Projeção parental ou Transferência de Expectativas Narcísicas são alguns nomes e conceitos psicológicos para um sentimento simples e comum, que pode surgir em diferentes famílias: quando os pais colocam nos filhos a idealização de que eles irão viver sonhos e expectativas que, na verdade, sempre foram dos cuidadores.
A discussão já é bastante conhecida, porém, há um ponto a ser considerado que, muitas vezes, fica de fora, que é o acolhimento desses próprios pais que, em alguns casos, projetam desejos e satisfações nos filhos não apenas como uma forma de realizar sonhos pessoais, mas também como uma maneira de curar vazios e dificuldades de acesso que eles próprios sofreram na infância.
No Brasil, essa passagem de expectativas entre gerações também acontece em um cenário de ampliação do acesso a diferentes contextos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2014, 68,9% dos filhos tinham um nível educacional acima do alcançado pelo pai.
Como em uma crescente, gerações passam, aos poucos, a conquistar cada vez mais, de acordo com os passos dados por aqueles que vieram antes. Outro estudo, “Revisitando a Mobilidade Intergeracional de Educação no Brasil”, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), também aponta que, entre os filhos de pais com ensino superior completo, a probabilidade de concluir a universidade era de cerca de 74% entre brancos e 62% entre pretos ou pardos.
Nesse cenário, porém, surgem algumas armadilhas. Para os pais, o desejo de que o filho aproveite todas as oportunidades que eles talvez não tenham tido ( como entrar na universidade, viajar para outros países, conquistar independência financeira) pode se transformar em uma sobrecarga emocional e acirramento de questões familiares.
Quando passam a se realizar por meio dos filhos, os pais correm o risco de apagar a própria individualidade e, ao mesmo tempo, de silenciar o que os filhos sentem e percebem. Para os filhos, por sua vez, pode surgir a sensação de que precisam aproveitar e valorizar cada oportunidade que os pais nunca tiveram, como se carregassem também os sonhos deles nessa trajetória. Onde está, então, o equilíbrio?
Vazios que já existem e são revisitados
Ver o filho ganhar o brinquedo que os pais sempre quiseram e nunca puderam ter, vestir as roupas e os acessórios com que eles sonhavam quando eram crianças ou conhecer lugares que, até então, pareciam inalcançáveis… São muitos — e conflitantes — os sentimentos que podem surgir ao criar um filho em uma realidade diferente daquela que os próprios cuidadores viveram.
“Eu escuto muitos pais dizerem no consultório: ‘Eu não sei por que esse adolescente reclama. Ele tem tudo.’ E eu sempre pergunto: ‘Tudo o quê?’ Geralmente, esse ‘tudo’ inclui uma boa escola, roupas, celular, cursos, viagens e experiências que o pai ou a mãe não tiveram. São conquistas importantes e não devem ser diminuídas. O que precisa ser compreendido é que os pais estão avaliando a vida do filho a partir das privações que eles próprios viveram” — Jacqueline Vilela, psicanalista, educadora parental, professora e fundadora da Academia Parent Brasil, em entrevista à Revista Quindim.
A partir daí, cria-se um ciclo que mistura realidades distintas. Uma vez que o pai analisa o filho a partir das próprias faltas, pode não conseguir compreender suas frustrações. O filho, por sua vez, em uma perspectiva totalmente diferente, não entende o motivo da reação dos pais.
Nesse sentido, também se cria uma lógica de que, para compensar aquilo que os próprios pais não tiveram e “honrar” os privilégios recebidos, é preciso manter em mente os planos citados e idealizados pelos cuidadores. No entanto, isso nem sempre é possível e pode gerar frustrações para ambas as partes da relação.
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Para dialogar com os filhos desde cedo
Além disso, um outro ponto importante é que, muitas vezes, os cuidadores podem confundir cuidado com a oferta de experiências, bens materiais e outras formas de consumo às quais os próprios não tiveram acesso na infância. “Um filho pode estar cercado de coisas e ainda sentir falta de ser visto. Pode frequentar uma excelente escola e não se sentir seguro para contar aos pais o que está vivendo. Pode viajar todos os anos e não encontrar espaço dentro de casa para dizer: ‘Eu não estou bem’ ou ‘eu quero outra coisa’”, pontua Jacqueline.
Assim, desde cedo, traçar uma linha e entender onde termina a própria bagagem e onde começa a criação de um outro ser humano pode auxiliar pais e filhos a construírem uma relação em que ambas as histórias se conectem, mas não dependem uma da outra. Explicar que não teve determinados acessos, por exemplo, pode ser um bom caminho para diálogos sobre desigualdades sociais, transição entre classes e a valorização de oportunidades e privilégios – que, vale destacar, nunca são os mesmos para todos. O ponto crucial é fazer isso sem despejar expectativas sobre o que os próprios filhos irão fazer com essas informações.
“O cuidado precisa surgir quando deixamos de perguntar ‘o que meu filho deseja?’ e começamos, mesmo sem perceber, a dizer: ‘viva aquilo que eu gostaria de ter vivido’”— Maria Tereza Samora, psicopedagoga, educadora parental especializada em terapias cognitivo-emocionais, em entrevista à Revista Quindim.
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MÃES E FILHAS, atenção na projeção parental!
Existe ainda um outro movimento que pode aparecer quando falamos sobre expectativas entre gerações: aquele em que a filha, ao crescer, passa a enxergar a própria mãe não apenas como mãe, mas como uma mulher que também já foi uma menina com sonhos e anseios. Uma mulher que teve sonhos, desejos, interesses e possibilidades que, por diferentes motivos, precisou deixar algumas vontades de lado, especialmente quando estamos pensando em famílias que, em diferentes níveis, ascenderam socialmente. E essa percepção pode mudar a maneira como a própria filha compreende a história que veio antes dela.
Durante muitas gerações, mulheres tiveram menos liberdade para estudar, trabalhar, viajar, escolher uma profissão, construir independência financeira ou até decidir se queriam se casar e ter filhos. Assim, quando uma filha conquista determinadas possibilidades, pode surgir uma sensação ambígua: ao mesmo tempo em que existe felicidade por poder viver aquilo, também pode aparecer a percepção de que a própria mãe não teve acesso às mesmas escolhas.
Na parentalidade, esse movimento pode aparecer no sentido inverso. A mãe que olha para a própria história e reconhece aquilo que não pôde viver pode desejar intensamente que o filho tenha essas experiências. “A mãe que não pôde dançar, matricula a filha no balé. A que não teve oportunidade de estudar, investe para que o filho chegue à universidade. A que precisou trabalhar muito cedo, deseja proporcionar uma infância cheia de experiências”, explica Maria.
O problema aparece quando compreender a história da mãe passa a significar assumir a responsabilidade por repará-la. A filha pode reconhecer as renúncias que vieram antes dela, sentir orgulho da trajetória da mãe e compreender que determinadas oportunidades só existem hoje porque outras mulheres abriram caminhos. Mas isso não significa que precise viver aquilo que a mãe não pôde viver.
Isso significa que uma geração não simplesmente repete a anterior. Ela recebe determinados valores, convive com as experiências de quem veio antes e, a partir de seu próprio contexto, pode reproduzi-los, questioná-los ou transformá-los.
O ponto de atenção aparece quando a experiência que a mãe não viveu passa a precisar ser vivida pelo filho. A criança deixa, então, de receber apenas uma oportunidade e passa a carregar uma espécie de continuação da história materna. Se ela não quiser aquela atividade, profissão ou experiência, a recusa pode ser percebida como uma rejeição àquilo que a própria mãe desejou, com muito sofrimento, durante toda a vida. “A projeção raramente nasce da falta de amor. Muitas vezes, nasce de um amor atravessado por uma dor que ainda não encontrou outro lugar”, ressalta também Maria.
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INDIVIDUALIDADE NA RELAÇÃO
Uma pergunta pode auxiliar os pais a perceberem onde termina o próprio desejo e começa o desejo da criança: “Isso é um desejo do meu filho ou é um desejo meu para o meu filho?”. Nem sempre será fácil separar as duas coisas. Afinal, todos chegam à parentalidade carregando suas histórias, faltas, medos, conquistas e aquilo que gostariam que tivesse sido diferente. O objetivo, portanto, não é imaginar que nunca haverá projeções, mas desenvolver consciência sobre elas.
Vale relembrar que oferecer recursos não é o mesmo que atender a todas as necessidades. Um filho pode estar cercado de coisas e ainda sentir falta de ser visto. Pode frequentar uma excelente escola e não se sentir seguro para contar aos pais o que está vivendo.
Compreendendo essas individualidades, a relação pode ser construída de maneira a respeitar a realidade de cada um. Afinal, cabe aos pais apresentar o mundo aos pequenos, e isso passa por muitas possibilidades – mas sem nunca confundir as trajetórias. “Os filhos não precisam retornar ao lugar de privação de onde seus pais partiram para dar valor ao caminho percorrido pela família”, conclui Jacqueline.
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