A frustração ao perder um jogo ou competição faz parte da vida, mas é comum que as crianças tenham dificuldade de assimilar isso. Por outro lado, não dá para ensinar “na marra”, colocando a criança em situações injustas em que ela inevitavelmente irá perder (como numa corrida contra um adulto, por exemplo) e justificar de que “a vida real é assim” como um suposto método de aprendizagem.
Caminhos intermediários precisam ser encontrados na hora de ensinar aos pequenos sobre perdas e ganhos — e a respeito dos sentimentos aflorados a partir dessas situações. Para compreender melhor o tema e encontrar maneiras de abordá-lo no cotidiano, conversamos com Sabrina Pani, psicóloga especializada no atendimento a crianças e adolescentes.
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O papel do “não” no aprendizado sobre perdas
“Vejo que existe uma tendência de compensar a perda, do tipo ‘você não consegue isso, mas eu te dou aquilo’. Então a criança sempre sai ganhando alguma coisa. Muitos pais têm essa ideia da necessidade de compensar”, ressalta a psicóloga.
Ela aponta que até mesmo o uso das telas para distrair a criança acaba impactando na assimilação a respeito de frustrações. Ela dá como exemplo o tempo de espera nos restaurantes, em que muitas vezes as crianças fazem uso de telas (para distração) em vez de assimilar a necessidade de esperar por algo.
Aí, na hora de participar de um jogo ou competição esportiva, muitos pais não entendem porque a criança tem tanta dificuldade de perder. “Talvez no cotidiano a criança não esteja recebendo quase nenhum ‘não’”, acredita a psicóloga. Com isso, fica muito mais difícil aceitar as situações de perda, pois a frustração não se faz presente no cotidiano da criança – e ela não têm ferramentas para lidar com tal sentimento.
“Por outro lado, há famílias que são mais rígidas e acabam indo para o outro extremo, em que a criança nunca pode nada, não é vista como um sujeito e não há flexibilidade”, pontua Sabrina. Ou seja, é importante agir com equilíbrio, analisando as situações em que o “não” aparece sem margem para negociação e quando é válido flexibilizar.
Qual é a idade de abordar sobre perdas?
Sabrina diz que é possível introduzir o assunto já na primeira infância, a partir dos dois ou três anos. Essa conversa pode aparecer em situações do cotidiano. Exemplo: quando o adulto diz que é hora de ir embora do parquinho e a criança se sente contrariada ou faz “birra”.
Isso pode gerar uma conversa sobre limites, frustrações e o fato de que nem sempre as coisas vão acontecer da maneira que a gente deseja ou na hora que a gente quer.
Veja também: Por que é importante a criança aprender a lidar com a frustração ainda na infância?
mas de onde vem os conceitos de competitividade e sucesso?
Podem vir da família, dos amigos, da escola, dos conteúdos audiovisuais, dos jogos nos ambientes digitais e todo ponto de contato da criança com o externo. O que acontece durante essa construção de entendimento de mundo é que muitas crianças podem entrar em contato prematuramente com conceitos agressivos a respeito de competitividade, performance, sucesso e prosperidade. E não encontrar diálogo familiar que ajudem a esclarecer esses valores.
Sabrina diz que é preciso dar atenção ao tema e ter em mente que as crianças acabam reproduzindo certas falas sem ter entendimento delas, cabendo aos pais a tarefa de dialogar e instruir. “Na maioria das vezes, o discurso da criança se dá pela imitação. Às vezes ela ouve uma palavra aqui outra ali e coloca em uma frase, mas não necessariamente ela está entendendo sobre aquilo”.
Além disso, fica uma provocação: pense nas histórias e filmes que seu filho consome. Será que o foco está sempre no herói que vence no final? Será que a mensagem das narrativas está cunhada apenas no êxito do protagonista e no fracasso do antagonista? Diante de exemplos assim, vale a pena abrir o diálogo em família e validar que, diferente da ficção, todos estão sujeitos a perder ou ganhar — e que a vida continua mesmo depois que algo não sai do jeito que a gente esperava.
Ensinar “na marra” não é a solução
Há adultos que julgam ser divertido, e até mesmo educativo, travar competições desiguais com as crianças. Isso pode acontecer na aposta de uma corrida, por exemplo, em que o adulto e a criança disputam para ver quem chega primeiro. Caso o adulto corra normalmente, é muito provável que irá vencer, não é mesmo? É aqui que muitos pais usam o argumento de que a criança não pode ser considerada “café com leite” ou que não podem esperar que os outros “facilitem” para que apenas os pequenos vençam sempre, pois isso poderia mascarar a realidade que, segundo esse pensamento, é dura, mas precisa ser assimilada pela criança.
Essa não é uma maneira indicada pelos especialistas em infâncias de introduzir o conceito de perdas e ganhos no cotidiano infantil. Em vez de estabelecer competições desiguais, um bom caminho para a aprendizagem é através da autonomia da criança na hora de brincar.
“Atualmente as crianças são muito tuteladas. Claro que ela precisa ser protegida e ter a supervisão de um adulto, mas, nas brincadeiras, muitas vezes há adultos direcionando o que é para ela fazer”, aponta Sabrina, reforçando que a falta de autonomia no dia a dia dificulta a assimilação das situações de perda e erro.
Tendo autonomia no brincar, se autorregulando com as outras crianças e sem que o adulto seja demasiadamente pedagógico, a criança acaba descobrindo que algumas coisas não funcionam da maneira como ela imagina. E que tudo bem! Isso ajuda na elaboração das situações de erro, perda e frustração.
Veja também: Menos superproteção, mais autonomia: a importância de deixar a criança conquistar sua independência
Será que meu filho é competitivo demais?
A psicóloga aponta que é importante notar o comportamento da criança ao perder e ao errar. Se ela fica muito nervosa e tensa, chora com frequência e evita brincar ou praticar esportes por medo de perder ou falhar, é preciso dar uma atenção maior e entender o quanto ela está sofrendo. Por outro lado, é necessário observar — e levar em consideração também a percepção da escola — se a criança está tendo um comportamento opressor diante dos erros e das situações de perda dos outros.
“É importante explicar que as pessoas são diferentes, que em algumas situações elas vão ser melhores e noutras não serão tão boas”, diz Sabrina. Também é fundamental instruir a criança sobre o quão problemático é tirar sarro e diminuir quem errou e/ou perdeu — o bullying é muito comum nessas situações e deve ser combatido.
Validando o sentimento de frustração da criança
A frustração é um sentimento que nos acompanha ao longo da vida. E, como qualquer emoção complexa, precisa ser acolhida e assimilada para que possa ser elaborada.
Pela falta de compreensão, as crianças acabam expressando a frustração de diversas maneiras, muitas delas, consideradas desagradáveis ou inconvenientes. Já deve ter acontecido por aí do pequeno perder uma partida num jogo e se desregular emocionalmente, com choros e gritos. Quando manifestações desse tipo surgem, há pais que acabam cedendo ao desejo do filho, enquanto outros repreendem, exigindo que a crianças controle seus impulsos.
Como já dito, estabelecer limites e saber dizer “não” é muito importante, mas validar o sentimento de frustração também é primordial. Cabe ao adulto a tarefa de ajudar a criança a compreender melhor esse sentimento, em vez de querer que ela encontre sozinha as ferramentas emocionais necessárias para tanto.
“A frustração já foi dura, não precisa o adulto ser duro também, ele pode acolher a criança naquele momento. Dizer ‘nossa, é difícil mesmo quando a gente quer alguma coisa e não consegue, é triste, gera raiva’ e ajudar a descrever para a criança o que ela está sentindo”, recomenda Sabrina e completa: “e se colocar ao lado da criança como alguém que também vivencia aquele sentimento”.
É fundamental compreender que impor limites não significa negligenciar o sentimento da criança, nem o importante processo de aprendizagem sobre as emoções que nos acompanham ao longo da vida.
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