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Parece absurdo, mas até que faz sentido? Conheça o nonsense na literatura infantil

Nonsense na literatura infantil_capa. Livro Dia de Lua

Cavalos que voam, relógios que derretem, reis que falam apenas por meio de enigmas… Na literatura infantil há espaço de sobra para o inusitado! Mas há histórias que vão além do incomum e mergulham fundo no chamado nonsense, onde o absurdo, muito mais do que permitido e desejado, é verdadeiramente essencial.

Imagine, então, abrir um livro e se deparar com um personagem que conversa com um ovo frito ou que pula dentro de uma xícara flutuante no céu. A princípio, pode parecer confuso e até sem sentido. Mas, ao continuar a leitura, algo incrível acontece: o estranhamento dá lugar ao encantamento, e o que parecia não ter sentido revela uma nova forma de ver o mundo. Esse é o poder do nonsense, um gênero literário que brinca com a lógica, desafia expectativas e convida leitores de todas as idades a experimentarem a liberdade da imaginação.

O nonsense como reinvenção do sentido

Imagem do livro “Dia de Lua“, de Renato Moriconi. Foto: Rodrigo Frazão.

Para quem vê o nonsense apenas como algo sem sentido, Renato Moriconi, curador do Clube Quindim, nos convida a olhar de novo. E se tem alguém que pode falar sobre o tema é ele: autor, ilustrador e artista visual, Moriconi tem mais de 90 livros publicados, vários dos quais já foram enviados para os membros da Família Quindim. 

Vencedor dos prêmios Jabuti, FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) e Bologna Ragazzi por obras voltadas para bebês, crianças e jovens, seu trabalho se destaca pelo uso expressivo da imagem como linguagem narrativa e por explorar o humor, o absurdo e o estranhamento como caminhos poéticos.

“A meu ver, o nonsense não é a ausência de sentido, mas um jogo com o sentido das coisas. É uma forma de enxergar para além da imagem concreta das coisas. Portanto, não é uma invenção que parte do nada, mas uma inversão ou uma reconfiguração daquilo que nos foi apresentado, tal como os sonhos se formam a partir de elementos com lastro na realidade”, explica o autor.

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Expandir horizontes, em vez de explicar o mundo

Imagem do livro “Minhocas comem amendoins“, de Élisa Géhin. Foto: Rodrigo Frazão.

Uma das críticas frequentes ao nonsense, especialmente quando se trata de livros para crianças, é que ele poderia confundir ou atrapalhar a compreensão do mundo. Afinal, como esperar que uma criança entenda uma história em que as regras parecem estar de cabeça para baixo? Mas, talvez, essa seja justamente a beleza e o poder do nonsense: ele não exige entendimento imediato, mas, sim, abre espaço para múltiplas interpretações.

Como exemplo, o autor cita o clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. “É possível interpretar o Chapeleiro Maluco ou a Rainha, de Alice, através das informações que temos sobre a Inglaterra da época de Carroll? Talvez. Mas nenhuma interpretação esgotará outras possibilidades de leitura”, afirma.

Esse caráter aberto a interpretações, que se contrapõe a uma lógica fechada, onde só existe uma resposta certa, é parte do que torna o nonsense tão próximo da arte. Ele convida crianças (e adultos) a ampliarem o olhar, aceitarem o estranho, e entenderem que o mundo pode ser lido de múltiplas maneiras – e todas elas são legítimas.

“O nonsense é para mim muito potente como linguagem, se encaixando perfeitamente com a ideia que eu tenho de Arte e Literatura, pois não se fecha na possibilidade de uma leitura única”, diz Moriconi. Essa é, justamente, uma das grandes contribuições do nonsense para o desenvolvimento infantil: ele estimula o pensamento simbólico, a imaginação e a tolerância à ambiguidade. Em vez de dar respostas prontas, ensina a fazer perguntas. Ao rir de situações absurdas ou se espantar com um desfecho imprevisível, a criança aprende a navegar entre significados, a brincar com ideias e a lidar com o inesperado.

O papel do adulto diante do absurdo

Imagem do livro “A mamãe do pintinho“, de Heena Baek. Foto: Rodrigo Frazão.

Se o nonsense pode ser tão rico para as crianças, por que tantos adultos o estranham? Talvez porque crescemos aprendendo a buscar sempre um sentido nas coisas, que, de preferência, seja um só. Mas o nonsense pede uma outra postura: mais aberta, mais disponível, mais curiosa. Ele provoca o leitor, mas também o convida a rir de si mesmo, a se surpreender, a aceitar que nem tudo precisa estar perfeitamente explicado.

Nesse processo, os adultos têm um papel fundamental. Não como “explicadores do absurdo”, mas como parceiros de leitura, que topam embarcar junto nessa viagem sem mapa. O adulto pode fazer perguntas, comentar, rir, acolher o espanto ou a dúvida da criança. Pode dizer “eu também não entendi, mas adorei” e, assim, legitimar a experiência como algo sensível e subjetivo.

“Um artista que é pródigo na inversão e reconfiguração de elementos é o Marcel Duchamp, um dos pais da arte contemporânea, que aparece em um dos meus livros, O dia da festa, segurando um molho gigante de chaves. Em uma das cenas do livro, sua cabeça substitui o retrato de Pedro, o apóstolo, pintado por Bosch. Esse livro é totalmente baseado na inversão da leitura, e ninguém melhor que Duchamp pra segurar a chave de leitura dessa obra, que creio ser um pouco nonsense. Mas é de um nonsense que faz todo sentido”, explica o autor.

Aqui podemos ver bem a essência do gênero: aquilo que, à primeira vista, parece absurdo ou desordenado, na verdade, contém uma lógica própria, interna, poética e, muitas vezes, mais próxima da sensibilidade das crianças do que do raciocínio linear dos adultos. O nonsense, portanto, não é um erro de linguagem, mas uma outra linguagem, que convida o leitor a relaxar, conviver com o mistério e o enigma, e a se divertir com as reviravoltas do pensamento criativo.

Abra mão do controle e divirta-se!

Imagem do livro “365 pinguins“, de Jean-Luc Fromental e Joëlle Jolivet. Foto: Rodrigo Frazão.

Como já deu para perceber, o nonsense não é uma confusão gratuita, mas sim a construção de algo simbólico, complexo, inesperado, surpreendente, que desafia o senso comum, estimula a imaginação e que pode ser muito divertido, pois cria um ambiente de liberdade! Em vez de regras fixas, oferece possibilidades múltiplas. Quando tudo é possível, não há medo de errar. A leitura deixa de ser uma atividade funcional, ou seja, algo que fazemos para aprender ou entender alguma coisa, e passa a ser também um espaço de encantamento e invenção. 

Ler junto e mediar a leitura de obras nonsense com crianças é mais do que compartilhar uma história: é, também, um exercício de escuta. Escuta do livro, da criança e de si mesmo. É estar presente não para controlar a compreensão, mas para compartilhar a experiência. É rir junto, duvidar junto, imaginar junto. E, muitas vezes, deixar que a criança nos conduza, porque, como bem sabem os pequenos leitores, o mundo pode ser muito mais interessante quando está de ponta-cabeça.

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Sugestões para ler e se divertir com o nonsense

Quer se aventurar no universo do nonsense? Confira algumas obras já enviadas pelo Clube Quindim para as famílias — e se você recebeu algum desses livros, que tal reler com outro olhar e se divertir com o absurdo que faz todo sentido?:

Submersos, de Estevão Azevedo e Vitor Bellicanta
Coisa, coisas, de peter O sagae
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