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Sente culpa por não querer brincar com o filho? Veja outras maneiras de estabelecer vínculo e criar conexão com a criança

Culpa por não querer brincar com o filho

Está mais do que comprovado que os momentos de brincadeira não ocupam apenas um papel de entretenimento na vida das crianças. Brincar é necessário para o desenvolvimento cognitivo e para o aprimoramento de certas capacidades sociais e de interação com o mundo, além de ser uma ótima maneira de fazer com que a criança crie vínculos afetivos. 

Não por acaso, é comum que os pais sintam culpa por não brincar com os filhos tanto quanto julgam adequado. Os motivos são variados: por falta de tempo, de energia ou por não conseguirem sentir prazer em certas atividades que a criança aprecia, entre outras particularidades. Para refletir a respeito desse tema delicado, conversamos com as psicólogas Solange Ferrari e Verônica Mendes. E sim, um spoiler: é possível que a culpa dê espaço à compreensão sobre múltiplas possibilidades de interação entre pais e filhos — o que inclui o ato de brincar, mas não só. 

Imagem do livro ‘Boa noite, Bo’, de Kjersti A. Skomsvold e Mari Kanstad Johnsen | Foto: Rodrigo Frazão

“A conexão nasce da qualidade da presença”, frisa Solange Ferrari, que pontua que é mais importante ter momentos de presença ativa no dia a dia do que assumir a obrigação de brincar constantemente. “Muitos pais pensam que precisam passar uma tarde inteira brincando com a criança. Isso não é verdade.  Às vezes pode ser 15 minutos de atenção de qualidade (sem celular, sem distrações), em que você joga um jogo com presença. A qualidade é mais importante que a quantidade”, pontua Verônica Mendes, especializada em famílias, gestantes, orientação parental e primeira infância.

E ela frisa que os pais não devem assumir o papel de recreacionistas infantis. É importante que a brincadeira entre pais e filhos esteja relacionada com vínculo e troca de afeto, não com um mero exercício de distração da criança. “Entreter é diferente de brincar”, resume Verônica.

Além disso, muitas vezes o ato de brincar não é a principal necessidade da criança em determinado momento. “Para ter vínculo, é preciso ouvir o que a criança pede e entender o que ela precisa. Às vezes é um abraço, ou que você pergunte sobre o dia dela. Não precisa ser inventor de brincadeiras”, complementa Solange. A psicóloga, especialista em terapia cognitivo comportamental, atuando principalmente no atendimento a crianças a partir de 10 anos e adolescentes, também aponta que, nessas interações orgânicas, momentos de brincadeira podem surgir naturalmente. 

culpa por não querer brincar com o filho? é hora de encontrar outras maneiras de conexão!

A psicóloga Solange pontua que, às vezes o filho quer fazer algo que demanda uma energia que não temos no momento, mas que é possível ter jogo de cintura para propor outra atividade. Mesmo assim, ela frisa que é importante não invalidar o desejo de conexão da criança, tentando encontrar equilíbrio entre o que você pode oferecer ali com o que ela está precisando também.

“Se a criança sempre quer brincar da mesma coisa e o adulto quer mudar essa dinâmica, seria bom ele já chegar com algumas opções, permitindo que a criança escolha qual prefere”, sugere Verônica. Assim, ambos se sentem contemplados: o adulto consegue trazer alternativas que sejam compatíveis com seu desejo e a criança sente que teve sua voz ouvida, pois fez uma escolha dentre as alternativas.

Outro detalhe importante é o da previsibilidade. Se a criança pede a sua presença num momento em que você não está com tempo livre, comunique a ela quando a disponibilidade vai acontecer. Mostre que você se importa com aquele pedido e assuma o compromisso, dentro das suas possibilidades e de maneira que ela possa compreender a situação. 

“Brincar não é um luxo, é uma necessidade no desenvolvimento da criança”, destaca Solange. Os pais devem ter isso em mente, mas não significa que precisam estar constantemente inventando brincadeiras mirabolantes. Momentos lúdicos e sensoriais de interação podem acontecer de maneira simples, através de atividades diárias, como preparar refeições, cuidar do pet, regar plantas, passear ao ar livre e, claro, a leitura compartilhada.

Foto: Canva

Ler com a criança traz a família para o aqui e agora, proporcionando trocas, conversas, vivências com o pequeno a partir da conexão que esse hábito constrói. E claro que o momento da leitura não precisa ser apenas antes de dormir, viu? O ideal é fazer aquilo que funciona para a sua família. São apenas 15 minutos antes do banho? Ou dez minutos ao acordar? Tudo bem!

O mais importante é que essas atividades sejam realizadas com presençae uma dose de paciência — para que contem como tempo de qualidade. “Se você coloca a criança para fazer a comida contigo, não vai ser no mesmo ritmo de fazer sozinho. Ela vai picar as coisas do jeito dela, vai deixar cair no chão. É preciso refletir sobre isso. Ao incluir a criança, algo que levaria meia hora pode demandar mais tempo”, lembra Verônica.

Leia também: 8 divertidos livros sobre o ato de brincar

é importante que a criança sinta tédio…

Muitas vezes, a culpa por não brincar está ligada a uma ideia errada de que a criança precisa ser estimulada e entretida o tempo todo. Com a abundância de telas, esse problema se torna ainda mais complexo. 

Mas o ócio — o “não fazer nada” — é parte importante do desenvolvimento infantil. Esses momentos estimulam a autorregulação emocional e a criatividade. Só que é imprescindível que os pais tenham uma dose de paciência, driblando a própria ansiedade, para lidar com tais situações, pois é comum que a criança reclame. 

Imagem do livro ‘O tédio das tardes sem fim’, de Gaël Faye e Hippolyte | Foto: Rodrigo Frazão

“Há o entendimento de que o filho precisa estar feliz sempre e de que os pais precisam suprir todas as lacunas. ‘Se ele está entediado, eu vou resolver esse tédio. Se ele está frustrado, eu vou resolver a frustração’. E aí a gente, como pais, acaba não permitindo que a criança acesse esses sentimentos — da frustração e do tédio, por exemplo. E a partir disso a criança não vai desenvolver a criatividade e a resiliência”, diz Verônica. 

Direto do Instagram: Por que é importante que a criança sinta tédio?

NÃO TENHA MEDO DE FALAR SOBRE SUAS LIMITAÇÕES

Muitas vezes os pais têm vontade de brincar, mas o cansaço da rotina fala mais alto. Solange frisa que a melhor maneira de lidar com isso é através do diálogo sincero. Ela diz que é saudável mostrar para a criança que os pais têm limitações e tristezas. “Não é vergonhoso mostrar seu lado humano, falar que o dia foi complicado e difícil. Isso também gera vínculo”. E, ao deixar de corresponder às expectativas da criança, não há nada de errado em pedir desculpa, afastando o ideal (impossível) de perfeição parental. 

Verônica concorda com a colega. Quando os pais conseguem mostrar esses aspectos humanos, a criança passa a ter o entendimento de que eles também ficam tristes e cansados. Isso é fundamental. “Principalmente para as crianças até uns dez anos, em que existe uma tendência delas acharem que a culpa é sempre delas. É importante nomear sentimentos, trazendo as coisas para um contexto de entendimento dela”. Isso faz com que os pequenos elaborem melhor suas próprias emoções. 

E lembre-se: pais perfeitos não existem!

“Pais não precisam ser perfeitos e não devem brincar por obrigação. Pais acessíveis emocionalmente são os que mais conseguem demonstrar amor”, diz Solange. “É saudável perceber o ideal e o possível”, complementa. Os conceitos de “ideal” e “possível”, claro, são subjetivos e variam muito de acordo com a realidade de cada família. Então, como os pais podem compreender se estão agindo da melhor maneira? Bem, não é tarefa fácil, mas Verônica aponta caminhos. 

“Um bom termômetro é olhar para a própria parentalidade e ver como está a sua relação com a criança. Vocês conseguem ter um convívio saudável, em que a criança se sente tranquila para falar dos sentimentos? Você consegue colocar, de forma natural, coisas que estão acontecendo? Apesar da vida corrida e dos perrengues, há uma harmonia mínima no lar? Existe um equilíbrio entre a frustração e o manejo desse sentimento? Ou o que existe são pais muito exaustos e crianças hiperestimuladas?”, indaga a psicóloga. 

Fazer essa análise, de peito aberto e evitando a culpabilização, é um bom ponto de partida para tentar ajustar a dinâmica do convívio familiar. Dar a devida atenção às necessidades da criança não significa suprir todas as frustrações dela. O mais importante é ter em mente que o vínculo é construído com presença genuína e muito diálogo. 

estante quindim

Conheça três livros já entregues para a Família Quindim que incentivam a conexão que a leitura compartilhada proporciona:

Será?, de Lulu Lima e Mariamma Fonseca
Cadê o sono da Stella?, de Anete Melece
Quer ler um livro comigo?, de Lawrence Schimel e Thiago Lopes

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