Criar meninos mais respeitosos, empáticos e não violentos sempre foi importante, mas a urgência tem ficado cada vez mais evidente. Não é uma tarefa simples e está longe de ser algo que depende apenas de “boas intenções”. Em uma sociedade atravessada pelo machismo estrutural, só o discurso não basta. A educação dentro de casa precisa ser traduzida em atitudes concretas no dia a dia. É algo que exige presença, constância e, às vezes, um certo desconforto também.
Para os pais, enxergar-se como modelo é o primeiro passo, segundo o psicanalista e educador parental Thiago Queiroz, criador do canal “Paizinho, vírgula”, do Rio de Janeiro (RJ). “O pai precisa se entender como a primeira referência de masculinidade na vida do seu filho e isso é uma responsabilidade imensa”, afirma.
Saber em que chão estamos pisando e ter clareza de que, por mais que a gente queira, não é possível colocar os filhos dentro de uma bolha para protegê-los também são conceitos fundamentais para travar essa batalha. “É preciso partir do princípio de que nossos meninos vão, sim, ser expostos ao machismo — mesmo que não seja dentro de casa”, explica a educadora parental Gabriela Morais, de Recife (PE). Ela lembra do tamanho e do impacto da influência dos amigos e na internet. “Mais do que tentar controlar tudo, o nosso papel é criar uma base sólida de valores”, orienta.
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o exemplo é o que conta
Não adianta ensinar respeito se ele não é vivido dentro de casa e essa é uma das principais contradições na criação de meninos. “Não tem como falar em educar filhos sem falar em reeducar os pais. Como queremos criar meninos que não sejam machistas se as atitudes dos pais contribuem para isso?”, questiona a especialista.
As crianças aprendem muito mais pelo que veem ao redor do que pelo que escutam. “Eles observam como os pais se relacionam, como o pai trata a mãe, como é a divisão de tarefas e como lidam com conflitos”, exemplifica ela. Na prática, em muitos casos, isso significa rever comportamentos naturalizados. Na sua casa, como funciona a divisão de tarefas domésticas? Quem resolve os conflitos? Como se expressam as emoções? Como as pessoas se tratam e como tratam os outros, lá fora?
Quando a criança vê a mãe sobrecarregada enquanto o pai ‘ajuda’, ou presencia comentários que desvalorizam mulheres, isso vai moldando a visão dela sobre o mundo e os papéis de gênero – Gabriela Morais
Thiago reforça que essa ideia ganha ainda mais peso quando se fala de masculinidade. “Esse pai pode ser uma referência violenta, misógina, machista, mas ele também pode — e deve — ser uma referência de afeto, apoio, cuidado, respeito e aliança ao feminismo”, aponta, lembrando que isso não é algo abstrato: “É a partir de como nós nos relacionamos com outras mulheres, de como nos colocamos no mundo, que os nossos filhos vão entender o que é ser homem”.
a criação de meninos mais respeitosos e não violentos começa cedo!
Quem tem filhos ainda pequenos pode até achar que dá para esperar, mas esta é uma conversa que não pode ser adiada. Desde que chegamos ao mundo, absorvemos o que acontece no nosso entorno e isso, aos poucos, vai moldando o nosso caráter. Por isso, não existe “idade certa” para começar. Quanto antes, melhor, embora, é claro existam formas diferentes de ensinar, a cada fase, e alguns momentos exigem uma atenção mais específica.
“Por volta dos 6 anos, começam a aparecer com mais força as comparações entre meninos e meninas, as falas de ‘isso é coisa de menino ou de menina’, as piadas e até exclusões”, exemplifica Gabriela. Segundo ela, por volta dos 9, o cenário muda rapidamente. “Muitos já têm acesso a YouTube, TikTok, jogos online com chat… E tudo isso, sem mediação, pode normalizar comportamentos e distorcer relações”, alerta.
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O trabalho, porém, deve antecipar tudo isso. “A partir dos 2 anos, a gente já pode apresentar outros brinquedos que não reforcem só o estereótipo de menino que joga futebol, dá tiro e cuida de carros”, lembra Thiago. “O menino precisa ser convidado a brincar de boneca, de casinha, de fazer chazinho. E, se o pai nunca brinca disso, por que o filho vai brincar?”, argumenta.
Então, conforme esses meninos vão crescendo e convivendo em sociedade, fora do núcleo familiar, a orientação se torna ainda mais necessária, assim como a presença. É preciso saber o que seu filho faz nas telas e fora delas. A presença ativa é fundamental. “Precisamos intervir, conversar, questionar e supervisionar”, diz Gabriela.
não podemos deixar o machismo passar, mas é importante ensinar sem humilhar
Quando um menino reproduz uma fala machista, o impulso pode ser corrigir imediatamente. Embora o ideal seja mesmo chamar a atenção e apontar o que está errado, a forma como isso é feito faz toda a diferença. “Uma estratégia simples e muito potente é começar com uma pergunta: ‘Por que você acha isso?’”, orienta a educadora parental.
Thiago complementa com um alerta importante: “A primeira vez que o menino fala algo machista, a gente precisa entender que ele ouviu isso em algum lugar”. Para ele, o erro mais comum é reagir com dureza excessiva. “Se a gente humilha, briga ou aniquila, a gente só afasta e fortalece o vínculo que ele pode ter com grupos que reforçam esse discurso”, pontua.
O caminho, portanto, é outro. Que tal rebater com um convite à reflexão, como: “Filho, você tem noção do que você está falando?”. A ideia é abrir espaço para reflexão, sem ridicularizar. “É importante não deixar passar, mas, além de corrigir, é preciso explicar, dar exemplos, trazer outras perspectivas”, diz a educadora Gabriela.
Mais do que impor o que é certo e errado, o que funciona é estimular a criança a refletir e a concluir por si própria. A especialista lembra ainda a importância de apresentar ainda mais referências positivas, já que isso contribui na educação de meninos que respeitam e valorizam o feminino: “Mostrar mulheres fortes, bem-sucedidas, que fizeram a diferença ajuda a ampliar o repertório dessas crianças”.
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emoções: é preciso senti-las!
Se existe um pilar central nessa construção, é a educação emocional. “Os meninos precisam aprender a reconhecer, nomear e entender o que fazer com o que sentem. Não é fácil e exige constância”, afirma a educadora parental. Isso é ainda mais importante para meninos, que culturalmente são incentivados a reprimir emoções. “Precisamos ir contra essa ideia de que menino não chora. Validar a emoção é diferente de aceitar qualquer comportamento”, explica.
Thiago reforça o quão necessário é que os adultos reflitam e atuem sobre o que ensinam aos meninos a respeito das emoções e de como lidar com elas. Mostrar para que eles também podem sentir medo, frustração e vergonha muda completamente a forma de educar.
A gente precisa parar de dizer que menino tem de ser forte, que não pode chorar. Se não, criamos meninos como ‘máquinas de combate — Thiago Queiroz
Isso não ajuda ninguém, nem a eles mesmos. Pelo contrário: resulta em uma pressão para agirem como se não fossem humanos, como se não tivessem nenhum sentimento ou nenhuma vulnerabilidade. Só que esses sentimentos são intrínsecos e, se reprimidos, em algum momento, serão expressos de outra forma. Muitas vezes, com violência.
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O trabalho, portanto, é ensinar que sentir tristeza e raiva é normal, mas que isso não significa que está liberado bater ou agredir por causa disso. O mais importante é aprender a lidar com as emoções difíceis sem machucar ninguém e nem a si mesmo. O exemplo, mais uma vez, é essencial. “As crianças precisam nos ver lidando com nossas emoções sem recorrer à agressividade”, diz a educadora parental.
e o que fazer diante de episódios de agressividade?
Brigas, empurrões e conflitos fazem parte da infância, mas precisam de mediação. “Todo comportamento comunica algo”, diz Gabriela. Não se trata, simplesmente, de punir, mas de entender antes o que está por trás. Os motivos podem envolver diversos aspectos: fome, cansaço, frustração, dificuldade social. “Se o menino está frustrado, a primeira coisa é amparar: ‘Estou vendo que você está chateado, isso é difícil mesmo’”, afirma Thiago. “O acolhimento é a chave para evitar que esses jovens sejam cooptados por movimentos perigosos”, orienta.
Antecipar situações e explicar para as crianças, por exemplo, para onde vão, o que vão fazer e o que é esperado, ajuda a evitar episódios em que a frustração vira agressividade. Estar por perto, para oferecer apoio e supervisionar, sem, no entanto, “sufocar” ou guiar as brincadeiras o tempo todo, também permite perceber antes de algo acontecer.
Em situações de brigas entre as crianças, o adulto precisa intervir rapidamente, com respeito, abaixando-se para ficar à altura da criança, ajudando a nomear os sentimentos e comportamentos e estabelecendo limites. “Empurrar, bater, gritar — tudo isso precisa ser interrompido. E a criança também precisa aprender a reparar: pedir desculpas, devolver o brinquedo, reorganizar a brincadeira”, orienta.
A pressão dos amigos
Um dos maiores desafios está relacionado ao desejo de pertencer. “Crianças e adolescentes querem ser aceitos. Por isso, acabam repetindo piadas, excluindo ou desvalorizando meninas”, diz a educadora Gabriela. É o que acontece quando o grupo faz isso e seu filho, é claro, não quer ficar de fora ou para trás.
“A socialização pode agir contra”, destaca Thiago Queiroz. “Sempre vai ter alguém dizendo que menina é inferior, que menina é boba”, lembra. Aí entram os valores. Ensiná-los e mostrar como sustentá-los, mesmo sob pressão, é um papel da família.
“Os meninos precisam aprender a lidar com frustração e rejeição, porque é isso que pode acontecer quando não concorda com o grupo”, explica Gabriela. E isso só acontece com vínculo. “Precisamos criar conexão para que eles se sintam seguros para compartilhar essas situações reais”, complementa.
é preciso também falar, desde cedo, sobre consentimento para criar meninos mais respeitosos e não violentos
Outro ponto importante é ensinar as crianças, desde pequenas, a respeitar os limites do corpo do outro, assim como ajudá-las a entender e comunicar os limites delas com o próprio corpo. Isso começa com a forma como o adulto age e demonstra o que pode e o que não pode. “Pedir licença para tocar o corpo da criança, respeitar quando ela não quer dar beijo, parar uma brincadeira quando ela pede… Tudo isso ensina consentimento”, lembra a especialista. “Uma criança que é respeitada aprende a respeitar”, ressalta a educadora.
Thiago aponta que, além de oferecer o exemplo nas próprias ações, é fundamental orientar a criança de forma direta. “A gente precisa, desde pequenininho, falar sobre o nome das partes do corpo. Isso aqui é o pênis, isso aqui é o bumbum, isso aqui é o peito… E por que repetir isso? Porque é a primeira forma de a criança se tornar consciente do próprio corpo e entender o que pode e o que não pode”, afirma ele.
e quando a família reforça o machismo?
Nem sempre o entorno ajuda e isso inclui avós, tios e pessoas próximas. Sabe aquele comentário sem graça no almoço de domingo? A piada do tio ou a brincadeira da avó, que reforçam estereótipos, generalizações e machismo, entre outros assuntos que podem até ter sido encarados como engraçados, um dia, mas que não fazem (nem devem fazer!) nenhum sentido hoje? Nem sempre dá para controlar ou evitar.
“A gente vai encontrar resistência — e ela pode vir de vários lugares, inclusive da família, que vai questionar a forma como estamos criando os nossos meninos”, afirma Thiago. “Mas isso não é uma bandeira que a gente levanta porque é ‘bonita’: é porque a gente acredita que é importante. E, com essa clareza, a gente consegue se posicionar e contrapor o que os nossos filhos ouvem lá fora”, resume.
“Dificilmente vamos mudar a forma de pensar dessas pessoas, mas é nossa responsabilidade proteger os valores que queremos transmitir para os nossos filhos”, afirma Gabriela. Mas o que isso significa? Posicionar-se. “Nem tudo precisa virar discussão, mas algumas falas não podem ser normalizadas”, lembra.
Então, além de interromper ou explicar, pontualmente, porque aquele discurso não se enquadra, é importante, mais tarde, retomar o assunto com a criança. “Explicar o que aconteceu, trazer outra perspectiva e reforçar os valores ajuda a desenvolver senso crítico”, ensina.
preparo é mais tangível do que controle
Criar meninos mais respeitosos não é blindá-los do mundo, até porque isso é impossível. O que é necessário é prepará-los para viver nele, com todas as complexidades, todos os desafios e todas as imperfeições. “Não existe uma solução única. Existe um conjunto de ações entre família, escola e sociedade”, resume Gabriela. “Mais do que controlar o ambiente, o objetivo é preparar a criança para lidar com ele”, completa.
Para Thiago, educar meninos desta forma, hoje, ainda é considerado como uma fuga do padrão. “E, se está fugindo do padrão, vai encontrar resistência. Mas é uma escolha baseada no que acreditamos”, destaca.
Transformar a forma como educamos meninos é uma revolução, porque muda o mundo. É claro que esta não é uma missão fácil e que não existem fórmulas prontas. A construção está nas decisões diárias, das menores às maiores. Entre erros, conversas difíceis e revisões constantes, o que sustenta esse caminho é a coerência entre o que se diz e o que se faz e a disposição de seguir adiante, mesmo quando todo o entorno parece apontar na direção contrária.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, para incentivar diálogos com os meninos sobre sentimentos, respeito e diferentes formas de se relacionar:

