{"id":52276,"date":"2023-08-04T15:44:12","date_gmt":"2023-08-04T18:44:12","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=52276"},"modified":"2025-05-21T05:52:37","modified_gmt":"2025-05-21T08:52:37","slug":"entrevista-ricardo-azevedo-cultura-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/entrevista-ricardo-azevedo-cultura-popular\/","title":{"rendered":"Entrevista com Ricardo Azevedo: a import\u00e2ncia de valorizar a cultura popular"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conversar com o escritor, ilustrador e pesquisador paulista Ricardo Azevedo \u00e9 mergulhar em temas como <strong>cultura popular, oralidade, literatura, fic\u00e7\u00e3o e humanidade<\/strong>, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es. Autor de mais de cem livros para crian\u00e7as e jovens, parte deles traduzido para idiomas como ingl\u00eas, espanhol, franc\u00eas, alem\u00e3o e holand\u00eas, Ricardo nasceu em uma fam\u00edlia que <strong>valorizava o popular<\/strong>, o que marcou profundamente a sua vida pessoal e profissional. Na entrevista abaixo, o autor, que tamb\u00e9m \u00e9 curador do <a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Clube de Leitura Quindim<\/a>, fala sobre a sua trajet\u00f3ria, a import\u00e2ncia do folclore \u2013 que prefere chamar de cultura popular <strong>ou, melhor, culturas populares<\/strong> \u2013 e a cultura contempor\u00e2nea, entre outros assuntos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"731\" height=\"445\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Ricardo_Azevedo_infancia.jpg\" alt=\"Ricardo Azevedo\" class=\"wp-image-1515\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Ricardo_Azevedo_infancia.jpg 731w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/Ricardo_Azevedo_infancia-300x183.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ricardo Azevedo <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Bia Reis: Ricardo, quero come\u00e7ar te perguntando sobre a sua inf\u00e2ncia. Os seus interesses na \u00e9poca, as brincadeiras, os livros, as m\u00fasicas que voc\u00ea gostava, j\u00e1 apontavam o caminho que voc\u00ea trilhou e vem trilhando?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ricardo Azevedo<\/strong>: \u00c9 dif\u00edcil falar nesse assunto com objetividade. Sou filho de um professor universit\u00e1rio (Aroldo de Azevedo) nascido no Vale do Para\u00edba que veio para S\u00e3o Paulo e fez carreira como professor da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo). As marcas de uma cultura popular j\u00e1 vinham com ele. Era ge\u00f3grafo, <strong>valorizava muito o Brasil<\/strong> \u2013 ele amava o Brasil \u2013, e tudo isso impregnou os filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a gente viajava pelo Vale do Para\u00edba, ele parava o carro para mostrar uma igrejinha, falava de pagadores de promessas, de feiras populares. E ele fazia uma coisa quando a gente era crian\u00e7a, uns 10 anos de idade, que me marcou muito. Ele tinha livros de cultura popular, inclusive de quadras populares \u2013 um deles est\u00e1 comigo at\u00e9 hoje, do Afr\u00e2nio Peixoto, o <em>Trovas Populares Brasileiras<\/em> \u2013 e reunia os filhos, com um gravadorzinho, ajudava a gente a escolher as trovas e grav\u00e1-las. A gente se divertia muito. <strong>Os ritmos das palavras, as rimas, aquilo me impregnou totalmente<\/strong>. As trovas populares, chamadas tamb\u00e9m de quadras populares, s\u00e3o uma riqueza como poesia, como intelig\u00eancia, como abordar assuntos complexos de uma maneira simples e direta. Eu gosto sempre de citar uma, que \u00e9 de uma concis\u00e3o impressionante:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jurei, juraste, juramos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juramos, jurei, juraste<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quebrei, quebraste, quebramos<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quebramos, quebrei, quebraste<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 genial. E popular. Ningu\u00e9m sabe quem inventou. Est\u00e1, salvo engano, no livro do Afr\u00e2nio Peixoto. Isso para mim foi uma marca muito forte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra marca foi que meu pai tinha um s\u00edtio perto de S\u00e3o Paulo e eu passei minha inf\u00e2ncia indo l\u00e1. No in\u00edcio n\u00e3o havia nem luz el\u00e9trica. E tive muito contato com as crian\u00e7as que moravam l\u00e1, crian\u00e7as caipiras, do entorno. Tinham japoneses tamb\u00e9m, que trabalhavam e moravam na regi\u00e3o. E meu pai fazia umas festas juninas, convidava todo mundo que morava perto. Tinha fogueira, bal\u00e3o, pau de sebo. <strong>Tudo isso eu vivi na minha inf\u00e2ncia e marcou minha vida com a valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular. Eu via o povo e a cultura popular como uma riqueza e n\u00e3o com desprezo, como muitas pessoas veem por a\u00ed<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, para concluir minha resposta, quando eu publiquei meu primeiro livro eu tinha sempre essa indaga\u00e7\u00e3o: <strong>o que \u00e9 escrever para crian\u00e7as, o que \u00e9 esse mercado? <\/strong>Pensava sempre nos contos populares. Por exemplo, Jo\u00e3o e Maria, que os pais n\u00e3o conseguem alimentar os filhos e os jogam no mato. Os filhos s\u00e3o obrigados a terem uma trajet\u00f3ria at\u00e9 se salvarem, por conta pr\u00f3pria. E olha que interessante: esses contos s\u00e3o oferecidos para as crian\u00e7as. Pensava em <strong>como abordar temas complexos com uma linguagem acess\u00edvel e sem um aprofundamento idiossincr\u00e1tico que seja individual demais e afaste o leitor<\/strong>. Essas hist\u00f3rias abordam assuntos complexos, mas tratam de uma forma que um menino de 8 anos ou um cara de 80 possam ouvir e se emocionar. Isso me impressionava muito e eu fui estudar. Fiz mestrado estudando os elos entre a literatura infantil e o conto popular e, depois, doutorado sobre a linguagem popular.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/conteudo.quindim.com.br\/assinar-newsletter-banner-blog\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg\" alt=\"Assine o clube quindim\" class=\"wp-image-38121\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg 810w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-768x179.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>BR: Voltando um pouco na sua hist\u00f3ria, como a escrita entrou na sua vida? Como a crian\u00e7a que viveu o encantamento com a cultura popular se tornou um escritor?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RA:<\/strong> Eu n\u00e3o fui um bom aluno, fui p\u00e9ssimo na verdade, repeti duas vezes. Mas tirava boas notas em reda\u00e7\u00e3o e, para minha sorte, isso era valorizado pela escola. Aquilo tinha um valor enorme para mim porque, al\u00e9m de ser uma express\u00e3o minha, eram as \u00fanicas boas notas que eu tirava. <strong>Por gostar de escrever, eu passei a ser leitor<\/strong>; a medida em que valorizavam a minha reda\u00e7\u00e3o, eu passei a ler textos com outra inten\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o, a olhar como cada escritor escrevia. Fui, ent\u00e3o, sendo marcado pelas leituras que fazia, l\u00e1 pelos 14, 15 anos. E eu tamb\u00e9m gostava de desenhar. Em um dado momento, fui trabalhar como publicit\u00e1rio. J\u00e1 era casado, ent\u00e3o trabalhava de dia e fazia meus textos \u00e0 noite. Como tamb\u00e9m desenhava, pensei em fazer textos de literatura infantil, que, coincidentemente ou n\u00e3o, estava bombando na \u00e9poca. Era o fim da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/o-que-e-formacao-leitora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O que \u00e9 forma\u00e7\u00e3o leitora: como despertar a paix\u00e3o pelos livros na inf\u00e2ncia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>BR: Interessante a escrita ter te pegado antes do que o desenho, porque voc\u00ea fez faculdade de Artes Pl\u00e1sticas, n\u00e3o?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RA:<\/strong> Eu fiz Artes Pl\u00e1sticas, mas essa n\u00e3o era a minha inten\u00e7\u00e3o. Eu queria mesmo era fazer Jornalismo, mas n\u00e3o havia curso noturno na USP e eu queria casar, trabalhar, fazer a vida. Quando fazia cursinho, um dia a irm\u00e3 de um amigo nos levou para ver uma aula na Faap (Funda\u00e7\u00e3o Armando \u00c1lvares Penteado), de Artes Pl\u00e1sticas. E eu adorei! Foi a melhor coisa que aconteceu comigo porque eu continuei escrevendo, j\u00e1 estava enraizado na literatura e no texto, e passei a ter aulas de Est\u00e9tica e de Hist\u00f3ria da Arte, <strong>foi quando eu entendi o que era um artista<\/strong>. Um escritor tem marcas da sociedade em que vive no seu texto e no artista pl\u00e1stico isso aparece visualmente. Apesar de gostar de desenhar, antes eu achava que era uma coisa inferior. Na faculdade, <strong>descobri que desenhar, por exemplo, criar met\u00e1foras visuais, \u00e9 uma riqueza<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>BR: Em que momento voc\u00ea percebeu que poderia juntar todo esse caldo de forma\u00e7\u00e3o, de interesse, na literatura que voc\u00ea faz?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RA:<\/strong> Trabalhar com publicidade foi importante para mim porque eu juntei o texto com a parte visual e tamb\u00e9m aprendi sobre produ\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica. Escrever texto publicit\u00e1rio foi fant\u00e1stico porque ele tem de ser simples, direto e compreens\u00edvel, sem enrola\u00e7\u00f5es. E isso foi uma aula. Ent\u00e3o, continuei trabalhando de dia com publicidade e de noite escrevendo. Um dia, soube que a Melhoramentos estava procurando novos autores. Era 1979. Eu tinha textos prontos e fiz tr\u00eas desenhos para o que seria meu primeiro livro, <em>O peixe que podia cantar<\/em>. A editora gostou, publicou e percebi que se abria uma porta. Em 1981, publiquei mais dois livros, ganhei pr\u00eamio e vi que estava no caminho certo, que precisava ter coragem. Eu tinha tr\u00eas filhos. Larguei meu emprego, fui \u00e0 luta e estou aqui. Foi nessa \u00e9poca que encontrei os caminhos que, de alguma forma, segui at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais para frente, quando fui publicar um livro de contos populares, assunto que me interessava e que j\u00e1 tinha material reunido, pensei que n\u00e3o podia usar o mesmo tipo de desenho dos outros livros. Uma coisa s\u00e3o as hist\u00f3rias que eu crio e outra s\u00e3o os recontos. Nesse caso, <strong>trabalho como um <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/10-contadores-de-historias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">contador de hist\u00f3rias<\/a>, \u00e9 diferente<\/strong>. Me aprofundei ent\u00e3o na <strong>pesquisa de linguagem e na iconografia popular<\/strong>. Fui estudar as imagens da <strong>xilogravura<\/strong>, que eu imito com nanquim. <strong>E \u00e9 essa linguagem que uso nos livros de cultura popular<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>BR: Voc\u00ea tem um livro bastante conhecido que chama <em>Armaz\u00e9m do Folclore<\/em>. Qual \u00e9 a sua defini\u00e7\u00e3o para folclore?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RA:<\/strong> Olha, eu <strong>n\u00e3o gosto da palavra folclore<\/strong>. At\u00e9 j\u00e1 usei em livros meus, publica\u00e7\u00f5es mais antigas, porque <strong>\u00e9 um chav\u00e3o<\/strong> \u2013 nesse sentido \u00e9 bom, como em <em>Armaz\u00e9m do Folclore<\/em>. Mas na verdade eu prefiro usar o termo cultura popular. \u00c9 muito mais abrangente, al\u00e9m de mais leg\u00edtimo. Ali\u00e1s, <strong>prefiro preferencialmente o termo culturas populares<\/strong>. Eu fui desenvolvendo isso ao longo do tempo, mas o que posso te dizer hoje \u00e9 que existem \u201cmodelos de consci\u00eancia\u201d, \u00e9 um termo do soci\u00f3logo Norbert Elias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A modernidade tem um modelo de consci\u00eancia, que \u00e9 basicamente individualista, que defende igualdade, liberdade e autonomia. \u00c9 o modelo que n\u00f3s temos. Mas <strong>qual liberdade? Qual igualdade? <\/strong>O professor \u00e9 igual ao aluno? O pai \u00e9 igual ao filho? Essa igualdade, vista teoricamente, tira completamente a autoridade de tudo, pois <strong>nem todo mundo \u00e9 t\u00e3o igual assim<\/strong>. Autonomia. Onde existe isso plenamente? Veja s\u00f3, s\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo popular, descrito pelo antrop\u00f3logo Louis Dumont, \u00e9 completamente diferente. Prev\u00ea uma rede que tem Deus em cima, e abaixo est\u00e3o os santos, os mortos, os velhos, os adultos, as crian\u00e7as e os animais. \u00c9 uma rede e nela voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um \u201cindiv\u00edduo\u201d solto no espa\u00e7o, voc\u00ea \u00e9 uma pessoa dentro de uma rede. <strong>N\u00e3o estou falando que \u00e9 bom ou ruim, estou falando que se voc\u00ea n\u00e3o compreender isso voc\u00ea n\u00e3o vai entender nada.<\/strong> <strong>A comunidade, o lugar onde se vive, \u00e9 important\u00edssima na cultura popular. As hierarquias s\u00e3o importantes<\/strong>, veja o samba. Voc\u00ea vai numa escola de samba e tem a velha guarda, todo mundo para pra ouvir os velhos. A gente v\u00ea isso a olho nu, mas a gente despreza, o que \u00e9 um erro na minha opini\u00e3o. <strong>A gente poderia aprender muito com a cultura popular no sentido de ver outras alternativas para a nossa vida.<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Entrevista-com-Ricardo-Azevedo-meio1.jpg\" alt=\"Entrevista com Ricardo Azevedo: a import\u00e2ncia de valorizar a cultura popular\" class=\"wp-image-52288\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Entrevista-com-Ricardo-Azevedo-meio1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Entrevista-com-Ricardo-Azevedo-meio1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/o-que-sao-os-contos-populares\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O que s\u00e3o os contos populares: da voz ao mundo dos livros<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>BR: E essas duas culturas \u2013 a contempor\u00e2nea e a popular \u2013 convivem, certo?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RA:<\/strong> Sim. Quando voc\u00ea faz uma festa na sua casa e convida seus amigos, seus familiares, voc\u00ea est\u00e1 seguindo o modelo popular, de confraterniza\u00e7\u00e3o entre as pessoas, inclusive, de hierarquias. Voc\u00ea convida as pessoas mais velhas, vem as crian\u00e7as tamb\u00e9m. Isso tem a ver com o popular. <strong>Um modelo que valoriza o indiv\u00edduo e a autonomia \u00e9 diferente<\/strong>, \u00e9 cada um por si. O antrop\u00f3logo Louis Dumont, tem um livro b\u00e1rbaro que chama \u201cIndividualismo: Uma Perspectiva Antropol\u00f3gica da Ideologia Moderna<em>\u201d<\/em>. Ele fala que o \u201cindiv\u00edduo\u201d, pensando bem, \u00e9 uma bola solta no espa\u00e7o, ele \u00e9 aut\u00f4nomo, livre e igual. Vive solto no mundo. Ora, se fossemos \u201ciguais\u201d ser\u00edamos como bolas numa caixa de papel\u00e3o! <strong>A gente conhece o conceito de fam\u00edlia, o dia que n\u00e3o tivermos \u2013 isso vai demorar \u2013 n\u00e3o vamos mais ter filhos. Como os filhos v\u00e3o ser educados sem uma fam\u00edlia, uma m\u00ednima estrutura hier\u00e1rquica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu fui estudar esse assunto quando quis entender o que era cultura popular, fui ler os antrop\u00f3logos. Aqui temos um modelo de consci\u00eancia, na \u00cdndia, por exemplo, vigora outro. Tento dizer o seguinte: <strong>existem diferentes modelos de consci\u00eancia, diferentes vis\u00f5es a respeito da vida e do mundo. Os povos ind\u00edgenas t\u00eam uma vis\u00e3o da natureza completamente diferente da nossa. No lugar de julg\u00e1-la \u201cprimitiva\u201d temos \u00e9 que aprender com ela! <\/strong>Estudar esse assunto me ajudou demais. \u00c9 uma outra vis\u00e3o da vida e do mundo, que convive com a nossa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra base que me ajudou muito foi o estudo da oralidade. Quando voc\u00ea tem uma cultura oral, sem escrita, voc\u00ea imediatamente cai na cultura popular. Vou te contar uma hist\u00f3ria. O Di\u00f3genes da Cunha Lima \u00e9 um advogado que morava em Natal na \u00e9poca do Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo. Ele era um menino, tinha 12, 13 anos, e o C\u00e2mara era o s\u00e1bio da cidade. Um dia, o menino Di\u00f3genes bateu na porta do C\u00e2mara Cascudo e falou que gostaria de trabalhar para ele de gra\u00e7a, ir ao banco, arrumar algum livro. Ele queria ajudar o grande s\u00e1bio, que por sinal j\u00e1 tinha idade. Um dia ele estava mexendo nos livros e o C\u00e2mara n\u00e3o estava em casa. A empregada estava l\u00e1 varrendo. Ele chegou para a empregada e perguntou: voc\u00ea acha que o C\u00e2mara Cascudo \u00e9 s\u00e1bio mesmo? Ela disse: \u201c\u00e9 nada, estuda a noite inteirinha\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"1170\" height=\"405\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.png\" alt=\"Assine o Clube de Leitura Quindim\" class=\"wp-image-41460\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.png 1170w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-768x266.png 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-150x52.png 150w\" sizes=\"(max-width: 1170px) 100vw, 1170px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olha que interessante. <strong>Na cultura popular, quem sabe n\u00e3o estuda<\/strong>. O pescador sabe, o sambista sabe. Aprende-se pela experi\u00eancia pr\u00e1tica, aprende-se trabalhando. Um sambista n\u00e3o precisa consultar um livro para fazer um samba. S\u00e3o modelos de consci\u00eancia a respeito da vida e do mundo. N\u00e3o d\u00e1 para falar que um \u00e9 melhor do que o outro. A cultura escrita pode ser \u00f3tima, mas tamb\u00e9m tem mil problemas de afastamento entre as pessoas (pode-se aprender sozinho), de impessoalidade, de tomar por base premissas sem discuti-las. <strong>A cultura popular e a oralidade n\u00e3o trabalham com textos, mas sim com o contato face a face<\/strong>. Estou aqui agora juntando palavras e fazendo conex\u00f5es de forma que voc\u00ea me entenda.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>BR: Voc\u00ea falou algumas vezes que a cultura popular \u00e9 desvalorizada. Isso vem mudando de alguma forma? Pensando na quest\u00e3o da tecnologia, no mundo mediado pelas telas, ela pode ser usada para promover uma valoriza\u00e7\u00e3o da cultura, por interligar pessoas dos mais variados lugares, ou causa um efeito oposto?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RA:<\/strong> N\u00e3o sei responder. A tecnologia \u00e9 um instrumento que claramente poderia ajudar a fazer uma integra\u00e7\u00e3o, a melhorar a democracia, expor diferentes maneiras de viver, diferentes culturas, at\u00e9 pensando nos ind\u00edgenas e suas explica\u00e7\u00f5es para a vida e o mundo. Mas voc\u00ea tem uma <strong>ind\u00fastria cultural, uma m\u00e1quina que visa ao lucro independentemente de qualquer coisa<\/strong>. E a tecnologia pode ser nefasta nesse sentido. Eu fico pasmo olhando a intelig\u00eancia artificial e n\u00e3o me sinto preparado para lidar com isso.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Entrevista-com-Ricardo-Azevedo-meio2.jpg\" alt=\"Entrevista com Ricardo Azevedo: a import\u00e2ncia de valorizar a cultura popular\" class=\"wp-image-52290\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Entrevista-com-Ricardo-Azevedo-meio2.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Entrevista-com-Ricardo-Azevedo-meio2-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>BR: E nesse caminho, o que podemos fazer para valorizar a cultura popular?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>RA:<\/strong> Podemos valorizar a literatura, a fic\u00e7\u00e3o, a humanidade da literatura, a condi\u00e7\u00e3o humana e esclarecer o que \u00e9 isso. Somos mais do que t\u00e9cnico-consumidores, mas isso n\u00e3o est\u00e1 claro para os alunos, porque eles s\u00e3o formados para serem isso. Somos seres humanos, com outra complexidade. Eu acredito muito na escola, mas na <strong>escola boa, humanista, que puxa a humanidade para fora.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu gosto de citar o Wolfgang Iser, um te\u00f3rico da literatura que fala sobre o fict\u00edcio e o imagin\u00e1rio. Ele diz que quando n\u00f3s percebemos que nascemos j\u00e1 se passaram uns tr\u00eas ou quatro anos. Ent\u00e3o n\u00e3o temos acesso cognitivo ao in\u00edcio da nossa vida. N\u00f3s pegamos o bonde andando. Quando n\u00f3s vamos morrer, morremos, esticamos as canelas. Tamb\u00e9m n\u00e3o temos acesso cognitivo, n\u00e3o podemos contar o que aconteceu. Entre esse ponto in\u00edcio do qual n\u00e3o temos acesso e o ponto final, do qual tamb\u00e9m n\u00e3o temos acesso, n\u00f3s adquirimos experi\u00eancias e envelhecemos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Iser fala que n\u00f3s temos buracos dentro da gente. O cara tem 10 anos e determinadas d\u00favidas. Quando ele tem 15, j\u00e1 resolveu essas d\u00favidas, mas surgiram outras. Quando chega aos 30, j\u00e1 matou v\u00e1rias d\u00favidas, mas outras surgiram. Ele diz que o nosso desenvolvimento como pessoas humanas \u00e9 cheio de buracos de d\u00favidas que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos preencher na hora e tapamos com a fic\u00e7\u00e3o. Olha que interessante, n\u00f3s inventamos uma resposta provis\u00f3ria para nossos buracos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fic\u00e7\u00e3o \u00e9 isso, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um livro de fic\u00e7\u00e3o vendido na livraria, \u00e9 um recurso humano. A utopia \u00e9 baseada nesse mesmo recurso. Est\u00e1 ruim agora, mas e se a gente fizer isso e aquilo? Pode ser que melhore l\u00e1 para frente. <strong>Por isso a defesa da fic\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante para a humanidade<\/strong>.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escritor, ilustrador e pesquisador, Ricardo Azevedo, tamb\u00e9m curador do Quindim, conta seu in\u00edcio na leitura, sua trajet\u00f3ria como autor e ressalta a import\u00e2ncia da cultura popular.<\/p>\n","protected":false},"author":69,"featured_media":13588,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_mbp_gutenberg_autopost":false,"footnotes":""},"categories":[510],"tags":[],"class_list":["post-52276","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-folclore"],"acf":{"posts_relacionados":[22377,51319,966]},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52276","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/69"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52276"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52276\/revisions"}],"acf:post":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/966"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51319"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22377"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13588"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}