Estilo próprio: o que está por trás de quando você incentiva a criança a escolher a própria roupa?
Vino Marques
Foto: Canva / Arte: Clube Quindim
Antes de escolher uma roupa preferida, uma cor que não quer tirar do corpo ou um acessório que passa a acompanhar todos os passeios, a criança está vivendo algo maior: a descoberta de si mesma. Na teoria do psicólogo francês Henri Wallon, há um momento do desenvolvimento infantil conhecido como estágio do personalismo, que costuma acontecer entre os três e seis anos. É nessa fase que a criança começa a se perceber com mais força como alguém separado dos outros, num processo importante de constituição do “eu” e da personalidade.
É quando aparecem, com mais intensidade, frases como “eu quero”, “eu não gosto”, “eu faço sozinho” ou “essa roupa não”. Para os adultos, essas manifestações podem parecer apenas birra, teimosia ou uma dificuldade cotidiana na hora de sair de casa. Mas, muitas vezes, elas também revelam uma criança tentando experimentar escolhas, afirmar preferências e entender quem é no mundo.
E esse processo não se resume só às roupas. As crianças constroem formas de expressão também pelo brincar, pelas músicas que querem ouvir, pelos personagens de que gostam e muitos outros elementos que dependem de escolha.
Para a psicóloga Juliana Prates — mestre em psicologia do desenvolvimento, professora do Instituto de Psicologia e Serviço Social da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) —, a personalidade nasce do encontro entre o que há de inicial na criança, como o temperamento e as relações que ela estabelece com o ambiente. “A criança não é uma página em branco, uma tábula rasa, que a gente deposita conteúdo”, afirma.
Isso significa que a criança é influenciada pelo mundo, mas também age sobre ele. Ela observa, reage, recusa, imita, combina referências e cria modos próprios de se comunicar. Ao escolher uma roupa, uma fantasia, um penteado ou uma música favorita, ela não está apenas manifestando um gosto isolado. Está também experimentando possibilidades de pertencimento, autonomia e identidade.
como construir um estilo próprio: aprendendo a escolher
Apoiar a construção de um estilo próprio não significa deixar que a criança decida tudo sozinha. Também não significa escolher tudo por ela. Entre esses dois extremos existe um caminho de mediação, em que os adultos reconhecem as preferências infantis, mas continuam oferecendo cuidado, contexto e limite.
“O processo de autonomia não pode ser um processo de abandono. É uma autonomia que é construída, que é guiada, que é junto, que é conversada, que é mediada pelo adulto” – psicóloga Juliana Prates
Imagem do livro Eu sou Grande (de Clara Gavilan, editora Nanabooks)‘ | Foto: Rodrigo Frazão
Na prática, isso pode significar oferecer escolhas possíveis. Uma criança pequena talvez ainda não tenha condições de decidir se deve ou não usar casaco num dia frio, mas pode escolher entre dois casacos. Pode não caber a ela decidir comprar uma peça muito cara, que compromete o orçamento da família, mas pode opinar sobre cores, tecidos, combinações ou sobre aquilo que a faz se sentir confortável. E essa mediação também envolve apresentar à criança os códigos sociais ligados às roupas. Há peças mais adequadas para brincar no parque, ir à escola ou a um casamento.
Para Fernanda Theodoro Roveri — professora da Faculdade de Educação da Unicamp, doutora e mestre na área de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte e pesquisadora das relações entre infância, estudos culturais, educação do corpo, educação infantil e gênero —, essa conversa pode ser uma oportunidade importante para as famílias. A roupa, segundo ela, participa da inserção social das crianças. Não é apenas uma escolha individual, mas também um elemento carregado de códigos, pertencimentos e expectativas.
“A roupa é mais um elemento da nossa construção da identidade. Ela é mais um elemento daquilo que a gente consome na nossa sociedade que vai mostrar esses pertencimentos, que vai nos identificar por um comportamento social de um determinado grupo”, afirma a educadora.
Por isso, o diálogo é tão importante. Quando uma criança diz que gosta ou não gosta de determinada roupa, os adultos podem tentar entender o que está por trás daquela escolha.
Entre os temas que mais preocupam os adultos está a escolha de roupas, cores ou acessórios associados socialmente a um gênero. Um menino que quer vestir uma saia, uma menina que prefere roupas largas, uma criança que quer usar fantasia, chuteira, brilho, rosa, azul, cabelo curto ou comprido pode provocar dúvidas, incômodos e medos na família.
Para Juliana, muitas vezes a dificuldade não está na criança, mas nos adultos. Ela lembra que gênero não está necessariamente na vestimenta e que o binarismo rígido pode empobrecer o universo simbólico das crianças.
Se um menino veste uma saia numa brincadeira, isso pode estar apenas no campo da fantasia, da curiosidade e da experimentação. Se uma menina escolhe uma roupa considerada “de menino”, isso não deveria ser lido automaticamente como ameaça ou problema. Crianças transitam por papéis, personagens e possibilidades. Brincam de ser outras pessoas, experimentam gestos, cores, objetos e modos de estar no mundo.
“Eu acho que a gente precisa se educar enquanto adulto para poder ver a possibilidade de uma experimentação. Os adultos têm tanto medo, que eles não permitem que as crianças simplesmente brinquem com a diversidade de possibilidades que o mundo expõe. Afinal, se a gente tem tantas roupas diversas, por que eu não posso experimentar todas?“, reflete Juliana.
Em seu livro “Barbie na educação de meninas: do rosa ao choque” (Editora Annablume, 2019), Fernanda investiga a boneca, pensando em como adultos criam brinquedos de acordo com suas próprias expectativas.
Seja nos brinquedos, animações ou peças de roupa, adultos criam para as crianças produtos que reproduzem questões estruturais diversas. É assim, por exemplo, que meninas acabam usando roupas mais justas, e se preocupam muito mais com a “beleza” e a vaidade do que os meninos. Um exemplo é o fenômeno de “pinkização” que existe desde a década de 80, associando ao universo feminino o rosa, uma cor considerada socialmente mais delicada.
Por isso, é essencial, sobretudo para as garotas, que os conceitos de moda e estilo sejam apresentados junto de conforto e bem-estar. Como essa roupa faz você se sentir? Por que será que você está se sentindo assim? Você está confortável? Quais outras cores você acha bonito? Perguntas como essas abrem espaço para que a criança se perceba em meio ao excesso de necessidades que o mercado cria e que afeta não só as crianças, mas todos nós.
“Quando você me pergunta se as crianças podem escolher as roupas que elas usam, talvez a gente pudesse fazer essa pergunta para qualquer faixa etária. Então, até que ponto a gente está escolhendo as coisas que a gente usa? A gente está falando de uma postura de comportamento baseado em uma estética coletiva (…). Então, a discussão não está se a criança pode ou não escolher, mas em que medida todos nós estamos escolhendo. Então é sobre educar as crianças nesse ambiente, enquanto nós também temos que ser vigilantes de nós mesmos”, reflete Juliana.
Entre limite e acolhimento
Apoiar a construção do estilo próprio exige uma postura diferente tanto da permissividade absoluta quanto da imposição autoritária. Juliana aproxima essa ideia do estilo parental autoritativo: aquele em que há regras, padrões e combinados, mas também afeto, diálogo e reconhecimento da individualidade da criança.
Foto: Canva
Na outra ponta está o estilo autoritário, marcado pela imposição de valores e comportamentos sem negociação. Quando os adultos definem tudo, a criança perde oportunidades de investigar seus próprios desejos, testar escolhas e podem acabar descobrindo repentinamente o que é a autonomia apenas na fase adulta.
Em outras épocas
Essa conversa também passa pelas memórias dos próprios adultos. Fernanda lembra que diferentes gerações tiveram relações muito distintas com a roupa: em algumas famílias, havia menos possibilidade de escolha; peças passavam de uma criança para outra; roupas eram costuradas em casa, reaproveitadas, reformadas ou aguardadas com expectativa quando deixavam de servir em um primo ou prima. Hoje, outras práticas também aparecem, como trocas, brechós e desapegos.
Olhar para essa história pode ajudar mães, pais e outros cuidadores a perceberem de onde vêm suas próprias expectativas. Às vezes, o desejo de controlar a aparência da criança nasce de memórias, frustrações, medos ou padrões que os adultos também herdaram.
A construção de um estilo próprio não depende apenas do guarda-roupa. Depende também dos mundos que a criança encontra disponíveis para imaginar quem pode ser. Livros, músicas, brincadeiras, filmes e outras experiências culturais ampliam repertórios. Quanto mais diversas forem as referências, mais possibilidades a criança terá para se reconhecer, estranhar, experimentar e escolher.
Juliana destaca a importância da leitura, da arte e da cultura nesse processo. Para ela, livros que apresentam diversidade e ampliam mundos ajudam a criança a explorar possibilidades. A cultura infantil também é uma forma de comunicação com o mundo: a criança se expressa pelo que desenha, pelo que conta, pelo que canta, pelo que veste e pelo modo como brinca.
Essa construção também muda com o tempo. Como lembra Juliana, ser criança em 2026 é muito diferente de ter sido criança na década de 1980. A cultura é viva, e as formas de construir identidade também são atravessadas pelo momento histórico, pelas mídias, pelos espaços de convivência e pelos repertórios disponíveis.
Apoiar o estilo próprio, então, talvez seja menos sobre formar uma criança “estilosa” e mais sobre permitir que ela tenha espaço para existir com autoria. Isso inclui curiosidade, tentativa, mudança de ideia, diálogo, limite e acolhimento.
A roupa pode ser só o ponto de partida. Por trás dela, há uma criança aprendendo a dizer: eu gosto disso, eu não gosto daquilo, eu quero tentar, eu posso ser assim. E há adultos que, em vez de escolherem tudo por ela, podem acompanhá-la nesse percurso — oferecendo proteção sem sufocar, repertório sem impor e escuta sem transformar cada diferença em problema.