Seis meses se passaram desde a promulgação da norma que proibiu o uso de celulares nas escolas brasileiras — a Lei número 15.100/2025. Além da legislação federal, estados e municípios também publicaram leis com o objetivo de ajudar as instituições de ensino a gerenciarem as novas regras, o que por si só é um desafio e tanto!
No caso da legislação municipal paulistana, por exemplo, um dos artigos garante espaço para que as próprias escolas tenham liberdade para criar normas complementares que se adequem à realidade de cada uma. Assim, passado o primeiro semestre letivo, cada colégio já consegue avaliar o que deu certo com a nova lei e o que ainda pode ser lapidado.
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Geração Ansiosa
Muitos já esperavam que o processo de retirada dos smartphones seria difícil. E não é à toa. De acordo com Jonathan Haidt, psicólogo norte-americano e autor do best-seller “A Geração Ansiosa”, a exposição excessiva às telas que menores de idade enfrentam tem causado algo muito parecido com uma epidemia silenciosa, com sintomas bem característicos e graves.

É o que aponta Thelma Polon, diretora pedagógica da Escola Eliezer Max, no Rio de Janeiro (RJ). Segundo a educadora, o colégio já havia reparado que, desde a pandemia da covid-19 — época em que houve um aumento na exposição às telas em praticamente todas as faixas etárias —, os alunos estavam passando mais tempo no ambiente digital e, em paralelo, o número de casos de adoecimento mental crescia. Assim, mesmo antes da nova legislação ser publicada, a escola reuniu uma equipe de psicólogos, educadores e outros especialistas para debater o assunto e entender, em conjunto com toda a comunidade escolar, quais passos o colégio seguiria.
Desse modo, chegou-se à decisão de restringir o uso dos smartphones, mesmo antes das normas serem publicadas. Junto com a promulgação da lei, em 2025, o colégio optou por enrijecer essas regras, montando uma estrutura de armários para que os estudantes mais velhos, que precisam levar o celular, guardassem o aparelho logo cedo e retirassem ao fim das aulas.
o que mudou com a retirada dos celulares das escolas?
Agora, passados seis meses, já é possível perceber diferenças no dia a dia escolar. No intervalo da Escola Eliezer Max, por exemplo, crianças e adolescentes brincam, praticam esportes, conversam, tomam sol e jogam baralho. Entre os alunos do Ensino Fundamental II e Médio, observou-se um aumento na visita à biblioteca, tanto para ler livros no próprio ambiente escolar, quanto para levar para casa.
“O ano começou e a gente sentia um clima e relacionamentos melhores. Crianças brincando e adolescentes se sentindo de certa forma até aliviados (…). A gente tem sim estudantes que estão conseguindo ter um pouco mais de foco nas aulas e professores que entram menos em conflito por falta de atenção por parte dos alunos”, conta Thelma.
Ainda assim, segundo a diretora, há flagras eventuais de alunos que tentam usar os aparelhos em sala. Quando isso acontece, os estudantes são chamados para uma conversa para lembrarem o porquê das regras. “Não é apenas o cumprimento de algo restrito e autoritário. A gente está falando de um pacto para melhorar a saúde física e emocional de todos nós. Esse pacto é importante para que aprendamos a usar e se relacionar com a tecnologia disponível no mundo de forma responsável”, defende a docente.
Em números
Os adolescentes do Eliezer Max contam com uma disciplina eletiva chamada de “Observatório Jovem”, em que eles pesquisam temas relacionados ao cotidiano escolar. Em março deste ano, os estudantes apresentaram uma pesquisa revelando qual o relacionamento de alunos e professores com os celulares e quais os efeitos do banimento dos smartphones na escola até então.
Segundo os dados coletados pelos próprios alunos, estudantes do 5º ano à 3ª série do Ensino Médio perceberam melhora na socialização e foco desde o início do ano, já os professores destacaram que há mais interação e menos ansiedade. 56,6% dos alunos do Ensino Médio sentem que a medida fez bem; 60,4% dizem prestar mais atenção nas aulas e 71,7% sentem falta do celular no colégio. Já entre os estudantes do Ensino Fundamental II, 79,1% sentem que a noção de lazer está relacionada com aparelhos eletrônicos.
A falta do vício

Ansiedade, irritabilidade e desregulação emocional. Esses são outros sintomas que, segundo Jonathan Haidt, atingem crianças e adolescentes dependentes de telas. Curiosamente, esses foram alguns dos resultados que a Emef Profª Lia Maria dos Reis de Jesus Souza Silva, em São Paulo (SP), identificou após a proibição do celular dentro das escolas. “É como se eles estivessem em abstinência, principalmente os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental”, conta Aline da Costa Silva, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental II. “Eles não conseguem conviver mais um com o outro, tudo é muito conflituoso. Agora, eles não têm mais como se isolar no mundo deles, então eles acabam procurando alguma questão de convivência. Estamos tendo muitos casos de indisciplina, ofensa e até bullying.”
De acordo com a coordenadora, as escolas ainda têm um longo caminho a percorrer para conseguir chegar a um ponto estável nesse novo cenário. Algumas adaptações foram feitas na Emef, como a fixação de placas sinalizando a proibição dos celulares e indicando o número dos decretos. A direção também fez um tipo de recipiente para os casos em que os smartphones são recolhidos. “Outra coisa que percebemos foi que as solicitações de saída para beber água ou ir ao banheiro aumentaram. A gente acredita que eles estão fazendo isso para que possam utilizar o celular no banheiro”, relata Aline.
A coordenadora diz que a escola já esperava que seria difícil. Uma das maneiras que os docentes pensaram de trabalhar com essas dificuldades de relacionamento foi a partir do projeto “Cultura de Paz”, em que são trabalhados com os estudantes valores como respeito, empatia, convivência, tolerância e respeito às diferenças.
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O celular como um aliado
É importante deixar claro que a tecnologia não é vilã para as crianças e adolescentes. Muito pelo contrário: quando bem utilizadas, são grandes aliadas no processo de aprendizado. Por isso que professores tanto da Eliezer Max quanto da Emef Profª Lia Maria fazem uso de celulares e outros aparelhos, como tablets, em momentos específicos. O mesmo é feito nas aulas de Fábio Freire, professor de música do Ensino Fundamental do Colégio São Luís, em São Paulo (SP), e criador do projeto “Beatles para Crianças”. “Na minha opinião, o celular é uma ótima ferramenta para ser usada em sala de aula.”

Fábio diz que já sentiu diferença no andamento das aulas desde que os celulares passaram a ser guardados em nichos. “A aula muda muito, porque você para de dar bronca por conta do celular e consegue ir adiante”, diz.
“Melhora a atenção do aluno, as notas e a participação nas atividades. O lance do celular é que ele fica sempre te chamando para um outro lugar; você está presente aqui, mas está com a cabeça em outro canto. Então [essa mudança] deixa o aluno com o corpo e a mente presentes na sala.”
No entanto, sempre que necessário, Fábio continua pedindo para os estudantes pegarem os celulares dos armários para atividades em sala, como gravação de podcasts, músicas e o uso de outros aplicativos. “Tem que saber usar e é isso que eles ainda não sabem, né? Então aí tem que ter a imposição, para eles entrarem no eixo. Mas eu acho uma ótima ferramenta.”
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Estante Quindim
Conheça 3 livros infantis que convidam os leitores a olharem para longe das telas e reconhecerem que o mundo real pode ser ainda mais envolvente e proporcionar experiências únicas.








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