1.294 dias. Quando o árbitro polonês Szymonc Marciniak apitou pela última vez na final da Copa do Mundo de 2022, entre França e Argentina, a espera para a próxima edição da competição seria de 1.294 dias. Quase uma eternidade para quem conta as semanas para o campeonato.
Mesmo com o enorme tempo de espera, a vida seguiu, e quando bateu à porta o prazo para, finalmente, a convocação final para a Copa de 2026, o principal sentimento no imaginário do brasileiro médio em relação a competição seria, muito provavelmente, o de empolgação. Mas será que essa ainda é uma realidade no país? Ainda é possível dizer que o maior evento esportivo do mundo tem o potencial de despertar um sentimento de união nas crianças e em suas famílias?
Para entender se este tipo de comoção segue como algo presente entre os pequenos, é necessário ter a certeza de se o país, de forma geral, ainda vive essa tendência. Segundo o Mapa das Paixões Brasileiras 2026, estudo realizado pela Especialista em Pesquisa de Mercado e Opinião Pública Ipsos, o índice de pessoas desanimadas para a Copa do Mundo 2026 está em 48%. Na edição anterior, realizada no Catar, o resultado mirava nos 22%.
Apesar de o desinteresse ter aumentado ao longo dos últimos quatro anos, um detalhe chama a atenção: no mesmo Mapa, é justamente o público mais jovem (dos 16 aos 24 anos) que apresenta a menor rejeição à competição — apenas 25%. Além disso, a Copa aparece como a quarta maior ‘paixão nacional’ da pesquisa, atrás apenas do gosto por séries, música e religião.
O maior interesse vindo do público mais juvenil revela que, mesmo com a descrença de parte significativa dos adultos, o senso de coletividade que a Copa do Mundo 2026 pode despertar ainda tem como alvo principal justamente a geração que não viveu a euforia de grandes conquistas da Seleção, já que o último Mundial vencido foi o de 2002. O atual momento de seca de títulos pode ser, inclusive, uma oportunidade de estabelecer conexões entre as crianças e isso vai além dos resultados esportivos.
espaços de convivência precisam possibilitar o ato de torcer
Para José Anibal Azevedo Marques, mestre em Psicologia Social pela PUC-SP e coordenador do Departamento de Psicologia do Esporte do Botafogo de Futebol e Regatas-RJ, é inegável o poder de mobilização de um evento como a Copa do Mundo, desde movimentações de países em relações internacionais, até a tendências do mercado de bens e serviços.
A influência dos principais ambientes de convivência das crianças, em especial aqueles com a família reunida, é um dos pontos cruciais para que a relação com o futebol e o senso de pertencimento com o esporte seja estabelecida, desde muito cedo, de forma saudável. Acompanhar os jogos em conjunto com os filhos, discutir sobre como o esporte carrega uma parte significativa da história do país e promover um ambiente de torcida são oportunidades encontradas de forma quase que exclusiva durante a Copa, uma vez que rivalidades locais, que podem acontecer em jogos entre times brasileiros, não aparecem como uma possível barreira entre as crianças e os adultos.
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A união em prol de um sentimento incentivado pela Seleção só terá efeito caso ela aconteça a partir de locais, grupos e costumes que já são de prática comum dos pequenos, de forma que torne o processo de coletividade o mais natural possível durante a Copa.
Assim, momentos de reunião para assistir aos jogos conseguem ampliar diálogos importantes. Uma competição como a Copa do Mundo 2026 pode ser compreendida para muito além do esporte, incluindo pautas como a relação do futebol com os coletivos, o significado de torcer pelo país e até discussões mais profundas sobre o vínculo entre o esporte e a identidade do povo brasileiro
“Algumas atividades feitas coletivamente, em comunidades menores (como vizinhança, escola e clubes) podem contribuir para esta unidade e senso de coletividade além, obviamente, de um processo educativo e de valorização das conquistas, gosto pelo esporte, valores e princípios presentes na prática esportiva”, disse Marques.
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O psicólogo também chamou atenção para o potencial que este tipo de debate tem para desconstruir a ideia de que torcer pela Seleção represente alguma associação a movimentos políticos específicos no país.
“A Seleção de futebol deve ser do povo brasileiro e não de governo A ou B”, disse. Segundo ele, é possível falar do uso político do futebol nos diferentes governos a frente do país nas cinco conquistas de Copa do Brasil até aqui, mas sem perder de vista a importância de educar as crianças com uma visão crítica que fomente o sentimento de pertencimento ao país como cidadão brasileiro, para além de governos.
A periodicidade da competição e o ar de exclusividade que ela passa – ainda que o Brasil seja a única seleção que a disputou em todas as oportunidades na história – são um dos fatores principais que imprimem o entusiasmo em públicos que estão vivenciando aquela experiência pela primeira vez na vida. Neste sentido, os pais têm uma influência direta em como seus filhos tendem a experienciar a Copa, uma vez que o senso de união despertado pelo Mundial também vai depender de como a sociedade conseguirá se moldar às mudanças de rotina durante a competição.
“Para quem tem filhos, haverá aula no dia? Terá horário alternativo no trabalho em dias de jogo da Seleção Brasileira? Se, neste contexto, houver mediação de qualidade para que as crianças aprendam e vivenciem esta experiência de assistir e torcer em uma Copa do Mundo, certamente o impacto causado permitirá às crianças partilharem memórias afetivas positivas e de qualidade, unificando sentimentos a partir de uma referência única”, completa José Anibal.
copa do mundo: quanto maior a pressão em torno do futebol como “produto”, menor a possibilidade de união
Dentro dessa tentativa de fazer com que as crianças absorvam, de forma natural, a sintonia em torno da coletividade que a Copa traz, há um processo de desconstruir a ideia de que o primeiro contato dos pequenos com o futebol ocorra a partir da lógica do esporte como um “produto”.
Na avaliação de Wilton Santana, doutorado em Educação Física e Sociedade pela Unicamp e Instrutor Conmebol para futsal e futebol, as ações dos adultos são fundamentais para ajudar nessa construção. Segundo ele, quebrar padrões que envolvam uma visão mercadológica sobre o esporte é uma medida vital para que as crianças se sintam pertencentes ao movimento de modo genuíno.
Além disso, o aspecto comportamental também conta muito: para Santana, pais que têm como prática as reclamações excessivas e xingamentos aos árbitros após jogos em competições infantis, por exemplo, possuem o potencial de afastar as crianças do lado positivamente passional e de união que eventos como a Copa podem provocar.
Dessa forma, a agressividade e hostilidade que permeiam o ambiente do futebol, ainda que nos passos iniciais que as crianças dão no esporte, não contribuem para a aderência ao senso de comunidade e do papel de empatia que ele tem, fazendo com que o amor pela Seleção do país continue como um sentimento distante.
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junção familiar permite que o apreço pela seleção vá além dos resultados
“As crianças da era digital brincam de futebol sem a ingerência de adultos ou treinam futebol? Estudos mostram que o vínculo emocional com o jogo é adquirido quando se pratica mais livremente, quando se pode errar sem ser julgado, quando se joga por diversão. A iniciação no futebol, na era digital, atende o desejo espontâneo de a criança jogar ou se trata mais de atender às expectativas parentais que vinculam essa prática a uma carreira, a um empreendimento?”, questiona Wilton.
Para ele, o envolvimento familiar com o esporte vai ser muito importante neste processo: “Honestamente, se o futebol e a Seleção não têm valor familiar, não seria neste momento [de Copa] que teriam. A tendência é ser como é”, avaliou.
Apesar de um olhar um pouco mais pessimista em relação à possibilidade de crianças aderirem a essa coletividade de modo espontâneo, ou sem influência dos mais velhos, Santana também chama atenção para hábitos geracionais que ainda atraem a atenção dos pequenos para eventos da magnitude da Copa, como a febre de colecionar figurinhas dos jogadores no álbum oficial do campeonato, por exemplo, o que aponta para manutenção de costumes que mantém aceso o sentimento de orgulho provocado pelo futebol da Seleção, para além dos resultados alcançados dentro das quatro linhas.
Para José, por outro lado, é justamente nesse sentido que entra o principal papel dos responsáveis pelas crianças durante a Copa e como a união do núcleo familiar melhora a oportunidade de viver a magnitude do Mundial:
“Se ensinarmos as crianças a importância de valorizarem o desempenho, o esforço, a disciplina, a dedicação em detrimento à conquista exclusivamente, seria plausível que a identificação com a Nação e o coletivo fossem mais frequentes”, finaliza.
estante quindim
Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam com o futebol e o desenvolvimento do senso de coletividade nas crianças:

