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Por que é importante incentivar a criança a escutar os próprios desejos

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Hari cresceu acreditando que era uma ovelha. Desde sempre ou, pelo menos, desde muito cedo, viveu cercada por um rebanho de ovinos. Assim, aprendeu seus hábitos, seus modos, suas regras. Conforme o tempo foi passando, ela percebeu que era um pouco diferente: maior, mais rápida, mais forte, mais barulhenta. Ela era, na verdade, uma leoa. Mas isso não significava que tinha de viver da forma como os outros esperavam que ela vivesse. Ela podia escutar seus próprios desejos.  

Em Ovelha Leoa (Gato Leitor), de Gabriela Burin, a personagem central compreende ao longo do livro que é capaz de escutar a si mesma e fazer as próprias escolhas. A fábula, inspirada em uma antiga lenda hindu, é um convite a pensar sobre o poder que temos de tomar decisões, de acordo com quem somos — e não para seguir expectativas de outras pessoas. Ainda que, muitas vezes, essas “outras pessoas” sejam muito importantes para nós e que tenham as melhores intenções do mundo. 

Imagem do livro Ovelha Leoa, de Gabriela Burin. Foto: Vitória Ceccon

Para a psicóloga infantil Ana Flávia Fernandes, da Terapia de Criança (SP), entender como ouvir os próprios desejos é um dos aprendizados fundamentais da infância, justamente porque se trata de algo que carregamos a vida toda. “Escutar os próprios desejos — identificar do que gostamos, do que precisamos e o que nos faz felizes ou tristes — é o primeiro passo para a autonomia”, explica. “Quando a criança aprende a nomear e valorizar o que sente, desenvolve o autoconhecimento e a capacidade de agir no mundo com intenção, não apenas reagindo ao que esperam dela”, detalha.

Entre o amor e a aprovação

O problema é que nem sempre é fácil entender o que é o nosso desejo e o que é o desejo do outro para nós, sobretudo na infância. Não é incomum que as crianças absorvam a ideia de que, para seguirem sendo protegidas, cuidadas e amadas, precisam fazer o que os adultos cuidadores — sobretudo, os pais — esperam delas. Isso inclui moldar os próprios desejos para que caibam nas expectativas da família. É um movimento quase invisível, mas poderoso: a criança percebe o que gera aprovação e o que causa frustração. Com o tempo, passa a se ajustar para não decepcionar. 

“Quando o amor e a aceitação se tornam condicionais ao atendimento das expectativas, o peso é enorme”, explica Ana Flávia. “A criança começa a esconder sentimentos e a acreditar que só será amada se for perfeita. Esse medo constante de falhar gera um estado de vigilância crônica e de ansiedade”, diz ela. 

É um ciclo de concessões — algumas maiores, outras menores. Mas mesmo as pequenas concessões, quando repetidas ao longo dos anos, acabam por construir uma infância silenciosamente controlada. Ainda que nem sempre de uma forma totalmente explícita ou consciente, a criança passa a depender da opinião de outras pessoas para fazer suas escolhas. Em alguns casos, começa a duvidar de si mesma e a acreditar que sua felicidade depende da aprovação alheia.

“Ela evita conflitos, cede aos desejos dos outros e, com isso, se torna mais vulnerável — mais inclinada a se submeter a essas vontades alheias e menos conectada com o que realmente a motiva”, afirma a especialista. “A longo prazo, isso pode gerar um vazio existencial, uma sensação de que não se sabe quem se é”, aponta. 

Imagem do livro Eu fico em silêncio, de David Ouimet. Foto: Rodrigo Frazão.

Por trás da tendência de agradar, há uma força invisível — e profundamente humana: o desejo de ser amado. “A criança aprende cedo que certas ações provocam reações negativas nos pais: frustração, silêncio, retirada de afeto. Isso é lido como uma ameaça à sua fonte de amor. Então, ela se anula para garantir a conexão. Troca autenticidade por segurança”, explica Ana Flávia. Escutar o próprio desejo, portanto, é também um exercício de sobrevivência emocional. É um modo de ensinar à criança que o amor verdadeiro não exige renúncia de si.

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As projeções que amamos (mas que também pesam!)

Agora, vamos observar o outro lado. Como pais, mães, cuidadores, queremos o melhor para as crianças. Também não é raro esquecer que o que entendemos como “melhor” não é uma verdade absoluta ou um caminho único, ainda que, na maioria das vezes, prevaleça a boa intenção. Nenhum pai ou mãe está imune a projetar sonhos nos filhos. Faz parte do amor imaginar caminhos, torcer pelo sucesso, desejar a felicidade. Mas é preciso lembrar que há uma linha tênue entre o desejo saudável e a pressão, que pode ser prejudicial e até sufocar.

Ana Flávia lembra que a diferença está na forma de comunicar as expectativas e no impacto que isso tem na liberdade da criança. “O problema surge quando a ambição dos pais impede o filho de escutar os próprios desejos. Quando o foco do elogio está apenas no resultado — nas notas, nas medalhas — e não no esforço, a criança entende que seu valor depende da performance”, destaca. 

Até o amor pode virar uma meta a ser atingida. A criança passa a acreditar que é responsável pela felicidade ou até pela realização pessoal dos pais. A leveza de ser quem se é dá lugar ao medo de decepcionar.

Ser um porto seguro, mas não uma prisão

Educar é, no fundo, um exercício constante de equilíbrio – que não é nem um pouco fácil. Ao mesmo tempo em que é preciso estar perto, oferecer suporte, orientar, é necessário cuidar para não exagerar ou controlar. É preciso confiar, mesmo em situações em que o instinto é proteger, mesmo quando sentimos medo. 

“Ser pai e mãe é a arte de equilibrar apoio e liberdade”, diz a psicóloga. “O papel do adulto é traduzir o que a criança já é e sente, ajudando-a a se desenvolver com segurança. De 0 a 6 anos, ela busca independência física; dos 6 aos 12, independência intelectual; e na adolescência, independência social. Em cada fase, precisamos ajustar o nível de direcionamento, sem roubar dela a chance de descobrir quem é”, afirma.

É uma confiança que se conquista com presença e observação, não com a busca pela perfeição, que, no final, nem existe. “O objetivo não é criar filhos impecáveis, mas vínculos fortes e seguros”, lembra a psicóloga. A partir disso é que as crianças aprenderão que têm uma base firme para compreender e buscar os próprios sonhos, ainda que tropecem algumas vezes pelo caminho. “O erro é uma oportunidade de aprender a olhar para nós e para os filhos com compaixão e amabilidade, não com culpa”, acrescenta Ana Flávia. 

Imagem do livro Ovelha Leoa, de Gabriela Burin. Foto: Vitória Ceccon.

5 atitudes que ajudam a fortalecer a escuta interna da criança

Escutar é um ato de amor e, simultaneamente, de coragem. Ensinar uma criança a escutar a si mesma é plantar a semente da autenticidade. É mostrar que suas vontades importam e que sentir raiva, dúvida ou medo não é errado. É ajudá-la a reconhecer o que o corpo e o coração pedem — e a confiar em si mesma. “Não há como realmente ajudar a criança, se não acreditarmos que ela é capaz de se desenvolver”, afirma Ana Flávia. “Nós não ensinamos a criança a falar; conversamos com ela. O adulto é o ajudante que ensina gentilmente até que ela consiga fazer sozinha. Confiar é o maior presente que podemos dar”, completa. 

Hari, a ovelha que descobriu ser leoa, não deixou de amar seu rebanho. Ela apenas aprendeu a rugir e a cuidar dos outros, entendendo a própria força e a própria imagem. Ela aprendeu a ouvir o próprio rugido, ainda que o mundo esperasse um balido. Por outro lado, aprendeu a ouvir o desejo de cuidar dos seus, ainda que o mundo esperasse que ela seguisse apenas o instinto selvagem.

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