É difícil descrever a imensidão do amor que os pais sentem pelos filhos. Às vezes, o sentimento é tão grande, tão forte, tão potente, que dá vontade de colocar a criança dentro de um casulo ou, quem sabe, de volta, dentro da barriga. Quem sabe assim não daria para evitar as agruras aqui do lado de fora: a dor, os perigos, a tristeza, a frustração de quando as coisas não saem exatamente como queríamos.
O mais difícil é saber que eles podem passar por experiências tão difíceis quanto nós mesmos passamos na infância. Afinal, se tem algo mais sofrido do que ser vítima de um bullying ou de uma rejeição, por exemplo, é ver seu filho passando por estas mesmas situações. Ou mesmo imaginar que ele possa vivê-las.
A vontade de proteger é legítima, sobretudo quando os pais sentiram na pele estes mesmos problemas no passado. Mas é preciso lembrar que há uma linha tênue que separa o cuidado da autoproteção.
Quem alerta é o psicólogo Marcelo Santos, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de Campinas (SP). Para ele, o desejo de proteger os filhos de tudo, mesmo que bem-intencionado, pode impedi-los de desenvolver habilidades importantes, como autonomia emocional e capacidade de enfrentamento.
“Quando o pai ou a mãe tenta impedir que o filho passe por algo que ele próprio viveu, está, sem perceber, revivendo a própria história. É como se dissesse inconscientemente: ‘Agora eu vou reescrever esse final’. Essa atitude protetora se torna uma forma de reafirmar a si mesmo — eu sou agora o pai ou a mãe que pode oferecer o que nunca tive”, explica o professor.
O problema é que, ao fazerem isso, os adultos tendem a projetar emoções suas nas crianças uma identidade pressuposta: a de alguém que deve ser poupado. Assim, os pequenos perdem a oportunidade de aprender a lidar do seu próprio jeito com situações desafiadoras.
É a partir das experiências, das dificuldades e mesmo dos erros que, aos poucos, aprendemos e nos tornamos quem somos. Marcelo aponta que, quando os pais superprotegem, eles impedem que a criança vivencia situações e, portanto, que se transforme. “Na prática, é como se dissessem: ‘Você não vai crescer por conta própria’”, diz ele. Proteger é um gesto de amor, mas, em excesso, pode ser uma barreira.

“A criança precisa se deparar com frustrações, desentendimentos, emoções contraditórias, para se reinventar. Se os pais retiram isso dela, ela se torna uma ‘eterna protegida’, um ser incapaz de agir por conta própria”, afirma o professor.
Sem a oportunidade de lidar com essas pequenas dores, a criança cresce acreditando que não tem recursos para enfrentar o mundo. “Ao ser impedida de resolver conflitos sociais — nas brincadeiras, nos desentendimentos com colegas —, perde a chance de desenvolver habilidades fundamentais. E a ausência dessas habilidades será muito cara no futuro. É no reconhecimento dos pares que a criança entende que é capaz”, destaca o psicólogo. Para ele, o papel dos pais é apoiar – e não impedir.
“O amor que se traduz em impedir é um amor que protege, mas não prepara. É importante que o pai esteja ao lado, auxiliando, mas ele precisa permitir que o filho enfrente, errando e aprendendo com isso. Assim, ele se torna autor da própria história, e não apenas coadjuvante do medo dos pais”, ensina o especialista.
Feridas que se confundem AO PROJETAR EMOÇÕES
Em muitos casos, o que parece ser cuidado é, na verdade, o reflexo de antigas feridas emocionais dos adultos. Isso acontece, por exemplo, quando o pai, a mãe ou o cuidador costumam justificar atos que indicam superproteção, com frases como “É que eu não quero que você passe por isso”. Outras vezes, embora ajam desta forma, não verbalizam. Talvez nem eles mesmos elaborem que a razão pela qual querem tanto poupar os filhos de viver alguma experiência esteja lá no passado deles. “São falas ou atitudes que demonstram a tentativa de evitar que o filho viva algo que o próprio pai não superou. É o passado se projetando sobre o presente”, afirma o psicólogo Marcelo.
Uma situação comum, ainda nesse sentido de projetar emoções, é aquele desejo inconsciente dos pais de garantir à criança algum cuidado, alguma proteção ou alguma atenção que eles mesmos não tiveram. “Ao fazer isso, os adultos esquecem que os filhos são indivíduos. Que eles também têm o direito de construir o próprio caminho, com seus próprios erros e descobertas”, explica. Esquecem que eles podem ter necessidades ou desejos diferentes.
Reconhecer esse comportamento exige coragem e autoconhecimento. “Todos carregamos feridas. Uns as equalizam, outros as revivem constantemente. É preciso separar o que é seu, o que era dos seus pais e o que é do seu filho. Só assim a criança poderá viver a própria história”, afirma o professor.
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Mesmas pessoas, relações diferentes
Outro ponto que causa confusão nas famílias é quando pais e filhos têm relações distintas com as mesmas pessoas — como os avós, por exemplo. “É absolutamente comum que pais e filhos construam relações completamente diferentes com as mesmas pessoas. O avô, por exemplo, não é mais o pai autoritário de antes — ele exerce outro papel social, mais ligado ao afeto do que à autoridade. A nova identidade dele é a de avô, e isso muda tudo”, explica o psicólogo. Portanto, cuidado para não projetar emoções suas nessa nova relação que está se formando entre a criança e o familiar.
“O pai não precisa tentar transmitir ao filho a imagem que ele guarda do avô. São outras pessoas, em outro tempo”, reforça. São também outras funções, outras relações, outro momento. A relação entre avós e netos nem sempre repete as dores do passado.

Segundo o psicólogo, respeitar essas novas dinâmicas é fundamental para a saúde emocional da família. “Quando a gente tenta impor o passado sobre o presente, impede que as pessoas exerçam suas novas personagens. Os avós mudaram, os pais mudaram, e os netos estão vivendo outro contexto. Permitir essas novas histórias é respeitar o movimento natural da vida — o da metamorfose”, afirma.
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Histórias únicas
Permitir que a criança viva sua própria trajetória não é apenas um presente, mas um investimento no futuro. “A liberdade de vivenciar o mundo transforma a criança em um ser emancipado, capaz de traçar seu próprio projeto de vida. Ela passa a ser autora e atriz da sua história, e isso é profundamente positivo”, explica Marcelo.
Essa liberdade fortalece a autoestima e a capacidade de decisão – mesmo diante de adversidades. “A criança aprende a lidar com suas próprias ansiedades, em vez de ser impactada pelas ansiedades dos pais. Desenvolve resiliência e tolerância à frustração, que são competências fundamentais para a vida adulta”, diz o especialista.
É claro que isso não significa que os pais não devem ficar atentos, não devem proteger os filhos ou deixar de evitar situações claramente tóxicas ou perigosas. O problema está em querer poupá-los de tudo e projetar emoções suas ou dores e medos pessoais. Às vezes, até mesmo do que ainda nem aconteceu ou sequer vai acontecer.
Segundo o professor, o papel dos pais deve ser capacitar o filho para a autonomia. “A criança precisa aprender a confiar em si mesma, a se reinventar. O que os pais podem fazer é oferecer base segura e espaço para que isso aconteça. O resto é dela. E deve ser dela”, aponta.
Como acolher as próprias dores — sem repassá-las
Para romper o ciclo da superproteção, Marcelo defende o exercício diário da autorreflexão e da autocompaixão. “Não se trata de apagar a própria dor, mas de acolhê-la. É preciso reconhecer que ela faz parte da sua história, mas não precisa ser revivida através do seu filho. Se for difícil lidar com isso sozinho, buscar ajuda é um ato de amor — por você mesmo e pela criança”, observa.
Algumas atitudes práticas podem ajudar:
- Identifique e nomeie as suas emoções. “Diga a si mesmo: ‘Estou ansioso porque tenho medo de que algo aconteça’. Isso ajuda a administrar o sentimento sem projetar emoções no outro”, diz o professor.
- Aceite o luto pela infância que já foi. “A sua infância não é a do seu filho. Superproteger não resgata o passado”, ensina.
- Troque o papel de solucionador pelo de apoiador. “Em vez de resolver, pergunte: ‘Como você acha que pode fazer?’ Isso estimula a criança a desenvolver estratégias próprias”, afirma.
ESTANTE QUINDIM
Conheça três livros já entregues à Família Quindim que mostram a importância do acolhimento das crianças sem projetar emoções e sem que elas percam a liberdade de desenvolverem sua autonomia:









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