{"id":59777,"date":"2024-04-23T09:58:31","date_gmt":"2024-04-23T12:58:31","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=59777"},"modified":"2025-05-21T05:51:35","modified_gmt":"2025-05-21T08:51:35","slug":"violencia-nas-favelas-da-mare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/violencia-nas-favelas-da-mare\/","title":{"rendered":"&#8220;Eu devia estar na escola&#8221;: viol\u00eancia na favela da Mar\u00e9 \u00e9 relatada por crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.fogocruzado.org.br\/mapa-futuro-exterminado\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Instituto Fogo Cruzado<\/a> (que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre viol\u00eancia armada), as opera\u00e7\u00f5es policiais foram o principal motivo para vitimar crian\u00e7as e adolescentes entre 2016 e 2023 na regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro: 286 foram atingidos nessas circunst\u00e2ncias, resultando na morte de 112 e deixando outros 174 feridos.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"185\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-60083\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim.jpg 800w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim-768x178.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/assine-clube-quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio a esse tr\u00e1gico cen\u00e1rio, margeando a Ba\u00eda da Guanabara e entre importantes vias que cortam a capital fluminense, ficam as 16 favelas da Mar\u00e9, onde moram mais de 140 mil pessoas. Assim como outras comunidades no Rio de Janeiro, a Mar\u00e9 \u00e9 alvo de constantes opera\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados do <a href=\"https:\/\/www.redesdamare.org.br\/media\/downloads\/arquivos\/RdM_Boletim_direito_SegPubli23.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">7<sup>o<\/sup> Boletim Direito \u00e0 Seguran\u00e7a P\u00fablica na Mar\u00e9<\/a> mostram que, ali, as <strong>mortes em opera\u00e7\u00f5es policiais subiram 145% em 2022 na compara\u00e7\u00e3o com 2021.<\/strong> Tamb\u00e9m em 2022, <strong>62% das opera\u00e7\u00f5es ocorreram perto de escolas e creches<\/strong>. O relat\u00f3rio \u00e9 uma iniciativa da <a href=\"https:\/\/www.redesdamare.org.br\/br\/quemsomos\/apresentacao\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">ONG Redes da Mar\u00e9<\/a>, nascida da mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria a partir dos anos 1980, que tem como miss\u00e3o tecer as redes necess\u00e1rias para efetivar os direitos dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.redesdamare.org.br\/media\/downloads\/arquivos\/CensoMare_WEB_04MAI.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Censo Populacional da Mar\u00e9 2019<\/a>, organizado pela ONG, <strong>a maior parte dos moradores do complexo \u00e9 jovem: 51,9% tinham menos de 30 anos; na faixa et\u00e1ria de 0 a 14 anos, eram 34.034 ou 24,5% \u2013 um em cada quatro moradores.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com esses dados em mente, fica a pergunta: quem d\u00e1 espa\u00e7o para que as crian\u00e7as da Mar\u00e9 digam o que sentem e como vivem em meio \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0s consequ\u00eancias das opera\u00e7\u00f5es policiais? Foi pensando nisso que a Redes da Mar\u00e9, em 2019, come\u00e7ou o projeto que, em mar\u00e7o de 2024, levou ao lan\u00e7amento do livro <em>Eu devia estar na escola<\/em>, publicado pela Editora Caixote, narrado e ilustrado por muitas crian\u00e7as moradoras de favelas da Mar\u00e9.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"540\" height=\"540\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-59930\" style=\"width:430px;height:auto\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D.jpg 540w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D-300x300.jpg 300w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D-150x150.jpg 150w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D-100x100.jpg 100w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D-24x24.jpg 24w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D-48x48.jpg 48w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/EuDeviaEstarNaEscola_Capa3D-96x96.jpg 96w\" sizes=\"(max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro <em>Eu devia estar na escola<\/em>, escrito por muitas crian\u00e7as moradoras das favelas da Mar\u00e9.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Em 2022, nas favelas da Mar\u00e9\u2026*<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2026aconteceram <strong>27<\/strong> <strong>opera\u00e7\u00f5es policiais<\/strong>.<br>\u2026houve <strong>oito<\/strong> <strong>confrontos entre grupos armados<\/strong>, al\u00e9m de sete registros de tiros com v\u00edtimas e 80 de tiros pontuais.<br>\u2026<strong>39 mortes <\/strong>foram causadas por <strong>armas de fogo<\/strong>. As mortes em decorr\u00eancia da viol\u00eancia armada aumentaram 77% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior e 87% delas tiveram ind\u00edcios de execu\u00e7\u00e3o.<br>\u2026ocorreram <strong>283<\/strong> <strong>viola\u00e7\u00f5es de direitos<\/strong>, al\u00e9m dos homic\u00eddios \u2013 91,5% aconteceram em contexto de opera\u00e7\u00f5es policiais.<br>\u2026foram <strong>15 dias de atividades suspensas nas escolas<\/strong> em decorr\u00eancia da viol\u00eancia armada.<br>\u2026<strong>unidades de sa\u00fade <\/strong>ficaram <strong>19 dias <\/strong>sem atividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>*Dados do 7<sup>o<\/sup> Boletim Direito \u00e0 Seguran\u00e7a P\u00fablica na Mar\u00e9, da ONG Redes da Mar\u00e9.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>As diferentes inf\u00e2ncias<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-59927\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio2-1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio2-1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem do livro <em>Eu devia estar na escola<\/em>, escrito por muitas crian\u00e7as moradoras das favelas da Mar\u00e9.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se pensa em dar espa\u00e7o para escutar o que as crian\u00e7as da Mar\u00e9 t\u00eam a dizer, \u00e9 preciso, primeiro, entender melhor o universo da inf\u00e2ncia. \u201cExistem diferentes inf\u00e2ncias. No entanto, de uma forma geral, h\u00e1 uma estrutura no sentido de apresentar um \u00fanico modelo de inf\u00e2ncia, que \u00e9 idealizado, de origem colonizadora. As crian\u00e7as consideradas mais aptas, mais inteligentes, mais bonitas, mais adequadas, s\u00e3o as que se enquadram nesse modelo euroc\u00eantrico. Mas n\u00f3s estamos aqui falando de crian\u00e7as de favela\u201d, explica Adelaide Rezende, pesquisadora do livro <em>Eu devia estar na escola<\/em> e p\u00f3s-doutoranda em psicologia na UFRJ. Adelaide estuda inf\u00e2ncia, brincadeira e racismo, \u00e9 editora da revista DESidades, do N\u00facleo Interdisciplinar de Pesquisa para a Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia Contempor\u00e2neas (NIPIAC), da UFRJ, e tecedora da Redes da Mar\u00e9.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.gif\" alt=\"Assine o Clube de Leitura Quindim\" class=\"wp-image-40473\" title=\"\"><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, quem s\u00e3o essas crian\u00e7as? Adelaide continua: \u201cS\u00e3o crian\u00e7as que j\u00e1 est\u00e3o \u00e0 margem da sociedade, porque est\u00e3o distantes do modelo euroc\u00eantrico, no sentido da apar\u00eancia. <strong>Na maioria, s\u00e3o negras e pardas. V\u00eam da cultura de uma fam\u00edlia de trabalhadores e trabalhadoras. Elas tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam acesso a direitos que s\u00e3o constitu\u00eddos como direitos de todos<\/strong>. Ao falar especificamente da Mar\u00e9, precisamos dizer que tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00e1rias inf\u00e2ncias, porque s\u00e3o 16 favelas, o territ\u00f3rio \u00e9 extremamente diversificado. Existem conjuntos habitacionais de funcion\u00e1rios, por exemplo, da UFRJ, de classe m\u00e9dia. H\u00e1 tamb\u00e9m favelas que s\u00e3o aglomerados, puxadinhos, lages que as pessoas v\u00e3o construindo. Se existem classes diferentes dentro das favelas da Mar\u00e9, v\u00e3o existir estruturas familiares diferentes e, consequentemente, inf\u00e2ncias diferentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, existe algo que, segundo Adelaide, atravessa as inf\u00e2ncias da Mar\u00e9 e de outras favelas nos grandes centros urbanos: os conflitos armados. Foi esse um dos aspectos que, em 2019, levaram ao projeto das cartas que expressam os desejos das crian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio de viol\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAs crian\u00e7as da Mar\u00e9 n\u00e3o querem conflitos armados, n\u00e3o querem ter que andar at\u00e9 a padaria e, no percurso, encontrar v\u00e1rios homens com AR-15, fuzis, armas grandes&#8221;, conta Adelaide. Ela segue explicando que o que \u00e9 chamado de guerra ao tr\u00e1fico &#8220;vem justificando o fortalecimento dos armamentos dentro das favelas e expondo a vida de todos que moram ali a frequentes tiroteios. Quando n\u00e3o s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es policiais, s\u00e3o disputas territoriais entre as diferentes for\u00e7as. A Mar\u00e9 tem o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e \u00e1reas de mil\u00edcias\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio3-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-59928\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio3-1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio3-1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem do livro <em>Eu devia estar na escola<\/em>, escrito por muitas crian\u00e7as moradoras das favelas da Mar\u00e9.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, entre julho e agosto de 2019, <strong>1.509 cartas, entre desenhos, bilhetes e pedidos, foram produzidas por crian\u00e7as e jovens e entregues ao Tribunal de Justi\u00e7a do Estado pela Redes da Mar\u00e9, expressando o que sentiam diante dos confrontos armados das favelas <\/strong>e solicitando o restabelecimento da <a href=\"https:\/\/www.redesdamare.org.br\/br\/info\/49\/acao-civil-publica-da-mare#:~:text=A%20A%C3%A7%C3%A3o%20Civil%20P%C3%BAblica%20da,encontram%20em%20uma%20mesma%20situa%C3%A7%C3%A3o.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica (ACP) da Mar\u00e9<\/a>, vigente desde 2017, mas que, naquele momento, estava suspensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ACP da Mar\u00e9 prev\u00ea uma s\u00e9rie de medidas para diminuir riscos e danos durante os recorrentes confrontos armados, incluindo as opera\u00e7\u00f5es policiais, que acontecem na regi\u00e3o. Entre elas: proibi\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es policiais no Complexo Mar\u00e9 em hor\u00e1rio de deslocamento escolar; necessidade de haver ambul\u00e2ncias acompanhando as a\u00e7\u00f5es; a obriga\u00e7\u00e3o de instalar equipamentos de GPS, v\u00eddeo e \u00e1udio nas viaturas da Pol\u00edcia Militar e da Pol\u00edcia Civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cartas foram entregues ao Tribunal de Justi\u00e7a do Rio de Janeiro em 12 de agosto, mesmo dia em que a Defensoria P\u00fablica solicitou formalmente o restabelecimento da ACP da Mar\u00e9 \u2013 ela tinha sido suspensa em 19 de julho de 2019. <strong>Apesar de terem sido arquivadas, as cartas repercutiram na m\u00eddia.<\/strong> Dois dias depois da entrega, o desembargador Jess\u00e9 Torres decidiu retomar a ACP, que entrou novamente em vigor, em regime provis\u00f3rio, at\u00e9 que o caso seja julgado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Direitos violados<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Viver em um cen\u00e1rio como o do Complexo da Mar\u00e9 viola uma s\u00e9rie de direitos. Em primeiro lugar, o <strong>direito \u00e0 vida<\/strong>. Para al\u00e9m disso, o <strong>direito de ir \u00e0 escola<\/strong>. De acordo com Adelaide, quando acontecem opera\u00e7\u00f5es policiais, as aulas n\u00e3o ocorrem. \u201cEm um sistema competitivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s sele\u00e7\u00f5es (nas universidades, concursos, vagas de trabalho), essas crian\u00e7as est\u00e3o o tempo inteiro sendo roubadas do direito de competir por um lugar na sociedade&#8221;, afirma. Ela ainda ressalta o <strong>direito \u00e0 sa\u00fade<\/strong>, pelo impedimento, por exemplo, de chegar a um exame ou consulta que estava agendado e que pode demorar meses para que seja novamente marcado no sistema p\u00fablico de sa\u00fade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, ainda, o <strong>direito \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica<\/strong> para poder circular pelos espa\u00e7os do territ\u00f3rio onde se vive. \u201cNa Mar\u00e9, as casas s\u00e3o muito apertadas e muitas pessoas moram em uma mesma casa. E tudo \u00e9 muito quente, vivemos em um pa\u00eds tropical. Isso faz com que as ruas estejam sempre cheias de gente. Quando tem tiroteio, todos voltam para dentro de casa e ficam encolhidos ali, oprimidos\u201d, relata Adelaide. \u201c[A situa\u00e7\u00e3o] atravessa todos os outros direitos\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Exemplos de todas essas viola\u00e7\u00f5es s\u00e3o encontradas no livro<\/strong> <em><strong>Eu devia estar na escola,<\/strong><\/em> como neste trecho: <em>\u201cDe tarde, eu teria capoeira. Tinha combinado de ir com minha av\u00f3 ao mercado. Eu tinha m\u00e9dico. No entanto, aqui estou: atr\u00e1s da m\u00e1quina de lavar. Embaixo da cama. Embaixo da mesa. E se eles entrarem na minha casa?\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ver a hist\u00f3ria das cartas e relatos como este, Isabel Malzoni, criadora da Editora Caixote, entrou em contato com a Redes da Mar\u00e9 para tentar escrever um livro. &#8220;Ela pensou em como poderia abordar esse tema, que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, t\u00e3o duro e triste, com outras crian\u00e7as e jovens. \u00c9 um assunto que n\u00e3o combina com a imagem idealizada que se tem da crian\u00e7a, da alegria, brincadeira. Como fazer um livro que alcan\u00e7asse outras inf\u00e2ncias e juventudes, as fam\u00edlias que n\u00e3o sabem sobre essas realidades, sem que fosse pesado?\u201d, relembra Adelaide.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro passo foi tentar entrar em contato com as pessoas que tinham escrito as cartas em 2019. No entanto, com algum tempo passado, algumas j\u00e1 n\u00e3o eram mais crian\u00e7as. Ainda veio a pandemia, que tornou a articula\u00e7\u00e3o mais complicada. Era preciso complementar o material existente.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-59926\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio1-1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-nas-favelas-da-Mare-e-relatada-por-criancas-no-livro-Eu-devia-estar-na-escola-meio1-1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem do livro <em>Eu devia estar na escola<\/em>, escrito por muitas crian\u00e7as moradoras das favelas da Mar\u00e9.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA Eliana Sousa Silva, diretora-geral da Redes da Mar\u00e9, disse para a Isabel falar comigo. Eu j\u00e1 estava visitando algumas escolas e fazendo algumas atividades. A Isabel me apresentou a Ananda Luz, que \u00e9 outra pesquisadora da inf\u00e2ncia e tamb\u00e9m escriba do livro. Uma das escolas em que eu j\u00e1 estava discutindo a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 o CIEP [Centro Integrado de Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica] Presidente Samora Machel. Conversei com a dire\u00e7\u00e3o e planejamos uma semana de oficinas de desenho, junto a um arte-educador. Criamos um clima em que as crian\u00e7as pudessem se sentir \u00e0 vontade para falar sobre um tema muito delicado, que traz ansiedade, tristeza. <strong>Tamb\u00e9m h\u00e1 o medo por conta dos poderes armados que existem ali. De alguma maneira, \u00e9 preciso construir um v\u00ednculo de confian\u00e7a para que as pessoas se sintam \u00e0 vontade em falar, principalmente as crian\u00e7as<\/strong>. E esse v\u00ednculo eu j\u00e1 tinha, pelo trabalho de anos na Mar\u00e9\u201d, conta Adelaide.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse processo, ao longo de uma semana, Isabel e Ananda sa\u00edram de S\u00e3o Paulo e se juntaram \u00e0 Adelaide e ao arte-educador na escola, em oficinas de desenho, piqueniques e diversas rodas de conversa com as crian\u00e7as. Tudo foi explicado a elas: desde a vinda de pessoas desconhecidas at\u00e9 o que \u00e9 o processo de produ\u00e7\u00e3o do livro e as raz\u00f5es para o interesse no assunto. Alguns meses mais tarde, o trabalho resultaria no livro <em>Eu devia estar na escola<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNo primeiro lan\u00e7amento, em um espa\u00e7o cultural na Mar\u00e9, eu perguntei a uma das crian\u00e7as que participaram: \u2018Quem voc\u00ea gostaria que lesse o livro?\u2019. Ela me disse: \u2018O governador Cl\u00e1udio Castro\u2019. Outra falou o nome de um <em>youtuber <\/em>famoso. Queremos que o livro chegue a espa\u00e7os bem diversificados. Ele fala de uma realidade de maneira direta, com a linguagem da crian\u00e7a sem filtro, de um tema sobre o qual precisamos nos responsabilizar. Se estamos aqui, nesse tempo hist\u00f3rico, temos responsabilidade sobre isso. O livro \u00e9 um instrumento riqu\u00edssimo e n\u00e3o coloca cortinas sobre um assunto que precisa cada vez mais ser discutido em outra perspectiva. <strong>As favelas n\u00e3o s\u00e3o apenas cheias de bandidos e de car\u00eancias<\/strong>. Tem muita gente inteligente, muita crian\u00e7a incr\u00edvel, o cotidiano da favela tamb\u00e9m \u00e9 divertido. O livro pode ajudar a refletir sobre isso, porque o infante n\u00e3o \u00e9 aquele que n\u00e3o fala, \u00e9 aquele que tem fala. Precisamos compreender isso\u201d, conclui Adelaide.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Eu devia estar na escola<\/em> ainda <strong>reproduz o modelo de carta original, em branco, que as crian\u00e7as escreveram ao poder p\u00fablico, como um convite para que a iniciativa continue.<\/strong> A Editora Caixote divulgou que a parcela da receita condizente com os direitos autorais da obra ser\u00e1 destinada a projetos da Redes da Mar\u00e9 que sejam referentes \u00e0s crian\u00e7as e \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea se interessa por esse tipo de conte\u00fado? Ent\u00e3o, confira aqui na Revista do <a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Clube Quindim<\/a> <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/como-falar-sobre-guerras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como falar sobre guerras com as crian\u00e7as<\/a>, al\u00e9m de <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/como-falar-sobre-drogas-com-meu-filho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">informa\u00e7\u00f5es para abordar a tem\u00e1tica das drogas<\/a>. E, ainda, <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/direitos-da-crianca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">saiba mais sobre os direitos das crian\u00e7as<\/a>.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro infantil exp\u00f5e o impacto das opera\u00e7\u00f5es policiais na vida dos moradores do Complexo da Mar\u00e9, no Rio de Janeiro<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":59925,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_mbp_gutenberg_autopost":false,"footnotes":""},"categories":[499,497,162],"tags":[],"class_list":["post-59777","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura-infantil","category-livros-infantis","category-selecao-quindim"],"acf":{"posts_relacionados":[2777,55586,32454]},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59777","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59777"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59777\/revisions"}],"acf:post":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32454"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55586"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2777"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59925"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59777"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59777"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59777"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}