Ícone do site Revista | Clube Quindim

Por que ler para um bebê desde a barriga também é uma forma de cuidado na primeira infância?

ler para o bebê desde a barriga

No Brasil, a expectativa de vida é de cerca de 76 anos. Mas é justamente nos primeiros seis anos, período conhecido como Primeira Infância, que acontece uma parte fundamental do desenvolvimento da criança. É uma janela de oportunidade tão importante que existe até uma lei, a nº 14.617/2023, que estabelece agosto como o Mês da Primeira Infância. A ideia é usar a data para ampliar a conscientização, a reflexão e as ações que garantam a bebês e crianças pequenas os cuidados e as condições necessárias para crescer com saúde, segurança, proteção e oportunidades de pleno desenvolvimento.

Não estamos falando apenas de alimentação, casa, sono, consultas médicas e vacinas. Cuidar também envolve afeto, conversas, brincadeiras e, claro, acesso aos livros. E esse cuidado pode começar antes mesmo do nascimento.

Muito antes de entender o significado das palavras, o bebê já consegue perceber sons e reconhecer vozes familiares. Por isso, conversar, cantar e ler em voz alta durante a gestação são formas de oferecer estímulos sonoros e, ao mesmo tempo, criar momentos de proximidade entre o bebê e quem cuida dele.

Leia também: Literatura de colo: por que a leitura com bebês deve começar antes mesmo das primeiras palavras

“Estudos já revelam que o bebê, mesmo dentro da barriga da mãe, já consegue reconhecer vozes e escutá-las. Isso desenvolve os circuitos auditivos e também as partes do cérebro responsáveis pela linguagem”, explica Beatriz Abuchaim, gerente de Conhecimento Aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), em entrevista à Revista Quindim.

Foto: Canva

Mais do que estimular a audição, esse contato também ajuda a construir uma familiaridade entre o bebê e a voz de quem está próximo. Depois do nascimento, essa mesma voz pode se tornar uma referência de conforto e segurança.

“Conversar com o bebê, ter esse momento de leitura dentro da barriga é fundamental para o desenvolvimento neurológico, mas também para o vínculo. Esse bebê vai reconhecendo a voz da mãe ou de algum cuidador e, quando nascer, essa voz vai trazer alento para ele, vai tranquilizá-lo”, afirma Beatriz.

E a experiência não beneficia apenas o bebê. Para o adulto, parar por alguns minutos para conversar ou ler também cria uma oportunidade de se conectar com aquela criança que está por vir. “Pelo lado da gestante ou desse adulto que está conversando e interagindo com esse bebê, também é um momento de vinculação. Você para tudo o que está fazendo para conversar com o seu filho”, pontua a especialista.

muito além da história

Ler para a criança continua sendo uma experiência importante depois do nascimento. Nessa fase, porém, o bebê ainda não acompanha necessariamente a narrativa. Ele percebe o ritmo da voz, observa as expressões faciais, acompanha o olhar de quem lê e pode tocar, pegar e explorar o livro. É justamente essa experiência compartilhada que torna a leitura tão rica.

“Os bebês se vinculam muito pela expressão de afeto. Quando lemos uma história, podemos mudar a voz, criar suspense, olhar nos olhos do bebê. Tudo isso causa uma interação imediata com áreas do cérebro responsáveis pela linguagem e que, lá no futuro, também serão responsáveis pelo processo de alfabetização“, afirma Beatriz.

O livro não é, necessariamente, uma ferramenta para ensinar o bebê a falar ou antecipar a alfabetização. Ele pode ser, antes de tudo, um ponto de encontro entre a criança e o adulto. Por isso, não importa se o bebê não consegue ficar atento até o fim da história, se interrompe a leitura ou se prefere explorar o livro com as mãos. Nessa fase, o mais importante não é chegar à última página, mas compartilhar a experiência.

Direto do Instagram: 8 livros amáveis para preparar a estante do bebê ainda na gravidez

ler para um bebê: a apresentação de um novo mundo

Além da relação com o adulto, o contato com os livros desde cedo apresenta à criança um universo que ela vai explorar cada vez mais à medida que cresce. Manusear livros, virar páginas, observar ilustrações e perceber que aquele objeto faz parte da rotina da família ajudam a aproximá-la da cultura escrita.

“A criança vai sendo inserida na cultura letrada. Manusear o próprio objeto livro faz com que ela tenha curiosidade a respeito desse mundo, da cultura escrita, e mais tarde isso vai trazer curiosidade em relação a aprender a ler e escrever. O uso social da escrita vai sendo introduzido na vida dessa criança desde muito cedo”, lembra Beatriz.

O objetivo, no entanto, não é acelerar a alfabetização. A ideia é que a criança cresça cercada por livros e descubra, desde cedo, que eles podem fazer parte da vida cotidiana — como fonte de prazer, imaginação, curiosidade e descoberta. 

Imagem do livro “Doçura” de Emília Nuñez e Anna Cunha (Editora Tibi) / Foto: Rodrigo Frazão

À medida que cresce, o conteúdo das histórias passa a ganhar mais importância. Mas isso não significa que os livros precisem ter sempre uma função pedagógica, ensinar uma lição de moral ou transmitir um conteúdo específico. Para Beatriz, a riqueza da literatura está justamente em ampliar o olhar da criança sobre si mesma e sobre o mundo. “É importante que sejam histórias literárias mesmo, com personagens e situações interessantes. Não necessariamente precisam ter uma lição muito clara em termos de educação. O principal da literatura infantil é fazer a criança refletir a respeito da sua vida e do mundo”, afirma.

Os livros também podem ajudar a criança a reconhecer sentimentos e a desenvolver a capacidade de compreender diferentes perspectivas. “A literatura ajuda a criança no reconhecimento das suas emoções e a entender melhor a si e ao outro”, pontua.

Leia também: 6 livros que retratam os sentimentos como personagens da história

como transformar a leitura em um hábito?

Não existe uma idade mínima para começar, nem uma forma perfeita de ler para um bebê. Durante a gestação, não é preciso escolher um livro específico, seguir uma técnica ou criar uma rotina rígida. O mais importante é que a leitura seja um momento agradável e possível para aquela família.

Depois do nascimento, a recomendação é que a leitura faça parte do cotidiano da criança, sem cobrança para terminar histórias ou cumprir metas. Ela pode acontecer no colo, durante uma pausa do dia ou antes de dormir, por exemplo.

Foto: Canva

“A leitura deve ser uma atividade do cotidiano das crianças. Ela deve acontecer todos os dias. É muito interessante que as famílias tenham um momento para isso. Muitas vezes, acontece antes de dormir, porque é uma atividade mais tranquila”, observa.

Mais do que cumprir uma meta de páginas ou terminar um livro inteiro, vale investir na presença e no prazer desse encontro. “O interessante é que isso faça parte do universo das famílias brasileiras no seu cotidiano, que os adultos reservem um momento do seu dia para parar tudo o que estão fazendo e ler junto com seu filho e sua filha”, diz Beatriz.

Na barriga, no colo ou antes de dormir, cada história compartilhada é também uma forma de dizer ao bebê que ele é amado, ouvido e merece um tempo exclusivo de quem cuida dele. É esse sentimento de segurança e pertencimento que faz da leitura um dos gestos mais simples — e mais poderosos — de cuidado na primeira infância.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que são pensados para ler para o bebê desde a barriga e depois com ele quando nascer:

Doçura, de Emília Nuñez e Anna Cunha
Eu grande, você pequenininho, de Lilli L’Arronge
Sair da versão mobile