{"id":61840,"date":"2024-06-26T16:49:26","date_gmt":"2024-06-26T19:49:26","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=61840"},"modified":"2025-05-21T05:51:22","modified_gmt":"2025-05-21T08:51:22","slug":"literatura-e-antirracismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/literatura-e-antirracismo\/","title":{"rendered":"Coluna: Crian\u00e7as pequenas podem ser racistas?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro dia me perguntaram se as crian\u00e7as pequenas poderiam ser racistas. O questionamento veio de uma aluna cuja filha estava sendo v\u00edtima de racismo na educa\u00e7\u00e3o infantil. Diante dos relatos da menina, que ouvia, constantemente, de outros alunos que tinha cor de coc\u00f4, ela estava relutante em acreditar que crian\u00e7as de quatro, cinco anos de idade poderiam ser racistas. &#8220;Como isso \u00e9 poss\u00edvel?&#8221;, ela me perguntava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claro que o urgente a\u00ed foi acolher a dor dessa m\u00e3e. Costumo dizer que <strong>todo racismo causa dor, mas o racismo que nossas crian\u00e7as sofrem adiciona outra camada<\/strong>: a ang\u00fastia de ter que ensinar \u00e0 elas estrat\u00e9gias para sobreviver em uma sociedade racista, em um tempo em que esper\u00e1vamos n\u00e3o testemunhar o racismo se repetindo, ap\u00f3s todas as lutas e conquistas. Muitos sentimentos ficam implicados a\u00ed, e o desalento \u00e9 um deles. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas como quem pratica a maternagem n\u00e3o tem tempo para desalentos, <strong>depois de acolher, vem o apoio \u00e0s medidas de prote\u00e7\u00e3o racial desta crian\u00e7a e da escola como um todo<\/strong>. Numa crescente de a\u00e7\u00f5es, come\u00e7ando com o di\u00e1logo com a escola, depois a cobran\u00e7a de a\u00e7\u00f5es antirracistas que a institui\u00e7\u00e3o precisa implementar e, caso n\u00e3o haja resposta, a busca de ajuda em outras inst\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a pergunta que essa m\u00e3e me trouxe proporciona uma reflex\u00e3o que merece ser compartilhada aqui. E, <strong>antes de respondermos se uma crian\u00e7a pode ser racista, precisamos pensar sobre o conceito de crian\u00e7a<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">O que \u00e9 uma crian\u00e7a, afinal?<\/h3>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Literatura-e-antirracismo-na-educacao-infantil-meio1.jpg\" alt=\"Literatura e antirracismo na educa\u00e7\u00e3o infantil \n\nMenina sorrindo\" class=\"wp-image-61884\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Literatura-e-antirracismo-na-educacao-infantil-meio1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Literatura-e-antirracismo-na-educacao-infantil-meio1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito de crian\u00e7a no Ocidente passa por muitas transforma\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria, mas quase todas as defini\u00e7\u00f5es tendem a uma idealiza\u00e7\u00e3o. Ou seja, <strong>a sociedade v\u00ea a crian\u00e7a como deseja (ou como necessita) que ela seja, e n\u00e3o como \u00e9<\/strong>. E isso vem de longe&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por exemplo, Santo Agostinho pregou que a crian\u00e7a era um ser impuro e resultado direto do pecado m\u00e1ximo, e por isso &#8220;agente do mal&#8221; (da\u00ed a necessidade do batizado). Tal perspectiva, reproduzida e fortalecida por outras vozes importantes \u00e0 \u00e9poca, torna a crian\u00e7a um inc\u00f4modo social, moral e financeiro. Nesta toada, os n\u00edveis de abandono, fragilidade e mortalidade infantil chegam a padr\u00f5es insustent\u00e1veis, seja do ponto de vista humano, seja do ponto de vista financeiro (custo para o Estado).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicia-se assim toda uma campanha de sa\u00fade para que as pessoas assumam os cuidados e a educa\u00e7\u00e3o de seus filhos, pois o Estado e a igreja j\u00e1 n\u00e3o conseguem dar conta das necessidades das crian\u00e7as abandonadas \u00e0 pr\u00f3pria sorte. <strong>Como parte da estrat\u00e9gia, foi preciso ensinar a sociedade a amar as crian\u00e7as<\/strong>. Para tanto, <strong>seria preciso mudar a imagem delas<\/strong>. Deixar de serem vistas como pequenos dem\u00f4nios que s\u00f3 representavam gastos, doen\u00e7as e preocupa\u00e7\u00f5es (m\u00e1 sorte) e passar a entender toda a alegria, satisfa\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o que a presen\u00e7a da crian\u00e7a traz (boa sorte). Assim, <strong>a partir dos s\u00e9culos XVII, a crian\u00e7a come\u00e7a a ser vista como uma criatura fr\u00e1gil que precisa de cuidados da fam\u00edlia, da m\u00e3e principalmente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de d\u00e9cadas e muito investimento na mudan\u00e7a da mentalidade (por meio das artes, da religi\u00e3o, da imprensa e de leis), o conceito de crian\u00e7a mudou e chegamos a essa imagem de pureza, um ser quase angelical, que n\u00e3o faz parte da din\u00e2mica da realidade, que deve ser protegido de situa\u00e7\u00f5es e temas mundanos. Ou seja, um ser n\u00e3o social. Como se tivesse uma data, um cronograma para sua entrada na sociedade, hoje em dia esse prazo seria em torno de dez ou onze anos \u2013 quando a crian\u00e7a vai para o Ensino Fundamental II, digamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. De fato, a crian\u00e7a interage com seu meio de modo cognitivo, social e afetivo desde o ber\u00e7o (ou antes at\u00e9), portanto um entorno racista, mis\u00f3gino, xenof\u00f3bico, homof\u00f3bico, capacitista, gordof\u00f3bico, j\u00e1 est\u00e1 informando e moldando essa crian\u00e7a desde sempre.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir deste ponto, podemos pensar que uma crian\u00e7a pequena n\u00e3o \u00e9 racista, mas tem uma fala racista porque est\u00e1 em um meio racista. <strong>Da\u00ed a urg\u00eancia da conscientiza\u00e7\u00e3o e do letramento racial dos jovens e adultos. Pois se a fam\u00edlia, a escola e a m\u00eddia formam racistas, tamb\u00e9m podem formar o antirracista<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Veja tamb\u00e9m:<\/strong> <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-antirracista-nao-e-marketing\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escola antirracista n\u00e3o \u00e9 marketing: a\u00e7\u00f5es para a transforma\u00e7\u00e3o efetiva<\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"185\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-60083\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim.jpg 800w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim-768x178.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Como a literatura pode ajudar na constru\u00e7\u00e3o do pensamento antirracista<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos atores mais importantes da engrenagem sociocultural que foi acionada para transformar o conceito de crian\u00e7a, at\u00e9 chegar ao que temos hoje, foi a<strong><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/category\/livros-infantis\/literatura-infantil\/\"> literatura infantil<\/a>.<\/strong> N\u00e3o \u00e9 por acaso que este fen\u00f4meno \u2013 de purificar a imagem da crian\u00e7a \u2013 \u00e9 contempor\u00e2neo ao surgimento da literatura voltada para crian\u00e7as, com as primeiras publica\u00e7\u00f5es dos contos de fadas em livro de <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/hans-christian-andersen-vida-e-obras\/\">Hans Christian Andersen<\/a> e Irm\u00e3os Grimm.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 claro que esse processo hist\u00f3rico \u00e9 bem mais complicado que isso e outros agentes \u2013 a escola, a medicina, a legisla\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria cultural como um todo \u2013 est\u00e3o implicados na mudan\u00e7a do conceito de crian\u00e7a e inf\u00e2ncia, mas vou aqui enfocar a literatura, porque h\u00e1 uma interface com a educa\u00e7\u00e3o, que me parece muito importante para nossa reflex\u00e3o inicial: <strong>a literatura para crian\u00e7as \u00e9 espa\u00e7o para o antirracismo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A literatura para crian\u00e7as como a conhecemos hoje, a qual chamamos de literatura infantil moderna, tem tr\u00eas principais caracter\u00edsticas: <\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>O (quase) abandono da moral da hist\u00f3ria, das li\u00e7\u00f5es de \u201ccivilidade\u201d e modos de controle das crian\u00e7as;<\/li>\n\n\n\n<li>A centralidade das crian\u00e7as e da inf\u00e2ncia, enquanto tema e personagem;<\/li>\n\n\n\n<li>A forte presen\u00e7a da ilustra\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s um s\u00e9culo desse g\u00eanero entre n\u00f3s, esses aspectos foram aprofundados e temos hoje uma literatura infantil com forte presen\u00e7a de <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/temas-dificeis\/\">temas n\u00e3o-convencionais<\/a> (luto, guerras, diversidade de g\u00eanero, \u00e9tnica e racial, entre outras); ainda mais comprometida com o ponto de vista infantil; e que explora com criatividade e inova\u00e7\u00e3o a linguagem visual do livro, incluindo sua materialidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um marco importante desta trajet\u00f3ria foi a implementa\u00e7\u00e3o da Lei 10.639 (que completou 20 anos, em 2023), a qual tornou obrigat\u00f3rio o ensino de cultura e hist\u00f3ria africanas na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. <strong>Esta medida resultou no crescimento no n\u00famero de livros infantis dedicados aos afrotemas<\/strong>. Se no primeiro momento tivemos maior aten\u00e7\u00e3o ao tema racial, no segundo momento <strong>tivemos o crescimento no n\u00famero de autoras e autores, ilustradoras e ilustradores negros publicados<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Veja tamb\u00e9m:<\/strong> <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/protagonismo-preto-na-literatura-infantil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Protagonismo preto na literatura: entenda a import\u00e2ncia de apresentar livros com diversidade para as crian\u00e7as desde cedo<\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">a IMPORT\u00c2NCIA DO PROTAGONISMO E A REPRESENTATIVIDADE<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Literatura-e-antirracismo-na-educacao-infantil-meio2.jpg\" alt=\"Literatura e antirracismo na educa\u00e7\u00e3o infantil \nFam\u00edlia lendo um livro\" class=\"wp-image-61885\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Literatura-e-antirracismo-na-educacao-infantil-meio2.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/Literatura-e-antirracismo-na-educacao-infantil-meio2-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o temos d\u00favidas de que a escrita, a publica\u00e7\u00e3o e a media\u00e7\u00e3o de uma literatura infantil negra contribuem com a educa\u00e7\u00e3o antirracista, pois <strong>garantem representatividade, desconstroem estere\u00f3tipos e preconceitos, al\u00e9m de estabelecerem ampla diversidade \u00e9tnica e racial desde o in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas quero chamar aten\u00e7\u00e3o dos mediadores (familiares e professores)<a> <\/a>para o fato de <strong>a quest\u00e3o racial n\u00e3o estar presente apenas em livros sobre negros e\/ou escrito por negro<\/strong>s. Ra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 sobre ser negro, sobre negritude apenas. Ser branco tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o racial. Ou seja, a quest\u00e3o racial est\u00e1 presente em todos os livros. Quer voc\u00ea perceba ou n\u00e3o.<a> <\/a><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-antirracista-e-branquitude\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O melhor \u00e9 estar consciente disto<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ficar mais evidente vou dar dois exemplos. Os dois livros que irei abordar s\u00e3o recomendados para crian\u00e7as pequenas e, aparentemente, nada t\u00eam a ver com a quest\u00e3o racial, mas em ambos ela est\u00e1 presente. No primeiro h\u00e1 o racismo sublinear, e no segundo, o antirracismo sublinear.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamos come\u00e7ar por <em>\u00c9 o lobo pop-up<\/em>, da Ciranda Cultural, primeira edi\u00e7\u00e3o de 2012. Um livro t\u00edpico da inf\u00e2ncia contempor\u00e2nea, ele traz a hist\u00f3ria de um porquinho que est\u00e1 ca\u00e7ando um lobo mau. Em suas buscas pelo s\u00edtio onde mora, o porquinho cor-de-rosa aventura-se investigando esconderijos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crian\u00e7a leitora \u00e9 convidada a experimentar com ele um pouco desta jornada, colocando a m\u00e3ozinha nos lugares onde o lobo mau pode estar. H\u00e1 regi\u00f5es \u00e1speras, gosmentas, macias, e a crian\u00e7a vai se divertindo com o porquinho, mas ao mesmo tempo temendo que o lobo mau esteja escondido ali e que morda sua m\u00e3o. Quando o leitor vira a \u00faltima folha, surge um <em>pop-up <\/em>de p\u00e1gina dupla com a cabe\u00e7a enorme de um lobo, com seus dentes famintos e olhar aterrador. Qual a cor do lobo mau? Cinza escuro, quase preto, preto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que o lobo mau n\u00e3o pode ser branco? Por que esta insistente associa\u00e7\u00e3o do mal com a cor preta: ovelha negra da fam\u00edlia, caixa preta, lista negra ou a coisa vai ficar preta (para se referir a uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil)? Em especial essa associa\u00e7\u00e3o de um ser mau e violento com a cor preta ecoa muito na vis\u00e3o que a sociedade brasileira tem do homem negro que, v\u00edtima de genoc\u00eddio, <strong>\u00e9 visto como amea\u00e7ador e criminalizado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns podem dizer que \u00e9 exagero meu, que ningu\u00e9m fez um livro desse para perpetuar o racismo. Ao que eu respondo, pode n\u00e3o ter consci\u00eancia do racismo a\u00ed presente, mas este \u00e9 o efeito social e imagin\u00e1rio gerado. Portanto, <strong>\u00e9 preciso letramento e consci\u00eancia racial na produ\u00e7\u00e3o, na curadoria e na media\u00e7\u00e3o dos livros<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo livro \u00e9 o <em><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/selecoes\/livro\/aqui-e-aqui\/caio-zero\/9786554850094\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Aqui e Aqui<\/a><\/em>, de Caio Zero. Nesta obra rec\u00e9m-publicada pela editora Mostarda, acompanhamos um menino em uma aventura de investiga\u00e7\u00e3o. Ele quer saber por que ele dorme em uma casa e acorda em outra. O leitor o acompanha no teste de v\u00e1rias hip\u00f3teses: portal de teletransporte, ser son\u00e2mbulo e alien\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto procura, ele apronta muito pela casa, irritando a m\u00e3e, a qual aparece pouco, discretamente; na maior parte do tempo ele est\u00e1 sozinho. O \u00fanico irm\u00e3o \u00e9 adolescente e s\u00f3 dorme. O leitor percebe, por meio da ilustra\u00e7\u00e3o, que a casa do menino fica em um bairro de classe baixa, mas as casas s\u00e3o aconchegantes e ele tem tudo o que precisa para viver, carinho, alimenta\u00e7\u00e3o, livros, cachorro, plantas, etc. Mas ele n\u00e3o sabe por que dorme em uma casa e acorda na outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Direto do Instagram: <\/strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C4bSybkvKcZ\/?img_index=1\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Princ\u00edpios da escola quilombola e a educa\u00e7\u00e3o antirracista<\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.jpg\" alt=\"Assine o Clube de Leitura Quindim\" class=\"wp-image-36644\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.jpg 810w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-768x179.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que ele resolve ficar acordado a noite toda e ver o que de fato acontece. Com os olhinhos semicerrados, ele testemunha o esfor\u00e7o de sua m\u00e3e em n\u00e3o acord\u00e1-lo, enquanto o leva para a casa da vizinha amiga para poder ir trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem uma palavra sobre \u201cquest\u00e3o racial\u201d, mas todas as personagens s\u00e3o negras, o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 importante para a representatividade da pessoa\/crian\u00e7a negra. No entanto, parece, que o mais disruptivo \u00e9 a quebra de paradigmas com rela\u00e7\u00e3o a pessoa\/crian\u00e7a negra. O menino de Caio Zero \u00e9 meigo, inteligente, curioso, fofiss\u00edmo e est\u00e1 sempre em primeiro plano, com propor\u00e7\u00f5es que d\u00e3o a impress\u00e3o do tamanho real de uma crian\u00e7a de 4 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio do modo cl\u00e1ssico de como a crian\u00e7a negra \u00e9 retratada, constantemente diminuta ou com corpo animalizado. O menino de Caio Zero tem um black power macio e sedoso que fica bem perto do leitor, que em algumas cenas sente vontade de estar com ele no colo desta m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagem que o autor-ilustrador nos d\u00e1 da maternagem compartilhada com a comunidade, que abra\u00e7a e aconchega para lidar com as adversidades que a vida traz, \u00e9 o abra\u00e7o que sempre quero dar nas m\u00e3es que t\u00eam (ainda) de enfrentar o racismo contra seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E sim, muitas vezes o racismo vem no contexto escolar por meio de uma outra crian\u00e7a. Mas penso que ningu\u00e9m nasce racista, mas torna-se um mediante o conv\u00edvio com racistas e em uma sociedade racista. Portanto, <strong>cabe aos adultos formarem crian\u00e7as antirracistas e a literatura infantil tem papel importante nessa a\u00e7\u00e3o<\/strong>. Sejamos conscientes disto.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elizabeth Cardoso nos convida a entender como os adultos podem ajudar na forma\u00e7\u00e3o antirracista das crian\u00e7as e como a literatura infantil tem papel importante nessa a\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":62053,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_mbp_gutenberg_autopost":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-61840","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao"],"acf":{"posts_relacionados":[56526,55686,55645]},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61840"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61840\/revisions"}],"acf:post":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55645"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55686"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56526"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62053"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}