{"id":56526,"date":"2023-12-28T10:19:32","date_gmt":"2023-12-28T13:19:32","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=56526"},"modified":"2025-05-21T05:51:59","modified_gmt":"2025-05-21T08:51:59","slug":"escola-antirracista-e-branquitude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-antirracista-e-branquitude\/","title":{"rendered":"Escola antirracista e branquitude"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A mudan\u00e7a da sociedade n\u00e3o se faz apenas com den\u00fancias ou com rep\u00fadio moral do racismo: depende, antes de tudo, da tomada de posturas e da ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas antirracistas.&#8221; <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">(ALMEIDA, Silvio, 2020, p. 52)<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-56543\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Terminei a coluna anterior, <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-antirracista-nao-e-marketing\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sobre a\u00e7\u00f5es efetivas para a constru\u00e7\u00e3o de uma escola antirracista<\/a>, anunciando uma <strong>reflex\u00e3o sobre a urg\u00eancia de as escolas enegrecerem o RH<\/strong> (contratar professores, coordenadores e diretores negros e negras) como uma das a\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para a constru\u00e7\u00e3o da escola antirracista. Para explicar a import\u00e2ncia deste enegrecimento, considero fundamental abordar o conceito de branquitude, pois a escola antirracista deve necessariamente dimensionar e questionar sua branquitude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando falamos sobre os caminhos da constru\u00e7\u00e3o de uma escola antirracista, estamos, em grande medida, falando com pessoas brancas. Pois sabemos que, apesar de termos professoras e professores negros, as diretrizes educacionais, os curr\u00edculos, a produ\u00e7\u00e3o e a aquisi\u00e7\u00e3o de material did\u00e1tico e paradid\u00e1tico se d\u00e3o por pessoas brancas. Soma-se a isso o fato de a gest\u00e3o escolar tamb\u00e9m estar, na maioria das vezes, sob o comando de pessoas brancas, especialmente na rede privada de ensino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ent\u00e3o, como pensar na atua\u00e7\u00e3o de pessoas brancas na constru\u00e7\u00e3o de uma escola antirracista<\/strong>? Um primeiro passo importante \u00e9 ter sempre em pauta a din\u00e2mica que envolve a branquitude.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Entenda o que \u00e9 a branquitude e seus privil\u00e9gios<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1170\" height=\"730\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/blog_protagonismonegro_a-1170x730.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10029\" style=\"aspect-ratio:1.6027397260273972;width:540px;height:auto\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/blog_protagonismonegro_a.jpg 1170w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/blog_protagonismonegro_a-768x479.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1170px) 100vw, 1170px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Branquitude \u00e9 sobre identidade branca. Os estudos sobre quest\u00f5es raciais que deslocam o tema de pesquisa do negro para o branco j\u00e1 v\u00eam desde a d\u00e9cada de 1960, mas apenas recentemente o conceito est\u00e1 ganhando mais espa\u00e7o. Trata-se de um conceito central para pensarmos a escola antirracista, pois diz respeito ao papel do branco na din\u00e2mica do racismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vou deixar aqui sugest\u00f5es de leitura sobre o termo (que \u00e9 complexo e multifacetado), mas por ora \u00e9 suficiente destacar que <strong>branquitude \u00e9 sobre como a sociedade concede privil\u00e9gios \u00e0s pessoas que s\u00e3o identificadas como brancas, independentemente de sua classe social ou cultural<\/strong>. Isso n\u00e3o quer dizer que pessoas brancas n\u00e3o t\u00eam problemas, traumas, dificuldades financeiras ou emocionais, mas sim que pessoas identificadas como brancas n\u00e3o enfrentam dificuldade por causa de sua racialidade, ao contr\u00e1rio, em uma sociedade racista como a nossa ser branco traz vantagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cida Bento (pioneira no tema) d\u00e1 um exemplo perfeito: quando um homem branco e um homem preto, que moram na mesma favela, v\u00e3o procurar emprego, o homem branco sabe que est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de vantagem na busca por uma coloca\u00e7\u00e3o laboral. Ele n\u00e3o pensa sobre isso, pois \u00e9 algo dado. Inclusive, ele n\u00e3o encara isso como um privil\u00e9gio, apenas considera natural que tenha mais chances de conseguir o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A branquitude se beneficia de privil\u00e9gios e vantagens advindos da cor da pele e de outros tra\u00e7os fenot\u00edpicos identificados como de pessoas brancas, como se fossem direitos. \u00c9 importante entender a diferen\u00e7a entre direito e privil\u00e9gio. O direito \u00e9 p\u00fablico e est\u00e1 garantido a todos, pois visa beneficiar a comunidade como um todo, de modo igualit\u00e1rio. Privil\u00e9gio \u00e9 a vantagem que uma pessoa ou um grupo tem em rela\u00e7\u00e3o aos outros. No caso da branquitude, n\u00e3o \u00e9 que houve uma reuni\u00e3o entre lideran\u00e7as brancas que decidiram em assembleia e registraram em ata que eles e seus iguais deveriam ter regalias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o da branquitude \u00e9 silenciosa, antiga e permanente<\/strong>. Come\u00e7a na coloniza\u00e7\u00e3o com a escravid\u00e3o e atravessa os s\u00e9culos com toda a maquinaria social (leis, institui\u00e7\u00f5es estatais e privadas, aparelhos culturais, produ\u00e7\u00e3o do conhecimento, meios de comunica\u00e7\u00e3o etc.) reafirmando a imagem da pessoa negra de modo inferior, negativo. Nesse jogo s\u00f3rdido nem um detalhe \u00e9 dispensado, tudo enaltece os brancos e reafirma sua superioridade. Tanto que quando uma pessoa negra ascende, economicamente, culturalmente, socialmente, ela passa a ser vista como branca \u2013 nosso exemplo mais conhecido \u00e9 Machado de Assis. E ser preto e pardo e ascender no Brasil significa fazer muito mais e muito melhor que um branco.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1170\" height=\"730\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1-3-1170x730.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-56551\" style=\"aspect-ratio:1.6027397260273972;width:550px;height:auto\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1-3-1170x730.jpg 1170w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1-3-150x94.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 1170px) 100vw, 1170px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9dito: &nbsp;(Machado De Assis Real\/Reprodu\u00e7\u00e3o). Comumente, Machado de Assis foi representado de modo que parecesse um intelectual branco.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O exemplo acima \u00e9 um privil\u00e9gio material, ou seja, s\u00e3o vantagens que uma pessoa identificada como branca tem no mercado de trabalho. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o privil\u00e9gio simb\u00f3lico. Um exemplo \u00e9 o fato de a pessoa branca ser vista como indiv\u00edduo enquanto a pessoa negra \u00e9 vista como grupo: ou seja, quando uma pessoa negra erra, a sociedade atribui esse erro a todos os negros. Outro tipo de privil\u00e9gio \u00e9 o subjetivo, relacionado com a percep\u00e7\u00e3o da beleza e demais atributos imateriais, que atravessa todas as nossas rela\u00e7\u00f5es na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pessoas brancas s\u00e3o consideradas mais bonitas, mais inteligentes, mais comprometidas, mais honestas e confi\u00e1veis que as pessoas pretas e pardas, dizem diversas pesquisas emp\u00edricas, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/06\/internacional\/1533549451_975042.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">como esta<\/a> desenvolvida pela Universidade de Harvard, que envolveu 150 mil pessoas e confirma que rostos negros s\u00e3o associados a palavras negativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cabe aqui acentuar que branquitude e negritude n\u00e3o s\u00e3o ant\u00f4nimos. Negritude \u00e9 afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de pessoas negras por sua identidade negra<strong>. Branquitude \u00e9 constru\u00edda no sil\u00eancio, pois as pessoas brancas n\u00e3o se veem como racializadas: o europeu branco e seus descendentes se veem como universais, apenas os outros t\u00eam ra\u00e7as<\/strong>. Da\u00ed podermos falar, seguindo Louren\u00e7o Cardoso, em branquitude acr\u00edtica e branquitude cr\u00edtica. Ambas t\u00eam privil\u00e9gios, mas a segunda est\u00e1 consciente disso e repudia tal situa\u00e7\u00e3o e adere \u00e0 causa antirracista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/palavras-racistas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Palavras racistas: veja quais s\u00e3o e entenda por que precisamos rever nosso vocabul\u00e1rio<\/a>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.jpg\" alt=\"Assine o Clube de Leitura Quindim\" class=\"wp-image-36644\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.jpg 810w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-768x179.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma escola antirracista deve ter consci\u00eancia de sua branquitude. Antes de tudo, \u00e9 bom mapear a configura\u00e7\u00e3o racial da escola, de forma que todos da comunidade percebam seu pertencimento a um grupo que \u00e9, de uma forma ou de outra, identificado a partir da ideia de racialidade. As escolas com pouqu\u00edssima ou nenhuma diversidade racial precisam inclusive se repensar com urg\u00eancia. <strong>Quais as implica\u00e7\u00f5es de uma escola com essa caracter\u00edstica? Qual forma\u00e7\u00e3o essa escola d\u00e1 aos seus alunos? Como mudar esse quadro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois dessa autoavalia\u00e7\u00e3o racial, seria interessante avaliar como o ambiente est\u00e1 organizado de modo a atender, referenciar, priorizar as pessoas brancas, suas hist\u00f3rias, saberes e culturas. Nesse momento, \u00e9 importante observar as poss\u00edveis vantagens atribu\u00eddas a alunos, professores e funcion\u00e1rios brancos. Por exemplo, perceber se as ocorr\u00eancias de advert\u00eancia por atraso, por falta de material escolar ou por aus\u00eancia de uniforme s\u00e3o mais frequentes com as pessoas negras. Se a identidade negra est\u00e1 representada (inclusive enquanto autoria) nos materiais did\u00e1ticos e paradid\u00e1ticos, incluindo livros liter\u00e1rios e brinquedos. Se os alunos e as alunas negras est\u00e3o recebendo a mesma motiva\u00e7\u00e3o e oportunidade de protagonismo que os alunos e as alunas brancas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>V\u00e1rias pesquisas comprovam que crian\u00e7as brancas recebem mais aten\u00e7\u00e3o dos professores, s\u00e3o mais reconhecidas como talentosas pela escola, ocupam os lugares de destaque<\/strong>. O que, obviamente, afeta todo o percurso acad\u00eamico e profissional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao fim desses exerc\u00edcios, \u00e9 prov\u00e1vel que seja explicitado um territ\u00f3rio de branquitude. Assumir a branquitude cr\u00edtica e atuar contra privil\u00e9gios e favorecimentos raciais s\u00e3o caminhos para a mudan\u00e7a efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/autoestima-da-crianca-negra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A import\u00e2ncia da autoestima da crian\u00e7a negra<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>A constru\u00e7\u00e3o de uma escola antirracista come\u00e7a pelos profissionais<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-56547\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1-2.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Escola-antirracista-e-branquitude-meio1-2-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E neste momento chegamos ao segundo ponto na constru\u00e7\u00e3o do RH de uma escola antirracista:<strong> o departamento de recursos humanos deve ser enegrecido com a admiss\u00e3o de educadores, bibliotec\u00e1rios, gestores negros e negras e, uma vez garantida a presen\u00e7a, que se garanta tamb\u00e9m a conviv\u00eancia com os afro-valores de vestimenta, de religiosidade, de saberes, de princ\u00edpios, de curr\u00edculos, de forma\u00e7\u00f5es.<\/strong> N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuarem contratando pessoas negras esperando (exigindo) que elas se embranque\u00e7am para \u201cse adequar \u00e0 escola\u201d, proibindo uso de turbantes, n\u00e3o reconhecendo intelectuais e autores negros e negras nas bibliografias e nos materiais did\u00e1ticos, permitindo vocabul\u00e1rio racista, piadinhas infames, entre outras tantas atitudes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo an\u00e1logo, algumas escolas contratam profissionais negros esperando que eles sejam uma esp\u00e9cie de representante oficial da cultura afro e ocupem lugares pr\u00e9-determinados. Remeto ao depoimento de um professor negro de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica sobre o quanto a dire\u00e7\u00e3o da escola ficou desapontada quando soube que ele n\u00e3o jogava capoeira. Na contrata\u00e7\u00e3o n\u00e3o perguntaram nada sobre isso, apenas deduziram&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 como se os pap\u00e9is ainda estivessem determinados a partir da perspectiva branca, que insiste em direcionar, controlar a presen\u00e7a negra<\/strong>. Lembro aqui a suposta justificativa dos escravocratas para o uso de m\u00e1scaras na boca dos africanos escravizados a fim de evitar que comessem a colheita, conforme aponta Grada Kilomba:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Oficialmente, a m\u00e1scara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanos\/as escravizados\/as comessem cana-de-a\u00e7\u00facar ou cacau enquanto trabalhavam nas planta\u00e7\u00f5es, mas sua principal fun\u00e7\u00e3o era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar tanto de mudez quanto de tortura. Neste sentido, a m\u00e1scara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza pol\u00edticas s\u00e1dicas de conquista e domina\u00e7\u00e3o e seus regimes brutais de silenciamento dos(as) chamados(as) \u2018Outros(as)\u2019:Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?&#8221;<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">(KILOMBA, Grada, 2019, p. 172)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal cerceamento da express\u00e3o das pessoas negras se d\u00e1 de m\u00faltiplas formas. No campo liter\u00e1rio, ele vem com for\u00e7a quando reduz a obra de autores negros e negras \u00e0s abordagens tem\u00e1ticas, hist\u00f3rias de den\u00fancias de racismo e reivindica\u00e7\u00f5es raciais, deixando invisibilizada a poeticidade dessas obras enquanto linguagem liter\u00e1ria e art\u00edstica. Sem mencionar o fato de que autoria negra pode abarcar o tema e a perspectiva que bem entender \u2013 como todos e todas as artistas. Mas esse \u00e9 assunto para outra coluna.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"1170\" height=\"405\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Assnie-o-Clube-de-Leitura-Quindim.jpg\" alt=\"Assine o Clube de Leitura Quindim\" class=\"wp-image-35999\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Assnie-o-Clube-de-Leitura-Quindim.jpg 1170w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Assnie-o-Clube-de-Leitura-Quindim-768x266.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1170px) 100vw, 1170px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Para saber mais:<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>ALMEIDA, Silvio Luiz de. <em>Rascismo Estrutural<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Janda\u00edra, 2020.<\/li>\n\n\n\n<li>BENTO, Maria Aparecida da Silva. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: CARONE, Iray e BENTO, Maria Aparecida da Silva (Orgs.) <em>Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2002.<\/li>\n\n\n\n<li>CARDOSO, Louren\u00e7o. A branquitude acr\u00edtica revisitada e a branquidade. <em>Revista da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores\/as Negros\/as (ABPN),<\/em> [S. l.], v. 6, n. 13, p. 88\u2013106, 2014.<\/li>\n\n\n\n<li>CARDOSO, Cintia. <em>Branquitude na educa\u00e7\u00e3o infantil<\/em>. Curitiba: Appris, 2021.<\/li>\n\n\n\n<li>CARNEIRO, Sueli. <em>Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil.<\/em> S\u00e3o Paulo: Selo Negro, 2011.<\/li>\n\n\n\n<li>KILOMBA, Grada. A m\u00e1scara. In: KILOMBA, Grada. <em>Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o: epis\u00f3dios de racismo cotidiano<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jessica Oliveira de Jesus. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3, 2019.<\/li>\n\n\n\n<li>SCHUCMAN, Lia. <em>Entre o encardido, o branco e o branqu\u00edssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Veneta, 2020.<\/li>\n<\/ul>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma escola antirracista deve dimensionar e questionar sua branquitude. 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