lidam muito mal. Eles tomam a insubmissão como um desrespeito (…), mas é muitas vezes nesse gesto de confronto que a criança consegue se expressar”, completa Marília.

Marília comenta também que, no passado, era mais comum para a criança a vida em comunidade, seja na rua, bairro ou com os próprios parentes. Hoje a realidade de muitas crianças, sobretudo nas grandes cidades, restringe-se à casa e à escola, aumentando a solidão e amplificando sofrimentos. “Eu tenho a sensação que, em outros tempos, havia uma certa diluição dos lugares potencializadores de vida. Então, se o bullying acontece hoje na escola, é ainda mais grave, porque é praticamente toda a vida social dessa criança”.

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as mudanças no brincar e consumo de telas

Na Vila Madalena, bairro da Zona Oeste de São Paulo, está a Casita na Vila, um lugar que recebe crianças e adolescentes no contraturno escolar e propõe que elas façam algo cada vez mais raro: divertir-se longe das telas. “É um negócio de impacto social que recebe tanto crianças bolsistas, quanto estudantes de famílias pagantes. Aqui a gente tem uma mistura de artes e de mundos como teatro, jogos, música, culinária, inglês, artes manuais e yoga”, explica Sara Renata, cantora, compositora, sócia e idealizadora da Casita ao lado de Liana Rangel.

Para os líderes da Casita, o brincar é essencial na vida de uma criança: ele não deixa a gente perder o encanto das coisas, nem mergulhar de cabeça na rotina. Além disso, “Cláudio Tebas* diz no [livro] O Palhaço e o Psicanalista que, quando a gente brinca, a gente vira amigo. Então, a brincadeira tem uma função de socialização”, comenta Darlan Júnior, ou apenas Filé, ator, diretor, palhaço, músico e responsável pelas brincadeiras na Casita.

Foto: Canva

Para Filé, o tempo cada vez maior que crianças e adolescentes passam sozinhos em casa no ambiente virtual tem diminuído as oportunidades do brincar, como descobrir texturas e sentidos novos, investigar pequenos insetos e até mesmo explorar os desenvolvimentos cognitivo, motor e socioemocional.

“Quando a gente iniciou o trabalho na Casita, a expectativa nem era fazer essa frente às telas, porque a gente acredita na tecnologia como ferramenta de desenvolvimento”, conta Filé. No entanto, eles logo observaram que havia uma grande procura, por parte dos responsáveis, de alternativas aos jogos online. “Porque quando você tira a tela da criança, a dor que ela sente é terrível.”

Além de ter menos tempo ao ar livre, muitas crianças também acabam tendo pouca oportunidade de sentir tédio, o que também as prejudica. “A falta de tédio deixa a criança mais ansiosa e cansada, justamente porque ela não usa o recurso cognitivo para lidar com essa coisa”, explica. “Parece que ela precisa estar o tempo inteiro produtiva, sabe?”, reflete Filé.

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Outro ponto que tem mudado na hora de brincar é a oportunidade da criança perder e se frustrar. “Na pedagogia do palhaço — que se baseia muito na pedagogia do oprimido de Paulo Freire — uma das regras básicas é: o erro não pode ser determinante para dizer quem você é naquele momento e a perda não pode custar muito”, conta Filé.

Segundo o profissional, quando as crianças brincam com jogos de tabuleiros e outras brincadeiras em que é possível ganhar ou perder, trabalha-se a habilidade de resiliência da criança. “Mas agora os algoritmos [de plataformas de vídeos e jogos digitais] não permitem um encerramento de ciclo. Esses conteúdos são feitos para manter a criança sempre ali, dando recompensas [e estímulos] o tempo inteiro”.

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representatividade e o respeito à diversidade

A jornalista Maria Carolina Cristianini trabalhou na revista Recreio — periódico infantil que fez grande sucesso nos anos 2000 — entre 2008 e 2018, alcançando o cargo de editora-chefe. Hoje ela está de volta à marca como editora-chefe do núcleo educacional e conta que, em quase vinte anos, muitas coisas mudaram no modo com que se fala com o público infantil. 

“Tem coisas que a gente mal pensava na Recreio ali do comecinho, como questões de diversidade de etnia e gênero”, cita Carolina. Ela diz que, ao elaborar as pautas de cada edição, não havia o costume de se pensar em representatividade. As ilustrações da revista, em sua grande maioria, eram de crianças brancas e sem deficiência. “Nós começamos a parar para pensar: caramba, por que não tem, na revista inteira, um único asiático, negro ou indígena? A gente muitas vezes não pensa sobre isso, mas eles estão inseridos na nossa sociedade. Então hoje não tem mais como pautar qualquer coisa sem pensar nisso.”

O mundo evolui e, a cada geração, novos avanços e desafios aparecem. Carolina, por exemplo, conta que, em seu tempo na Recreio dos anos 2000, já havia uma preocupação sobre como as crianças apareciam na mídia, quais assuntos falariam e roupas vestiriam. Já havia também uma maior problematização do bullying, coisa que em sua própria infância, na década de 1980, não existia. “O mundo evolui. A Hannah Arendt** diz isso quando trata sobre a crise da educação: estamos falando de uma crise centenária. A criança nasce em um mundo novo para ela e a função do adulto, segundo Célia, é prepará-la para vivê-lo e criar novos espaços”, finaliza Célia. 

Cláudio Tebas*
*Palhaço, escritor e educador.

Hannah Arendt**
**Filósofa política alemã do século 20.

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Conheça três livros, já entregues para a Família Quindim, para celebrar momentos da infância que são atemporais:

Como se come uma manga, de Paola Santos e Juliana Perdomo
Não é uma caixa, de Antoinette Portis
Flores selvagens, de Liniers
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