Aos 2 ou 3 anos, as crianças já começam a entender diferenciações de gênero, segundo o relatório Combatendo a desigualdade de gênero desde a primeira infância, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Essa diferenciação, por sua vez, é assimilada aos poucos, a partir dos comportamentos observados em casa, no convívio com outras crianças e em ambientes externos.

Assim, são incorporadas associações e ideias do que significa, na sociedade em que vivemos, ser uma menina ou um menino. Atualmente, as discussões já avançaram: separações de brinquedos, cores e brincadeiras, por exemplo, como se fossem exclusivas para meninos ou meninas, já passam a ser questionadas. Mas será que é possível ir além na discussão com as crianças? De alguma forma, ainda na infância, podemos ampliar as conversas sobre como as performances de gênero podem ser questionadas e construídas de maneira mais espontânea?

Para Isabela Venturoza, doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS/USP), com atuação em relações de gênero, masculinidades e feminismos, a reprodução de papéis de gênero começa nos primeiros grupos de socialização das crianças, ainda durante a primeira infância. Esse aprendizado também está relacionado à aquisição da linguagem e à maneira como cada criança passa a interpretar o mundo.

“À medida que as crianças vão adquirindo linguagem e vivenciando símbolos, elas são estimuladas por brinquedos, cores e pelo que fazem as meninas e os meninos dentro da própria casa, pelos pais. Não é tanto uma questão de compreender, mas de incorporar essas referências muito cedo”, explica Isabela, que também é mestra em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e docente de pós-graduação em Antropologia e Sociologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

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Para os meninos, o ódio ao feminino ainda é um dos pilares da identidade masculina 

Quando pensamos na construção de gênero durante a infância, um ponto chama a atenção: enquanto as meninas recebem diferentes estímulos relacionados à pressão estética, às normas de comportamento e às formas de consumo e cuidado — consigo mesmas e com terceiros — como meios de reproduzir a feminilidade, os meninos aprendem que, para além dos símbolos associados ao imaginário masculino, como força, proteção e a ideia do provedor, o ódio ao feminino é uma forma de assegurar sua masculinidade, seja diante das meninas, seja, especialmente, entre os próprios meninos.

Ao rechaçar outros meninos que apresentam comportamentos associados ao feminino, como o interesse por áreas historicamente relacionadas às meninas, a exemplo da moda e da beleza, ou determinados traços comportamentais, como ser mais carinhoso ou permitir-se ser vulnerável, a criança reafirma sua própria ideia de masculinidade.

Construções de gênero
Imagem do livro ‘Valentim de todas as cores’, de Reza Dalvand e Chiara Mezzalama | Foto: Samuel Gregory

Sandro Justo, professor de Sociologia do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolve atividades pedagógicas com estudantes para debater masculinidades, questionar padrões de gênero e prevenir a violência de gênero por meio da educação. Ele explica que as diferenças de gênero, construídas desde cedo, são uma das bases da misoginia.

“Essas diferenças de gênero acabam sendo mobilizadas, principalmente pelos meninos, mas não somente, como uma ferramenta de manutenção de desigualdades e violências de gênero. […] Esse ódio a tudo que é muito associado ao feminino, essas bases simbólicas da misoginia são constituídas desde muito cedo”, pontua Sandro em entrevista à Revista Quindim.

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um movimento orquestrado

Nos últimos anos, um movimento chamado Red Pill — referência à pílula vermelha que revela a verdade sobre o sistema no filme Matrix — ganhou espaço em ambientes digitais, alcançando especialmente meninos e adolescentes. O discurso difundido é o de que meninos rejeitados pelas meninas devem se vingar, pois estariam sendo excluídos pelo grupo feminino. Os conteúdos da chamada “machosfera” são diversos e têm grande alcance: segundo a pesquisa A Misoginia no Brasil, realizada pela Hibou Pesquisas e Insights em março de 2026, 61,1% dos homens e meninos entrevistados já haviam tido contato com conteúdos Red Pill nas redes.

Entre os fatores que ajudam a explicar esse fenômeno está a reação a um movimento anterior: é inegável que, embora ainda a passos pequenos, o movimento feminista ganhou espaço nas últimas décadas. Mulheres conquistaram direitos, ingressaram no mercado de trabalho, alcançaram independência financeira e passaram a se afastar da obrigatoriedade de seguir o roteiro do casamento e da constituição de uma família — o que não significa, é claro, que não possam fazer essas escolhas por vontade própria. As meninas, por sua vez, também refletem essas mudanças, sendo criadas com mais liberdade e igualdade de gênero. Na Sociologia, esse movimento de resposta a uma transformação é chamado de Teoria dos contramovimentos sociais.

Nesse contexto, enquanto cada vez mais mulheres e meninas se apropriam de seus direitos e de sua identidade, a discussão não avança na mesma medida entre os homens, inclusive entre pais e meninos. Assim, surge um “não lugar” para tantos meninos, que se veem ressentidos com o comportamento feminino e também pressionados a provar seu valor enquanto homens.

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Valentim de todas as cores
Imagem do livro ‘Valentim de todas as cores’, de Reza Dalvand e Chiara Mezzalama | Foto: Samuel Gregory

Além disso, há outra questão importante nessa discussão. Para Sandro, o estágio do capitalismo em que vivemos também é um fator crucial para analisar o avanço do movimento Red Pill e da misoginia no mundo. Para jovens que sempre foram ensinados que um dos principais símbolos da masculinidade é a figura do homem provedor, a frustração dessa expectativa diante da realidade também pode abrir espaço para discursos de ódio.

“Esses jovens chegam à conclusão de que essa imagem do homem provedor é pouco realizável, especialmente na sociedade brasileira, por exemplo, onde 40% da classe trabalhadora está no trabalho informal e precarizado. Então, veem ruir na sua frente a promessa da sociedade patriarcal, do homem que provê a todos. O movimento Red Pill consegue se aproveitar dessas contradições, que são reais. Nenhuma ideologia política consegue penetrar de tal forma na sociedade se ela não dialogar em algum sentido com elementos reais”, comenta Sandro.

Esse tipo de conteúdo também afeta as meninas. Nas redes, vídeos com teor de tradwife (esposa tradicional, em tradução livre) também ganham espaço. Vale destacar que a escolha de mulheres de serem donas de casa não é um problema. O cenário se torna preocupante quando cada vez mais meninas passam a questionar ou deixam de se importar com direitos importantes das mulheres, como o direito ao voto, por exemplo. Aos poucos, conteúdos como esses — que chegam a milhares de adolescentes — banalizam temas como a independência feminina, ao mesmo tempo que estimulam o consumo excessivo, associam o feminino a padrões irreais de beleza e reforçam comportamentos de fragilidade e subserviência. 

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não é preciso esquecer tudo o que aprendemos sobre as construções de gênero

Embora as noções de gênero sejam aprendidas e performadas a partir da socialização, é importante entender que, nos diálogos com crianças e jovens, não é preciso assumir uma posição contrária a tudo o que sabemos sobre o que é associado aos gêneros masculino e feminino. Esse é um processo complexo e, na maioria dos casos, delicado até mesmo para os adultos, uma vez que se trata de uma estrutura social antiga e profundamente enraizada, que existe há milênios.

As preferências pessoais de cada criança, mesmo quando correspondem a padrões de comportamento, também pertencem a ela, e nem todos são nocivos. Não há nada de errado em reproduzir o que é socialmente esperado de uma menina ou de um menino. O problema, como ressaltado anteriormente, surge quando essas diferenças são usadas como ferramentas de misoginia e exclusão, como no caso do ódio excessivo a tudo o que está diretamente ligado ao imaginário feminino pelos meninos, ou quando esses padrões são impostos como obrigatórios e geram sofrimento, impossibilitando crianças de se expressarem como são. 

Construções de gênero
Foto: Canva

Isso não significa, por sua vez, que não seja possível conversar com as crianças sobre como somos condicionados a reproduzir padrões de gênero. Nesse sentido, exemplos históricos e a linguagem simbólica podem ser cruciais. O importante é não rechaçar tudo o que pode ser visto como um padrão, o que pode causar, de imediato, ainda mais confusão para os pequenos. O ideal é mostrar que há liberdade para existir de diferentes formas.

Quando a conversa parte de uma posição de ataque ou de definições mais concretas, a primeira reação de muitos meninos e meninas é se defender, o que também pode gerar ainda mais ódio e ressentimento.

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O caminho, muitas vezes, pode ser o inverso: tentar entender e perguntar às crianças o que elas entendem por gênero. A partir das respostas, outras perguntas podem surgir, até que a conversa abra espaço para compreender, aos poucos, que as coisas não precisam ser tão rígidas e polarizadas e que a criança pode existir de maneira mais livre, de acordo com o que verdadeiramente é.

Isabela, que também realiza formações em escolas e promove grupos de atividades e conversas sobre gênero e misoginia, pontua que trazer a própria história para perto das crianças é um bom ponto de partida para iniciar diálogos e promover a abertura.

Não é sobre dar lições de moral, falar o que é certo e errado, mas ajudá-los a refletirem sobre as suas experiências e pensarem como produzir outras formas de estar no mundo, formas mais interessantes para eles e para as pessoas que estão à volta deles — Isabela Venturoza, doutora em Antropologia Social pela Unicamp, mestra em Antropologia Social pela USP, docente de pós-graduação em Antropologia e Sociologia FESPSP e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS/USP)

meninos e meninas são diversos — e a discussão de gênero também precisa ser

Dentro dessa discussão, é importante ressaltar que é perigoso tratar meninos e meninas como grupos homogêneos e opostos, ignorando as diferenças e desigualdades que existem dentro de cada um deles. Os recortes de raça, classe, orientação sexual e os diferentes tipos de corpos também atravessam a forma como essas pessoas são socializadas e vistas.

Por exemplo, para meninos negros, o cenário é completamente diferente daquele vivido por meninos brancos: enquanto estes crescem em uma posição de autoridade e privilégio, os meninos negros muitas vezes são colocados em lugares estereotipados.

Assim, a própria incorporação da noção de masculinidade passa pela compreensão dos papéis que lhes são atribuídos desde cedo por meio de leituras racistas. Já no caso de adolescentes da comunidade LGBTQIA+, as violências também assumem outras formas, especialmente quando eles não correspondem aos padrões comportamentais de masculinidade. Para as meninas, não é diferente: meninas negras, por exemplo, muitas vezes são colocadas em posições consideradas menos “femininas”, enfrentando violências de raça e de gênero que se entrelaçam.

“A gente tem trabalhado com algumas discussões em escolas e em formações de educadores que mostram como a produção científica aponta que existe uma maneira de moldar a masculinidade negra que começa ainda na infância, mudando um pouco o sujeito para habitar certos lugares do mundo e não outros. Às vezes, não há uma expectativa de que esse menino tenha um bom desempenho escolar. Espera-se dele vigor físico, um bom desempenho no futebol. O menino negro também é visto como aquele que vai ser mais bagunceiro, que vai desviar. E isso acaba sendo incorporado, internalizado”, explica Isabela.

Por isso, a discussão sobre a percepção de gênero na infância não deve adotar uma perspectiva universalista, como se todas as crianças vivenciassem as mesmas experiências. Há, também, crianças que não se identificam com definições binárias de gênero. É preciso entender que as características e vivências de cada uma também influenciam a forma como são percebidas e atravessadas pelos padrões de gênero.

Como ampliar, então, o diálogo sobre gênero com as crianças? 

A conversa pode partir de um lugar de acolhimento: em vez de repreender de imediato falas ou comportamentos, pergunte o que os originou e o que aquela criança entende por ser menino ou menina. A partir das respostas, faça mais perguntas e, depois, compartilhe com ela o que significa ser menino ou menina para você. Essa troca pode inverter os papéis e ajudar as crianças a enxergar menos rigidez nas performances de gênero.

Sandro conta que, em rodas de conversa, inicia algumas discussões compartilhando com outros garotos seu maior medo e, depois, convidando-os a fazer o mesmo. “Quando a gente começa a conversar sobre medos, angústias, insegurança e fragilidades, esses meninos acabam sendo, de certa forma, levados a acessar um lugar lá dentro deles que talvez eles nunca tivessem acessado”, reflete o professor.

Com as meninas, o acolhimento também se faz necessário, principalmente diante de possíveis violências de gênero já sofridas. Ouvir e explicar como a realidade funciona — sem criar medo ou aterrorizar, mas buscando explicações concretas —  ajuda a criança a fortalecer a própria identidade diante de alguns sofrimentos. Em casa e em outros ambientes, exemplos e falas contribuem para desenvolver espaços mais acolhedores, assim como a escola pode ser um centro de conversas e debates. 

Construções de gênero
Foto: Canva

A mídia, as produções culturais e audiovisuais, assim como a literatura também têm um papel importante na construção da linguagem e da leitura simbólica de cada criança. É preciso expandir as referências. Ao ver diferentes representações e personagens em animações, filmes, brinquedos, cores, músicas e livros, a criança pode ampliar seu olhar e enxergar o mundo sob perspectivas menos binárias. Dentro disso, a literatura infantil tem um papel importante e pode ser crucial para apresentar diferentes perspectivas sobre gênero na infância.

“Trabalhar com comunidades em diferentes faixas etárias é uma forma de fazer prevenção de violência, prevenção de sofrimento social, estimular a saúde mental, uma convivência ética entre os sujeitos, uma maior autoconsciência já muito cedo, com temas relacionados ao respeito do outro. Começar cedo é fundamental”, conclui Isabela.

estante quindim

Conheça três obras, já entregues à Família Quindim, que nos convidam a refletir sobre as muitas formas como as crianças se expressam no mundo e sobre a importância de respeitá-las nesse processo:

Valentim de todas as cores
Valentim de todas as cores, de Chiara Mezzalama e Reza Dalvand (Boitatá)
OMeninoFloresCabeloCapa Transparente e1743773552234
O menino com flores no cabelo, de Jarvis (Pequena Zahar)
João pé-de-feijão
João pé-de-feijão, de Ing Lee (VR Editora)