{"id":52850,"date":"2023-08-21T16:11:38","date_gmt":"2023-08-21T19:11:38","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=52850"},"modified":"2025-05-21T05:52:34","modified_gmt":"2025-05-21T08:52:34","slug":"conto-popular-no-brasil-primeiros-registros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/conto-popular-no-brasil-primeiros-registros\/","title":{"rendered":"O conto popular no Brasil: influ\u00eancias estrangeiras e os primeiros registros brasileiros"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>&nbsp;&#8220;O valor do conto n\u00e3o \u00e9 apenas emocional e delicioso, uma viagem de retorno ao Pa\u00eds da Inf\u00e2ncia\u201d. (Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo)<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Era uma vez dois irm\u00e3os<\/strong><\/h3>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52865\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio1-1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio1-1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Irm\u00e3os Grimm<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1812, os Irm\u00e3os Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) registraram em um livro intitulado <em>Kinder-und Hausm\u00e4rchen <\/em>(Contos Infantis e Dom\u00e9sticos) os contos de tradi\u00e7\u00e3o oral ouvidos junto a informantes, alcan\u00e7ando \u00eaxito imediato para al\u00e9m das fronteiras de seu pa\u00eds, a Alemanha. Fil\u00f3logos, lexic\u00f3grafos e mit\u00f3grafos, os Irm\u00e3os Grimm, a princ\u00edpio, buscavam <strong>demonstrar a for\u00e7a da literatura nascida no seio do povo<\/strong>, e isso tinha uma raz\u00e3o de ser: seu pa\u00eds ainda n\u00e3o estava unificado, e amea\u00e7as externas, como as invas\u00f5es napole\u00f4nicas, acabaram por fomentar os brios locais no tocante \u00e0 uni\u00e3o nacional, e nada melhor do que recorrer \u00e0s velhas tradi\u00e7\u00f5es, que remetiam, provavelmente, \u00e0 mitologia germ\u00e2nica, para promover a unifica\u00e7\u00e3o territorial. Da\u00ed vem a ideia de fidelidade \u00e0s matrizes tradicionais, que impregnam a primeira edi\u00e7\u00e3o, abandonada paulatinamente \u00e0 medida que o livro, reimpresso, alcan\u00e7ava um p\u00fablico cada vez mais amplo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os Irm\u00e3os Grimm n\u00e3o apenas reproduziam as hist\u00f3rias, mas as analisavam em notas comparativas que traziam<\/strong>, al\u00e9m de vers\u00f5es liter\u00e1rias distribu\u00eddas em obras como as italianas <em>Le Piaccevoli Notte<\/em> (As noites agrad\u00e1veis), de Giovanfracesco Straparola (1550-1555), <em>O conto dos Contos<\/em> ou <em>Pentameron<\/em> (1634-1636), de Giambattista Basile, e as colet\u00e2neas francesas de contos de fadas do s\u00e9culo XVII, com destaque para Madame d\u2019Aulnoy (1650\/1651-1705), criadora do g\u00eanero, ou, por outra, a primeira a cunhar o termo \u201cconto de fadas\u201d, duramente criticada por eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m utilizaram a colet\u00e2nea de Charles Perrault (1628-1703), <em>Histoires ou Contes du Temps Pass\u00e9, avec des Moralit\u00e9s <\/em>(Hist\u00f3ria do tempo passado com moralidades), publicada em 1697, com apenas oito narrativas, como modelo, talvez pela concis\u00e3o narrativa. De ineg\u00e1vel origem tradicional, embora modificados e embelezados ao gosto da nobre audi\u00eancia, caracter\u00edstica da \u201cliteratura de sal\u00e3o\u201d francesa, que entrou em decl\u00ednio depois da morte de Lu\u00eds XIV, <strong>os contos de Perrault eram relativamente curtos, mais pr\u00f3ximos das vers\u00f5es orais<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/O-melhor-clube-de-assinatura-infantil.gif\" alt=\"O melhor clube de assinatura infantil\" class=\"wp-image-38466\" title=\"\"><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todas essas iniciativas, al\u00e9m das colet\u00e2neas provenientes do Oriente (o antiqu\u00edssimo <em>Panchatantra<\/em> hindu e seu desdobramento persa <em>Calila e Dimna<\/em>; o <em>\u015aukasaptati<\/em>, condensado no igualmente persa <em>Tutinama<\/em> (Contos do Papagaio), al\u00e9m do <em>Livro das Mil e Uma Noites<\/em>, divulgado no Ocidente por Antoine Galland, eram fontes preciosas para cotejos e confrontos. E, em 1848, quando o neologismo&nbsp;<em>Folclore<\/em>, ainda envolvido no binarismo passado\/presente,&nbsp;foi consignado pelo antiqu\u00e1rio ingl\u00eas William John Thoms (1803-1885), em artigo publicado na revista&nbsp;<em>The Atheneum<\/em>, o conto tradicional, gra\u00e7as ao sucesso dos Irm\u00e3os Grimm, havia alcan\u00e7ado, em muitos pa\u00edses, notadamente na Europa, a merecida aten\u00e7\u00e3o dos escritores e estudiosos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/o-que-sao-os-contos-populares\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O que s\u00e3o os contos populares: da voz ao mundo dos livros<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas, seguindo a picada aberta pelos Grimm, <strong>enxergavam nas velhas hist\u00f3rias patrim\u00f4nios nacionais, a pr\u00f3pria alma do povo<\/strong>. O mesmo sentimento de preserva\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es antigas, amea\u00e7adas de desaparecimento, depois das reformas levadas a efeito pelo czar Pedro, o Grande, moveu Alexander Afanasiev (1826-1871), o mais importante folclorista russo, a anotar e divulgar os contos populares de seu pa\u00eds, publicando-os em um espa\u00e7o de oito anos (1855 e 1863). Gra\u00e7as a ele, personagens como Vassilissa a Bela, Ivan Filho do Czar e a, agora, sempre lembrada Baba-Yaga tornaram-se conhecidas para al\u00e9m do mundo eslavo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"298\" height=\"329\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52866\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio2.jpg 298w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio2-150x166.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Alexander Afanasiev<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outros coletores dedicaram-se especificamente \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es locais. \u00c9 o caso, por exemplo, do m\u00e9dico e etn\u00f3grafo siciliano Giuseppe Pitr\u00e8 (1841-1916), que teve em Agatuzza Messia, sua principal informante, uma fonte inesgot\u00e1vel. Sem educa\u00e7\u00e3o formal, Agatuzza compensava essa \u201cdefici\u00eancia\u201d com grande capacidade mnem\u00f4nica, que se constitu\u00eda num arquivo gigantesco de contos, lendas e prov\u00e9rbios. Um fen\u00f4meno. Pitr\u00e8 a definiu como sua &#8220;contadora de hist\u00f3rias-modelo\u201d. <strong>O dom\u00ednio em muitos campos do saber e sua capacidade em extrair, estudar e divulgar as tradi\u00e7\u00f5es de seu povo, a observa\u00e7\u00e3o paciente, a leitura arguta, fazem de Pitr\u00e8 um dos mais importantes folcloristas de seu tempo<\/strong>. E Agatuzza foi o seu principal elo com as velhas tradi\u00e7\u00f5es daquela que \u00e9, segundo Dario Lodi, a regi\u00e3o que sofreu, em sentido num\u00e9rico, domina\u00e7\u00f5es como nenhuma outra no mundo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Foi pra Portugal, ganhou o lugar<\/strong><\/h3>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52867\" style=\"width:246px;height:320px\" width=\"246\" height=\"320\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio3.jpg 154w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio3-150x195.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 246px) 100vw, 246px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Francisco Adolfo Coelho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Portugal, Francisco Adolfo Coelho (1847-1919) foi o desbravador, com a publica\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>Contos Populares Portugueses<\/em>, 1879. Segue-o Z\u00f3fimo Consiglieri Pedroso (1851-1910), com o livro&nbsp;<em>Portuguese folktales<\/em>&nbsp;(1882), publicado em ingl\u00eas e que s\u00f3 ganharia uma edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas em 1910, ano da morte do autor-coletor. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mais celebrado etn\u00f3grafo portugu\u00eas, por sua vasta produ\u00e7\u00e3o intelectual, em campos distintos, foi Te\u00f3filo Braga (1843-1924), autor de&nbsp;<em>Contos Tradicionais do Povo Portugu\u00eas<\/em>&nbsp;(1883), publicada em dois volumes, o primeiro de recolhas feitas por ele e o segundo, com contos raros, de colet\u00e2neas como <em>O Livro das Linhagens<\/em>, <em>O Horto do Esposo<\/em>, de Frei Hermenegildo de Tacos, e <em>Contos e<\/em> <em>Hist\u00f3rias de Proveito e Exemplo<\/em>, de Gon\u00e7alo Fernandes Trancoso, de 1575.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A antologia&nbsp;<em>Contos Tradicionais do Algarve<\/em>, do padre Francisco Xavier de Ata\u00edde Oliveira (1842-1915), englobando 400 contos do sul de Portugal, \u00e9 considerada por estudiosos, como Paulo Correia, a mais importante daquele pa\u00eds. Entre outras publica\u00e7\u00f5es, a importante contribui\u00e7\u00e3o de Leite de Vasconcelos (1858-1941), <em>Contos Populares e Lendas<\/em>, em dois volumes, saiu postumamente, entre 1964 e 1966.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>De SIlvio Romero a C\u00e2mara Cascudo<\/strong><\/h3>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52874\" style=\"width:195px;height:270px\" width=\"195\" height=\"270\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio5.jpg 217w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio5-150x207.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 195px) 100vw, 195px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Silvio Romero<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, <strong>a iniciativa pioneira coube ao pol\u00edgrafo sergipano Silvio Romero (1851-1914)<\/strong>, autor de&nbsp;<em>Contos Populares do Brasil<\/em>&nbsp;(1885), publicado originalmente em Portugal, com organiza\u00e7\u00e3o e notas de Te\u00f3filo Braga; este modificou a posi\u00e7\u00e3o dos contos e n\u00e3o apontou Romero como respons\u00e1vel pela divis\u00e3o das se\u00e7\u00f5es, o que foi motivo de acirrada pol\u00eamica e de resposta virulenta do brasileiro, tribut\u00e1rio da escola antropol\u00f3gica, que amparou sua pesquisa em question\u00e1veis teorias raciais, dividindo a obra em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es, a saber:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\">\n<li><strong>Contos de origem europeia<\/strong>: re\u00fane em sua maior parte contos maravilhosos (<em>O Bicho Manjal\u00e9u<\/em>, <em>Jo\u00e3o mais Maria<\/em>, <em>Maria Borralheira<\/em>, <em>Chico Ramela<\/em> etc.), encontrados em vers\u00f5es portuguesas, e tamb\u00e9m um conto jocoso (<em>O Padre sem Cuidados<\/em>), uma f\u00e1bula (<em>O C\u00e1gado e a Festa no C\u00e9u<\/em>) e um conto acumulativo (<em>A Formiga e a Neve<\/em>, al\u00e9m de contos real\u00edsticos (<em>Dona Pinta<\/em>, <em>Os Tr\u00eas Conselhos<\/em>).<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Contos de origem ind\u00edgena<\/strong>: re\u00fane 21 hist\u00f3rias, todas elas protagonizadas por animais, a maior parte corrente na tradi\u00e7\u00e3o oral de outros pa\u00edses. Um dos contos mais conhecidos desta se\u00e7\u00e3o, <em>Amiga Folhagem<\/em>, no qual o macaco sedento, coberto de mel e folhas, bebe \u00e1gua da fonte guardada pela on\u00e7a, foi catalogado por Terence Leslie Hansen (1957) em Cuba e outros pa\u00edses americanos de fala espanhola. Outro, <em>O Veado e o Sapo<\/em>, no qual o animal mais veloz \u00e9 derrotado em uma corrida pelo mais lento, consta de mais de uma dezena de vers\u00f5es africanas, portuguesas e de outras paragens.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Contos de origem africana e mesti\u00e7a<\/strong>:&nbsp; talvez a mais problem\u00e1tica das se\u00e7\u00f5es, re\u00fane apenas 16 contos, finalizando com uma fac\u00e9cia<em>, O Negro Pachola<\/em>, com o Pai Jos\u00e9, homem escravizado que, imitando o senhor, tenta seduzir a esposa deste, dando-se mal ao final. Esta hist\u00f3ria, recolhida tamb\u00e9m no in\u00edcio e meados do s\u00e9culo XX por Lindolfo Gomes e Theo Brand\u00e3o, parece ter desaparecido por completo do meio tradicional em rejei\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado afrontosamente racista. Outras duas, <em>A On\u00e7a e o Gato<\/em> e <em>O Doutor Botelho<\/em>, calcam por terra essa obsess\u00e3o pelas origens, marcante na obra de Silvio Romero. A primeira foi divulgada entre as f\u00e1bulas de Esopo e a segunda, a despeito de ser o Macaco o auxiliar do her\u00f3i, \u00e9 uma maldisfar\u00e7ada vers\u00e3o do <em>Gato de Botas<\/em> de Perrault. \u201cBotelho\u201d, ali\u00e1s, parece ser um derivativo de \u201cbotas\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se nega a Silvio Romero, no entanto, a honestidade na fixa\u00e7\u00e3o dos contos, o esfor\u00e7o de divulg\u00e1-los em um <strong>projeto que inclu\u00eda ainda dois volumes de cantos populares e o pioneirismo em reunir, em um \u00fanico volume, hist\u00f3rias de diferentes g\u00eaneros<\/strong>. \u00c9 verdade que, antes dele, o ge\u00f3logo canadense Charles Frederick Hartt (1840-1878)<em>, <\/em>com <em>Amazonian Tortoise Myths <\/em>(Os mitos amaz\u00f4nicos da tartaruga, de 1875), reuni\u00e3o de oito f\u00e1bulas do Jabuti, grande&nbsp;<em>trickster<\/em>&nbsp;dos contos ind\u00edgenas, e o general Couto de Magalh\u00e3es (1837-1898), na colet\u00e2nea&nbsp;<em>O Selvagem&nbsp;<\/em>(1876), apresentaram contos e lendas tradicionalizados entre os povos nativos da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paulista de Guaratinguet\u00e1, radicado em Juiz de Fora (MG), Lindolfo Gomes (1875-1953), ao trazer a lume a obra <em>Contos Populares <\/em>(1918), depois rebatizada como <em>Contos Populares Brasileiros<\/em>, contribuiu para ampliar n\u00e3o somente o repert\u00f3rio de hist\u00f3rias recolhidas diretamente da fonte da mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m por apresentar, pela primeira vez, em um ciclo, as <strong>fac\u00e9cias protagonizadas pelo burl\u00e3o de origem ib\u00e9rica Pedro Malasarte<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/conteudo.quindim.com.br\/assinar-newsletter-banner-blog\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg\" alt=\"Assine o clube quindim\" class=\"wp-image-38121\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg 810w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-768x179.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o 12 hist\u00f3rias, come\u00e7ando com <em>De Como Malasarte fez o Urubu Falar<\/em>, t\u00edpico conto picaresco com ecos do <em>Decamer\u00e3o<\/em>, e terminando com <em>De Como Malasarte entrou no C\u00e9u<\/em>, este j\u00e1 com evidente resson\u00e2ncia m\u00edtica. H\u00e1 outros ciclos, como o do citado Pai Jo\u00e3o, do Pregui\u00e7oso, do Diabo, al\u00e9m de Narrativas Maravilhosas, Lendas Populares e Religiosas, mais em conson\u00e2ncia com o m\u00e9todo hist\u00f3rico-geogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se pode esquecer do historiador baiano Jo\u00e3o da Silva Campos (1880-1940), respons\u00e1vel pelos <em>Contos e F\u00e1bulas Populares da Bahia<\/em> (1928), publicado como ap\u00eandice de uma obra menor, <em>O Folclore do Brasil<\/em>, de Bas\u00edlio de Magalh\u00e3es. <strong>\u00c9 uma das melhores colet\u00e2neas, seja pela qualidade do registro, vigoroso ao fixar tamb\u00e9m os tra\u00e7os africanos ainda vivos na poesia e na pros\u00f3dia<\/strong> do Rec\u00f4ncavo, seja pela diversidade das hist\u00f3rias, que, al\u00e9m daquelas oriundas do estado natal do autor, apresenta outras do Piau\u00ed e do Maranh\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o, nem classifica\u00e7\u00e3o, apenas a numera\u00e7\u00e3o dos 81 contos em algarismos romanos. Dif\u00edcil apontar apenas alguns, mas <em>O Cunhado de S\u00e3o Pedro<\/em>, <em>O Amarelo Mentiroso<\/em>, <em>Dom Maracaj\u00e1<\/em>, <em>O Rei Doente do Mal de Amores<\/em> e <em>A Aranha Caranguejeira e o Quibungo <\/em>s\u00e3o destaques de uma recolha excepcional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E chegamos ao ano de 1946 quando Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo (1898-1986), renomado e prol\u00edfico etn\u00f3grafo, lan\u00e7ou <strong><em>Contos Tradicionais do Brasil<\/em>, a mais divulgada colet\u00e2nea do g\u00eanero<\/strong>. Cascudo tem por modelo Te\u00f3filo Braga, optando pelo designativo \u201ctradicionais\u201d para referir-se aos 100 contos reproduzidos em sua antologia, nem todos recolhidos por ele. Alguns foram pin\u00e7ados de estudos e colet\u00e2neas de Rodrigues de Carvalho, Lindolfo Gomes, Silvio Romero, Desembargador Afonso Cl\u00e1udio, Jos\u00e9 Carvalho, Jo\u00e3o da Silva Campos e Gustavo Barroso, entre outros. A divis\u00e3o segue o m\u00e9todo hist\u00f3rico-geogr\u00e1fico da Escola Finlandesa, desenvolvido por Antti Aarne, revisto e ampliado por Stith Thompson, que traduziu a obra<em> <\/em><em>Verzeichnis der M\u00e4rchentypen<\/em> (1910) para o ingl\u00eas, intitulando-a <em>The Types of the Folktale<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/5-personagens-do-folclore-que-as-criancas-vao-amar-conhecer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">5 personagens do folclore que as crian\u00e7as v\u00e3o amar conhecer!<\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio4-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-52871\" style=\"width:-255px;height:-169px\" width=\"-255\" height=\"-169\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio4-1.jpg 696w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/O-conto-popular-no-Brasil-influencias-estrangeiras-e-os-primeiros-registros-brasileiros-meio4-1-150x100.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cascudo ainda recuperou o g\u00eanero medieval dos <em>exempla<\/em> (exemplos), um misto de contos novelescos com alguns contos maravilhosos, e ainda incluiu <em>Seis Aventuras de Pedro Malazarte<\/em> (sic.), estas um tanto deslocadas na se\u00e7\u00e3o. As vers\u00f5es brasileiras de <em>Chapeuzinho Vermelho<\/em> (<em>O Chapelinho Vermelho<\/em>), <em>O Pequeno Polegar<\/em>, <em>A Roupa Nova do Rei<\/em> (<em>A Roupa do Rei<\/em>) decepcionam pela pobreza de a\u00e7\u00f5es e n\u00e3o parecem leg\u00edtimos contos populares, mas recria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A divis\u00e3o proposta pelo mestre potiguar \u2212 al\u00e9m dos Contos de Exemplo j\u00e1 citados, engloba os Contos de Encantamento, de animais, Fac\u00e9cias, Religiosos, Dem\u00f4nio Logrado e Acumulativos, se\u00e7\u00f5es baseadas no Sistema Aarne-Thompson \u2212, implica tamb\u00e9m alguns problemas, em especial quando prop\u00f5e um ciclo da Morte, no qual h\u00e1 apenas um conto, uma se\u00e7\u00e3o de Contos Etiol\u00f3gicos e outra denominada de Natureza Denunciante. H\u00e1 ainda, um relato, A M\u00fasica dos Chifres Ocos e Perfurados, na se\u00e7\u00e3o Tradi\u00e7\u00e3o, um tanto deslocado por n\u00e3o trazer, necessariamente, uma hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os contos de animais s\u00e3o em maior parte reproduzidos do imprescind\u00edvel trabalho de Silva Campos. A maior contribui\u00e7\u00e3o do livro reside na forma como Cascudo registra as hist\u00f3rias recolhidas por ele, algumas bel\u00edssimas, como <em>A Princesa do Sono sem Fim<\/em> (vers\u00e3o de <em>A Bela Adormecida no Bosque<\/em>), <em>O Veado de Plumas<\/em>, <em>A Princesa de Bambulu\u00e1<\/em>, <em>O Espelho M\u00e1gico<\/em>, <em>Couro de Piolho<\/em> e <em>Maria de Oliveira<\/em>. A introdu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m traz um ensaio vigoroso, e, apesar de alguns postulados evidentemente invalidados pela passagem do tempo, a escrita po\u00e9tica de Cascudo prevalece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O autor publicaria, em 1952, <em>Literatura Oral<\/em>, dedicando v\u00e1rias p\u00e1ginas aos contos populares, e <em>Trinta Hist\u00f3rias de Bibi<\/em>, edi\u00e7\u00e3o portuguesa, reuni\u00e3o de contos da ama de sua casa, Lu\u00edsa Freire, fonte preciosa de muitas informa\u00e7\u00f5es etnogr\u00e1ficas coligidas pelo mestre.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>E essa hist\u00f3ria&#8230;<br>&#8230; entrou pelo p\u00e9 do pato,<br>Saiu pelo p\u00e9 do pinto;<br>Manda o rei, meu senhor,<br>Que eu conte mais cinco.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De estrangeiros como os Irm\u00e3os Grimm e Perrault a brasileiros como Silvio Romero e C\u00e2mara Cascudo: conhe\u00e7a mais sobre os contos populares e suas particularidades e estilos.<\/p>\n","protected":false},"author":41,"featured_media":52878,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_mbp_gutenberg_autopost":false,"footnotes":""},"categories":[509,510],"tags":[],"class_list":["post-52850","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-folclore"],"acf":{"posts_relacionados":[23861,48625,28851]},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/41"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52850"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52850\/revisions"}],"acf:post":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28851"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48625"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23861"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52878"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}