A maioria dos adultos sente saudades da infância, quando as preocupações eram tão simples quanto estudar, brincar e voltar para casa antes de escurecer. Ainda assim, é comum e esperado que as crianças queiram crescer. Levante a mão quem nunca fantasiou quando era pequeno que seria totalmente independente assim que completasse 18 anos, a ponto de poder comer a sobremesa antes do almoço e não precisar arrumar a cama todos os dias?
Ao mesmo tempo, crescer também pode ser um tanto quanto difícil e doloroso. Vem com desenvolvimento, autonomia, novas habilidades, autoconfiança, mas também traz dúvidas, incertezas, responsabilidades inéditas.
Algumas crianças sentem mais, outras, menos. Contudo, relutar um pouco em algumas fases ou mesmo ter pequenos episódios de regressão, faz parte do desenvolvimento, especialmente diante de momentos mais desafiadores.
Há fases em que os pequenos têm dificuldades com o desmame ou para deixar a chupeta. Outros regridem e, mesmo de já terem aprendido a dormir sozinhos, passam a querer ir para a cama dos pais, buscam colo, voltam a falar como bebês, a chupar o dedo ou mesmo a fazer xixi na cama. Quando a criança demonstra que quer voltar a ser bebê, às vezes, bons diálogos frequentes ajudam, em outras situações, no entanto, é preciso buscar ajuda profissional, dependendo da duração, da intensidade e do nível de sofrimento causado.

Para a neuropsicopedagoga Isa Minatel, há situações em que estes comportamentos indicam que há algo mais profundo em jogo. “O crescimento é a direção natural da vida — o que acontece, às vezes, é que a criança encontra obstáculos emocionais ou relacionais nesse caminho”, aponta.
Segundo a especialista, é por meio do comportamento que os pequenos comunicam o que talvez ainda não consigam expressar com palavras. “Esses sinais podem mostrar que alguma necessidade essencial — de segurança, vínculo, atenção ou previsibilidade — não está sendo plenamente atendida”, aponta. Isso significa que a “resistência em crescer” pode ser o sistema emocional da criança, sinalizando que precisa de mais conexão para poder continuar expandindo.
Mudanças difíceis de engolir
Esses gestos de apego a uma fase anterior aparecem com frequência em momentos de transição: a chegada de um irmão, o início na escola, um luto, separação dos pais, alguma mudança de rotina. Nesses casos, a criança se vê num território novo e sente que precisa voltar para a fase em que se sentia protegida. Para isso, busca algo estável em meio à instabilidade.
No caso da chegada de um novo bebê, por exemplo, a criança pode tentar “voltar a ser bebê” para receber atenção da mesma forma — mas isso pode gerar frustração para todos, porque os adultos interpretam como regressão, e não como um sinal de vulnerabilidade ou mesmo um pedido de ajuda.

A especialista destaca que, mesmo quando o cenário é mais intenso e demanda, inclusive, ajuda profissional, o foco não deve ser “corrigir” o comportamento simplesmente, e sim entender o que está sendo comunicado por trás dele. Afinal, quando a necessidade invisível é identificada e atendida, a resistência tende a desaparecer.
Direto do Instagram: O que é um objeto de transição? Entenda sua importância para o desenvolvimento infantil
O que os adultos podem fazer quando a criança quer voltar a ser bebê?
Cabe aos adultos serem uma base de segurança para os pequenos, em vez de se tornarem mais um obstáculo ou críticos quando esse comportameno de voltar a ser bebê aparece. Em vez de repetir frases como “você já é grande, pare com isso”, os pais ou cuidadores conseguem desenvolver a empatia e compreender melhor o que está acontecendo e, portanto, formas mais eficazes de ajudar, quando tentam ver o mundo pela perspectiva da criança. Pergunte-se, com sinceridade e coração aberto: “O que ela pode estar tentando comunicar?”.
O papel dos pais ou do adulto de referência deve ser o de oferecer acolhimento e direção ao mesmo tempo. “Você convida a criança a alçar voo, mas segura a mão dela até que se sinta confiante para fazer isso”, compara Isa.

Também é importante manter-se aberto o suficiente para enxergar quando você é quem está erguendo uma barreira. Isso porque é comum, segundo Isa, que exista uma conexão direta entre a resistência da criança em crescer e os medos e inseguranças dos adultos.
“Quando os pais não elaboram as próprias emoções em relação ao crescimento dos filhos, eles transmitem insegurança”, diz a neuropsicopedagoga. A criança, que é extremamente sensível, percebe isso e, então, é como se “pausasse” seu processo de crescimento para não causar dor no adulto. “Isso pode atrasar o desmame, o desfralde e até a adaptação escolar. Já atendi muitos casos assim. Em alguns deles a mãe sentia – inconscientemente – que perderia sua função e utilidade caso o filho conseguisse fazer tudo e ficar bem sem ela”, relata.
Fazer a si mesmo perguntas como “Será que é o meu medo de deixá-lo crescer que está fazendo ele se segurar?”, de forma honesta, pode clarear a situação. Quando o adulto amadurece emocionalmente, a criança naturalmente volta a avançar.
5 estratégias práticas para apoiar seu filho nos momentos de transição
Depois de entender o que seu filho está comunicando ou de elaboras as próprias questões, quando elas pertencem a você, há algumas dicas práticas que podem colaborar para transformar o “não quero crescer” em “quero crescer, mas preciso de ajuda para me sentir seguro”. Aqui, Isa Minatel aponta algumas delas:
1. elabore rituais de transição
Marque a nova fase que a criança está passando com um gesto simbólico. Por exemplo, vocês podem montar juntos o novo quarto, escolher o uniforme da escola, e até mesmo preparar uma pequena cerimônia de passagem desse período que está sendo mais desafiador.
2. Tenha tempo de conexão exclusiva
Separe um momento diário de presença plena, sem distrações digitais, para que a criança se sinta vista e acolhida. Assim, nessas trocas de afeto, é possível abrir espaço para diálogos sinceros sobre possíveis inseguranças que possam levá-la a ter comportamentos que são associados a sua fase de bebê.
3. Atribua responsabilidades adaptadas às crianças
Permitir que a criança realize tarefas como arrumar a mochila, preparar o lanche e cuidar de algo no ambiente reforça seu senso competência e pertencimento.
4. Pratique a leitura simbólica

Utilize histórias que falem de coragem, mudança, crescimento para que o pequeno comece a criar repertório para nomear suas próprias emoções e se reconhecer nos processos transitórios que está vivendo.
Direto do Instagram: 7 livros infantis para dialogar sobre emoções desafiadoras
5. Evite comparações com o passado
Em vez de dizer frases como “você não fazia isso antes”, use algo como “vejo que agora você está precisando de mais colo; tudo bem, eu te acolho”.
Quando há segurança, vínculo e amor percebido, a criança cresce de forma saudável e feliz. Ao longo deste processo, tanto os adultos, como os pequenos podem descobrir juntos que amadurecer não significa se afastar, mas transformar o vínculo, sem perder o afeto. “Crescer não é deixar de ser criança — é ser cada vez mais inteiro”, resume a especialista.
estante quindim
Conheça três livros já entregues à Família Quindim sobre fases e situações que podem levar a criança a querer voltar a ser bebê e como acolhê-la por meio da literatura para infâncias:









8 brincadeiras para aguçar o lado artístico da criança
Por que é importante conversar com as crianças sobre ditadura
Solidão na infância: o que as crianças de hoje precisam para criar vínculos reais