Ler com um bebê que ainda não começou a falar pode parecer estranho para muitos adultos, mas o vínculo criado e fortalecido nesses momentos vai muito além das palavras. É no aconchego do colo, no calor de um abraço e no ritmo da voz de quem cuida que a literatura começa a fazer morada dentro de cada criança. A esse tipo de leitura, feita nos primeiros meses e anos de vida dos pequenos, dá-se o nome de literatura de colo, termo que por si só já carrega afeto, presença e escuta.
Inspirado na “lectura de regazzo”, o termo literatura de colo foi cunhado por Daniela Padilha, da Editora Jujuba. Responsável por uma coleção de livros especialmente pensados para bebês, e que inclusive recebeu o mesmo nome, Daniela vai nos ajudar a entender melhor essa experiência e nos explicar por que esse tipo de literatura é tão importante, como escolher bons livros para bebês e como criar, desde cedo, momentos significativos de leitura em família.
Direto do Instagram: 8 livros infantis sobre o cotidiano do bebê para ajudá-lo a entender a rotina
O que é literatura de colo e por que ela importa tanto?
Na Editora Jujuba, o termo literatura de colo é usado para se referir aos livros pensados para os bebês. Mas não se trata apenas de uma questão de faixa etária, e sim do tipo de experiência que essa leitura proporciona. O colo é entendido como um lugar de acolhimento, de presença plena, de troca entre o bebê e o adulto que lê.
“O colo é o lugar de acolhimento, onde se cria vínculo. Quando estamos com o bebê no colo, ele tem contato com o cheiro da mãe, o calor do corpo, as batidas do coração, a respiração, o olhar (que) está próximo… E trazer a literatura para esse espaço de contorno é dar a ela o espaço de experiência fundamental para a estruturação de um ser, como um direito humano, como diz Antonio Candido”, explica Daniela.
Essa leitura não é apenas uma introdução ao universo das palavras mas é, sim, e antes de tudo, uma vivência sensível, que envolve o corpo, os sentidos e o afeto. É nesse espaço compartilhado que o bebê começa a construir os primeiros vínculos com a linguagem, e não apenas com o que se diz, mas com como se diz. O livro entra como objeto mediador entre duas pessoas que, juntas, entram em contato com uma narrativa.
Ler com quem ainda não fala faz sentido, sim!
Um dos maiores mitos sobre a leitura na primeira infância é acreditar que ela só deve começar quando a criança já domina a fala, o que faz com que muitas famílias se perguntem se vale a pena ler com um bebê tão pequeno. Daniela reforça que a leitura não só pode como deve começar desde antes do nascimento.
“O contato com os livros deve vir já desde a barriga. Tem um pesquisador, o Evelio Cabrejo-Parra, que diz que a mãe é o primeiro livro que o bebê vai ler, a mãe é a primeira voz que o bebê reconhece ao nascer. Mesmo antes das palavras, os bebês já se comunicam, e é possível perceber suas reações ao ouvir uma história ou ao ver as imagens de um livro”, afirma. “O bebê, mesmo sem se expressar com palavras, já se expressa com o olhar, com as mãos, com balbucios, com expressões… E essa comunicação a gente já percebe como reação dos bebês quando expostos à leitura literária, muito antes da fala”, complementa Daniela.
Além disso, a editora lembra que muitas pesquisas já comprovaram os benefícios cognitivos da leitura frequente com bebês para a aquisição da linguagem, estruturação psíquica e o momento da alfabetização.
“Quando se lê com o bebê, a experiência é da leitura conjunta de uma narrativa. É o livro como objeto de conexão entre o bebê e o adulto de referência. São dois leitores que, à sua maneira e a partir da sua experiência, estão entrando em contato com a narrativa contada pelo autor contida no livro”, diz.
“Nos livros da coleção Literatura de colo, tentamos também trazer esse adulto para essa experiência estética de leitura, seja ao ter uma quebra de expectativa, com um livro sem título na capa, como o Dia de sol e Dia de lua, do Renato Moriconi, ou um elemento ali na narrativa que pode dialogar com ele, ou causar estranhamento, ou surpresa. Quando você conta uma história de memória, a conexão, o afeto, o vínculo também acontecem, mas por outras vias, sem a mediação do objeto livro”.
Veja também: Leitura para bebês na barriga: benefícios de ler na gravidez
Como escolher livros para bebês e criar momentos de leitura com afeto
Se a leitura com bebês é tão importante, por onde começar? Quais livros escolher? Daniela compartilha duas dicas valiosas para orientar quem está começando agora. A primeira delas é simples: escolher livros que interessem, também, ao adulto leitor. Afinal, para que o momento de leitura seja verdadeiro e prazeroso, é preciso que o adulto esteja interessado na história, e não apenas executando uma tarefa.
Para Daniela, “o leitor precisa estar envolvido com a narrativa para se vincular com ela e com o bebê. Uma narrativa que instigue, que divirta, que provoque é essencial nesse momento da escolha”.
Além disso, também vale observar se o livro traz os nomes dos autores, se as ilustrações são originais e expressivas (e não pasteurizadas), e se há elementos que provoquem reações genuínas no leitor, como curiosidade, riso, encantamento, dentre outras.
A segunda dica trazida por Daniela é: para criar o hábito da leitura desde cedo, é bom que as famílias escolham um momento em que o bebê esteja calmo e satisfeito, e que o próprio adulto esteja disponível emocionalmente. “Busque um momento em que o bebê não esteja com alguma necessidade específica, como fome, sono, calor, e um momento em que você também esteja disponível, que queira estar ali”, orienta a editora.
Essa leitura, portanto, não deve ser mais uma obrigação na lista de cuidados com a criança, mas sim um tempo de encontro entre o bebê e o adulto de referência. “Aos poucos, essa experiência passa a ser rotina, e a hora da leitura passa a ser aquele momento de ficar juntinho, de troca, de aconchego, de carinho”, complementa Daniela.
Veja também: Quando começar e como contar histórias para bebês
O papel das escolas e da comunidade na valorização da leitura desde o ventre
Embora as famílias desempenhem um papel central na introdução dos livros na vida dos bebês, as escolas e os educadores em geral também têm uma função importantíssima. “A escola, para muitas famílias, é o local em que as crianças terão acesso aos livros”, afirma Padilha. “Por isso, é sempre importante que as escolas envolvam as famílias nesse processo, enviando livros para casa, fazendo mediações de leitura nas reuniões, apresentando os livros para as famílias. Em muitos territórios, as famílias também estão tendo contato com o livro pela primeira vez”.
Além de formar leitores, essa rede de apoio também fortalece vínculos afetivos e sociais. E quando o livro circula entre a escola e a casa das crianças, ele ganha ainda mais potência como objeto de afeto, de descoberta e de escuta.
Um convite ao colo e à leitura
Como já deu para perceber, ler com um bebê é muito mais do que apresentar histórias: é oferecer presença, escuta e vínculo, usar a linguagem como manifestação de afeto, e o livro como um objeto mediador de carinho. Ao criar esse espaço antes mesmo dos primeiros dias de vida, temos a possibilidade de oferecer à criança não apenas a oportunidade de desenvolver o gosto pela leitura, mas também o direito ao encantamento, à construção da linguagem e à partilha do mundo.
Não é preciso muito e, como disse Daniela, tudo começa aos poucos, com um bebê saciado e tranquilo, um adulto emocionalmente disponível, um livro que fale também a esse adulto, e o desejo sincero de estar junto, criando espaços de ternura, troca e profundo respeito à infância.
Estante Quindim
Quer dicas para incentivar a literatura de colo em sua casa? Conheça três livros infantis já enviados pelo Clube Quindim que fazem sucesso no momento de leitura com os pequenos.

