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O papel do silêncio nos livros infantis: o que é e por que ele importa?

A importância do silêncio nos livros_capa. Imagem do livro O melhor dia da minha vida

Você já parou para pensar sobre o silêncio? Ele não é apenas a ausência de palavras num diálogo ou de sons numa música. No silêncio, reside um mundo inteiro de possibilidades, de coisas não ditas, e de outras tantas que ainda não aconteceram, mas que podem vir a acontecer de inúmeras maneiras diferentes, mais múltiplas do que podemos imaginar.

Com o silêncio nos livros não é diferente. Ele se faz presente nas lacunas entre as palavras, nos espaços entre e em torno das imagens, e até no passar das páginas. Perceber esse silêncio, ouvi-lo e permitir que ele exista, em toda sua plenitude, é fundamental para que a experiência de leitura seja completa.

O silêncio na literatura

“Toda conversa, toda música, todo texto é costurado por silêncios. Mais do que costurado, é trama composta por sons e silêncios, dos mais variados tipos. Os livros, todos eles, também têm essa natureza – sejam constituídos apenas por palavras ou imagens, ou por ambas”, explica Dani Gutfreund, editora, tradutora, mestre em Literatura Contemporânea Inglesa e em Livro-álbum, e uma das fundadoras da Lugar de Ler, uma biblioteca que também oferece cursos, oficinas, palestras e grupos de estudo sobre literatura.

Imagem do livro “As mãos do meu pai“, de Deok-kyu Choi. Crédito: Rodrigo Frazão.

Para Dani, o silêncio nos convida a experimentar com outros sentidos. “Um livro-imagem, por exemplo, que em algumas línguas se chama livro silencioso ou mudo, na verdade, pode falar muito, falar alto e, certamente, conta toda uma história sem precisar de nenhuma palavra além do título para isso. Precisamos deixar que as imagens nos contem o que querem dizer e elas não fazem isso através das palavras, mas por meio de um silêncio eloquente, que vibra ou se suaviza nas cores, na composição das imagens em sequência, tudo voltado para a construção de sentido”, afirma Gutfreund.

Veja também: Livro-imagem: 4 dicas de como ler um livro infantil só com imagens

O papel do silêncio na construção do repertório individual e da nossa visão de mundo

Quando lemos com as crianças, especialmente as pequenas, que ainda não aprenderam a decifrar as letras e palavras ou que estão em fase de alfabetização, é natural que nos coloquemos no papel de condutores da experiência da leitura. Mas o que precisamos observar é se essa condução não está, em alguma medida, se transformando em uma interpretação da história para os pequenos.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando fazemos afirmações como “você viu que o personagem tal respondeu ao amigo com rispidez e impaciência?”; ou ao apontar uma ilustração e dizer que o personagem está triste, solitário, inseguro, deslocado ou qualquer outro julgamento ou percepção individual. Assim, acabamos por transferir para as crianças uma interpretação pessoal do que aconteceu, em vez de permitir que elas tirem suas próprias conclusões ao ler ou ouvir o texto de um livro, e ao ler também suas imagens.

Imagem do livro “O melhor dia da minha vida“, de Letícia Graciano. Crédito: Rodrigo Frazão.

Essa transferência de interpretação, de certa forma, pode privar as crianças de compreenderem o livro por si mesmas, formando assim seu repertório e construindo seu conhecimento de mundo. Uma alternativa para situações como essas seria apenas silenciar, e permitir que cada criança construa sua visão sobre o que a narrativa propõe. Depois, naturalmente, é possível conversar sobre as impressões de cada um – e arriscamos dizer que muitas vezes o que as crianças são capazes de perceber e compreender será surpreendente.

Sobre a leitura das imagens, Dani faz um adendo: “há quem diga que as imagens não são lidas, pois elas têm uma natureza muito diferente da palavra, sendo, portanto, apreendidas de outra forma. Talvez porque se as transformarmos em palavras não daremos conta de entender tudo aquilo que nos oferecem” afirma.

A editora complementa dizendo que “para que a gente compreenda a história, é preciso observar a relação entre as imagens, as cores, as linhas, e também aquilo que não está ali, que se infere na sequência criada por essa relação, (…) e pede a participação ativa do leitor, que nada mais é do que botar a mão na massa e trabalhar na reconstrução daquilo que nos é oferecido pelo autor de forma poética e fragmentada. O silêncio está no que não é dito ou mostrado, no branco da página ou numa cor sombria ou calma, na virada da página, no extracampo (aquilo que não é retratado), na ausência de texto, na imagem isolada”.

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Mas, então, como compartilhar a leitura com as crianças respeitando o silêncio?

O primeiro passo, talvez, seja aprender a lidar com um certo desconforto que o silêncio traz e que, para Dani Gutfreund, pode ter origem em nossa falta de costume de ficar com esse espaço vazio a ser preenchido, que é impregnado de possibilidades de ser, e parte fundamental da construção de significado.

“Acho que é um incômodo parecido àquele de não ter respostas, quando se exige que fiquemos com as perguntas. E então me pergunto, será que ler não é também isso? Ficar com nossas perguntas, guardar o que ainda não conhecemos e, a partir daí, criar relações?”, questiona.

Imagem do livro “Inspire e expire“, de Hu Yifan. Crédito: Rodrigo Frazão.

Nós certamente não precisamos ter todas as respostas para dar às crianças. O importante mesmo é estarmos presentes, disponíveis, buscando renovar e fortalecer nossa conexão emocional com nossos pequenos, o que tantas vezes se perde na correria do dia a dia. Com isso, até os silêncios compartilhados têm potencial para se tornar momentos especiais.

“Quando leio livros-imagem ou me deparo com cenas mudas (mas eloquentes), me calo. Se estiver lendo com alguém, uma ou mais crianças, escuto o que dizem – porque elas sempre dizem algo – e, no máximo, devolvo uma pergunta. Livros geram conversas e nós adultos precisamos ouvir o que as crianças têm a dizer e como experimentam a leitura. Por isso, a gente precisa se atentar ao risco de acabar com os silêncios, seja descrevendo-o ou retratando-o. Ficar com os silêncios nos permite perceber o mundo, as relações estabelecidas neste universo e a partir dele. É como se nos permitisse ver melhor, trazendo nitidez, dando contorno, e tecendo, assim, o discurso”, finaliza Dani.

Estante Quindim

Conheça 3 livros infantis que convidam os leitores a refletir sobre o silêncio em sua narrativa.

Pedro e Lua, de Odilon Moraes
O melhor dia da minha vida, de Letícia Graciano
Converseiro da natureza, de André Gravatá e Kammal João

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