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Suspense na literatura infantil: como construir narrativas que envolvam o medo para as crianças?

medo

O medo, assim como a curiosidade, a raiva, a alegria e a tristeza, é um sentimento inerente à natureza humana. Sentimos receios, aflições e temores, principalmente daquilo que ainda não conhecemos. Nesse sentido, o medo também atua como um catalisador importante: impõe limites e nos protege de situações perigosas. Ainda pequenos, entendemos que ele é um freio que antecede possíveis problemas.

Porém, para além de algo natural da vida, o medo também é um recurso de linguagem usado culturalmente. Em livros, músicas, filmes, obras e outras peças artísticas, o sentimento constrói diferentes narrativas que despertam sensações por meio de histórias envolventes e que brincam com essa emoção fácil de reconhecer e provocar.

Mas, quando pensamos na literatura infantil e em narrativas feitas para as crianças, como podemos contar uma boa história de medo? Afinal, ainda nessa fase da vida, é fácil se espantar genuinamente. Junto disso, figuras fantasiosas do senso comum, como bruxas, lobisomens, vampiros e outros seres, permeiam a imaginação e as narrativas, causando pavor em um momento da vida em que ainda não se consegue discernir o real do imaginário com clareza.

Quando pensamos em criar o medo por meio de histórias para crianças, a ideia pode parecer até um pouco fora de tom, mas, na realidade, é um processo bastante natural: ele é um pilar importante na construção literária infantil e, inclusive, também pode ser uma ótima porta de entrada para outras áreas do saber.

O que é o medo para uma criança?

Antes de pensar em histórias que causam medo, é preciso entender o que o sentimento propriamente dito representa ainda na infância. O medo pode abrigar várias hipóteses para uma criança, do real ao fantasioso: pode ser o medo do bicho-papão, figura tão conhecida em contos populares; o medo de mudar de escola e não encontrar novos amigos; de tentar um novo hobby e não ser bom; de uma prova de matemática difícil ou até mesmo de lidar com situações emocionalmente complexas e até então desconhecidas.

Com um sentimento que pode significar tantas coisas, como podemos apresentá-lo na literatura? Para Márcia Leite, editora da Joaquina, fundadora da Pulo do Gato e escritora de obras como “Do Jeito que a gente é” (Editora Ática) e “O nome do moço” (Joaquina), entregue aos assinantes do Clube Quindim, histórias de suspense e terror oferecem às crianças uma forma segura de explorar medos e emoções.

“A narrativa ficcional é uma rede segura na qual crianças podem se deparar com seus medos ou sentimentos assustadores, projetando-se, dominando e nomeando aquilo que as amedronta, transformando angústias em linguagem simbólica”, pontua a autora. Ela explica ainda que, “na infância, a palavra medo funciona como um ‘verbete camaleão’, permitindo que a criança dê nome a diferentes sentimentos, desde insegurança e raiva a ansiedade e ciúmes”.

Imagem do livro Se eu abrir esta porta agora, de Alexandre Rampazo. Foto: Rodrigo Frazão.

Porta de entrada para a curiosidade

Histórias de mistério, muitas vezes, acabam interligando outras descobertas construtivas por meio de referências e citações. Pode ser pela descrição de uma cidade que é palco de um livro, um personagem que, na verdade, é um ser mitológico famoso trabalhado em diferentes obras ou, até mesmo, quando alguns contos são baseados ou inspirados em dados verossímeis.

Conforme a narrativa instiga cada vez mais essa possível “solução do mistério” e traz novos planos, personagens e datas, é comum que o leitor, ainda em uma fase inicial no meio literário, passe a buscar mais conteúdos sobre aquela temática.

Para Anabella López, curadora do Clube Quindim, autora e ilustradora de obras como Barbazul (Editora Aletria, tradução de Susana Ventura) e Contos da selva (Editora FTD, texto de Horacio Quiroga), ambos entregues pelo Clube, obras que utilizam o medo são capazes de transformar emoções complexas em narrativas visuais potentes — além de, é claro, apresentarem novos mundos.

“É o que a gente chama de trazer através das imagens conexões com outros campos. Quando a gente fala de medo, estamos falando de uma força muito vital. Então, o medo conecta com filosofia, com psicologia, com biologia, porque é uma emoção corporal. Ele ativa o corpo. Quando a criança lê uma história que desperta medo, ela tá ativando o corpo dela”, pontua Anabella.

Nesse cenário, a observação do mundo acaba se expandindo. Muito mais do que o próprio medo em si, mistérios e suspenses apresentam até mesmo outras literaturas e autores para aquela criança, que continua seguindo os passos da história para, enfim, descobrir o mistério que engloba a narrativa.

Imagem do livro Barbazul, de Anabella López. Foto: Rodrigo Frazão.

Metalinguagem para falar de traumas

Palavras, por si só, podem representar símbolos diversos. Podem, mais do que isso, apresentar algo literal na superfície e, em camadas mais profundas, trazer mais peso e densidade para alguns leitores, fazendo ressoar memórias e até mesmo traumas vividos.

Assim, a tarefa de criar textos e imagens que reflitam tantas camadas não é nada fácil, porque o medo pode engatilhar dores ou questões pessoais. No processo da construção de um livro, anos de pesquisas são colocados à mesa para que uma obra seja justa e delicada o bastante para os leitores. Sabemos, é claro, que é impossível controlar a forma como um livro é recebido por quem o lê; no entanto, para construir histórias que carregam diferentes significados, principalmente quando o medo é um recurso utilizado, é preciso muito cuidado e esmero nas escolhas de palavras e imagens.

“Histórias mais densas e sombrias permitem múltiplas camadas de significação. Na superfície, uma narrativa pode significar uma coisa, mas, para uma criança que passou por um trauma, pode revelar outra experiência. Como Jung dizia [Carl Jung, psicanalista autor da teoria junguiana, que aborda arquétipos do inconsciente], quanto mais específico um tema, mais universal ele se torna — e é isso que permite que histórias individuais ressoem com qualquer leitor, independentemente da idade ou cultura”, destaca Anabella.

Aqui, nada é em vão: o uso de cores, paletas mais densas, ilustrações que causam curiosidade e espanto, castelos azuis. A partir do processo de criação artística, cada detalhe ganha e causa um novo significado que pula do viés fantasioso para o socioemocional.

“A vida só existe porque a gente tem medo de alguma forma. É através do medo que a gente preserva a vida. Muitas vezes, quando a gente reprime esses medos ou não dá espaço pra eles, é aí que eles paralisam, crescem, congelam. Mas, quando a gente entende que o medo é natural, que também é uma emoção e que podemos regulá-lo, melhor. Ainda mais se desde pequenos”, completa a autora e ilustradora.

LITERATURA COMO CATALISADORA DA NATUREZA HUMANA

Não é de hoje que histórias de medo e suspense prendem a atenção humana, tanto dos mais jovens quanto dos mais velhos. A razão por trás disso, que já foi discutida em diferentes vieses psicanalíticas, é simples: a mente humana é naturalmente curiosa por questões que dizem respeito aos limites mais densos e sombrios do nosso comportamento.

Tudo que causa espanto e mistério espontaneamente chama nossa atenção, uma vez que pode ser o reflexo de nossos próprios medos, escondidos no fundo de nossa mente. Para as crianças, que possuem emoções ainda mais intensas e não amplamente reguladas, esse é um campo ainda mais vasto e, por isso, deve ser apresentado com critérios.

Segundo o estudo “A literatura de terror e a formação do leitor jovem”, de Maria Célia de Moraes Leonel, publicado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em 1987, o medo, além de componente natural do desenvolvimento humano, é um poderoso instrumento simbólico. Quando trabalhado pela imaginação, ele deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma forma de elaborar emoções mais difíceis.

Dessa forma, as histórias de medo cumprem também um papel formativo para além do literário. Elas permitem que a criança reconheça seus próprios limites e enfrente o desconhecido sem precisar vivê-lo diretamente: o que é chamado por estudiosos de “medo seguro”, que gera uma sensação de adrenalina e curiosidade sem ameaça real, mas que pode trazer à tona questões emocionais mais profundas.

Ao transformar perturbações em narrativa, o medo se converte em descoberta e autoconhecimento: um exercício emocional que prepara o leitor para o real com sensibilidade e curiosidade. Em resumo, histórias que nos causam medo nos fascinam justamente porque nos mostram muito de nós mesmos.

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CONSTRUINDO NARRATIVAS DE MEDO PARA AS CRIANÇAS

Por fim, é preciso lembrar que criar — assim como contar — histórias de medo para crianças exige sensibilidade e propósito. O segredo está menos em evitar o medo e mais em como conduzi-lo. Também vale destacar que o medo, como todo sentimento, é atravessado por questões culturais, de gênero, raça e classe. Nem todas as figuras fazem sentido para todas as crianças. As infâncias, vale sempre reforçar, são diversas.

Como aponta Anabella, “não podemos limitar a arte ou colocá-la dentro de uma bolha de proteção: cabe ao adulto escolher o que e quando apresentar, mas a criança precisa ter acesso a essa pluralidade”.

O medo, quando bem trabalhado, não traumatiza: instiga e traz autoconhecimento. A narrativa deve fortalecer o então chamado “medo seguro”, que desperta curiosidade e provoca reflexão, sem se apoiar apenas no susto ou no choque.

ALGUNS ELEMENTOS AJUDAM A CONSTRUIR ESSE SUSPENSE SAUDÁVEL:

Para Márcia, o essencial está, acima de tudo, na escuta da história: “enquanto a criança ouve ou lê sobre o monstro que teme, ela pode se projetar e dominar aquilo que a ameaça”. Ao final, mais do que temer, ela se reconhece. Narrativas que exploram o medo, quando bem mediadas, ajudam a formar leitores mais curiosos, empáticos e emocionalmente preparados para o desconhecido, dentro e fora das páginas.

estante quindim

Conheça alguns livros do Clube Quindim para contar boas histórias de dar medo:

Bruxa, bruxa, venha à minha festa, de Arden Druce e Pat Ludlow
Barbazul, de Anabella López

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