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Como explicar misoginia para meninos e meninas?

misoginia

Foto: Canva / Arte: Clube Quindim

Em 9 de março de 2025, a Lei do Feminicídio (nº 13.104/2015) completou 10 anos. Ela configura o feminicídio como crime hediondo, referindo-se ao assassinato de mulheres nos contextos de: “I — violência doméstica e familiar; II — menosprezo ou discriminação à condição de mulher”. Mesmo assim, quase seis mulheres são mortas por dia no Brasil vítimas de feminicídio. 

O dado exato, de 5,89 mulheres assassinadas diariamente, é do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL). No ano passado, foram registradas 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio, o que representa um aumento de 34% em relação a 2024, quando houve 5.150 vítimas.

Esses números vêm sendo expostos de diversas maneiras nos últimos tempos — no noticiário, nas redes sociais, nas conversas do dia a dia —, e precisam seguir pautando as discussões e levando a novas medidas para conter as mais variadas formas de violência contra a mulher. Em meio a isso está inserida a misoginia, palavra que se faz cada vez mais presente no atual contexto brasileiro.

quando e como conversar sobre misoginia com as crianças?

Quem convive com crianças, sobretudo as que estão na primeira infância, já deve ter se questionado sobre qual é a melhor maneira de abordar a temática com os pequenos. Um dos primeiros passos é entender do que estamos falando: “Machismo e misoginia estão relacionados ao controle dos corpos das mulheres. Misoginia é o ódio, aversão a tudo que é feminino. Machismo é uma ideologia, uma construção social que considera o homem superior a mulher”, explica Danielle Atta, mestre em Educação pela Universidade de Brasília (linha de pesquisa: gênero e educação infantil), historiadora e pedagoga, especializada, entre outros temas, em políticas públicas, infância, juventude e diversidade.

A pedagoga Nathalie Lima, especialista em orientação de pais com atuação na educação sexual com foco na prevenção ao abuso sexual infantil, pontua que o “machismo coloca a mulher dentro de uma caixa, em coisas que ela pode ou não fazer. É a compreensão de que a mulher não é boa em determinadas coisas, porque aquilo é um lugar de homem, não é o lugar dela. A misoginia intensifica toda essa atitude por trazer o ódio, o desprezo pela mulher”.

Imagem do livro ‘Leila’, de Tino Freitas e Thais Beltrame | Foto: Rodrigo Frazão

Uma vez que os conceitos, e como eles são praticados, são compreendidos, é hora de encontrar os caminhos para entender quando e como começar a abordar misoginia e machismo com meninos e meninas.

“Em minha pesquisa de mestrado, foi observado que crianças com 4 anos já demonstravam práticas sociais ligadas à masculinidade hegemônica (muitas vezes tóxica) relacionando cores, brinquedos, objetos como sendo pertencentes ao universo masculino ou feminino. Ou seja, meninos da Educação Infantil diziam que não podiam segurar uma boneca ou que não podiam triscar em nada que fosse rosa. E, por sua vez, as meninas já falavam que não podiam ficar do lado de determinadas crianças por serem meninos. Percebe-se que já chegaram na instituição educativa com essas práticas estabelecidas. Logo, essa conversa precisa acontecer antes disso”, afirma Danielle Atta.

A pedagoga Nathalie Lima apresenta o mesmo caminho: “O momento ideal é desde sempre […]. Vamos reforçar que meninos e meninas tenham oportunidades iguais e respeito, independentemente do gênero”.

Foto: Canva

O universo das brincadeiras é um aliado nesse processo, como ressalta Danielle. “As brincadeiras ajudam as famílias a tratar das mais diversas temáticas com as crianças. Quando elas brincam de ‘faz de conta que é uma mamãe ou um papai’ ou que exercem essa ou aquela profissão, já pode ocorrer uma mediação dos pais voltada para o letramento de gênero e reforço, no caso dos meninos, de uma masculinidade saudável, onde não haja separação entre objetos, cores, sentimentos de menino e de menina”, diz a especialista.

E ainda reforça: “É essa separação, esse olhar dicotômico — que muitas vezes coloca o menino em condição de superioridade e por um lado lhe retira a sensibilidade: precisa ser forte, precisa proteger a menina, não pode chorar —, que cria a segregação e posteriormente levará aos casos de machismo, misoginia e até feminicídios. É necessário socializar os meninos (e as meninas) para a isonomia de gênero. Atuar previamente”.

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A palavra misoginia na infância

Nesse trabalho preventivo, pais ou responsáveis se questionam sobre se devem ou não apresentar a palavra misoginia para as crianças, ou sobre qual é o melhor momento para fazer isso. “O conceito de misoginia, assim como qualquer outro conceito, pode ser falado em qualquer idade. Desde a Educação Infantil, […] nós já começamos com esse letramento de gênero. [Porém] para ensinar um conceito, não é preciso que a criança decore um nome, como misoginia. […] Nós podemos falar sobre atitudes que são de ódio contra as mulheres e, neste momento, comentar que aconteceu misoginia. Mas essa criança só vai ter condições de compreender o termo a fundo no Ensino Fundamental”, diz Nathalie Lima.

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Mais uma vez, a brincadeira tem papel fundamental. “É através da brincadeira que a criança se insere no mundo e estabelece combinados. Porém, os brinquedos também trazem marcadores de gênero. Conceitos podem ser ‘explicados’ durante essas brincadeiras. Se uma família proíbe o filho menino de segurar uma boneca/boneco porque é uma brincadeira de menina, está ‘explicando’ que a dimensão do cuidado não deve fazer parte do universo dele. Aí não teremos um indivíduo que dê importância ao bem-estar do outro, ao cuidado e ao autocuidado”, diz Danielle e reforça: “Mesmo que não diga abertamente, está implícito ali que há uma separação entre meninos e meninas”.

Como trazer os meninos para essa conversa?

Os dados apresentados no começo desta reportagem deixam explícito o quanto o machismo e a misoginia matam. Apesar de os números trazidos serem referentes ao Brasil, esta é uma questão global, assim como afirma a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em seu livro “Sejamos todos feministas” (Companhia das Letras, 2020).

Na obra, Chimamanda também alerta para a forma como os meninos são educados: “O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita. Abafamos a humanidade que existe nos meninos […]. Ensinamos que eles não podem ter medo, não podem ser fracos ou se mostrar vulneráveis, precisam esconder quem realmente são — porque eles têm que ser, como se diz na Nigéria, homens duros”. 

Imagem do livro ‘Olho d’água’, de Marcelo Tolentino | Foto: Rodrigo Frazão

A infância, portanto, se reforça como período fundamental para que as famílias e as escolas atuem com os meninos no entendimento da misoginia, colaborando para a construção de um cenário que inclua uma real redução da violência contra as mulheres.

“Ninguém nasce machista. Numa perspectiva sociológica são as práticas sociais que moldam os indivíduos. Os meninos são socializados para o machismo. […] Para eles são oferecidos bolas, carrinhos, kits de ferramentas, caminhões, helicópteros, foguetes. Cresce nesse menino a ideia de que ele pode sair pelo mundo em alta velocidade construindo as coisas, ocupando-se e preocupando-se com o desenvolvimento da cidade e do mundo. Os ‘brinquedos de meninas’ passam um recado totalmente diferente. São voltados para o interno, o cuidado, o zelo”, explica Danielle Atta.

A especialista ainda traz uma experiência que viveu em sua pesquisa para reforçar o que explicou: ‘As crianças estavam brincando de ‘cuidar do bebê’. Um dos meninos me disse que não podia tocar na boneca ‘porque minha mãe não deixa’, o outro deixou a boneca cair no chão propositalmente, ‘causando dor ao bebê’. Uma situação como essa permite que a família desenvolva uma conversa muito importante sobre o lugar ocupado pelos meninos e sobre práticas que podem levar ao machismo e à misoginia”.

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Pais, cuidadores e professores: todos precisam se informar

Apesar de a violência contra a mulher estar recebendo cada vez mais atenção, o machismo e a misoginia ainda são assuntos que precisam ser compreendidos corretamente pela população. Assim, informar-se mais e melhor é essencial para colaborar com a educação e formação das crianças. Como relembra Danielle Atta, “é a família que estabelece os valores que, em um primeiro momento, serão importantes para as crianças. […] Os pais e mães são as maiores referências dos filhos, seus modelos, heróis, amores… Quando a criança traz de casa a regra de que não pode, por exemplo, escolher a tesoura rosa porque rosa é de menina, já temos um problema em curso”. 

Na busca por combater a presente realidade de misoginia, as famílias precisam dar passos em busca de bases para atuar com suas crianças. “Quem é pai e mãe atualmente é fruto de uma sociedade patriarcal. Para conseguir trabalhar esse tema em casa, com meninos e meninas, eles vão precisar de informação de qualidade. A minha orientação é que busquem conhecimento científico, leitura, podcasts, informações de valor. Ao educar sem conhecimento, apenas reproduzimos a educação que recebemos”, conclui Nathalie Lima.

estante quindim

Conheça três obras, já entregues à Família Quindim, que convidam meninos e meninas a refletirem sobre temas relacionados à misoginia:

Leila, de Tino Freitas e Thais Beltrame
Barbazul, de Anabella López
Cinderela do rio, de Mafuane Oliveira e Taisa Borges
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