A 30ª Conferência das Partes (COP30), realizada em Belém (PA), terminou no dia 22 de novembro com avanços importantes e limitações já conhecidas nas negociações climáticas. O evento, que reúne líderes mundiais para discutir novas metas e acordos em relação ao combate das mudanças climáticas, chegou ao fim com alguns pequenos avanços, mas também enfrentou entraves em outros pontos focais.
Apesar de progressos nos indicadores do Plano Global de Adaptação – que pretende avaliar como os países estão lidando com planos de adaptação e mitigação frente às consequências do aquecimento global – e nos debates sobre financiamento climático, pontos centrais como o mapa de ação para a transição dos combustíveis fósseis não entraram no texto final da conferência.
Paralelo a isso, uma outra grande mobilização movimentou a cidade e os corredores oficiais: crianças e jovens tiveram uma participação inédita na COP brasileira. Entre marchas, plenárias infantis, “MiniCOPs”, entregas de cartas e encontros com lideranças internacionais, muitos chamaram a conferência de “COP das crianças”. Ao todo, cerca de 170 crianças de todo o mundo foram credenciadas e participaram da COP30, com mais de 40 colaborando em diferentes diálogos.
O Clube Quindim, que cobriu a COP30 direto de Belém, acompanhou de perto essa participação e reuniu oito pontos de destaque que marcaram a presença das infâncias no evento internacional:
1. Justiça intergeracional
Quando pensamos em futuros que serão influenciados por erros cometidos em gerações anteriores e que continuam sendo agravados por aqueles que tomam as decisões agora, é preciso entender que os grupos mais afetados por esse padrão precisam de políticas específicas.
Ao falar sobre justiça intergeracional, é entendido como fato que crianças e jovens já vivem os efeitos da crise climática hoje. Danilo Moura, especialista em clima e meio ambiente pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), explicou o que significa o termo “Justiça Intergeracional” em entrevista à Revista Quindim.
“Não é só que as crianças serão impactadas futuramente: elas já estão sendo impactadas agora. Milhões perderam aulas por eventos extremos só no último ano, inclusive mais de 1 milhão no Brasil. Elas enfrentam riscos fisiológicos maiores, dependem de cuidadores e têm menos capacidade de avaliar perigo. Se não considerarmos essas especificidades na transição energética e nas políticas de adaptação, é justamente sobre elas que o peso das decisões atuais vai recair”, declarou ele.
Danilo também lembra que garantir justiça intergeracional significa considerar as necessidades das infâncias desde a formulação das políticas. Isso inclui escuta qualificada, dados sobre crianças e indicadores de adaptação que realmente reflitam suas condições.
Por exemplo: em uma cidade com altos índices de poluição do ar, dados sobre crianças afetadas pela condição são transparentes? A partir desses dados, quais medidas são tomadas? Afinal, caso esse levantamento não esteja disponível, será praticamente impossível implementar, por exemplo, medidas e fundos de adaptação para as crianças que já sofrem com os impactos das mudanças climáticas.
2. crianças e jovens são um dos grupos mais vulneráveis às mudanças climáticas
Crianças têm sistemas fisiológicos mais frágeis, ainda em formação, e dependem totalmente de cuidadores. Em uma catástrofe climática, uma criança precisa do amparo de um adulto. “Um bebê, por exemplo, não sua tanto. Sua capacidade de lidar com calor extremo é menor do que a de qualquer adulto”, explica Danilo. Isso faz com que o grupo se torne um dos mais vulneráveis frente às mudanças climáticas, uma vez que já nascem em um ambiente transformado pelo aquecimento global, e desenvolvem seu corpo e mente tendo que enfrentar diferentes barreiras.
Quando essa vulnerabilidade física se soma a desigualdades estruturais, o impacto se intensifica ainda mais. “Quando as vulnerabilidades fisiológicas se combinam com desigualdades já existentes: ser menina, ser indígena, morar em uma comunidade quilombola ou ribeirinha, você tem as crianças mais em risco. São infâncias que enfrentam o impacto do clima e, ao mesmo tempo, violações de direitos. Essa sobreposição exige políticas muito específicas, com dados desagregados e financiamento direcionado”, pontua Danilo.
Por isso, é preciso fazer um recorte dentro do recorte e pensar em várias frentes focando em cidades e estruturas mais acessíveis às diferentes infâncias e políticas que englobem todos esses grupos, levando em consideração suas demandas específicas.
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3. EdUCAÇÃO AMBIENTAL TAMBÉM É UMA POLÍTICA
Esperar que crianças participem da discussão climática sem antes construir uma base de educação ambiental é insuficiente. Na COP30, diferentes painéis destacaram a necessidade de incluir o clima no currículo escolar, com jovens enviados pelo UNICEF e por estados brasileiros relatando como a educação ambiental abriu portas para que entendessem seus territórios, riscos e direitos.
Danilo reforça que a participação infantil passa, também, pela linguagem técnica das negociações: “É essencial inserir as crianças na linguagem dos textos e estabelecer indicadores específicos para elas, em áreas como saúde materno-infantil, educação e proteção contra a pobreza. A discussão precisa refletir essas especificidades para que nenhuma infância seja deixada para trás.”
Mais do que a inserção das crianças nos textos, é preciso trabalhar para que elas estejam prontas para entender o funcionamento da agenda climática e o desdobramento das negociações.
Embora não seja necessário um nível técnico, uma vez que isso é algo mais específico para quem atua nas conferências, a educação ambiental também pode já familiarizar crianças e jovens com alguns dos termos mais discutidos, como justiça climática, financiamento e transição energética. Assim, é preciso cada vez mais encarar a frente como uma política, entendendo que sua adesão ou não é uma escolha e pode acarretar em uma sociedade mais ou menos consciente sobre as mudanças climáticas.
4. DAR VOZ AOS PEDIDOS DOS JOVENS
Durante a Pré-COP, mais de 1.300 cartas escritas por crianças foram entregues à presidência brasileira da conferência. Os pedidos abordavam clima, cidades seguras, natureza e direitos. Jovens enviados pelo UNICEF também participaram de fóruns, entrevistas, debates e reuniões com líderes de diferentes países, assim como “embaixadores mirins” representando os estados brasileiros. Além disso, diversas mobilizações chamadas de “MiniCOPs” aconteceram em todo o mundo em países que se comprometeram com a pauta juvenil.
e foram entregues ao comando brasileiro da conferência durante a Pré-COP. Crédito: Larissa Mariano
O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, se encontrou com parte dessa delegação e publicou em suas redes sociais o reconhecimento da importância de ouvir crianças e jovens diretamente, reforçando que as decisões de hoje precisam refletir as urgências vividas por eles. E a movimentação juvenil aconteceu dentro e fora da COP: na Green e Blue zone da cúpula e em toda a Belém houve eventos e encontros que evidenciaram o papel das crianças na luta contra as mudanças climáticas.
Para Ana Toni, CEO da COP30, essa presença marcou a conferência. Em coletiva de imprensa, ela declarou: “Tivemos um grande mutirão da juventude, com vários grupos ao redor do mundo trabalhando em soluções contra o desmatamento em suas comunidades”. Ana participou também de outras plenárias e debates com os representantes mirins e ressaltou que ainda é preciso mais políticas de implementação dos jovens nas decisões.
Essa combinação de cartas, escuta qualificada e participação em espaços oficiais fez com que a presença de crianças e jovens fosse vista como um dos elementos de destaque da COP30, que foi um marco em relação à participação da sociedade civil e de grupos indígenas e de comunidades tradicionais brasileiras.
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5. a juventude precisa estar nas mesas de negociação
Essa participação não pode ser apenas simbólica: as infâncias precisam aparecer nos textos oficiais. Danilo explica que incluir crianças nos documentos significa também garantir indicadores desagregados por idade, referências à justiça intergeracional, metas específicas para educação, saúde e proteção social.
Além disso, afasta a ideia simplista de que a participação infantil é apenas algo “bonito”, o que retira as crianças do próprio papel de cidadãs que possuem o direito de cobrar e fiscalizar medidas públicas.
Todo mundo diz que crianças e jovens são os líderes do amanhã, mas esse amanhã nunca chega. Eles são os líderes de hoje. Se não estão na mesa onde as políticas são feitas, como vão entender o que eles realmente precisam? – Saikat Das, representante global das juventudes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC)
E completa: “As decisões precisam nascer das comunidades, na linguagem delas, para então chegar aos governos. Quando as juventudes do mundo todo conversam entre si, elas trazem soluções concretas, não só problemas, e isso muda a dinâmica das negociações”, diz Saikat.
Os resultados dessa mobilização foram significativos. Nesta COP, o texto final trouxe 19 menções diretas a crianças e meninas. A nível de comparação, nos últimos seis anos, foram 77 menções. Nas primeiras 16 COPs, apenas duas. As juventudes apareceram, inclusive, em alguns dos textos mais importantes da COP30, como o de Adaptação e Transição Justa. É uma mudança visível na forma como o tema passa a ser tratado.
6. Quem representou a juventude na COP30?
A escolha de Marcele Oliveira, ativista climática de 26 anos, como Campeã de Juventude da COP30, simbolizou o compromisso oficial de incluir jovens nos debates. Durante a conferência, Marcele atuou em negociações, painéis e diálogos internacionais, trazendo perspectivas do Brasil real das infâncias amazônicas às periferias urbanas.
Ela participou de encontros com delegações estrangeiras, debates sobre adaptação climática e conversas com lideranças indígenas e ribeirinhas. Para além da discussão sobre as juventudes, Marcele marcou presença nas plenárias do alto escalão da COP30, o que permitiu pontuar as demandas dos jovens nas mesas de negociação.
Sua atuação reforçou que as juventudes não devem ser tratadas como observadoras, mas como parte estratégica da formulação de políticas, especialmente quando essas decisões moldam o mundo em que crescerão.
7. Um olhar menos simplista para infâncias indígenas, ribeirinhas e tradicionais
Segundo Catarina Nefertari, mobilizadora do “Amazônia de Pé” e participante da delegação de mães da “Our Kids Climate” para a COP30, ainda existe um olhar distante que às vezes, pode acabar colocando crianças indígenas e ribeirinhas como símbolos “comuns” para falar sobre a natureza, o que esbarra em uma desumanização dessas crianças, que possuem uma vivência complexa e com outras questões, assim como todas as infâncias.
“O Brasil é muito grande, com infâncias profundamente diferentes. É preciso entender como cada criança se relaciona com seu território, seu bioma, suas brincadeiras e formas de viver. As crianças são sujeitos de direito e devem ser consideradas em qualquer espaço, da casa à cidade e também na COP“, explicou Catarina em entrevista à Revista Quindim.
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Assim, a COP também marca um legado de que o olhar para comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais brasileiras não deve acontecer apenas em eventos específicos ou em cúpulas climáticas; é uma necessidade de inclusão integral em todas as pautas sobre as infâncias.
Essa compreensão amplia o debate e evita que infâncias tradicionais sejam retratadas apenas quando a discussão remonta a preservação ambiental, reforçando sua autonomia, cultura e diversidade.
8. O papel da literatura infantil na educação ambiental
A literatura apareceu na COP30 como uma ferramenta de educação ambiental e conexão cultural. Segundo Maria Isabelly, jovem quilombola de 15 anos que discursou sobre seu papel na luta ambiental em uma das conferências, a leitura foi um ponto importante para que ela pudesse se engajar na discussão ambiental.
“A leitura me ajudou a entender mais sobre o meio ambiente, outras culturas e outros povos. Ela espalha a nossa cultura pelo mundo e faz a gente se reconhecer dentro dela. Para mim, foi por meio dos livros que comecei a compreender meu território, minha comunidade e minha relação com a natureza. Isso ampliou meu entendimento sobre o que significa proteger o lugar onde eu vivo e porque essa luta importa tanto”, declarou em entrevista à Revista Quindim.
Na Marcha pelo Clima, que reuniu mais de 70 mil pessoas pelas ruas de Belém, cartazes também fizeram referência a obras de autores ligados ao território e à luta socioambiental, como Ailton Krenak. Os livros surgiram como ponte entre experiências distintas, ajudando crianças a compreender a complexidade dos biomas brasileiros e o papel humano na proteção ambiental.
A literatura, portanto, não apenas compôs a COP das crianças: ela ajudou a sustentar a ideia de que formar infâncias para a discussão climática começa pela construção de um olhar curioso, crítico e conectado com o mundo. Ao lado das cartas, das plenárias e das vozes que ecoaram em Belém, os livros reafirmam que educar para o clima também é educar para a vida coletiva.
Assim, mesmo com várias derrotas e pequenas vitórias, a COP30 marca um legado interessante para o Brasil e pelo mundo: que a resposta, na maioria das vezes, não surge de documentos engessados e discutidos por líderes poderosos, mas de vozes tradicionais e do olhar de quem ainda é capaz de enxergar o mundo com esperança.

