Há um tipo de tempo que não se mede nos relógios nem nos calendários, mas dentro do qual histórias inteiras podem acontecer: é o tempo no livro ilustrado, aquele no qual mergulhamos quando somos envolvidos por uma boa narrativa. É um tempo de escuta, de silêncio, de contemplação pelo olhar que se demora nas páginas e em cada ilustração – um tempo de transformação.
Um estudioso desse tempo no livro ilustrado é Odilon Moraes, autor e ilustrador com décadas de dedicação à literatura para pessoas de todas as idades, sobretudo crianças e jovens. Com uma sensibilidade refinada ao longo dos anos, é em sua companhia que vamos entender mais sobre o papel do tempo na construção das narrativas visuais e textuais, e como os pequenos encantos tornam um livro ilustrado uma verdadeira experiência de tempo vivido.
O livro como tempo encadernado
Curador do Clube de Leitura Quindim, Odilon Moraes é ilustrador, escritor, pesquisador e professor. Formado em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, já ilustrou mais de 100 obras, com as quais colecionou muitas premiações, como o Jabuti e o Adolfo Aizen, prêmio da União Brasileira de Escritores. Enquanto se dedica a estudar o livro ilustrado, seu próprio trabalho é referência para outros pesquisadores.
Para Odilon, “a grande beleza, a grande magia do livro, é que o livro é um tempo encadernado. Embora seja um objeto espacial, como um lápis ou uma caneta, ele, pela configuração das dobras da folha, se torna também um objeto em que a passagem de uma folha para a outra é espacial e, também, temporal. [Ou seja] Uma página antecede a outra não só espacialmente, mas também temporalmente. O livro é tempo. A arte do livro é a arte de trabalhar com o tempo”.
É com essas palavras que passamos a compreender como a leitura deixa de ser apenas uma sequência de páginas e ilustrações, e passa a ser uma travessia, onde cada virada de página entrega um pedaço da história, do tempo e da experiência do leitor. São as escolhas do autor e do ilustrador que vão determinar como se dá essa travessia na história.
“Num livro tradicional, podemos até esquecer que as páginas são tempo, mas no livro ilustrado, não, [porque] você regula a quantidade de texto por página, a quantidade de imagem, se a página é dupla ou simples, se está fragmentada em quadrinhos. Tudo isso altera o tempo narrativo, à medida que você fragmenta de uma maneira ou de outra, você pode acelerar ou fazer com que o tempo passe mais devagar.” explica Odilon.
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Tempos que se sobrepõem
Uma das riquezas do livro ilustrado está na convivência de dois tempos: o tempo do texto e o tempo da imagem. Nem sempre eles coincidem, e é justamente nesse suposto descompasso que o leitor é provocado a pensar, sentir e imaginar mais profundamente. Odilon destaca que, mesmo quando o texto e a imagem dizem a mesma coisa, ainda assim são pontos de vista diferentes sobre os acontecimentos.
“Por exemplo, eu tenho um livro chamado Rosa, onde as palavras acontecem no tempo em que o narrador está dizendo que foi quando ele nasceu. Mas a sequência de imagens está mostrando o tempo onde ele já virou homem, e está voltando para o lugar onde nasceu. Então, você tem dois tempos acontecendo simultaneamente dentro da narrativa, só que o leitor vai perceber que a palavra se refere a um tempo anterior e a imagem se refere ao tempo presente, que é onde está acontecendo a história. Com esses duplos elementos, a palavra e a imagem, você pode jogar com tempos diferentes”.
No livro ilustrado, essas decisões não são meras escolhas estéticas. Elas constroem a maneira como o leitor vai sentir a história, seja ela mais acelerada ou contemplativa, com pausas longas ou com fluidez.
Até o formato do livro comunica ritmo, já que um livro horizontal, por exemplo, costuma ter um tempo de leitura mais lento do que um livro vertical, justamente porque a passagem das páginas se dá de outra maneira. E essa sobreposição dos tempos, longe de causar confusão, amplia a compreensão da história. O leitor percebe que há mais de uma camada narrativa acontecendo, sua escuta se torna mais atenta, e seu olhar, mais profundo.
O tempo nas entrelinhas
Além de tudo isso, os livros ilustrados trabalham com lacunas, ou seja, o que não está representado. Aquilo que acontece entre uma imagem e outra, entre uma página e outra, é tão importante quanto o que está nas páginas. Para Odilon, no livro ilustrado as coisas acontecem nesses intervalos.
O autor nos lembra que, para contar uma história, é preciso construir uma sequência — e, quando há imagens, elas vão se completando. Mas, diferente do que acontece no cinema, onde as imagens se sucedem tão rapidamente que esquecemos se tratar de uma sequência de fotografias, no livro é o leitor quem precisa fazer essa junção. É ele quem conecta as imagens e dá continuidade à narrativa visual.
“Pode ter uma cena onde tem um menino num ponto de ônibus e na cena seguinte ele está dentro do ônibus. O leitor vai concluir, ao ver essas duas cenas, uma seguida da outra, que o menino deve ter chamado o ônibus, o ônibus deve ter parado, ele deve ter subido e sentado. Tudo isso que está sendo dito nesse intervalo entre as duas imagens é um tempo narrativo também. À medida que você fragmenta mais, você desacelera [a leitura]. À medida que você fragmenta menos, você acelera; a passagem do tempo não se dá só nas páginas, mas também entre os fragmentos tanto de imagem quanto de texto”.
Portanto, podemos dizer que esses “vazios” são, na verdade, espaços férteis que ajudam o leitor a compreender que nem tudo precisa ser dito, pelo contrário, muito pode ser sugerido. Esse jogo entre o que se mostra e o que se esconde, ou se omite, é também uma forma de ensinar sobre o tempo, sobre as lacunas e os silêncios da própria vida.
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A sutileza na passagem do tempo no livro ilustrado
A passagem do tempo nos livros ilustrados pode aparecer de maneiras muito sutis e delicadas, tanto nas imagens quanto no texto. Nas ilustrações, podemos notar pequenas mudanças no cenário, na luz, nas cores, nos objetos, em uma roupa diferente do personagem, ou no corte de cabelo que mudou. Já no texto, pode ser uma mudança tão pequena quanto impactante, como o tempo verbal de uma única fala. Quer ver só? Odilon dá um exemplo.
“Estou acabando de ilustrar um livro, com texto da Carolina Moreyra, em que o foco da história está nas lagartas, que vão virar casulos e depois borboletas. As crianças estão brincando com as lagartas e tudo está sendo contado no tempo presente, até que chega um momento em que a borboleta sai do casulo e o texto fala: ‘a vovó teria gostado de ver’. [Com isso] Você entende que a avó está ausente. Uma mudança no tempo verbal constrói um espaço temporal dentro da imagem também. São formas sutis de trabalhar com o tempo dentro do livro ilustrado”, diz Odilon.
Para perceber esses indícios, é preciso estar atento. Essas escolhas delicadas permitem que o leitor compreenda o tempo não só como uma cronologia de fatos, mas como memória, como perda, como saudade. Os livros ilustrados, nesse sentido, são uma poderosa introdução ao tempo emocional, aquele que se entrelaça com os nossos afetos.
Tempo de estar junto
Ler um livro ilustrado com uma criança é, acima de tudo, um gesto de desaceleração, de atenção plena, de encontro e presença. O adulto que lê não é apenas um mediador de palavras, mas alguém que compartilha com a criança tanto o tempo da leitura, propriamente dito, quanto o que se passa na narrativa.
Respeitar, e apreciar, esse tempo é valorizar a infância e o ritmo de quem ainda está aprendendo a nomear o mundo, a reconhecer emoções, a construir memórias. Ao não apressar a leitura, abrimos espaço para que ela aconteça com profundidade e cheia de afeto. Da mesma maneira, não precisamos nos sentir pressionados a ter todas as respostas. Está tudo bem não saber. Só precisamos mesmo é abrir espaço para observar, escutar e imaginar junto com as crianças.
Estante Quindim
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