{"id":58234,"date":"2024-02-27T10:25:13","date_gmt":"2024-02-27T13:25:13","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=58234"},"modified":"2025-06-09T09:10:14","modified_gmt":"2025-06-09T12:10:14","slug":"escola-quilombola-educacao-antirracista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-quilombola-educacao-antirracista\/","title":{"rendered":"Princ\u00edpios da escola quilombola e a educa\u00e7\u00e3o antirracista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c<em>Os quilombos s\u00e3o perseguidos exatamente porque oferecem uma possibilidade de viver diferente<\/em>\u201d, N\u00eago Bispo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"486\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-58244\" style=\"width:576px;height:auto\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio1-1.jpg 576w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio1-1-150x127.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9dito: Unicamp<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para falar dos princ\u00edpios da escola quilombola na educa\u00e7\u00e3o antirracista, preciso come\u00e7ar dizendo que sou avessa \u00e0s abordagens didatizantes ou redutoras dos saberes, tecnologias e culturas dos povos origin\u00e1rios. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de 500 anos de abusos e crimes sofridos (e ainda em andamento), a branquitude, nascida e criada em um mar de privil\u00e9gios, ainda quer tomar padr\u00f5es das culturas afrodescendentes e ind\u00edgenas para a manuten\u00e7\u00e3o, melhoria e aplica\u00e7\u00e3o de seus privil\u00e9gios e manter os descendentes dos povos origin\u00e1rios fora do sistema ou, melhor, na base da pir\u00e2mide social. E isso, al\u00e9m de cinismo, \u00e9 duplamente ofensivo. Para manter vivo seu conhecimento multidisciplinar sobre a natureza, a sociedade e o humano, <strong>os quilombolas resistem \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o e ao agroneg\u00f3cio, que comprometem o acesso aos recursos naturais necess\u00e1rios, e ao Estado (e a sociedade em geral) que n\u00e3o os apoia devidamente<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, al\u00e9m de aprender com a cultura e a educa\u00e7\u00e3o quilombola, vamos tamb\u00e9m nos comprometer com os direitos dessa popula\u00e7\u00e3o. Por exemplo, nos declarando a favor de a\u00e7\u00f5es afirmativas e demais pol\u00edticas p\u00fablicas direcionadas a ela e lutando para sua aplica\u00e7\u00e3o, como o <strong>Programa Aquilomba Brasil, lan\u00e7ado por meio do <\/strong><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2023-2026\/2023\/decreto\/D11447.htm#:~:text=DECRETO%20N%C2%BA%2011.447%2C%20DE%2021,e%20o%20seu%20Comit%C3%AA%20Gestor.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\"><strong>Decreto n\u00ba 11.447\/2023<\/strong><\/a>, que ter\u00e1 quatro eixos: acesso \u00e0 terra e ao territ\u00f3rio; infraestrutura e qualidade de vida; inclus\u00e3o produtiva e etnodesenvolvimento local; e direitos e cidadania.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, vou abordar alguns princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o quilombola, mas quero deixar alertado que n\u00e3o \u00e9 sobre simplesmente recortar um elemento educacional aqui e colocar l\u00e1, n\u00e3o \u00e9 para ser apenas uma bricolagem de estrat\u00e9gias de ensino. Em termos de educa\u00e7\u00e3o antirracista, pouco adianta adotar princ\u00edpios da escola quilombola e ser uma escola sem diversidade racial no corpo docente e discente, atuar com material did\u00e1tico e cultural eurocentrado, n\u00e3o colaborar com as comunidades quilombolas. Resumindo, n\u00e3o \u00e9 sobre \u201caplicar\u201d pressupostos quilombolas em sala de aula, mas, sim, inclu\u00ed-los em um amplo plano de ensino antirracista (recomendo a leitura das colunas anteriores sobre \u201c<a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-antirracista-e-branquitude\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escola antirracista e branquitude<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-antirracista-nao-e-marketing\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escola antirracista n\u00e3o \u00e9 marketing\u201d<\/a>).]<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"770\" height=\"200\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_IdadeFilho.jpg\" alt=\"Clube Quindim\" class=\"wp-image-64970\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_IdadeFilho.jpg 770w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_IdadeFilho-768x199.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_IdadeFilho-150x39.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Quilombo, quilombola<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A origem da palavra \u201cquilombo\u201d \u00e9 do idioma Banto, dos povos origin\u00e1rios de Angola, e significa <strong>local de pouso ou acampamento<\/strong>. Em portugu\u00eas, \u201cquilombo\u201d passou por v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es racistas e geralmente as pessoas pensam em quilombos dentro do conceito colonial de esconderijo para escravizados que fugiam das fazendas onde eram mantidos por seus (supostamente) donos. At\u00e9 o final da d\u00e9cada de 1980, apoiados por esta imagem de fugitivos, os brasileiros, em geral, pensavam na popula\u00e7\u00e3o que morava em quilombos como criminosos, que n\u00e3o queriam saber de trabalho s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o movimento negro organizado, durante a d\u00e9cada de 1970, que corrigiu o conceito de quilombo numa perspectiva contracolonial e ajudou a popula\u00e7\u00e3o geral a <strong>compreender os quilombos como espa\u00e7o de comunidades afrodescendentes que resistem contra os crimes dos quais s\u00e3o v\u00edtimas<\/strong>. Um momento importante foi a altera\u00e7\u00e3o do conceito na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que criou o termo \u201cremanescentes de comunidades de quilombos\u201d para as pessoas que vivem nestes territ\u00f3rios ainda hoje. Com o tempo, essa express\u00e3o foi substitu\u00edda pelo termo \u201cquilombola\u201d. Temos ent\u00e3o estabelecido que quilombos s\u00e3o territ\u00f3rios de resist\u00eancia e manuten\u00e7\u00e3o de um modo de vida espec\u00edfico e, quilombola, s\u00e3o as pessoas que vivem neste espa\u00e7o, que comp\u00f5em essa comunidade.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"425\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio2.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-58247\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio2.webp 640w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio2-150x100.webp 150w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Quilombo no estado do Maranh\u00e3o. Cr\u00e9dito: Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os primeiros quilombos reconhecidos foram o Quilombo do Palmares, que \u00e9 a reuni\u00e3o de 10 quilombos pr\u00f3ximos na regi\u00e3o da Serra da Barriga, tombado em 1986, e o Quilombo do Ambr\u00f3sio, certificado em 2000. Hoje, segundo a Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, que acompanha a autoatribui\u00e7\u00e3o quilombola, existem quase 3 mil comunidades validadas como quilombolas (n\u00e3o necessariamente com terra delimitada). O <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/pt-br\/noticias\/assistencia-social\/2023\/07\/populacao-quilombola-e-de-1-3-milhao-indica-recorte-inedito-do-censo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Censo de 2022 do IBGE registrou 1,3 milh\u00e3o de pessoas que se autodeclaram quilombolas<\/a>. Elas est\u00e3o presentes em todas as regi\u00f5es do Brasil, mas a maior concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 no Nordeste (70%).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando uma pessoa se declara quilombola, ela est\u00e1 afirmando que tem la\u00e7os hist\u00f3ricos e ancestrais de resist\u00eancia com a comunidade e com a terra em que vive ou \u00e9 origin\u00e1rio. <strong>As escolas presentes nessas comunidades t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de contribuir com a preserva\u00e7\u00e3o da cultura, saberes e tradi\u00e7\u00f5es locais, e n\u00f3s temos muito o que aprender com o que os quilombolas sabem sobre educar<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi com este movimento \u2013 de implementar escolas nos quilombos, utilizando estrat\u00e9gias e princ\u00edpios africanos para educar \u2013 que os professores (eles, sempre eles), com suas pesquisas e viv\u00eancias profissionais, acabaram divulgando para todo o sistema educacional caminhos poss\u00edveis e prof\u00edcuos para uma educa\u00e7\u00e3o mais eficiente e antirracista.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/conteudo.quindim.com.br\/assinar-newsletter-banner-blog\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"770\" height=\"200\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_RecebaDicas.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-64972\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_RecebaDicas.jpg 770w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_RecebaDicas-768x199.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/BannerConteudo_RecebaDicas-150x39.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Princ\u00edpios da escola quilombola e sua pedagogia<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"928\" height=\"619\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-58249\" style=\"width:630px;height:auto\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio3.png 928w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio3-768x512.png 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Principios-da-escola-quilombola-e-a-educacao-antirracista_meio3-150x100.png 150w\" sizes=\"(max-width: 928px) 100vw, 928px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9dito: Revista Ensino Superior<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns marcos legais s\u00e3o importantes nessa trajet\u00f3ria, como a <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/2003\/l10.639.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Lei N\u00ba. 10.639 (2003)<\/a>, que tornou obrigat\u00f3rio o ensino sobre Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, as <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/inep\/pt-br\/centrais-de-conteudo\/acervo-linha-editorial\/publicacoes-diversas\/temas-interdisciplinares\/diretrizes-curriculares-nacionais-para-a-educacao-das-relacoes-etnico-raciais-e-para-o-ensino-de-historia-e-cultura-afro-brasileira-e-africana\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico\u2010raciais (2007)<\/a> e as <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/etnico-racial\/educacao-escolar-quilombola\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa\u00e7\u00e3o Escolar Quilombola (2012)<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo esta \u00faltima, as escolas quilombolas s\u00e3o aquelas inscritas em suas terras, e que tenham uma pedagogia pr\u00f3pria em respeito \u00e0 especificidade \u00e9tnico-cultural. Esta pedagogia tem como princ\u00edpios o respeito e o reconhecimento da hist\u00f3ria e da cultura afro-brasileira como elementos estruturantes do processo civilizat\u00f3rio brasileiro; a prote\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es da cultura afro-brasileira e a valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnico-racial, al\u00e9m de atender a Base Nacional Curricular Comum. Observando os caminhos percorridos pelos educadores que atuam em escolas quilombolas, passo a destacar a\u00e7\u00f5es que colaboram com a educa\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o antirracista:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Preservar sua liberdade, sua vida e lutar por justi\u00e7a social<\/strong>. A filosofia quilombola \u00e9 antes de tudo uma filosofia vivenciada de liberdade e de prote\u00e7\u00e3o dos mais necessitados. Vale recordar que os primeiros quilombos abrigavam tamb\u00e9m ind\u00edgenas e pessoas brancas empobrecidas e exclu\u00eddas da sociedade. \u201cOs quilombos s\u00e3o uma das primeiras experi\u00eancias de liberdade das Am\u00e9ricas\u201d, j\u00e1 nos ensinou Abdias do Nascimento.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Viver em comunidade<\/strong>. \u201cEu sou, o que n\u00f3s somos\u201d, diz a filosofia Ubuntu que rege a cultura quilombola e resgata a ess\u00eancia de ser uma pessoa com consci\u00eancia de que \u00e9 parte de algo maior e coletivo. Somos o que somos atrav\u00e9s de outras pessoas e n\u00e3o podemos viver plenamente se estivermos sozinhos.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Respeitar as especificidades de cada grupo<\/strong>. N\u00e3o h\u00e1 apenas um modo de ser uma escola quilombola, pois a primeira regra \u00e9 valoriza\u00e7\u00e3o da comunidade em quest\u00e3o, e cada comunidade tem sua hist\u00f3ria, seus princ\u00edpios e suas prioridades. Podemos imaginar que uma escola quilombola rural n\u00e3o ter\u00e1 as mesmas prioridades que uma urbana, assim como haver\u00e1 diferen\u00e7as entre uma escola do Cear\u00e1 e outra do Rio Grande do Sul. Aprendemos com este princ\u00edpio a valorizar as especificidades de cada grupo e cada indiv\u00edduo, por meio do di\u00e1logo, da observa\u00e7\u00e3o e do respeito m\u00fatuo.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Aprender a diferenciar o \u201cbem viver\u201d do \u201cviver bem\u201d<\/strong>. \u201cBem viver \u00e9 viver de forma org\u00e2nica e viver bem \u00e9 viver de forma sint\u00e9tica. Compreendemos que h\u00e1 um saber org\u00e2nico e um saber sint\u00e9tico. Enquanto o saber org\u00e2nico \u00e9 o saber que se desenvolve desenvolvendo o ser, o saber sint\u00e9tico \u00e9 o que se desenvolve desenvolvendo o ter. Somos operadores do saber org\u00e2nico e os colonialistas s\u00e3o operadores do sint\u00e9tico.\u201d Ant\u00f4nio Bispo dos Santos, N\u00eago Bispo, in <strong>Somos da terra<\/strong>.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Valorizar o saber ancestral<\/strong>. Respeitar os mais velhos. Isso se d\u00e1 por meio da leitura de contos tradicionais africanos, de literatura afrodescendente, de ouvir as hist\u00f3rias dos mais velhos. Ou de resgatar m\u00e9todos de cultivos, de constru\u00e7\u00e3o de utens\u00edlios, de prepara\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Refor\u00e7ar a identidade negra<\/strong>. S\u00e3o a\u00e7\u00f5es atreladas \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 pr\u00f3prio das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias de \u00c1frica. Um ponto importante aqui \u00e9 a escola evitar a ideia de que o conhecimento africano \u00e9 rudimentar e passar a explorar a grandeza e a sofistica\u00e7\u00e3o da epistemologia africana na engenharia, na lingu\u00edstica, na matem\u00e1tica, na arquitetura, na medicina, na filosofia etc. Do mesmo modo como sempre fizeram com as antigas civiliza\u00e7\u00f5es europeias, como a Grega, por exemplo. Voc\u00ea sabia que a primeira calculadora do mundo foi desenvolvida por africanos, 20 mil anos antes de Cristo, usando osso do f\u00eamur de um macaco babu\u00edno? H\u00e1 muito a aprender com a <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/ufabc-aprova-disciplinas-de-afro-etnomatematica-em-seu-curriculo-de-licenciatura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">afromatem\u00e1tica<\/a>. <\/li>\n\n\n\n<li><strong>Recuperar jogos e brincadeiras africanas para ensinar conte\u00fados<\/strong> (sempre referenciando a matriz africana). As brincadeiras africanas mais conhecidas no Brasil s\u00e3o terra-mar (Mo\u00e7ambique), mamba (\u00c1frica do Sul), banyoka (Zaire e Z\u00e2mbia) e kudoda (Zimb\u00e1bue). Elas estimulam mem\u00f3ria, consci\u00eancia corporal e trabalho em equipe. Remeto aqui a uma apostila com brincadeiras africanas produzida por Daniela Alfaia da Cunha e Cl\u00e1udio Lopes de Freitas, que voc\u00ea pode <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/apostilas-jogos-e-brincadeiras-africanas-e-afro-brasileiras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">acessar aqui<\/a>.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Recordar, ensinar linguagens africanas<\/strong>. Al\u00e9m das artes do corpo, das artes visuais, \u00e9 poss\u00edvel explorar as l\u00ednguas africanas e suas perman\u00eancias no portugu\u00eas brasileiro.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Valorizar a cultura matriarcal<\/strong>. Muitas comunidades quilombolas s\u00e3o de raiz matriarcal. Levar a perspectiva da mulher para as discuss\u00f5es sociais, pol\u00edticas, \u00e9ticas pode ser o caminho para muitas descobertas.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Valorizar e conscientizar a rela\u00e7\u00e3o com a terra<\/strong>. Os quilombolas s\u00e3o guardi\u00e3es de saberes ancestrais sobre a minera\u00e7\u00e3o e o plantio de alimentos, passando pela celebra\u00e7\u00e3o da vida com dan\u00e7as e festas tradicionais, que marcam o fim do plantio ou da colheita. Recuperar e praticar algumas dessas a\u00e7\u00f5es pode ser significativo. Por exemplo, manter uma horta comunit\u00e1ria com base nessa tradi\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Valorizar seu territ\u00f3rio<\/strong>. Como a educa\u00e7\u00e3o quilombola \u00e9 integral, n\u00e3o compartimentada, a arquitetura e a ocupa\u00e7\u00e3o espacial da escola \u00e9 muito importante e deve ser pensada para favorecer o aprendizado em grupo e com contato com a natureza.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 muito para a educa\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o antirracista aprender com o afro saber. Volto em outra coluna para compartilhar mais sobre o tema, em especial a filosofia Ubuntu, que nos ensina sobre os benef\u00edcios da partilha e da solidariedade. Pois, ao final, penso que o maior ensinamento da cultura quilombola \u00e9 sobre aquilombar: <strong>promover prote\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o de solidariedade<\/strong>. \u00c9 assim que toda escola deveria ser: um lugar de ref\u00fagio, amparo, paz e seguran\u00e7a para o desenvolvimento pleno de todas e todos em benef\u00edcio da comunidade.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entenda os princ\u00edpios da escola quilombola e sua pedagogia e como \u00e9 poss\u00edvel inclu\u00ed-los em um plano de ensino antirracista.<\/p>\n","protected":false},"author":78,"featured_media":58246,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_mbp_gutenberg_autopost":false,"footnotes":""},"categories":[4,503],"tags":[],"class_list":["post-58234","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-educacao-escolar"],"acf":{"posts_relacionados":[56526,55686,42038]},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/78"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58234"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58234\/revisions"}],"acf:post":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42038"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55686"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56526"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58246"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}