“Meu bebê não presta atenção durante os momentos de leitura compartilhada”.
“Este livro não é colorido o suficiente, portanto, o bebê não vai gostar”.
“Vou mostrar para o bebê somente livros com figuras e ilustrações, sem uma história narrada”.
Se você tem um bebê, ou convive com um, e faz leituras compartilhadas com ele, é bem provável que pensamentos como estes venham percorrendo a sua jornada. Na verdade, questões como as apontadas acima são mentiras ou mitos sobre a literatura de colo.
“Grande parte dos mitos sobre a leitura com bebês nasce de uma visão utilitária da infância e da linguagem. Durante muito tempo, o livro para a primeiríssima infância foi pensado sobretudo como ferramenta de estimulação: estimular a fala, a cognição, a alfabetização futura ou o desenvolvimento neuropsicomotor. Nesse contexto, a experiência literária tende a ser reduzida à função”, explica Cássia V. Bittens, psicóloga e pesquisadora, com formação em literatura de berço e leitura e mediação na primeira infância. “Ao deslocarmos a literatura apenas para o campo da aprendizagem, corremos o risco de apagar uma de suas matérias mais fundamentais: a fabulação”, continua ela.
Essa visão, que estabelece uma utilidade para as diversas experiências de leitura possíveis durante a primeira infância, conectada a uma tentativa de acelerar o desenvolvimento da criança, permeia questões históricas e culturais. No entanto, é uma ideia que vem se transformando ao longo do tempo e da mesma maneira como o período da infância em si é visto.
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Cássia ressalta que o paradigma que estabelece uma função ou utilidade para a leitura com bebês tem sido movimentado pelo o que é chamado atualmente de literatura de berço. “Antes de preparar a criança para algo futuro, a leitura compartilhada é uma experiência de presença no agora. O bebê não se relaciona com o livro apenas pelo entendimento racional da narrativa. Ele se relaciona pela voz, ritmo, gesto, repetição, materialidade das páginas e pela relação construída com a pessoa adulta que lê junto”, diz.
Muito além de ser uma ferramenta para estimular aspectos como fala e alfabetização, o ato de ler uma história junto de um bebê atinge “dimensões emocionais, cognitivas, sociais, culturais, corporais e fonoaudiológicas. O bebê participa da linguagem com o corpo inteiro”, pontua a especialista.
Para ajudar pais e outros cuidadores a entender mais sobre a literatura de colo, veja a seguir oito mentiras sobre a leitura com bebês e entenda por que essas ideias não passam de mitos.
Confira, a seguir, 8 mentiras sobre a leitura com bebês
1. Se o bebê não ficar parado “lendo” o livro, ele não gostou da leitura ou não gosta de ler
Ao fazer uma leitura com um bebê, o adulto não deve esperar que ele permaneça quieto ou que demonstre, de alguma maneira, interagir diretamente com o livro.
“O movimento também é linguagem. A leitura com bebês não segue necessariamente a lógica escolarizada da concentração silenciosa e contínua. Muitos bebês escutam enquanto engatinham, observam detalhes aparentemente aleatórios, retornam para algumas páginas ou entram e saem da cena de leitura diversas vezes. Isso não significa fracasso da experiência”, conta Cássia.
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A especialista apresenta pontos importantes que acontecem durante a movimentação do bebê enquanto uma história é contada: ele escuta enquanto se mexe, olha para o adulto, chega mais perto, se afasta, toca o livro. “A experiência literária na primeira infância acontece também nesse trânsito corporal e afetivo. A questão central não é controlar o corpo do bebê, mas construir uma situação de encontro em torno da linguagem. Talvez, em vez de perguntar ‘ele prestou atenção?’, seja mais interessante perguntar: houve relação? Houve presença? Houve uma experiência possível de escuta e encontro?”, recomenda Cássia.
2. o melhor livro para bebê é cartonado e interativo
Apesar de a resistência oferecida pelos livros cartonados ser ótima para os bebês, é mito que um único tipo de estrutura seja a ideal para essa faixa de idade. Cássia V. Bittens destaca que o mais importante não é perguntar qual é “o melhor tipo de livro” para bebês, mas quais livros são capazes de gerar experiências de presença, linguagem, imaginação e encontro.
Para Cássia, é preciso estar atento também a outro ponto: “Durante muitos anos, criou-se uma associação quase automática entre bebê e livro interativo: livros com abas, texturas, sons e estímulos táteis. Esses recursos podem, sim, produzir experiências interessantes. O problema começa quando se pressupõe que o bebê só consegue se interessar por obras desse tipo. […] Um livro sensorial pode se tornar profundamente literário nas mãos de uma pessoa adulta disponível, sensível e implicada na leitura. Da mesma forma, um livro visualmente sofisticado pode se tornar vazio quando transformado apenas em objeto de performance pedagógica ou estimulação”.
3. O livro para bebê precisa sempre ser muito colorido
“De fato, os bebês respondem aos contrastes visuais nos primeiros meses de vida. Mas isso não significa que a experiência estética na primeira infância precise ser construída a partir do excesso de estímulos. Muitos livros contemporâneos para bebês trabalham justamente com repetição, silêncio visual, pausa, delicadeza, redução cromática e ritmos mais sutis de imagem. E os bebês podem responder intensamente a essas propostas”, afirma Cássia.
Diante do mundo acelerado em que vivemos, com hiperestímulo que passa por brinquedos e telas, a literatura pode proporcionar um ritmo diferente, que quebre com a agitação que se faz tão presente no dia a dia. “Às vezes, uma imagem simples, uma página mais silenciosa ou um ritmo visual repetitivo produzem experiências de enorme potência simbólica e afetiva. Na leitura compartilhada, o literário talvez inaugure justamente isso: um outro ritmo do tempo. Um tempo de presença, escuta e contemplação, para o bebê e para a pessoa adulta que lê junto”, reflete a especialista.
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4. Ler junto de um bebê é algo para fazer quando sobra tempo
É importante incluir a leitura junto de um bebê no cotidiano, em momentos que não precisam ser longos nem contar com uma grande preparação. Pode ser antes de dormir, após o banho, durante uma ida ao parque ou por alguns minutos em que o bebê esteja no colo. Isso gera experiências importantes de vínculo, linguagem e presença, de acordo com Cássia.
“Ao mesmo tempo, é fundamental evitar transformar essa prática em obrigação moral ou indicador de ‘boa parentalidade’. Muitas famílias vivem rotinas atravessadas por trabalho exaustivo, ausência de rede de apoio e pouco acesso ao livro e ao tempo livre. Por isso, o mais importante não é a quantidade de leitura, mas a possibilidade de construir pequenos espaços de encontro dentro da vida real”, explica a especialista.
Cássia dá outras dicas para facilitar a inclusão da leitura no cotidiano com um bebê:
- “Uma pequena biblioteca organizada em um cesto ou em uma estante acessível ao bebê já pode transformar a relação cotidiana com os livros”;
- “Dez minutos de leitura compartilhada atravessados por presença podem produzir mais experiência do que longos períodos de leitura realizados apenas como obrigação pedagógica”.
5. Só é importante começar a leitura compartilhada depois da primeira palavra
Bem antes de um bebê soltar sua primeira palavra, ele já se relaciona com o mundo da linguagem verbalizada de diversas maneiras. Afinal, o bebê está inserido em meio às vozes e às diversas entonações usadas nas conversas com ele e ao redor dele — e tudo isso desde a vida dentro do útero da mãe.
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“Ler para um bebê não depende da compreensão racional do enredo. Ele escuta a musicalidade da língua, percebe o corpo e a voz da pessoa adulta, acompanha expressões faciais e participa da situação de leitura de maneiras muito próprias. Na primeira infância, a leitura compartilhada não acontece apenas no campo da compreensão verbal. Ela acontece também no campo da presença, da escuta, do vínculo e da experiência sensível de linguagem”, conta Cássia.
6. a leitura de colo beneficia apenas o bebê
“A literatura de berço compreende a leitura como uma experiência compartilhada. Não existe apenas um bebê recebendo estímulos de um adulto. Existe um encontro em que ambos são atravessados pela linguagem, pela imaginação, pela presença e pela arte”, diz Cássia.
Durante essa troca, o adulto entra em uma desaceleração em relação às atividades que o rodeiam no dia a dia, em uma pausa que leva ao descanso da mente e à reconexão afetiva. Além disso, ocorre o estímulo para se lembrar de memórias e visitar maneiras de estar no mundo por meio da narrativa que está sendo feita.
“Quem lê também é lido. E talvez uma das maiores potências da literatura de colo esteja justamente aí: na possibilidade de transformar simultaneamente o bebê, a pessoa adulta e a relação construída entre ambos” – Cássia V. Bittens
7. Livros para bebês não precisam contar histórias
Apesar de livros que apresentam sons e proporcionam experiências sensoriais serem válidos, a psicóloga e pesquisadora Cássia ressalta que os bebês também têm direito à literatura.
“Existe uma tendência de transformar o livro para bebês em mero objeto de estimulação sensorial, como se a primeira infância precisasse apenas de texturas, sons ou recursos interativos. Nesse movimento, muitas vezes a dimensão narrativa da literatura acaba sendo empobrecida ou deixada em segundo plano”, aponta Cássia.
A especialista relembra a psiquiatra francesa Marie Bonnafé, autora do livro “A pequena história dos bebês e dos livros” e a importância da “língua do relato”: “linguagem que narra, imagina, organiza experiências e permite ao bebê habitar simbolicamente o mundo. Muito antes de compreender racionalmente uma história, o bebê participa de seus ritmos, recorrências, atmosferas e encadeamentos. Por isso, mesmo livros aparentemente simples podem sustentar experiências literárias profundas. Os bebês acompanham repetições, antecipam acontecimentos, reconhecem padrões narrativos e constroem expectativas diante da leitura compartilhada”.
É importante destacar, no entanto, que isso não quer dizer que todas as obras para bebês precisam seguir uma narrativa considerada clássica. Histórias podem ser contadas de diversas maneiras, a partir de gestos, imagens e ritmos.
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8. qualquer livro serve para um bebê, especialmente aqueles voltados apenas para ensinar algo
Essa ideia equivocada costuma vir do fato de que os bebês ainda não compreendem plenamente a linguagem verbal — sendo assim, não faria diferença o tipo de livro apresentado a ele.
“É evidente que o bebê não lê como um adulto. Ele ainda não domina palavras, conceitos ou estruturas narrativas complexas. […] Mas isso não significa ausência de experiência literária. O bebê participa da linguagem muito antes da compreensão racional do texto. Ele participa pela escuta, pelo ritmo, pela voz, pelo olhar, pelo gesto e pela presença da pessoa adulta que lê junto”, afirma Cássia.
Momentos dedicados à literatura de colo vão muito além de o bebê entender plenamente a história que está sendo contada. Trata-se do encontro entre a criança, o livro e o adulto. “E é justamente nesse encontro […] que começam a se constituir formas de vínculo, escuta, imaginação e subjetivação. Por isso, talvez o principal deslocamento da literatura de berço seja este: compreender que a leitura na primeira infância não acontece apenas no campo da compreensão verbal, mas também no campo da presença e da experiência sensível de linguagem”, conclui ela.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que mostram como a literatura para infâncias, pensada para bebês, pode ser bibliodiversa ao trabalhar diferentes gêneros, estéticas e formas de narrativas:

