O contato com a poesia durante a infância desempenha um papel fundamental para o desenvolvimento infantil. Além de despertar a criatividade e a imaginação, ler ou ouvir poemas estimula a expressão verbal das crianças e contribui, inclusive, para o aprimoramento da memória. E um dos autores brasileiros mais expressivos dessa arte literária é, sem dúvida alguma, Carlos Drummond de Andrade.
Não é à toa que o Dia Nacional da Poesia é comemorado no dia 31 de outubro: uma homenagem ao aniversário do poeta mineiro, que nasceu em Itabira, em 1902, e é considerado um dos principais nomes não só do Modernismo (um amplo movimento artístico e cultural da primeira metade século 20, que valorizou a cultura popular e a língua coloquial), como da poesia brasileira.
Os poemas de Carlos Drummond de Andrade giram em torno do cotidiano, das emoções humanas e de reflexões sobre a vida, o tempo e a sociedade e podem ser apresentados a crianças de diferentes faixas etárias. Essa é uma forma valiosa de aproximá-las da linguagem poética de maneira sensível, estimulando a curiosidade e o gosto pela leitura desde cedo.
Para ajudar pais, cuidadores e professores nessa missão, realizamos uma curadoria com famosos poemas de Drummond. Abaixo, você confere a lista completa de textos, que ainda traz contos e crônicas do escritor, além de um breve resumo sobre a vida e a obra do autor.
Sumário
- 10 poemas de Carlos Drummond de Andrade para ler com crianças
- Crônicas e contos de Carlos Drummond de Andrade
- Quem foi Carlos Drummond de Andrade?
10 poemas de Carlos Drummond de Andrade para ler com crianças
Veja, a seguir, 10 poemas de Drummond para ler com o seu filho e se encantar com a poesia de um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos:
1 . No meio do caminho (Carlos Drummond de Andrade)
“No meio do caminho” é uma das obras-primas do poeta mineiro. Publicados em 1928, na Revista Antropofagia, os versos do mais famoso poema de Carlos Drummond de Andrade dizem respeito aos obstáculos que encontramos na vida.
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
2. O poema de sete faces (Carlos Drummond de Andrade)
“O poema de sete faces”, publicado em Alguma Poesia (1930), é uma das composições mais populares do autor brasileiro. Neste poema de Drummond, podemos observar sentimentos de inadequação e solidão do indivíduo apresentados num tom sensível, capaz de explorar emoções e dores atemporais.
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul
Não houvesse tantos desejos
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste?
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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3. Verbo Ser (Carlos Drummond de Andrade)
“Verbo ser” começa com uma pergunta que todos ouvimos na infância: que vai ser quando crescer? Neste poema, Drummond brinca com o verbo “ser” para refletir sobre identidade, escolhas e imposições da sociedade. O texto foi publicado na série Boitempo, originalmente composta por três livros — Boitempo (1968), Boitempo: menino antigo (1973) e Boitempo: esquecer para lembrar (1979) —, mas condensada em dois volumes nas edições mais recentes. As obras reúnem poemas da fase memorialística do autor sobre sua infância e juventude.
Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
4. Brincar na rua (Carlos Drummond de Andrade)
“Brincar na rua” também faz parte da série Boitempo e reflete sobre a efemeridade do tempo na infância, retratando essa fase da vida a partir da memória e da experiência de brincar livremente na rua.
Tarde?
O dia dura menos que um dia.
O corpo ainda não parou de brincar
e já estão chamando da janela:
É tarde.
Ouço sempre este som: é tarde, tarde.
A noite chega de manhã?
Só existe a noite e seu sereno?
O mundo não é mais, depois das cinco?
É tarde.
A sombra me proíbe.
Amanhã, mesma coisa.
Sempre tarde antes de ser tarde.
5. Cidadezinha qualquer (Carlos Drummond de Andrade)
“Cidadezinha qualquer”, também publicado em Alguma poesia (1930), é um poema de Drummond formado por três estrofes que, a partir da repetição de uma palavra, evidencia a forma vagarosa que caracteriza as cidades do interior. Seria uma homenagem a Itabira?
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
6. José (Carlos Drummond de Andrade)
“José”, publicado no livro homônimo José (1942), também é um dos mais populares poemas de Carlos Drummond de Andrade. Escrito durante a Segunda Guerra Mundial, retrata o clima de incerteza e o sentimento de angústia que dominaram esse período histórico.
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
7. Memória (Carlos Drummond de Andrade)
É possível que você já tenha ouvido este singelo poema de Carlos Drummond de Andrade, intitulado “Memória”, sem saber de sua autoria. Publicado em Claro Enigma (1951), o poema reflete sobre como o tempo é breve e a vida passa com um piscar de olhos. Quase nada permanece e a memória retém o que é importante para cada pessoa. O resto se perde.
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
8. Fruta-furto (Carlos Drummond de Andrade)
Outro poema presente na série Boitempo, “Fruta-furto” retrata de forma nostálgica os tempos de escola de Drummond e a travessura de roubar jabuticabas no quintal do colégio, fazendo um trocadilho poético entre as palavras fruta e furto.
Atrás do grupo-escolar ficam as jabuticabeiras.
Estudar, a gente estuda. Mas depois,
ei pessoal: furtar jabuticaba.
Jabuticaba chupa-se no pé.
O furto exaure-se no ato de furtar.
Consciência mais leve do que asa
ao descer,
volto de mãos vazias para casa.
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9. Aula de português (Carlos Drummond de Andrade)
Também publicado no livro Boitempo – Esquecer para lembrar (1979), que tinha o foco na juventude do autor, o poema “Aula de português” é um grande representante do Modernismo, ao fazer uma crítica bem-humorada e irônica sobre o contraste entre a língua viva, falada no dia a dia, e a gramática normativa ensinada nas escolas.
A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.
A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
10. O elefante (Carlos Drummond de Andrade)
Presente em A rosa do povo (1945), o poema “O elefante” ganhou uma edição ilustrada por Raquel Cané, lançada pela Companhia das Letrinhas, e já foi enviado pelo Clube Quindim. No texto, encontramos um elefante em busca de si e de seu lugar no mundo. Ele encanta pequenos e grandes leitores, por meio de uma jornada de descobertas e recomeços. Aqui você vai ler um fragmento, mas pode ouvi-lo na íntegra recitado pela cantora Adriana Calcanhotto, no vídeo abaixo.
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
[…]
Crônicas e contos de Carlos Drummond de Andrade para apresentar às crianças
Muito além dos versos que o consagraram, Drummond também se destacou na prosa e, ao longo de sua carreira, foi um importante cronista de grandes jornais brasileiros, como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Diário de Minas e O Globo. Abaixo, você confere crônicas e contos do escritor voltados para o público infantil e juvenil:
1. O pintinho (Carlos Drummond de Andrade)
“O Pintinho” é uma crônica que foi publicada em 1955 no jornal Correio da Manhã, na Seção Imagens do Tempo. O texto faz uma crítica às pessoas que se interessam pelas coisas (nesse caso, um animal) apenas por estarem “na moda” e que depois são esquecidas por quem as consome. Aqui você vai ler apenas o começo da história, mas pode encontrá-la na íntegra neste link.
Foi talvez de um filme de Walt Disney que nasceu a moda de enfeitar com pintinhos vivos as mesas de aniversário infantil. Era uma excelente ideia, no mundo ideal do desenho animado; conduzida para o mundo concreto dos apartamentos, também alcançou êxito absoluto. Muitos garotos e garotas jamais tinham visto um pinto de verdade, e queriam comê-lo, assim como estava, imaginando ser uma espécie de doce mecânico, mais saboroso. Houve que contê-los e ensinar-lhes noções urgentes de biologia. As senhoras e moças deliciaram-se com a surpresa e gula dos meninos, e foram unânimes em achar os pintos uns amorecos. Mas estes, encurralados num centro de mesa, entre flores que não lhes diziam nada ao paladar, e atarantados por aquele rumor festivo e suspeito, deviam sentir-se absolutamente desgraçados.
2. Os bichos chegaram (Carlos Drummond de Andrade)
Para os jovens leitores, a crônica “Os bichos chegaram”, publicada em 1977 também no jornal Correio da Manhã, mostra a face pouco conhecida de Carlos Drummond de Andrade, amante da natureza e defensor dos animais, como você pode ver no trecho abaixo:
A verdade é que estamos participando de um ato de amor entre bichos e gente, em termos de habitação conjunta. Já não atacamos os animais nem somos agredidos por eles. Confraternização é a palavra. Vieram morar conosco, oferecemos-lhe as partes mais nobres da casa, aceitaram muito naturalmente, e o polvo não é mais jantado por nós. Assiste ao nosso jantar, de seu lugar de honra, bem visível. E como é belo, nada assustador, o seu tentáculo porte!
3. História de Dois Amores (Carlos Drummond de Andrade)
História de Dois Amores (1985), já enviado pelo Clube Quindim, é um conto sobre Osbó, um elefante super de bem com a vida e sua amizade com um pulgo chamado Pul. Em 2013, pela Companhia das Letrinhas, ganhou ilustrações do Ziraldo, e foi reeditado pela Record, com nova capa e imagens inéditas. Eis um fragmento da história:
O elefante nem percebeu que levava um pulgo atrás da orelha. Ou, se percebeu, não deu a menor importância. Mesmo porque ele estava pensando num assunto de que iria tratar mais longe. O assunto era o seguinte: ia pedir a um colega que fizesse o favor de ocupar o seu posto de chefe dos elefantes da manada, enquanto ele tirava umas férias bem merecidas no Rio de Janeiro, a convite do Clube dos Elefantes Cariocas, que lhe contara maravilhas sobre a praia de Ipanema e outros encantos da cidade.
4. Rick e a Girafa (Carlos Drummond de Andrade)
“Rick e a Girafa” está na coletânea de crônicas, poemas e contos O gato solteiro e outros bichos, em uma edição ilustrada publicada pela Record em 2022. Nesse livro, direcionado para o público infantil e juvenil, acompanhamos o engajamento de Carlos Drummond de Andrade na defesa da natureza e dos animais (leia mais sobre isso abaixo, na biografia do autor).
No Jardim Zoológico, neste domingo azul, a girafa olha do alto para as crianças, e parece convidá-las a um passeio no dorso. Há uma escada perto, e se for encostada ao animal, Ricardo (Rick é o seu apelido) poderá chegar até lá.
O garoto mede a distância que vai do chão ao lombo, e julga-se em condições de vencê-la. Uma vez lá em cima, cavalgando o pescoço, e segurando-lhe os chifres, pedirá à girafa, depois de umas voltas pelo Jardim, que o leve por aí, percorrendo o mundo.
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Quem foi Carlos Drummond de Andrade?
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira (Minas Gerais) em 31 de outubro de 1902. Apesar de ter sido um dos principais poetas do Modernismo brasileiro, a obra desse mineiro não se limita a formas e temas de movimentos específicos, pois aborda desde questões existenciais (vida e morte) até situações cotidianas, familiares e políticas, sempre em diálogo com as correntes da época em que viveu.
A infância em Itabira e o início na poesia
A memória da cidade natal, onde passou a infância, está presente em boa parte da obra de Carlos Drummond de Andrade. Depois de sair de lá, o mineiro estudou no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, e em seguida, no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formou-se em Farmácia e fundou A Revista para divulgar o Modernismo no Brasil.
Alguma poesia foi o primeiro livro de poemas de Drummond. Publicado em 1930, tem um título um tanto modesto. Foi editado em Minas e teve só 500 exemplares. Nele você encontra poemas curtos e engraçados, como “Uma cidadezinha qualquer” e “O poema de sete faces”, que você leu nesta curadoria do Clube Quindim. Outros livros importantes são Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940) e José (1942).
Porém, a obra decisiva do poeta é A rosa do povo (1945), sua quinta publicação de poesia. Vale ressaltar que todos os poemas desse volume (são 55 no total) foram escritos enquanto acontecia a Segunda Guerra Mundial. Nessa época, Drummond vivia no Rio de Janeiro e era chefe de gabinete (algo como um secretário) do Ministro da Educação.
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A importância do livro A rosa do povo
A rosa do povo é considerado o maior livro de poesia de Carlos Drummond de Andrade, com poemas mais longos, que até usam recursos dramáticos, parecidos com peças de teatro. Em outros poemas, Drummond traz de volta a “narratividade”, ou melhor, o contar uma história: coisa que sempre existiu na poesia, mas que o Modernismo deixou de lado.
Da primeira publicação até A rosa do povo, os poemas de Carlos Drummond descrevem o cotidiano, o medo, a guerra e a vida desalinhada da cidade. Até esse momento de sua obra existe uma visão do mundo lírica e dramática, em que o conflito principal acontece entre o Eu e o Mundo. O Eu representa o indivíduo — que pode ser o poeta, você, eu, que escrevi este texto, qualquer pessoa que se identifique com os questionamentos pessoais, sociais ou metafísicos presentes no poema.
Por esta razão, podemos dizer que nos poemas de Drummond é possível identificar um personagem que o próprio poeta chama de gauche (lê-se gôche), uma palavra francesa que significa “esquerda”, mas que também é utilizada para se referir a pessoas desajeitadas, tímidas, em conflito com o mundo — como acontece na obra drummondiana — e está explícita nos versos de “O poema de sete faces”:
Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem à sombra, disse:
— Vai, Carlos, ser gauche na vida
Com uma grande importância poética e histórica na obra de Drummond, A rosa do povo é um marco de transição para a fase seguinte do poeta, porque, a partir de Claro Enigma (1951), temos o momento em que ele assume um tom mais existencial, com uma poesia menos ligada aos fatos do dia a dia e mais interessada na essência da vida.
Assim, as primeiras publicações de Carlos Drummond servem como um convite para entrarmos no universo labiríntico do poeta de Itabira que, embora tenha trabalhado como funcionário público durante a maior parte da vida, começou a escrever cedo.
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Drummond e a defesa dos animais
Além de poesia, Drummond produziu também literatura infantil, contos e crônicas. Nem todo mundo sabe que, ao longo de sua carreira literária, o poeta defendeu a vida animal com os meios que tinha ao seu alcance. Tanto é que, ao lado lado da amiga Lya Cavalcanti, ele chegou a criar o “jornaleco” anual A Voz dos que Não Falam, dedicado a essa causa.
Os bichos estão presentes na obra de Drummond como metáforas de afeto, liberdade e vulnerabilidade. É possível notar isso no útimo poema do autor, “Elegia a um tucano morto”. Escrito no fim de janeiro de 1987, o texto é um canto trágico à breve vida de um tucano retirado de seu habitat.
A coletânea O gato solteiro e outros bichos (2022) — que reúne crônicas, poemas e contos e foi organizada pelo neto de Drummond, Pedro Augusto — também evidencia essa face do poeta como defensor da natureza e dos animais.
Homenagens a Drummond
Carlos Drummond de Andrade continuou escrevendo até sua morte, em 17 de agosto de 1987, no Rio de Janeiro. Pouco antes de falecer, naquele mesmo ano, ele foi homenageado pela escola de samba Mangueira, que levou à Sapucaí o enredo “O reino das palavras”. Com esse samba, a escola foi campeã do Carnaval carioca, celebrando a importância da obra do poeta mineiro.
Já em 1989, cerca de um ano e meio após a sua morte, Drummond estampou a cédula de 50 Cruzados novos, rebatizada de Cruzeiro em abril de 1990. A frente da nota (anverso) trazia a efígie do autor e um trecho do poema “Prece de um Mineiro no Rio”, publicado no livro A Vida Passada a Limpo (1973):
Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade
A cédula circulou até setembro de 1992 e, na parte de trás (reverso), ainda trazia outra gravura de Drummond e os versos do poema “Canção Amiga”, publicado no livro Novos Poemas (1948). Confira abaixo na íntegra:
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Estante Quindim
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