“Para onde a mamãe vai quando ela não está aqui?”. A pergunta-título do livro de Carolina Moreyra, ilustrado por Natália Gregorini, abre espaço para um assunto que ainda carrega um estigma. A ideia quase cristalizada de que os filhos devem ocupar totalmente o centro da vida das mães embute juízo de valor na simples ideia de pensar no que pode existir na vida de uma mulher para além da maternidade. Voltar o olhar para atividades, desejos ou realizações que não envolvam os filhos soa “errado”. E parece que sempre tem alguém pronto para perguntar: “Quem está cuidando das crianças?”. Qualquer resposta que não venha carregada de culpa e autopunição pode ser mal interpretada.
No livro, uma menina imagina o que a mãe pode estar fazendo enquanto está fora de casa. Talvez ela esteja viajando pelo espaço, explorando o fundo do mar ou vivendo alguma aventura extraordinária. Entre a fantasia e as situações cotidianas, a criança descobre que a mãe pode estar em muitos lugares e fazer muitas coisas. No fim do dia, ela volta para casa.
Mas há um olhar importante na construção da narrativa: a ausência, nesse caso, não é apresentada como abandono, e não vem acompanhada de remorso ou peso na consciência. Enquanto a mãe está fora, o pai cuida da filha, prepara a comida e participa da rotina. A vida da família continua e o reencontro é leve. Não há aquela necessidade de “compensar” o tempo passado longe.

De uma forma natural, a obra toca em uma questão importante para muitas mulheres: por que trabalhar, encontrar amigos, estudar ou dedicar tempo a interesses pessoais ainda pode despertar a sensação de que se está fazendo algo errado ao se afastar dos filhos?
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Para Thaise Xavier, pesquisadora e fundadora do “Elas Trabalham”, grupo que se dedica a pesquisas e debates sobre a mão de obra feminina, essa cobrança não pode ser compreendida apenas como um sentimento individual, já que também é alimentada pelas expectativas sociais sobre o que significa ser uma boa mãe.
“O grande problema é que vivemos em uma sociedade que prega que um filho deve ser o centro da vida de uma mulher, que só ele será capaz de preenchê-la e que só tendo um filho sua vida ganha significado. Então, essa culpa que ocupava um espaço natural na vida da mãe é inflamada pelo julgamento de uma sociedade que fiscaliza as mães à espera de qualquer deslize que mostre que ela é humana”, afirma Thaise.
TODA MÃE SENTE CULPA? OU É ALGO QUE SE ESPERA DELAS?
Todo mundo sente culpa de vez em quando. Na maternidade, parece que a sensação é multiplicada, o que, provavelmente está mais ligado às expectativas ao redor do que a estar, de fato, fazendo algo errado. O problema é quando isso se transforma em uma cobrança constante, como se qualquer atividade que não envolva os filhos precisasse ser justificada.
A diferença de tratamento entre homens e mulheres é crucial para compreender melhor esse cenário. Enquanto o tempo dedicado ao lazer costuma ser visto como algo legítimo para os pais, as mães ainda são frequentemente questionadas quando estão sozinhas ou fora de casa.
É aquele clássico: ninguém nunca pergunta ao pai onde o filho dele está quando o encontram sozinho, mas para a mãe é a primeira coisa a ser questionado” — Thaise Xavier, pesquisadora e fundadora do grupo “Elas Trabalham”
E esta é uma lógica que ultrapassa o universo dos adultos, viu? As crianças percebem os comentários, comparam a rotina da própria família com a de outras e começam a construir suas interpretações sobre o que significa uma mãe estar ausente. Dependendo das mensagens que recebem, podem associar essa ausência a uma falha materna, e não a uma parte comum da vida.
Por isso, conversar sobre o assunto é também uma forma de ampliar as possibilidades de visão das crianças. A mãe pode explicar onde está, o que faz e por que aquela atividade é importante para ela, sem apresentar cada saída como um sacrifício ou uma situação que precisa ser compensada depois. Você não precisa convencer seus filhos de que a ausência nunca provoca saudade ou frustração. O objetivo é ajudá-los a entender que esses sentimentos podem existir, sem que isso gere dúvidas sobre o amor que recebem.
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ATENÇÃO! AS MENINAS ESTÃO OLHANDO
Este é um assunto importante para todas as crianças, independentemente de gênero. Mas é impossível não reforçar que, quando uma menina cresce vendo a mãe trabalhar, estudar, cultivar amizades e perseguir interesses próprios, ela encontra referências concretas de como uma mulher pode construir a própria vida. Por aí, é possível mostrar que existem diferentes formas de realização pessoal.
“Nossa sociedade ensina para as meninas que ser mãe é tudo que elas devem almejar e para o qual elas devem se preparar desde pequenas, e isso vem limitando o potencial de milhares de nós geração a geração”, afirma Thaise. Segundo a pesquisadora, as referências familiares podem influenciar a maneira como as meninas se relacionam com os estudos, escolhem uma profissão, desenvolvem a autoestima e constroem confiança em si mesmas.

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A mensagem também faz diferença na forma como elas imaginam a maternidade no futuro. Se a experiência de ter filhos é vista como um momento em que todos os outros sonhos precisam ser paralisados ou descartados, elas crescem acreditando que terão de escolher entre constituir uma família e preservar a própria individualidade.
Ver uma mãe que ama os filhos, mas mantém interesses e projetos pessoais, mostra que outros cenários são possíveis. É inegável que a maternidade transforma a vida de uma mulher, mas isso não precisa apagar tudo o que existia antes dela, nem o que virá durante ou depois.
CUIDADO É (OU DEVERIA SER) UMA RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA
Uma das escolhas mais interessantes em Para onde a mamãe vai quando ela não está aqui? é que a presença do pai cuidando da filha não aparece como uma situação excepcional. Ele faz parte da rotina familiar, assim como a mãe, e assume as tarefas necessárias na casa e com a criança. Isso ajuda a questionar uma ideia que ainda comum: a de que o pai atua como um “auxiliar” da mãe nos cuidados com os filhos. É como se a responsabilidade principal continuasse sendo dela.
“É fundamental justamente para as crianças entenderem que o cuidado com elas e com a casa é um dever do pai e da mãe”, explica Thaise. Essa representação permite valorizar o trabalho envolvido nas tarefas domésticas e no cuidado, mesmo quando não existe remuneração.

A divisão das responsabilidades tem impacto direto na vida das mulheres. Quando os homens são reconhecidos como cuidadores capazes e responsáveis, as mães deixam de ocupar automaticamente o lugar de únicas pessoas a quem os filhos recorrem.
A mensagem também é essencial para os meninos. Aprender desde cedo a participar das tarefas da casa, cuidar de outras pessoas e assumir responsabilidades ajuda a ampliar o repertório sobre o que se espera dos homens na vida adulta.
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Para as mães que seguem com uma profissão, o julgamento vem de qualquer forma. “O trabalho na vida da mulher está sempre no lugar da necessidade ou da ocupação temporária e menos importante”, observa Thaise.
E ainda complementa: “[Pressupõe-se que] o papel principal da vida dela deve ser o de mãe. Então, se ela trabalha por necessidade, vai ser culpada por não poder dar o seu melhor aos filhos; e se trabalha podendo não fazê-lo, então é egoísta ou não pode se dedicar tanto a ele porque isso não deve ser mais importante que a maternidade”.
Falar sobre a realização pessoal das mulheres exige reconhecer que as experiências maternas são diferentes. Há mães que trabalham porque precisam sustentar a família, outras que encontram no trabalho uma fonte de independência e satisfação, e aquelas que gostariam de trabalhar, mas enfrentam barreiras para isso.
Também há mulheres que optam por se dedicar mais intensamente aos cuidados da casa e dos filhos. “É comum que mulheres julguem mulheres por trabalharem fora ou não trabalharem fora, e a raiz disso vem do que cada uma está vivendo: a gente julga na outra uma dor que está em nós e não sabemos como lidar”, defende a pesquisadora.
As diferenças de classe e raça também precisam ser consideradas ao abordar o tema. As condições materiais, as oportunidades de trabalho e a rede de apoio disponível mudam a maneira como cada mulher vive a maternidade. Para muitas famílias, especialmente aquelas sustentadas financeiramente por mulheres, trabalhar não é uma questão de realização pessoal, mas de sobrevivência. “Não é uma disputa de qual dor dói mais, mas que existem dores diferentes”, afirma.
Por isso, defender que as mães possam ter uma vida para além dos filhos não é criar mais uma exigência, como se toda mulher precisasse conciliar carreira, lazer, família e projetos pessoais para ser um bom exemplo. É preciso reconhecer que cada uma tem necessidades, limites e possibilidades diferentes, sem que essas diferenças sejam transformadas em motivo de culpa. Também é urgente abandonar a expectativa de que a mãe precisa dar conta de tudo sozinha. A divisão do cuidado, o apoio de outras pessoas e as condições sociais e econômicas não podem ser ignoradas.
sem culpa materna? como trazer essa conversa para a prática
Uma das primeiras mudanças é observar a maneira como os próprios adultos falam sobre trabalho, cuidado e maternidade diante das crianças – e ajustar a rota, caso seja necessário. As palavras e os comportamentos cotidianos ajudam a construir a ideia de que a vida profissional da mulher tem o mesmo valor que a do homem e de que cuidar da casa e dos filhos é uma responsabilidade compartilhada.
Thaise sugere algumas atitudes que ajudam a ampliar esse repertório desde a infância:
- Incentivar os estudos e os projetos das meninas: mostrar que a formação e a construção de uma vida profissional são importantes, independentemente dos relacionamentos que elas venham a ter no futuro;
- Ensinar os meninos a cuidar: envolver os filhos nas tarefas domésticas e mostrar que a manutenção da casa e o bem-estar de quem vive nela dependem do trabalho de todos;
- Contar às crianças quem a mãe é para além da maternidade: compartilhar experiências, interesses, amizades e atividades que fazem parte da sua vida, inclusive aquelas que existiam antes de os filhos nascerem;
- Tratar o pai como responsável pelo cuidado, não como substituto da mãe: em vez de dizer que a criança vai ficar com o pai porque a mãe precisa sair, reconhecer que ela estará com ele, que também é responsável por sua rotina e seu bem-estar.
Essa última mudança pode parecer pequena, mas ajuda a questionar a ideia de que o pai está “apenas cobrindo” a ausência materna. Não, o pai não está cuidando até a mãe voltar. Ele também a ama e é igualmente responsável. E ajudá-la a compreender isso faz toda a diferença.
No livro, a personagem imagina os lugares onde a mãe pode estar e, no fim, recebe o abraço do reencontro. Ela não escolhe entre sentir saudade e imaginar a mãe vivendo outras experiências. As duas coisas podem existir juntas.

Amar alguém não significa ter a necessidade estar junto o tempo todo. Da mesma forma, cuidar da família não exige que uma mulher abandone tudo o que também a constitui como pessoa. Quando mães e pais mostram, na prática, que o cuidado pode ser compartilhado e que cada integrante da família tem uma vida própria, ensinam as crianças a imaginar relações mais equilibradas.
Meninas crescem entendendo que a maternidade é uma possibilidade e que não precisa encerrar seus sonhos. Meninos chegam à vida adulta compreendendo que cuidar de si mesmo e dos outros também é sua responsabilidade. E ambos podem descobrir que o amor não diminui quando cada pessoa tem espaço para existir além dos vínculos familiares.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que nos convidam a repensar sobre as diferentes camadas do que significa ser uma boa mãe:








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