De mãos dadas e girando em círculo, ao ritmo de versos cantados, a ciranda é muito mais do que uma dança de roda tradicional do nosso país. Ela é uma celebração da união e do acolhimento, uma manifestação cultural em que todos que entram na roda se sentem incluídos, vivenciando a alegria do estar junto — algo que, muitas vezes, se perde na agitação e crescente digitalização do dia a dia.
“A ciranda é uma cultura brincante. Na ciranda se brinca, se conversa, tudo com amor, com carinho e com dignidade”, disse Lia de Itamaracá, considerada a Rainha da Ciranda, para o podcast Brasil de Fato em parceria com a Aliança pela Infância. Diante dessa definição, não é para menos que, em 2021, a Ciranda do Nordeste foi registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil — título que garante proteção para que essa expressão artística seja valorizada, beneficiando os mestres, grupos e comunidades que mantêm a tradição viva.
Uma das maneiras de dar mais visibilidade à ciranda, indo além da dança de roda em si, é levar a tradição para outros espaços culturais. Um deles é o da literatura, como faz a obra “Uma ciranda para Lia”, de Cristiano Gouveia e Layla Cruz (Editora Caixote), já entregue à Família Quindim. Nesse mergulho circular, os autores apresentam a história de Lia de Itamaracá. E fazem isso de um jeito muito especial: ao ser aberto, o livro reproduz o formato de uma ciranda enquanto narra, com muita poesia e ritmo, a trajetória de Lia.

“O livro nasceu dentro da sala de aula, em 2022, […] onde eu, Layla Cruz e Thaís Carone dávamos aulas. Na época, estávamos desenvolvendo uma proposta de estudar a ciranda com crianças de 2 e 3 anos. Eu dava aulas de música, Thaís dava aulas de artes visuais e Layla era professora de referência da turma. Thaís e eu criamos a proposta de trazer a Lia de Itamaracá. A cada aula, as crianças, ‘guiadas’ pela Lia e suas músicas, brincavam, criavam, dançavam ciranda”, conta Cristiano.
Segundo ele, Layla logo embarcou na proposta, trazendo ilustrações da Lia em diversas situações. “Thaís usava as ilustrações da Layla para elaborar atividades de artes visuais com as crianças. E eu escrevia versos para cantar e brincar. Ao fim do bimestre, as crianças coroaram a Lia como rainha da ciranda, e nós coroamos as crianças como novas mestras da ciranda. Foi um projeto muito bonito, as crianças amaram conhecer a Lia, amaram a ciranda”, relembra Cristiano Gouveia, um dos autores de “Uma ciranda para Lia”.
Diante dessa experiência, Cristiano e Layla decidiram transformar o projeto em livro. E o formato de ciranda para a obra surgiu quase que naturalmente: “Desde o começo, a Layla trouxe a ideia de ser um livro sanfonado, para que pudesse virar uma ciranda. Então, de alguma maneira, fomos pensando nessa estrutura. Sobre a escrita, escolhi desde o começo escrever o texto em versos, por entender que faria muito sentido pensar o texto com o ritmo das redondilhas maiores (versos de sete sílabas) e com a sonoridade das rimas”, explica Cristiano.
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como se faz a ciranda?
A coletividade é parte fundamental da ciranda: os mestres e mestras cantam os versos principais e o coro responde, enquanto todos dançam de mãos dadas em um círculo fechado. Enquanto isso, o ritmo é marcado por instrumentos de percussão, como o surdo.
E existem estilos diferentes. Por exemplo, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a ciranda é mais rápida e também pode ser chamada de “pé duro” ou “avexada”. Já na Região Metropolitana do Recife, é mais lenta e conhecida como “ciranda de embalo”. A tradição também se faz muito presente em locais como a Paraíba e áreas da região Norte do Brasil.
Não existe um consenso entre os pesquisadores que estudam o tema sobre qual é a origem da ciranda, mas acredita-se que ela tenha surgido em Portugal. De acordo com Antonio Ailson Cavalcante de Amorim, no artigo “Ciranda cirandinha: uma história cultural popular vista de baixo”, o nome teria origem no termo espanhol “zaranda”, um instrumento usado para peneirar farinha.
Ao que tudo indica, os primeiros registros no Brasil são do século 18, principalmente na região Nordeste, com músicas que falavam sobre o campo, as praias e o amor, por exemplo. O mais provável é que, nesse início, a ciranda se fizesse presente entre trabalhadores rurais, pescadores e operários de construções, caracterizando-se como uma expressão popular.
Mais tarde, na década de 1970, chegou às grandes cidades, como às pernambucanas Recife e Olinda, além de também já existir em outras regiões, como em parte do litoral do Rio Janeiro, interior de São Paulo e no Amazonas. Com o tempo, ganhou o país.
“A ciranda é um exercício lindo de coletividade, dentro de uma prática divertida, que encanta quem participa dela. É uma celebração da importância da brincadeira como elemento não apenas das crianças, mas dos adultos também. O resgate, o respeito, a celebração e a continuidade não só da ciranda, mas das manifestações populares, são de extrema importância. Estudar suas origens, celebrar e valorizar os mestres e mestras da cultura popular, levar as histórias, o repertório cultural e a sabedoria ancestral afroindígena brasileira para a sala de aula — tudo isso é fundamental para que estudantes possam respeitar e valorizar tais manifestações”, pontua Cristiano.
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lia de itamaracá, a rainha da ciranda
Maria Madalena Correia do Nascimento, a Lia de Itamaracá, nasceu em 12 de janeiro de 1944, na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco. Ela começou a cantar ciranda aos 12 anos e, aos 19, já se apresentava em teatros e praças.
Lia foi cozinheira de um restaurante na ilha e merendeira de uma escola estadual, profissão que seguiu exercendo em paralelo à carreira artística. Em 1998, aos 34 anos, lançou seu primeiro disco. Dois anos depois, com o álbum “Eu Sou Lia”, foi reconhecida internacionalmente, nos Estados Unidos e na Europa. Em 2005, Lia de Itamaracá recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Cristiano Gouveia contou ao Clube Quindim como Lia de Itamaracá entrou em sua vida, bem antes de o livro “Uma ciranda para Lia” tomar forma. Ele conta que sempre gostou muito de pesquisar sobre cultura popular, na música, nas artes visuais e na literatura. Além disso, sua família sempre cultivou raízes em manifestações da cultura popular.
“Descobri que meu pai participou do grupo de Bacamarteiros de Caruaru, em Pernambuco, e que meu avô, pai de minha mãe, tocava violão, rabeca e construía rabecas lá em Fortaleza, Ceará. Sabendo dessa relação familiar, a cultura popular passou a ganhar cada vez mais espaço na minha vida. Passei a estudar e a escrever literatura de cordel e a me aprofundar na música. Quando ouvi a Lia pela primeira vez, logo me encantei”, lembra ele e recorda: “Já estudava música e me encantei com aquela mulher incrível, alta, cantando cirandas com aquela voz potente. Quando tomei os caminhos da educação musical, muitos anos atrás, acabei levando esse meu referencial cultural para a sala de aula”.
a vida como um ciranda
É comum que a ciranda esteja presente durante a primeira infância, como na Educação Infantil — foi assim, por exemplo, que surgiu o livro “Uma ciranda para Lia”.
Para as pesquisadoras Maristela Loureiro e Sonia R. Albano de Lima, no artigo “As Cirandas Brasileiras e sua inserção no ensino fundamental e nos cursos de formação de docentes”, “[a ciranda infantil] tem conteúdo socioafetivo e expressão simbólica por incluir tradição, música e movimento. Nela as crianças acrescentam coreografias ao ritmo de cantigas infantis e, quando utilizadas em contextos escolares, permitem o desenvolvimento físico, emocional e intelectual das crianças e dos jovens. É uma dança democrática que não estabelece hierarquias, pois não possibilita a existência de um solista. Qualquer um pode bailar com expressões corporais naturais e singelas”.
Por ter como centralidade o acolhimento, sem distinguir classe social, idade, cor ou gênero, alguns estudiosos associam a ciranda ao conceito de “circularidade cultural”, em que a cultura se associa ao que está sempre em processo e em movimento — algo que se assemelha também à maneira como o mundo se organiza, em ciclos que nunca param, como uma roda de ciranda que mantém seu processo vivo enquanto gira, sem intervalo.
Tudo isso conecta crianças e adultos. “[A ciranda] é uma junção de muitas coisas que encantam não apenas as crianças, mas a todos: a música, a poesia, o movimento, o brincar junto. Você pode participar cantando, dançando, tocando os instrumentos. É um brinquedo muito agregador, pois convida todo mundo a participar. É fácil de aprender. E há algo muito especial em aprender junto — sobretudo para as crianças, que descobrem no outro uma forma de brincar e crescer”, conta Cristiano Gouveia.
O autor de “Uma ciranda para Lia” finaliza destacando a relevância de manter a tradição da ciranda viva: “É importante que as manifestações sejam cada vez mais conhecidas e estudadas — nas escolas, nas universidades — enquanto expressão cultural viva, com suas origens, seus mestres e mestras e seus modos de fazer. A partir deste estudo, vamos construindo um respeito a essas práticas. Com conhecimento e respeito, é importante buscar também a valorização desses grupos ligados a essas tradições. Valorização cultural, financeira, com apoio da população, dos governos, das instituições, para que essas artes tão profundas possam seguir vivas e ser transmitidas às novas gerações”.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que celebram a cultura popular brasileira, como a ciranda:








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