Valentim adora cores. Nas manhãs de chuva, veste amarelo para brilhar o dia cinzento. Para a amiga Aline, escolheu o vermelho das bochechas no frio, e o rosa é a cor da amizade que tem com ela e com as outras meninas. Com os meninos é mais complicado, porque eles implicam com as roupas coloridas, com o medo de briga e até com a gentileza dele.
Um dia, os meninos chamam Valentim para jogar bola. Dividido entre a vontade de jogar e o medo de mostrar que é ruim no futebol, ele está prestes a descobrir todas as cores que traz dentro de si, inclusive as mais difíceis.
Na obra da italiana Chiara Mezzalama, com ilustrações do iraniano Reza Dalvand, as cores são uma linguagem, e dizem tudo aquilo que não cabe nas fronteiras estreitas que os outros tentam desenhar para Valentim. Magoado simplesmente por ser quem é, ele reage como consegue: com raiva, com choro, com vontade de ficar em casa. O livro acolhe essa raiva sem julgamento e acompanha, com delicadeza, o caminho que ele encontra para não se apagar. A família está por perto: é a mãe quem o leva a um prédio de seis andares de tecidos, e é o pai quem o abraça no dia em que ele não quer ir à escola.
Nas ilustrações de Dalvand, as cores fazem o mesmo trabalho. Na primeira dupla, Valentim e Aline são dois pontos de amarelo e vermelho no meio de uma multidão cinzenta, debaixo de chuva. Quando a raiva chega, a página inteira fica vermelha e preta. E vale comparar as guardas do começo e do fim do livro para ver o que aconteceu com os fios.
Uma história que abre conversas sobre misoginia, estereótipos de gênero, bullying e as marcas que ele deixa, mas também sobre o que pode ser costurado de novo depois que algo se rasga.