Ícone do site Revista | Clube Quindim

Por que cada vez mais crianças estão apresentando comportamentos relacionados a transtornos alimentares?

Se nos anos 2000 a moda, o entretenimento e a cultura como um todo pareciam favorecer corpos magros, desde peças de roupa em alta que ressaltavam um único padrão ideal até capas de revistas com dicas constantes para emagrecer, a metade dos anos 2010 se tornou uma resposta a esse cenário. O movimento “body positive”, que ganhou força principalmente nas redes sociais, passou a reunir cada vez mais influencers e nomes que defendiam a pauta do corpo livre e desmistificavam ideias preconceituosas e estigmatizadas sobre corpos que não se adequavam ao padrão vigente. Aos poucos, o movimento também passou a adentrar a mídia e a atuação de marcas de moda e beleza.

Vale ressaltar, é claro, que o culto à magreza nunca saiu de cena. No entanto, houve, ao menos, um olhar mais cuidadoso para falas gordofóbicas e para a romantização da magreza extrema, principalmente na mudança do discurso público, seja entre celebridades ou no posicionamento de marcas do mercado de moda e beleza. Agora, porém, o cenário volta a mudar. No Brasil, estima-se que cerca de 4,7% da população tenha algum tipo de transtorno alimentar, percentual que pode chegar a 10% entre os jovens, de acordo o Ministério da Saúde.

Cada vez mais, celebridades surgem mais magras, antigas falas que romantizam a magreza voltam a viralizar na internet e o assunto da vez voltou a ser emagrecer, algo ainda mais latente com a popularização e o maior acesso às chamadas canetas emagrecedoras (medicamentos injetáveis usados no tratamento do diabetes tipo 2, mas que também causam perda de peso, auxiliando no tratamento da obesidade e do sobrepeso). E, infelizmente, essa retomada cultural também já está afetando crianças e adolescentes: mais uma vez, principalmente as meninas.

Leia também: Autoestima: como construir a autoconfiança desde a infância

De acordo com a meta-análise “The prevalence of eating disorders in children and adolescents: a systematic review and meta-analysis”, publicada em janeiro de 2026 na revista científica European Child & Adolescent Psychiatry, entre 77.714 crianças e jovens de 12 países diferentes, 5,23% apresentaram algum tipo de transtorno alimentar.

Foto: Canva

No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação, ouviu estudantes de 13 a 17 anos de escolas públicas e privadas de todo o país. Entre as meninas, 36,1% disseram estar insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a própria imagem corporal, contra 18,2% dos meninos. Além disso, 21,0% das meninas se percebiam como “gordas ou muito gordas”, com uma visão corporal bastante distorcida da realidade, segundo o levantamento. 

Na Inglaterra, internações por transtornos alimentares aumentaram 514,6% entre 2012–13 e 2021–22, de 478 para 2.938. Entre meninas de 11 a 15 anos, o aumento chegou a 638,4%. Os números são do estudo “Admission to acute medical wards for mental health concerns among children and young people in England from 2012 to 2022: a cohort study”, publicado em The Lancet Child & Adolescent Health. 

uma geração que cresceu com as redes sociais e a distorção da própria imagem

Aqui, é importante destacar que, se as crianças e jovens dos anos 2000 foram inseridos gradualmente na internet, os nascidos na década de 2010 não conhecem um mundo sem as redes sociais. Essa exposição precoce é um dos principais fatores que, atualmente, explicam os altos níveis de dismorfia corporal.

“A gente tem observado uma piora dos transtornos alimentares, especialmente nos últimos cinco ou seis anos, período que coincide com a pandemia e com o uso mais intenso das telas e das redes sociais. Na infância e na adolescência, isso se relaciona também à formação da identidade e à percepção do próprio corpo. A exposição constante a imagens, muitas vezes distorcidas por filtros, favorece a comparação, que já é algo natural nessa fase”, explica Wagner Gurgel, psiquiatra e coordenador do Programa de Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência do IPq – Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), em entrevista à Revista Quindim. 

A cultura de consumir constantemente imagens nas redes e atribuir valor a si mesmo a partir da percepção e da validação de terceiros faz com que o cérebro, justamente durante uma fase de transição tão importante para a construção da identidade, passe a buscar lógicas de recompensa que podem distorcer a forma como crianças e jovens enxergam a si mesmos. Logo, se uma imagem compartilhada por outra pessoa recebe mais validação, a própria aparência passa a ser questionada.

Nesse cenário de vulnerabilidade, tendências que podem levar a comportamentos associados a transtornos alimentares ganham mais espaço, especialmente quando esses mesmos comportamentos passam a ser normalizados nas redes sociais.

Leia também: Quando a preocupação com a própria aparência torna-se um problema para a criança?

a volta da extrema magreza sob os holofotes

Nos filmes, em trends nas redes sociais, em ensaios fotográficos e nas apresentações de novas coleções de grandes marcas, corpos cada vez mais magros voltaram a ganhar destaque. Na internet, novos debates sobre as condições associadas a esses corpos e as razões para que esse padrão volte a ganhar força também têm crescido.

Embora esse cenário possa parecer distante da realidade das crianças, a cultura mainstream e de massa também influencia a forma como elas percebem a si mesmas e o mundo ao redor. A própria ideia de feminilidade, por exemplo, é uma construção que também passa pelas referências consumidas desde a infância. Quando determinados corpos, roupas, comportamentos e estéticas são apresentados repetidamente como femininos, essas associações passam a fazer parte da maneira como meninas entendem o que significa ser mulher.

Direto do Instagram: 6 livros para fortalecer a autoconfiança das meninas desde cedo

Se uma atriz de um filme voltado ao público infantil aparece constantemente associada, por exemplo, a uma personagem feminina delicada, com roupas, comportamentos e características físicas que reforçam a ideia de um corpo pequeno e frágil como representação da feminilidade, essa referência também pode influenciar a forma como as crianças entendem beleza e gênero. Por isso, também é importante se atentar, para além das questões estéticas, aos produtos culturais consumidos pelas infâncias e às associações de gênero que eles ajudam a construir.

“Houve um claro retrocesso nessa questão. Se, há cinco anos, víamos até as passarelas da moda abraçarem uma maior diversidade corporal e ficarem mais atentas à magreza extrema, com o surgimento dos análogos de GLP-1 (medicamentos que imitam o hormônio GLP-1, que ajuda a regular o açúcar no sangue e a saciedade) esse discurso parece ter perdido força”, reflete Muriel Hamilton Depin, nutricionista especializado em Transtornos Alimentares pelo AMBULIM-IPq-HC-FMUSP e diretor de comunicação e membro do conselho técnico da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (ASTRALBR), em entrevista à Revista Quindim.

O especialista ainda diz: ” Junto com a moda dos anos 2000, voltou com tudo a magreza extrema do início desse mesmo período. O corpo virou tendência de moda, e as celebridades correram para se enquadrar no que está em alta. Como consequência, muitas pessoas também passaram a tentar se enquadrar nos padrões impostos por essas celebridades”.

“Brincadeiras” que normalizam transtornos e espaços que transformam comportamentos de risco em rotina

Nesse cenário, muitas crianças passam a ter contato, desde cedo e principalmente durante as fases de transição, com contas que, de maneiras diretas e indiretas, reforçam padrões associados a transtornos alimentares em tons de “brincadeira” e desafios. Alguns desses espaços existem há anos e já foram conhecidos como comunidades “pró-ana” ou “pró-mia”, em referência à anorexia e à bulimia. Neles, a romantização dos transtornos vai além de uma publicação isolada: pessoas compartilham formas de perder peso, contagem de calorias, metas de emagrecimento e até códigos próprios para falar sobre os comportamentos sem que eles sejam facilmente identificados.

O termo “Eating Disorder Twitter (EDTWT)”, que significa, em tradução livre para o português, “Transtorno Alimentar no Twitter”, por exemplo, aponta, em uma rápida busca, diferentes publicações que fazem referência à contagem de calorias por dia, formas de perder peso mais rapidamente e imagens que buscam fazer o chamado “body checking”, que visa expor corpos muito magros. Entre as publicações, existem vários perfis de adolescentes e pré-adolescentes, especialmente meninas.

Além desses espaços específicos, em outras plataformas como o TikTok, algumas piadas surgem em tom inofensivo, mas, quando normalizadas, se tornam uma ideia enraizada. Vídeos do tipo “quando eu tenho dor de barriga, mas pelo menos emagreci 2 quilos” alcançam milhares de views e curtidas, com comentários de identificação.

Mais uma vez, os conteúdos são direcionados principalmente ao público feminino e também esbarram em outras idealizações de gênero. “Os dados mundiais, pensando em anorexia nervosa, bulimia nervosa, mesmo transtorno de compulsão alimentar, são majoritariamente de meninas”, reforça Wagner.

Por sua vez, a gordofobia também passou a ganhar mais espaço nas redes sociais: se antes era algo rechaçado pelo grande público, agora comentários de ódio passam sem ser percebidos. Inicialmente, também surgiram como “brincadeiras” que faziam alusão a satirizar o fato de ganhar peso ou a preocupação excessiva para que isso não aconteça. Com o tempo, cada vez mais mensagens ofensivas para pessoas que fogem da estética desejada passaram a se tornar comuns na seção de comentários.

Wagner pontua que esses comportamentos digitais, isolados, não significam que alguma criança está desenvolvendo um transtorno alimentar, tampouco que irá desenvolvê-lo. No entanto, para aqueles que já sofrem com esses quadros ou que estão iniciando comportamentos associados a transtornos alimentares, a influência das redes pode ser muito perigosa. O médico, especializado no atendimento de crianças e adolescentes com essas doenças, também concorda que, nos últimos anos, o cenário tem se tornado muito mais preocupante.

“Especificamente nas questões alimentares, a gente vê uma piora e um aumento mesmo de demanda, tanto ambulatorial como de internação. A nossa fila de espera só aumenta, e a gente acaba recebendo pedidos de internação de casos graves do Brasil todo”, relata o psiquiatra.

Os sinais de alerta e como os pais podem agir

Os primeiros sinais de um transtorno alimentar nem sempre aparecem de forma evidente. Uma preocupação maior com a alimentação pode parecer apenas uma mudança de hábito, enquanto falar frequentemente sobre emagrecimento ou esconder o próprio corpo pode ser interpretado como uma insegurança comum da idade. No entanto, quando esses comportamentos começam a se tornar rígidos e a interferir na rotina, é importante buscar ajuda.

Um sinal de alerta é quando o jovem começa a se preocupar demais com comida, principalmente com calorias e grupos alimentares, e com o corpo, com muita insatisfação corporal, às vezes escondendo o corpo com camadas de roupa ou falando sobre perda de peso com frequência. Além disso, uma dieta ou um ‘estilo de vida saudável’ pode mascarar sintomas de um transtorno alimentar” — Muriel Hamilton Depin, nutricionista especializado em Transtornos Alimentares pelo AMBULIM-IPq-HC-FMUSP e diretor de comunicação e membro do conselho técnico da Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (ASTRALBR)

Além dessas mudanças, também é preciso observar o comportamento social da criança. Para Wagner, um dos sinais é quando a criança ou adolescente passa a ficar mais recluso e diferente do comportamento habitual. A preocupação com a alimentação também merece atenção quando começa a ficar cada vez mais rígida, sem flexibilização, a ponto de interferir até na convivência com outras pessoas. 

Além disso, o médico também pontua que, atualmente, muitos transtornos são “disfarçados” pela busca por um bem-estar absoluto. Com cada vez mais pessoas focadas em se alimentar bem, fazer exercícios e compartilhar uma vida extremamente saudável nas redes, comportamentos que, em si, são positivos, algumas atitudes preocupantes podem passar despercebidas. Quando essa rotina passa a incluir, por exemplo, uma contagem obsessiva de calorias, pode ser um sinal de alerta.

Nesse sentido, o ambiente familiar também pode influenciar esse processo. Comentários constantes sobre peso, dietas e alimentação podem acabar normalizando comportamentos que deveriam ser observados com cuidado. “Tem muitos desses comportamentos que são normalizados dentro de casa, como uma preocupação excessiva com a alimentação e a checagem de rótulos. Seriam coisas que realmente chamam mais atenção, mas que, infelizmente, hoje acabam também sendo normalizadas no dia a dia”, pontua Wagner.

Por isso, acompanhar o que a criança navega e consome nas redes também faz parte da prevenção dos transtornos alimentares. Para Muriel, os pais devem verificar quais conteúdos os filhos estão vendo e seguindo e conversar sobre os riscos daqueles que incentivam comportamentos alimentares prejudiciais. Quando os primeiros sinais aparecem, o diálogo também deve vir acompanhado de ajuda profissional, sem constranger a criança ou o adolescente, mas buscando entender como aquela ideia ou comportamento surgiu. O acolhimento é o primeiro passo para construir um diálogo verdadeiro.

“É preciso ter muito cuidado na abordagem. Ao identificar algum comportamento preocupante, é importante abrir o diálogo, conversar sobre o porquê daquilo e entender o que existe de sofrimento. Com tanta informação e tanto acesso às redes sociais, é importante que exista, minimamente, essa supervisão e o uso compartilhado. E o tratamento especializado é uma chave muito importante de ressaltar, porque os transtornos alimentares têm um tratamento específico e podem ter muitas falhas quando não é feito dessa forma”, orienta Wagner.

Assim, quanto antes esses sinais forem identificados, mais cedo a criança pode receber o acompanhamento necessário. Reconhecer essas mudanças no início pode fazer diferença para que o sofrimento seja identificado antes que o transtorno avance.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, para dialogar com as crianças sobre autoestima a partir da própria imagem:

Andreia baleia, Davide Calì e Sonja Bougaeva
Feio, eu?, de Silvana Tavano e Mariana Demuth
Gigante pouco a pouco, de Pablo Albo e Aitana Carvalho
Sair da versão mobile