A figura paterna pode ser um arquétipo bastante conhecido no imaginário popular. Em religiões, mitologias, histórias e contos, um pai talvez sempre ocupe um mesmo lugar: o papel de guardião, mentor, protetor e, em concepções mais antigas, o provedor da família. Mas o que define um pai? Como uma única palavra pode abraçar tantas individualidades?
Em sociedade, padrões de comportamento, atribuições de significado e papéis de responsabilidade são constantemente transformados com o passar dos anos e as mudanças geracionais. Em alguns contextos, essas mudanças são positivas e ampliam discussões: é o caso da maneira como enxergamos a paternidade, por muito tempo terceirizada e sempre colocada em um lugar de menos peso e responsabilidade do que a maternidade. Agora, embora ainda de maneira gradual – vale ressaltar –, isso está mudando.
De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dezembro de 2025, 44,6% das guardas após processos de divórcio foram definidas como compartilhadas. Foi a primeira vez que o número superou o de guardas maternas desde que a Lei nº 13.058, de 2014, estabeleceu que a guarda compartilhada deveria ser priorizada nesses casos. Em 2014, a quantidade de guardas compartilhadas era de 7,5%, em comparação a 85% de guardas maternas.
O debate sobre o papel paterno também tem avançado no campo das políticas públicas. Em 2026, foi sancionada a lei que regulamenta a licença-paternidade e amplia gradualmente o período de afastamento dos atuais 5 dias para 20 dias, de forma escalonada entre 2027 e 2029, reforçando o papel dos pais nos cuidados com os filhos desde os primeiros dias de vida.
Por isso, em meio a tantas ressignificações, em datas comemorativas como o Dia dos Pais, vale se perguntar: o que vem à mente quando se pensa na figura paterna? Essa definição contempla as múltiplas formas de parentalidade ou ainda exclui tantas famílias e tantos pais?
Um encontro com o próprio passado e uma ponte para o futuro
Marcos Luca Valentim, jornalista, comentarista e apresentador dos canais Globo, encontrou nas redes sociais um espaço para compartilhar um pouco da experiência da paternidade. Ao lado da esposa, a dentista Elis Regina, ele divide aprendizados desde o nascimento dos gêmeos Akin e Malik, prestes a completarem 4 anos, enquanto também publica conteúdos sobre jornalismo esportivo em seu perfil no Instagram.
Para Marcos, esse espaço também aproxima outros pais. Mais do que servir como modelo, ele acredita em mostrar possibilidades, sem deixar de reconhecer os próprios erros. Ao mesmo tempo, evita julgar as gerações anteriores: para ele, cada pai faz o melhor que pode dentro do contexto em que vive e viveu.
“Acho que isso nos aproxima um pouco também de exemplos palpáveis de paternidade. Eu não quero ser um modelo. A minha intenção é oferecer possibilidades. ‘Olha, eu faço assim e erro para caramba, mas é sempre tentando acertar’. E você pode ser uma versão de um pai que faz todas as coisas e trabalha, porque a mulher sempre trabalhou. Sempre teve que abdicar de várias profissões, várias vezes, de avançar na carreira para ser mãe. Por que o pai também não pode pensar nisso?”, comenta o jornalista.
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Ao refletir sobre as diferenças entre sua paternidade e a do próprio pai, Marcos reforça que hoje existem novos caminhos para exercer esse papel, mas acredita que é preciso olhar para as gerações anteriores sem condenações: “Antes, era muito mais definido, até historicamente e socialmente, o papel do pai e da mãe na criação da criança. Então, eu fico muito receoso de condenar as gerações anteriores. Meu pai fez o que era possível dentro do contexto em que viveu, baseado no que recebeu do pai dele.”
Foi o nascimento dos filhos, que passaram cerca de um mês internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), que transformou definitivamente sua percepção sobre a paternidade. A experiência o confrontou com medos, incertezas e com a necessidade de se reinventar para estar presente diante dos desafios.
No meu caso, eu me tornei pai quando soube que ela estava grávida. Mas eu não sabia que me envolveria tão profundamente e que não conseguiria ser de outra forma. O amor que nasce com essas crianças, especificamente no caso de quem passa por uma situação delicada como uma UTI, é uma força que entra na tua vida. A força que meus filhos me dão todo dia…” — Marcos Luca Valentim
Um outro ponto destacado pelo jornalista é que, em sua visão pessoal, pai e mãe exercem papéis diferentes, mas igualmente importantes, compartilhando responsabilidades na criação dos filhos. É uma corresponsabilidade, mas que deve respeitar as individualidades e a parentalidade de cada um. E foi justamente essa experiência que despertou nele o desejo constante de ser uma pessoa melhor, conectando passado, presente e futuro: as referências de paternidade que recebeu, o pai que se tornou e o que espera continuar construindo ao lado de Akin e Malik.
“Por mais que eu soubesse que seria um amor muito louco antes da gravidez, eu não tinha noção do quão poderoso seria isso, de mudar a minha vida nesse sentido. De eu querer ser muito melhor só porque eles existem. Isso, para mim, é uma coisa sem igual. O que eles fazem por mim, sem saber, é inacreditável. Por isso, pais, estejam presentes. Seja o pai, não só o provedor, não só o genitor dessa criança, esteja lá, se faça presente. Faça tudo para que essa criança tenha em quem se inspirar.”, declara Marcos.
Ser pai: um sonho realizado
O gerente de vendas Jarbas Mielke de Bitencourt e o fotógrafo Mikael Mielke de Bitencourt vivem no Rio Grande do Sul e são pais de Antonella, de 2 anos. A menina foi a primeira criança da região Sul do país a nascer com material genético das duas famílias de um casal homoafetivo. Ela foi concebida por fertilização in vitro (FIV), com o sêmen de Jarbas e um óvulo doado pela irmã de Mikael, e gestada por uma amiga da família em um processo de útero de substituição.
“Eu sempre tive o sonho de ser pai. Depois que a gente oficializou a união e casou, sentimos que a nossa família estava consolidada e que era hora de aumentá-la. Eu queria muito viver a paternidade, poder estar todos os dias cuidando dela, trocando as fraldas, dando comida, participando da vida dela. Hoje eu abri mão do meu trabalho para me dedicar integralmente à Antonella. Eu realizei o meu sonho”, relata Mikael sobre o significado da paternidade para ele.
Mas a história da paternidade de Jarbas e Mikael começa bem antes. O sonho de ser pai já era algo presente na vida do casal, que estava – e está até hoje – na fila de adoção. O desejo de adotar o segundo filho continua. Para eles, a paternidade foi, além da realização de um antigo desejo, a descoberta de um amor até então apenas imaginado.
“Existem diversas configurações de famílias hoje. E a nossa está entre elas, porque nós somos dois homens. Dois pais. A Antonella não tem mãe. Família é onde tem amor, tem cuidado, tem proteção. Independentemente de ser dois pais, duas mães, um pai e uma mãe ou só uma mãe ou só um pai. Estamos aqui mostrando que nossas famílias existem, elas resistem“, declara Mikael.
Além disso, ao compartilharem nas redes um pouco mais sobre suas vidas e rotinas, Jarbas e Mikael se tornam ponte para diversos outros casais homoafetivos que também desejam se tornar pais. As trocas proporcionadas por esse espaço nas redes também são uma das partes mais valiosas de todo o processo, no perfil “2 Pais da Antonella”, pois a interação é grande.
“A gente recebe muitas mensagens de casais homoafetivos, sejam eles masculinos ou femininos, compartilhando a história deles conosco e também dizendo para a gente que nós estamos sendo inspiração para que eles se encorajem a também serem pais ou mães. É muito bacana”, comenta Jarbas.
Para além de celebrarem a família nas redes, o casal também reacende debates sobre questões importantes a serem pensadas coletivamente – e com políticas públicas – a respeito de diferentes configurações familiares. O uso de banheiros públicos, por exemplo, algo tão comum para casais cis héteros, é uma questão que precisa ser repensada quando se discutem espaços que abraçam, de fato, a diversidade familiar.
“Às vezes, você vai a um restaurante que não tem banheiro familiar, apenas os banheiros feminino e masculino. Como trocar a nossa filha? Não faz sentido levá-la ao banheiro masculino, mas também não podemos entrar no feminino. Hoje em dia, é preciso um banheiro familiar”, frisa Mikael.
Assim, em meio ao crescimento de Antonella, que surge cada vez mais falante nas redes, os dois redescobrem mais de si próprios na paternidade, fazendo questão de ressaltar como essa tem sido a aventura mais feliz – e doce – de suas vidas.
Para eles, além de representarem uma possibilidade para tantos casais homoafetivos, a presença nas redes também é um lugar para reivindicar algo importante: a normalidade. Para que, cada vez mais, casais homoafetivos com filhos não sejam identificados apenas por isso, mas pelo conteúdo que produzem sobre parentalidade, assim como tantas outras famílias.
Eu e o papai Mica não temos rede de apoio. Somos nós que cuidamos de tudo. Mas eu queria dizer para quem sonha com a paternidade, independentemente de ser gay ou não, que realize esse sonho e se permita viver isso. Ter um filho é uma das coisas mais lindas que podem acontecer na vida da gente” — Jarbas Mielke de Bitencourt
O QUE É DEFINE UM PAI: A paternidade que transforma o homem antes mesmo de transformar o filho
Há mais de 13 anos, Thiago Queiroz encontrou nas redes sociais um espaço para falar sobre um tema que, até então, não tinha tanta voz entre os homens na internet: a paternidade. Criador do Paizinho, Vírgula!, escritor, psicanalista e educador parental, ele compartilha a rotina ao lado da esposa, Anne Brumana, e dos quatro filhos — Dante, Gael, Maya e Cora —, mas faz questão de mostrar que a criação dos filhos vai muito além de dicas práticas.
Para ele, tornar-se pai é também um convite para revisitar a própria história, questionar modelos de masculinidade e construir novas formas de se relacionar, em uma reflexão que une seu olhar como psicanalista e, antes de tudo, sua experiência como pai.
Ao longo dos anos, Thiago percebeu que seus conteúdos também passaram a cumprir outro papel: oferecer um espaço seguro para que outros homens falassem sobre medos, inseguranças e sentimentos que, muitas vezes, nunca tiveram oportunidade de compartilhar.
“Eu fico muito feliz de perceber o quanto isso provoca os homens a entrar nesse lugar de vulnerabilidade, porque eles não encontram com quem falar. Recebo todos os dias mensagens dizendo: ‘Eu não tenho com quem conversar sobre isso’. Então, para mim, é muito importante compartilhar também as minhas dificuldades, porque é ali que eu me mostro como pai, vivendo os mesmos medos e alegrias de quem está me assistindo”, aponta.
Na visão dele, a maior mudança da paternidade contemporânea está justamente em ampliar aquilo que tradicionalmente se entendia como o papel do pai. Se antes a figura paterna era quase exclusivamente associada ao sustento financeiro ou outras simplificações do imaginário comum, sempre permeando lugares como proteção e o papel do provedor, hoje ela precisa incluir presença, cuidado e disponibilidade emocional. O mínimo que sempre foi atribuído às mães, e continua sendo.
“O papel de prover precisa ser ampliado. Não é só colocar comida na mesa. É também prover afeto, carinho, presença, estar emocionalmente disponível e ser uma fonte de segurança, e não de medo, para os filhos”, pontua Thiago.
Para ele, quando o homem limita sua participação apenas ao papel de provedor, todos saem perdendo: a criança, a mãe e o próprio pai, que deixa de viver uma das experiências mais transformadoras da vida: “O pai perde uma oportunidade incrível de criar uma relação de tanto afeto que ele nunca viveu na própria vida e, muitas vezes, até se curar através desse processo.”
Essa transformação, segundo ele, também começa antes mesmo de os filhos crescerem. Por isso, defende que os meninos sejam incentivados desde cedo a brincar de cuidar, entrar em contato com os próprios sentimentos e ocupar espaços que, muitas vezes, ainda são destinados apenas às meninas, que desde pequenas aprendem o que significa cuidar de alguém.
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“Eu espero, de verdade, que os meninos tenham a possibilidade de brincar de ser pai. Brincar de boneca não é coisa de menina; brincar de boneca é brincar de ser pai. Essa oportunidade me foi negada, mas eu espero que as próximas gerações possam viver isso”, destaca o psicanalista.
Mais do que ensinar sobre parentalidade, Thiago acredita que compartilhar sua vivência ajuda outros homens a encontrarem caminhos para construir uma relação diferente daquela que tiveram com seus próprios pais. Muitos, segundo ele, sabem apenas que não querem repetir um modelo distante, mas ainda procuram descobrir como fazer diferente.
Nesse Dia dos Pais, eu queria dizer aos homens: se permitam mergulhar nessa relação de amor e afeto. Dá medo, porque o desconhecido assusta, mas nada de ruim acontece quando a gente abre essa porta. É aí que a gente descobre o verdadeiro poder do afeto.” — Thiago Queiroz
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam com as diferentes formas de ser pai, mas com o cuidado de que ele seja sempre presente:

