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8 mentiras sobre a leitura com bebês que provavelmente você já ouviu

mentiras sobre a leitura compartilhada com bebês

Imagem do livro 'Doçura', de Anna Cunha e Emília Nuñez | Foto: Rodrigo Frazão

“Meu bebê não presta atenção durante os momentos de leitura compartilhada”.
“Este livro não é colorido o suficiente, portanto, o bebê não vai gostar”.
“Vou mostrar para o bebê somente livros com figuras e ilustrações, sem uma história narrada”.

Se você tem um bebê, ou convive com um, e faz leituras compartilhadas com ele, é bem provável que pensamentos como estes venham percorrendo a sua jornada. Na verdade, questões como as apontadas acima são mentiras ou mitos sobre a literatura de colo.

“Grande parte dos mitos sobre a leitura com bebês nasce de uma visão utilitária da infância e da linguagem. Durante muito tempo, o livro para a primeiríssima infância foi pensado sobretudo como ferramenta de estimulação: estimular a fala, a cognição, a alfabetização futura ou o desenvolvimento neuropsicomotor. Nesse contexto, a experiência literária tende a ser reduzida à função”, explica Cássia V. Bittens, psicóloga e pesquisadora, com formação em literatura de berço e leitura e mediação na primeira infância. “Ao deslocarmos a literatura apenas para o campo da aprendizagem, corremos o risco de apagar uma de suas matérias mais fundamentais: a fabulação”, continua ela.

Essa visão, que estabelece uma utilidade para as diversas experiências de leitura possíveis durante a primeira infância, conectada a uma tentativa de acelerar o desenvolvimento da criança, permeia questões históricas e culturais. No entanto, é uma ideia que vem se transformando ao longo do tempo e da mesma maneira como o período da infância em si é visto.

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Cássia ressalta que o paradigma que estabelece uma função ou utilidade para a leitura com bebês tem sido movimentado pelo o que é chamado atualmente de literatura de berço. “Antes de preparar a criança para algo futuro, a leitura compartilhada é uma experiência de presença no agora. O bebê não se relaciona com o livro apenas pelo entendimento racional da narrativa. Ele se relaciona pela voz, ritmo, gesto, repetição, materialidade das páginas e pela relação construída com a pessoa adulta que lê junto”, diz.

Imagem do livro ‘Doçura’, de Anna Cunha e Emília Nuñez | Foto: Rodrigo Frazão

Muito além de ser uma ferramenta para estimular aspectos como fala e alfabetização, o ato de ler uma história junto de um bebê atinge “dimensões emocionais, cognitivas, sociais, culturais, corporais e fonoaudiológicas. O bebê participa da linguagem com o corpo inteiro”, pontua a especialista.

Para ajudar pais e outros cuidadores a entender mais sobre a literatura de colo, veja a seguir oito mentiras sobre a leitura com bebês e entenda por que essas ideias não passam de mitos.

Confira, a seguir, 8 mentiras sobre a leitura com bebês

1. Se o bebê não ficar parado “lendo” o livro, ele não gostou da leitura ou não gosta de ler

Ao fazer uma leitura com um bebê, o adulto não deve esperar que ele permaneça quieto ou que demonstre, de alguma maneira, interagir diretamente com o livro.

“O movimento também é linguagem. A leitura com bebês não segue necessariamente a lógica escolarizada da concentração silenciosa e contínua. Muitos bebês escutam enquanto engatinham, observam detalhes aparentemente aleatórios, retornam para algumas páginas ou entram e saem da cena de leitura diversas vezes. Isso não significa fracasso da experiência”, conta Cássia.

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A especialista apresenta pontos importantes que acontecem durante a movimentação do bebê enquanto uma história é contada: ele escuta enquanto se mexe, olha para o adulto, chega mais perto, se afasta, toca o livro. “A experiência literária na primeira infância acontece também nesse trânsito corporal e afetivo. A questão central não é controlar o corpo do bebê, mas construir uma situação de encontro em torno da linguagem. Talvez, em vez de perguntar ‘ele prestou atenção?’, seja mais interessante perguntar: houve relação? Houve presença? Houve uma experiência possível de escuta e encontro?”, recomenda Cássia.

2. o melhor livro para bebê é cartonado e interativo

Apesar de a resistência oferecida pelos livros cartonados ser ótima para os bebês, é mito que um único tipo de estrutura seja a ideal para essa faixa de idade. Cássia V. Bittens destaca que o mais importante não é perguntar qual é “o melhor tipo de livro” para bebês, mas quais livros são capazes de gerar experiências de presença, linguagem, imaginação e encontro.

Para Cássia, é preciso estar atento também a outro ponto: “Durante muitos anos, criou-se uma associação quase automática entre bebê e livro interativo: livros com abas, texturas, sons e estímulos táteis. Esses recursos podem, sim, produzir experiências interessantes. O problema começa quando se pressupõe que o bebê só consegue se interessar por obras desse tipo. […] Um livro sensorial pode se tornar profundamente literário nas mãos de uma pessoa adulta disponível, sensível e implicada na leitura. Da mesma forma, um livro visualmente sofisticado pode se tornar vazio quando transformado apenas em objeto de performance pedagógica ou estimulação”.

Imagem do livro ‘Minha natureza’ de Angela Salerno (Solisluna) | Foto: Rodrigo Frazão

3. O livro para bebê precisa sempre ser muito colorido

De fato, os bebês respondem aos contrastes visuais nos primeiros meses de vida. Mas isso não significa que a experiência estética na primeira infância precise ser construída a partir do excesso de estímulos. Muitos livros contemporâneos para bebês trabalham justamente com repetição, silêncio visual, pausa, delicadeza, redução cromática e ritmos mais sutis de imagem. E os bebês podem responder intensamente a essas propostas”, afirma Cássia.

Imagem do livro ‘O que é isto?’, de Yara Kono e Ana Pessoa (Nanabooks) | ImageFoto: Rodrigo Frazão

Diante do mundo acelerado em que vivemos, com hiperestímulo que passa por brinquedos e telas, a literatura pode proporcionar um ritmo diferente, que quebre com a agitação que se faz tão presente no dia a dia. “Às vezes, uma imagem simples, uma página mais silenciosa ou um ritmo visual repetitivo produzem experiências de enorme potência simbólica e afetiva. Na leitura compartilhada, o literário talvez inaugure justamente isso: um outro ritmo do tempo. Um tempo de presença, escuta e contemplação, para o bebê e para a pessoa adulta que lê junto”, reflete a especialista.

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4. Ler junto de um bebê é algo para fazer quando sobra tempo

É importante incluir a leitura junto de um bebê no cotidiano, em momentos que não precisam ser longos nem contar com uma grande preparação. Pode ser antes de dormir, após o banho, durante uma ida ao parque ou por alguns minutos em que o bebê esteja no colo. Isso gera experiências importantes de vínculo, linguagem e presença, de acordo com Cássia.

“Ao mesmo tempo, é fundamental evitar transformar essa prática em obrigação moral ou indicador de ‘boa parentalidade’. Muitas famílias vivem rotinas atravessadas por trabalho exaustivo, ausência de rede de apoio e pouco acesso ao livro e ao tempo livre. Por isso, o mais importante não é a quantidade de leitura, mas a possibilidade de construir pequenos espaços de encontro dentro da vida real”, explica a especialista.

Cássia dá outras dicas para facilitar a inclusão da leitura no cotidiano com um bebê:

5. Só é importante começar a leitura compartilhada depois da primeira palavra

Bem antes de um bebê soltar sua primeira palavra, ele já se relaciona com o mundo da linguagem verbalizada de diversas maneiras. Afinal, o bebê está inserido em meio às vozes e às diversas entonações usadas nas conversas com ele e ao redor dele — e tudo isso desde a vida dentro do útero da mãe.

Imagem do livro ‘Liz viu o mundo’, de Jana Glatt e Caroline Carvalho (Biruta) | Foto: Rodrigo Frazão

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“Ler para um bebê não depende da compreensão racional do enredo. Ele escuta a musicalidade da língua, percebe o corpo e a voz da pessoa adulta, acompanha expressões faciais e participa da situação de leitura de maneiras muito próprias. Na primeira infância, a leitura compartilhada não acontece apenas no campo da compreensão verbal. Ela acontece também no campo da presença, da escuta, do vínculo e da experiência sensível de linguagem”, conta Cássia.

6. a leitura de colo beneficia apenas o bebê

“A literatura de berço compreende a leitura como uma experiência compartilhada. Não existe apenas um bebê recebendo estímulos de um adulto. Existe um encontro em que ambos são atravessados pela linguagem, pela imaginação, pela presença e pela arte”, diz Cássia.

Durante essa troca, o adulto entra em uma desaceleração em relação às atividades que o rodeiam no dia a dia, em uma pausa que leva ao descanso da mente e à reconexão afetiva. Além disso, ocorre o estímulo para se lembrar de memórias e visitar maneiras de estar no mundo por meio da narrativa que está sendo feita.

“Quem lê também é lido. E talvez uma das maiores potências da literatura de colo esteja justamente aí: na possibilidade de transformar simultaneamente o bebê, a pessoa adulta e a relação construída entre ambos” – Cássia V. Bittens

7. Livros para bebês não precisam contar histórias

Apesar de livros que apresentam sons e proporcionam experiências sensoriais serem válidos, a psicóloga e pesquisadora Cássia ressalta que os bebês também têm direito à literatura.

“Existe uma tendência de transformar o livro para bebês em mero objeto de estimulação sensorial, como se a primeira infância precisasse apenas de texturas, sons ou recursos interativos. Nesse movimento, muitas vezes a dimensão narrativa da literatura acaba sendo empobrecida ou deixada em segundo plano”, aponta Cássia. 

A especialista relembra a psiquiatra francesa Marie Bonnafé, autora do livro “A pequena história dos bebês e dos livros” e a importância da “língua do relato”: “linguagem que narra, imagina, organiza experiências e permite ao bebê habitar simbolicamente o mundo. Muito antes de compreender racionalmente uma história, o bebê participa de seus ritmos, recorrências, atmosferas e encadeamentos. Por isso, mesmo livros aparentemente simples podem sustentar experiências literárias profundas. Os bebês acompanham repetições, antecipam acontecimentos, reconhecem padrões narrativos e constroem expectativas diante da leitura compartilhada”.

Imagem do livro ‘A Garrafa’, de Patricia Auerbach | Foto: Rodrigo Frazão (Brinque-book)

É importante destacar, no entanto, que isso não quer dizer que todas as obras para bebês precisam seguir uma narrativa considerada clássica. Histórias podem ser contadas de diversas maneiras, a partir de gestos, imagens e ritmos. 

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8. qualquer livro serve para um bebê, especialmente aqueles voltados apenas para ensinar algo

Essa ideia equivocada costuma vir do fato de que os bebês ainda não compreendem plenamente a linguagem verbal — sendo assim, não faria diferença o tipo de livro apresentado a ele.

“É evidente que o bebê não lê como um adulto. Ele ainda não domina palavras, conceitos ou estruturas narrativas complexas. […] Mas isso não significa ausência de experiência literária. O bebê participa da linguagem muito antes da compreensão racional do texto. Ele participa pela escuta, pelo ritmo, pela voz, pelo olhar, pelo gesto e pela presença da pessoa adulta que lê junto”, afirma Cássia.

Momentos dedicados à literatura de colo vão muito além de o bebê entender plenamente a história que está sendo contada. Trata-se do encontro entre a criança, o livro e o adulto. “E é justamente nesse encontro […] que começam a se constituir formas de vínculo, escuta, imaginação e subjetivação. Por isso, talvez o principal deslocamento da literatura de berço seja este: compreender que a leitura na primeira infância não acontece apenas no campo da compreensão verbal, mas também no campo da presença e da experiência sensível de linguagem”, conclui ela.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que mostram como a literatura para infâncias, pensada para bebês, pode ser bibliodiversa ao trabalhar diferentes gêneros, estéticas e formas de narrativas:

Não é uma caixa, de Antoinette Portis (Nanabooks)
Luas e libélulas, de Lúcia Hiratsuka
A sopa está pronta, de Susanne Strasser

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