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Bullying na primeira infância? Entenda o que fazer quando uma criança pequena machuca outra

Bullying na primeira infância

Foto: Canva

Crianças pequenas podem, às vezes, ser vítimas de algumas situações desconfortáveis, como agressões físicas, exclusão de brincadeiras e comentários inapropriados. Diante disso, como os pais ou responsáveis devem agir? É possível falar em bullying na primeira infância, faixa etária que vai do zero até os seis anos de idade?

“Nessa fase, não utilizamos o termo bullying da mesma forma que com crianças maiores, porque o bullying pressupõe intencionalidade de ferir, repetição e desequilíbrio de poder. Isso exige um nível de desenvolvimento social e cognitivo que muitas crianças pequenas ainda não têm”, explica Nathalia Heringer, psicóloga especialista em primeira infância.

E completa: “Falamos mais, nessa faixa etária, em interações disfuncionais ou comportamentos agressivos, e não em bullying estruturado. Mas isso não significa que a criança que é alvo desses comportamentos não sofra e não necessite de ajuda”.

Direto do Instagram: Por que é importante ensinar às crianças que se distanciar de um conflito pode ajudá-la a resolvê-lo?

Na prática, essas interações disfuncionais podem englobar práticas diversas, como bater, morder, empurrar, não permitir que o colega participe de brincadeiras, disputar brinquedos, falar de características físicas da pessoa, entre outros.

Foto: Canva

Nesse sentido, crianças que destoam dos padrões impostos pela sociedade podem ser alvos mais frequentes das agressões, segundo Maria Isabel Leme, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e responsável por pesquisar conflitos interpessoais, como o bullying entre crianças e adolescentes.

“É mais difícil de detectar esses problemas na primeira infância porque muitas vezes eles consistem na exclusão sistemática de uma criança pelo fato de ela apresentar um maior índice de gordura corporal ou algum distúrbio, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDHA), por exemplo”, afirma. “A partir dos 3 anos de idade, as agressões ficam mais explícitas e podem envolver insultos ou mesmo ataques físicos. Portanto, é preciso que os responsáveis observem as interações entre as crianças”.

Bullying na primeira infância: identificando os sinais

Muitas vezes, os pais não estão presentes quando as agressões acontecem, seja porque o filho está na escola, na casa de um colega ou sob os cuidados de outra pessoa. Ao mesmo tempo, crianças muito pequenas podem ter dificuldade de verbalizar o que estão passando. Diante desse cenário, como os cuidadores podem constatar que uma criança está sendo alvo de agressões e precisa de ajuda? 

Para lidar com essa questão, Maria Isabel recomenda que os pais observem falas ou comportamentos que destoam do padrão. “Um sinal frequente é a criança não querer ir à escola, alegando não estar se sentindo bem ou outro motivo. Ela também pode ficar agressiva com outras pessoas da mesma idade, reproduzindo o que acontece na escola ou em outro ambiente que frequenta regularmente e onde podem estar ocorrendo essas situações”, explica a especialista.

Ao mesmo tempo, Nathalia destaca que quando os pais têm o hábito de conversar com as crianças e demonstram interesse genuíno pelos dilemas infantis, o filho tende a ter maior abertura para relatar os problemas que estão acontecendo.

“Na minha experiência clínica, já atendi crianças pequenas, de 4 anos, por exemplo, que estavam passando por situações adversas na escola e, por terem uma boa comunicação com os pais, comentavam sobre as situações que viviam para eles. O filho pode, por exemplo, falar de forma negativa sobre si mesmo: “meu cabelo não é bonito” ou “a colega X falou que meu vestido não é bonito como o dela”, explica Nathalia.

E completa: pode acontecer também de ele trazer reclamações repetidas sobre uma pessoa: “’fulano não deixa eu brincar com ele’ ou ‘ele disse que eu não podia jogar porque eu era ruim’. Se a criança se queixou aos pais, eles devem ficar alertas e acolhê-la”.

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a relação do conflito entre as crianças e a escola

Muitas vezes, as interações desagradáveis acontecem no ambiente escolar, durante as aulas, refeições, intervalos ou momentos voltados para brincadeiras. Maria Isabel defende que mesmo não estando presentes nessas horas, os pais devem pedir para que a escola os informe regularmente sobre o comportamento da criança, para que possam ajudar a identificar e resolver eventuais problemas.

“Os responsáveis precisam saber se, na escola, a criança interage com outras crianças, se costuma se envolver nas brincadeiras, se é tranquila, motivada…”, exemplifica.

Ao mesmo tempo, as especialistas defendem que, se os pais perceberem algum comportamento ou fala da criança que indique que ela está passando por problemas na instituição, devem procurar funcionários do colégio para conversar a respeito.

Foto: Canva

Para Nathalia, os responsáveis podem fazer isso sempre que ficarem sabendo de episódios ruins que se repetem ou estiverem notando sofrimento emocional e mudanças de comportamento, principalmente quando a criança tem dificuldade de se defender sozinha. 

“Os responsáveis devem esperar da escola uma postura de defender a integridade do aluno, de mediar a situação de forma que ele seja cuidado durante o tempo em que estiver na instituição”, frisa a especialista.  

Por outro lado, isso não significa, de acordo com Nathalia, que também não seja importante ensinar a criança a se defender por conta própria, de maneira respeitosa.

“Os pais devem sempre validar o que ela está dizendo, ouvi-la, dizer que ela não tem culpa pelo que está acontecendo, deixar claro que o comportamento do colega é errado e reforçar que vão ajudá-la a solucionar o problema. Precisamos olhar para essa criança e entender quais habilidades estão faltando para que ela consiga se defender nesse tipo de situação. Os pais podem se perguntar: o que eu posso fazer para que o meu filho desenvolva resiliência, força e habilidade de enfrentamento para conseguir passar por essas situações sem sofrer?”, explica Nathalia.

E se for o meu filho quem estiver sendo desagradável com os colegas?

Da mesma forma que as famílias podem ter que lidar com crianças que são alvo de práticas problemáticas, elas também podem se deparar com casos em que o filho é quem está praticando atitudes inadequadas com os colegas.

Para saber se isso está acontecendo, Maria Isabel afirma que a chave, nesse caso, também passa por manter um diálogo constante com a escola: “É necessário que a instituição converse com os pais, pois as condutas ruins podem se intensificar se forem bem-sucedidas, como em situações em que a criança costuma se apossar de objetos de um colega ou bate nele com frequência, afastando-o do grupo”.

Imagem do livro ‘Eu fico irada!’, de Sandra V. Feder e Rahele Jomepour Bell | Foto: Rodrigo Frazão

Uma vez identificado o problema, os pais devem, então, conversar com o filho e repreendê-lo pela postura, conforme explica a professora. “Podem perguntar o motivo de tais condutas e esclarecer que eles são contra aquela atitude. Além disso, devem combinar que aquilo não deve mais se repetir e que irão aplicar sanções caso ocorra outra vez”, diz.

Ao mesmo tempo, incentivar a criança a pedir desculpas para o colega ou estimulá-la a refletir sobre como ela se sentiria se estivesse no lugar daquela pessoa também podem ser formas de fazê-la entender que aquele comportamento não é aceitável, segundo Nathalia. “É importante dar o limite e fazer com que a criança entenda que errou. Não é colocá-la como maldosa, e sim ensinar algo que ela ainda não sabe”, completa a especialista.

estante quindim

Conheça três livros, já entregues à Família Quindim, que dialogam sobre conflitos entre as crianças:

Olho d’água, de Marcelo Tolentino
Eu fico irada!, de Sandra V. Feder e Rahele Jomepour Bell
Todos contra Dante, de Luís Dill
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