

Cruquerré — nome do menino Borum em sua aldeia — ouviu o pajé dizer que lhe daria um presente belo e importante: uma flecha grande e colorida, com a ponta branca e longa, feita por um grande guerreiro muito tempo atrás. Era a mais linda que o menino já tinha visto e, não bastasse isso, ainda por cima era mágica, com o poder de conceder coragem e sabedoria a quem a possuísse.
Para receber o tão desejado presente, tudo o que o menino precisava fazer era contar a todos da aldeia um sonho. Apenas isso. Parece fácil, não é mesmo? E seria, se não fosse um pequeno problema: Borum nunca lembrava de nenhum sonho que já tinha tido na vida! Repleto de ansiedade e preocupação, o menino se põe a matutar. Quando um pequeno mico-leão-dourado o visita, ele dorme e, durante o cochilo, algo muito esperado acontece…
Ao nos guiar pela história e pelos sonhos de Borum, Edson Krenak — filho do povo Krenak — traz para o texto a vivência, suas lembranças pessoais e a oralidade de sua comunidade, das margens do Rio Doce.
A tradição dos ritos de passagem indígenas atravessa o livro inteiro, um jeito potente e simbólico de contar a transição da infância para a vida adulta, e de lembrar que, mesmo sem tanta clareza ou certeza sobre o caminho, nos dispomos a seguir adiante. Nas ilustrações de Mauricio Negro, onças, araras, micos-leões-dourados e o próprio Rio Doce ganham cor e presença própria, quase como personagens da jornada de Borum.

