Uma criança e uma onça correm pela floresta, tão misturadas a ela que o mundo fica todo borrado: as árvores parecem ter focinhos, dos tamanduás brotam galhos, e o canto das araras vira música. Mas "tem vezes que o chão brilha mais que as estrelas". O fogo chega, e a corrida, que era alegria, vira fuga.
A obra de André Gravatá é feita de perguntas que se dirigem a quem lê. "Você já correu…?" volta a cada página, como passos, e quando a queimada avança surgem frases curtas, de fôlego curto. Na crescente velocidade dos questionamentos, nos percebemos virando as páginas com mais rapidez, como se também estivéssemos correndo apressados, assustados. As ilustrações de Anna Cunha acompanham esse movimento: as cores vivas da mata vão sendo tomadas pela fumaça, pelo preto e pelo vermelho, e as formas se desfazem como a vida vista em disparada.
As queimadas atravessam a narrativa não como um dado distante, mas como uma experiência que pode ser sentida. E a dedicatória lembra de onde vem esse fogo: no Brasil, os incêndios florestais são causados principalmente por ação humana, como o desmatamento e o garimpo ilegal.
Mas, mesmo assim, a corrida não termina nas cinzas. Uma leitura para fazer em voz alta, devagar ou sem fôlego, e depois devolver à criança a pergunta da quarta capa: você já correu por uma floresta cheia de perguntas?