Até meados da década de 80, toda vez que um trabalho escolar ou acadêmico demandava pesquisas sobre diferentes assuntos, o mais comum era que os estudantes fizessem buscas minuciosas em enciclopédias com extensos sumários. A partir de 1998, com a chegada do Google, esse processo se transformou; bastava digitar uma frase no buscador. Agora, o cenário muda novamente: um prompt detalhado em ferramentas de Inteligência Artificial (IA) já gera não só respostas, mas textos e atividades inteiras.
Segundo a pesquisa “Perfil e Desafios dos Professores da Educação Básica no Brasil“, divulgada em 2024 pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (SEMESP), três em cada quatro docentes são favoráveis ao uso da IA como apoio pedagógico. O levantamento também revela que 39% dos educadores já utilizam atividades com Inteligência Artificial em sala de aula. Com isso, novos debates surgem no meio pedagógico: a IA pode ser uma aliada construtiva ou retira parte do senso crítico e aprendizado do estudante?
Como a Inteligência Artificial surgiu?
Antes de tudo, é importante lembrar que a IA não é recente. Os primeiros estudos e desenvolvimentos datam das décadas de 1950 e 1960, impulsionados pelo trabalho de Alan Turing, com o artigo “Computing Machinery and Intelligence”, publicado na revista científica Mind. Foi ali que começaram os questionamentos sobre máquinas capazes de “pensar e criar” a partir de comandos.
Ao fim de 2010, os avanços se intensificaram com a IA generativa e os conceitos de Machine Learning e Deep Learning; métodos que permitem à IA aprender com grandes volumes de dados e informações categorizadas. Em 2022, a tecnologia se popularizou com o lançamento do ChatGPT, da OpenAI. Desde então, surgiram novas plataformas como Gemini (Google), Copilot (Microsoft), Midjourney, Meta AI (Meta) e VEO (Google), sendo a última capaz de criar vídeos ultrarrealistas.
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IA na escola: Os melhores caminhos

Com uma nova realidade diante de todos, a escola, local de aprendizado e formação de novos cidadãos, também passa a se adaptar. Em Pequim, na China, todas as instituições de ensino passarão a oferecer, a partir de setembro de 2025, o ensino obrigatório de IA. A medida busca preparar os estudantes para dominar essa indústria desde cedo.
Para educadores, o primeiro passo é ensinar como a tecnologia funciona. Mais do que usá-la criticamente, os alunos devem compreender que as respostas geradas não surgem “magicamente”, mas por meio de uma lógica de programação sustentada por dados. Com esse entendimento, é mais fácil encarar a IA como uma otimização, e não como substituta do pensamento e criação humana.
“A formação de professores é fundamental para a integração eficaz da IA em sala. Eles devem compreender como a IA opera, inclusive com noções de programação, para orientar os alunos em um uso responsável. É necessário propor atividades que estimulem criatividade e raciocínio, e não que os substituam”, afirma Marcelo de Freitas Lopes, cofundador da Foreducation EdTech, educador, biólogo e vice-campeão mundial de robótica educacional First Lego League (FLL).
Estimulando o uso crítico
Abordagens que estimulem o uso da IA como um gerador inicial de ideias e brainstorm são formas de apresentar o recurso da maneira correta para alunos, principalmente crianças. Para muitos, a preocupação é que os estudantes usem o método como uma forma de criar trabalhos prontos, sem questionar o resultado ou como aquele material foi produzido. Além disso, o conteúdo estudado, nesse cenário, também é pouco absorvido. Por isso, para um uso realmente crítico da ferramenta, é preciso que a IA seja trabalhada com os estudantes já em um formato de construção analítico.
“A chave é mudar o foco, menos ênfase no produto final e mais atenção ao processo de aprendizagem. Atividades devem engajar o aluno a pensar, decidir, argumentar. Por exemplo, no uso da IA em tarefas, o professor pode solicitar registros de etapas, justificativas das escolhas, apresentação oral ou debates em que o aluno defenda seu raciocínio”, explica Emilly Fidelix, doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em Ensino com Tecnologias pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e fundadora do “Se Liga Prof”, plataforma que oferece formações sobre metodologias ativas, IA e inovação na educação.
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Capacitação de educadores, desigualdade e ética no uso de IA

Com o avanço tecnológico, surgem também desafios quanto ao uso ético e igualitário da IA. A capacitação docente é uma etapa essencial, mas outras barreiras precisam ser enfrentadas. Já em 2019, antes mesmo do lançamento do ChatGPT, a conferência “Planejando a educação na era da IA: liderar o avanço”, realizada em Pequim, reuniu representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) e chefes de governos para debater o tema. O encontro resultou no “Consenso de Beijing”, que traz diretrizes como “promover o uso equitativo e inclusivo da IA” e “garantir o uso ético, transparente e auditável dos dados”.
Além disso, o último estudo “Panorama da qualidade da Internet nas escolas públicas brasileiras”, divulgado em 2024 pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologia de Redes e Operações, mostra que, nas escolas públicas com computadores, há em média um equipamento para cada 10 alunos. Em contraste, o uso da IA educacional no mundo tende a se concentrar em instituições privadas. Por isso, além de formar professores, é necessário implementar políticas públicas que ampliem o acesso a dispositivos como computadores, tablets e celulares.
“As escolas precisam institucionalizar recursos que respeitem privacidade e segurança, com plataformas éticas e sustentáveis, focadas na autoria. É preciso criar um currículo e políticas de acesso que preparem os alunos para essa nova realidade. O PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2029 prevê avaliar a Alfabetização em Mídia e Inteligência Artificial. Será que o Brasil continuará entre os últimos nessa avaliação, ou vamos incluir o tema nas reuniões pedagógicas?”, questiona Marcelo.
Formas criativas de usar a IA em sala de aula:
Desde recriar cenários históricos até revisar textos e traduções, as formas de usar a IA de maneira criativa e ética em sala de aula são muitas. Com a supervisão correta, o aliado tecnológico se torna mais um facilitador para a compreensão do mundo atual. Confira algumas ideias elencadas por Marcelo e Emilly para usar a IA pedagogicamente:
- Aprendizado de idiomas: IAs podem atuar como “nativos em idioma”, auxiliando no desenvolvimento da fluência e compreensão.
- Debates e argumentação: Uma IA como “oponente socrático” pode servir para desenvolver argumentação em debates e reflexão sobre determinados temas.
- Exploração de personagens históricos ou científicos: Uma IA representando um personagem histórico ou cientista pode elevar o interesse dos alunos e ajudá-los a entender como o contexto e a personalidade influenciaram nas descobertas.
- Recriação de cenários: Recriar cenários históricos através de comandos detalhados e fidedignos para uma IA também é um ótimo caminho para os alunos compreenderem nuances de determinada época.
Qual o papel dos pais e responsáveis na discussão?
É preciso ter em mente que o contato com a Inteligência Artificial se expande fora da escola. Também é responsabilidade dos pais e responsáveis proporcionarem tanto uma apresentação correta da plataforma quanto um uso consciente da mesma. Afinal, uma vez que as crianças recebam essa base em casa, é mais fácil o acompanhamento saudável da utilização da IA nas instituições de ensino.
A segurança de dados também é um ponto importante: especialmente quando falamos de menores de idade, é preciso estar atento para não compartilhar informações sensíveis. Imagens, informações pessoais e endereços são informações valiosas e devem ser protegidas.
“Não se deve compartilhar dados pessoais em plataformas de IA. Isso é: nomes completos, e-mails, CPF, endereços, fotos, qualquer coisa que torne alguém (especialmente uma criança) reconhecível.”, alerta Emilly.
Já sobre a orientação do uso da IA junto dos pais, atenção: “Muitas famílias têm receio por não entender a tecnologia e pensam em proibir o uso totalmente, o que pode gerar justamente o efeito contrário, despertar a curiosidade para usarem e explorarem escondidos. Ao invés de proibir, o ideal é explorar junto. Criar histórias, pesquisar curiosidades, usar a IA como uma ferramenta para aprender em família. Isso aproxima e dá segurança”, finaliza a educadora.
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