A discussão é recente: especialistas da saúde mental têm abordado cada vez mais uma suposta nova condição vista, sobretudo, entre jovens e adolescentes usuários de internet. É o brain rot que, em português, significa algo como “apodrecimento do cérebro”. Nada mais é que o processo de desgaste ou deterioração cerebral que ocorre quando assistimos excessivamente conteúdos audiovisuais de baixa qualidade, supérfluos e pouco desafiadores.
O consumo exagerado de vídeos hiperestimulantes prejudica funções cognitivas essenciais, como a concentração e o foco. Isso pode levar à fadiga mental, desatenção e a outros prejuízos físicos, mentais e socioemocionais. Essa condição se popularizou de tal modo que, em 2024, chegou a ser escolhida como a palavra do ano pela Universidade de Oxford.
Nas redes sociais como Instagram e TikTok, não faltam vídeos curtos e virais consumidos por crianças e adolescentes em rolagens infinitas. Muitos deles são produzidos com inteligência artificial (IA) generativa e rapidamente se tornam febre. Um exemplo desse tipo de conteúdo são os vídeos e memes com personagens fictícios, híbridos de humanos, animais e até objetos, apelidados de brain rot, justamente em referência a este ‘apodrecimento mental’ .
Os brain rots têm aparência e nomes divertidos e, nos vídeos, são acompanhados por narrações em italiano, em um estilo de humor nonsense, enquanto lutam, interagem entre si, cantam e dançam. Já existe uma grande quantidade desses personagens, e há histórias novas quase diariamente. Os mais conhecidos são o Tralalero Tralala (tubarão de três pernas e tênis azuis), Tung Tung Tung Sahur (bastão de baseball com rosto), Ballerina Cappuccina (bailarina com uma cabeça em formato de xícara) e Br Br Patapim (gigante de árvore).
A princípio, esses vídeos passaram quase despercebidos pelos adultos. No entanto, logo chamaram a atenção de educadores, jornalistas e responsáveis, que começaram a temer pelos possíveis malefícios de seu consumo.
Afinal, o processo de brain rot realmente acontece?
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Ciclos de dopamina
Para Marcelo Lopes, diretor pedagógico e cofundador da Foreducation Edtech, grupo educacional parceiro da Google, o problema de vídeos como esses não é necessariamente o fato deles serem ou não feitos por IA generativa e sim o formato e propósito deles. “É a questão de você dar doses pequenas [de conteúdo], rápidas e inconclusivas, gerando a necessidade de querer mais. Isso tem se mostrado como uma coisa ruim para as crianças, que acabam ficando mais ansiosas”, comenta.
Já o pediatra e ativista pela infância Daniel Becker discute, em suas redes sociais, exatamente isso: como o consumo excessivo de vídeos curtos e repletos de estímulos, como os brain rots, seguem um ciclo de liberação de dopamina (hormônio do prazer, bem-estar e recompensa) que faz com que o usuário queira ver mais e mais. Além disso, o sistema de scroll de publicações acontece por meio de algoritmos que irão trazer vídeos que causam sensações parecidas com as do vídeo anterior, gerando certa dependência e vício.
Em entrevista à Revista Quindim, Rodrigo Nejm, coordenador do eixo Digital do Instituto Alana, também comentou sobre o papel perigoso que esses vídeos têm enquanto recompensas neurais no cérebro da criança. Segundo Rodrigo, os estímulos visuais acelerados provocam uma sensação de prazer imediato e em grande volume, gera dependência. “A gente pode fazer uma comparação com uma comida de fast food ultraprocessada, que manipula açúcar, sal e gordura para provocar essa sensação de prazer, mesmo que não necessariamente nutra o nosso organismo”, explica.
Rodrigo destaca que, quando alguém ainda na primeira infância cria o hábito diário de assistir a vídeos assim, isso acaba modelando sua forma de ler, assistir e se relacionar com o conteúdo digital. “E isso é uma limitação de repertório que pode ser bastante danosa, porque há outras formas de ler, assistir e produzir conteúdo”, complementa. Além disso, o brain rot pode dificultar a capacidade de autocontrole, autorregulação e paciência.
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Responsabilização das plataformas
Tanto Marcelo quanto Rodrigo acreditam que a principal solução para esse problema seria a responsabilização: as big techs de internet devem encontrar meios para garantir a saúde e os direitos de menores de idade previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“Elas têm que ser as maiores responsáveis e responsabilizadas pelo uso da IA para uma educação digital mais crítica”, aponta Rodrigo. Afinal, é injusto responsabilizar apenas as famílias, que têm uma capacidade limitada de controlar essas plataformas.
Segundo o coordenador, essas empresas não podem tratar crianças como “cobaias” em testes de inteligência artificial sem garantias de proteção, cuidado e respeito à classificação indicativa — que também deveria valer para o ambiente online.
Rodrigo ainda destaca a importância de iniciativas como o Projeto de Lei 2628/2022, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Ao mesmo tempo, lembra que o Brasil já tem instrumentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a BNCC de Computação, que estabelecem diretrizes de educação digital desde a educação infantil, inclusive com métodos desplugados.
E no dia a dia?
Na rotina com os pequenos, é importante estabelecer combinados sobre os conteúdos que podem ou não ser acessados, além de limites de tempo para o uso de dispositivos.
Pais, cuidadores e educadores precisam monitorar ativamente o que as crianças consomem, garantindo que a maior parte do tempo delas seja dedicada a atividades fora das telas. Observe também mudanças de comportamento, alterações no padrão de sono, irritabilidade, isolamento social e queda no rendimento escolar, que podem estar sendo causados por esse excesso no consumo de conteúdos digitais.
Além disso, é fundamental um diálogo aberto e constante sobre o uso da internet e redes sociais. Dessa forma, a própria criança constrói seu discernimento e pensamento crítico sobre o que está consumindo.
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Estante Quindim
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