{"id":48112,"date":"2023-02-27T13:10:02","date_gmt":"2023-02-27T16:10:02","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=48112"},"modified":"2025-05-21T05:53:14","modified_gmt":"2025-05-21T08:53:14","slug":"daniel-munduruku-o-poder-do-entorno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/daniel-munduruku-o-poder-do-entorno\/","title":{"rendered":"Entrevista com Daniel Munduruku: o poder do entorno na cria\u00e7\u00e3o dos filhos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando menino, Daniel acordava cedo para que o sol j\u00e1 o encontrasse desperto. Sa\u00eda com a fam\u00edlia para ajudar na ro\u00e7a, coletar frutos e aprender tudo que sua m\u00e3e tinha para lhe ensinar naquele dia. E n\u00e3o s\u00f3 a sua m\u00e3e: <strong>as crian\u00e7as eram criadas por todos os pais da aldeia, ent\u00e3o os ensinamentos iam se espalhando e se internalizando em uma responsabilidade coletiva<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na hora do almo\u00e7o, todos voltavam, comiam a pesca ou a ca\u00e7a do dia e o restante da tarde era recheado de liberdade e divers\u00e3o com os primos e as crian\u00e7as da aldeia. Tamb\u00e9m, pudera: seu quintal era nada menos do que a Floresta Amaz\u00f4nica, com direito a banho de rio no fim da tarde e, quando o sol tamb\u00e9m j\u00e1 ia se despedindo no c\u00e9u, uma conversa com a fam\u00edlia ao redor da fogueira antes de ir deitar.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"729\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/38259_97DF6EA098BAEE51-1-CNN-reproducao-Copy-1.jpg\" alt=\"Entrevista com Daniel Munduruku\" class=\"wp-image-48120\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/38259_97DF6EA098BAEE51-1-CNN-reproducao-Copy-1.jpg 729w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/38259_97DF6EA098BAEE51-1-CNN-reproducao-Copy-1-150x84.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 729px) 100vw, 729px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9dito: CNN Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO sono vinha e pronto. A\u00ed ficava s\u00f3 a saudade do amanh\u00e3, n\u00e9? Saudade do que ainda iria acontecer. Era uma vida muito suave, porque a gente <strong>n\u00e3o tinha compromisso com o rel\u00f3gio. Nosso rel\u00f3gio era o ciclo da natureza<\/strong>\u201d, lembra, cheio de poesia, Daniel Munduruku. Ele \u00e9 autor dos livros \u201c<a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/selecoes\/livro\/Redondeza---Daniel-Munduruku--9786588098028\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Redondeza<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/selecoes\/livro\/A-chave-do-meu-sonho---Daniel-Munduruku--9786599128226\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A chave do meu sonho<\/a>\u201d e \u201d<a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/selecoes\/livro\/Vozes-ancestrais%3A-dez-contos-ind%C3%ADgenas---Daniel-Munduruku--9788596005463\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Vozes ancestrais: dez contos ind\u00edgenas<\/a>\u201d (todos eles enviados em nossos kits!), al\u00e9m de mais de 50 obras onde aborda temas ligados aos povos origin\u00e1rios e \u00e0 cultura ind\u00edgena no Brasil, o que j\u00e1 lhe rendeu pr\u00eamios importantes como o Jabuti.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca descrita acima, o escritor, educador e curador do <a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">clube de assinaturas Quindim<\/a> vivia na aldeia Munduruku, no Par\u00e1, onde passou sua primeira inf\u00e2ncia at\u00e9 ser obrigado, durante o regime militar, a se matricular numa escola urbana. A quebra de rotina foi abrupta: saiu o ciclo do sol, entrou o contar do rel\u00f3gio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFoi uma ruptura muito grande. A maneira como pensamos o mundo numa aldeia \u00e9 completamente diferente de como o vemos numa cidade. E para uma crian\u00e7a que vem da circularidade, da redondeza, foi muito violento\u201d, lembra ele. \u201cTinha muito preconceito. Como \u00e9 que algu\u00e9m, que vive de maneira \u2018quadrada\u2019 conseguiria conviver com algu\u00e9m completamente diferente? Eles impunham para n\u00f3s um pensamento civilizat\u00f3rio. Como se n\u00f3s n\u00e3o soub\u00e9ssemos nada e tiv\u00e9ssemos que aprender tudo. Foi um choque absurdo. Eu tantas vezes desejei fugir da escola\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Foi um tempo de muito bullying e conflitos internos<\/strong>, como ele mesmo pontua. \u201cE com o passar do tempo, a coisa entrava tanto na nossa cabe\u00e7a, que a gente come\u00e7ava a negar quem, de fato, \u00e9ramos\u201d, lembra. Foi ent\u00e3o que, durante as f\u00e9rias, de volta \u00e0 aldeia, Daniel entendeu, enfim, que <strong>precisava se reconectar consigo e com suas ra\u00edzes<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ensinamento veio atrav\u00e9s da figura do seu av\u00f4. Quer dizer, n\u00e3o apenas de seu av\u00f4 de sangue, mas das pessoas mais velhas de seu povo. De novo, o esfor\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o era comunit\u00e1rio. \u201cEles foram muito s\u00e1bios e fizeram o que os av\u00f3s t\u00eam que fazer: oferecer pertencimento, oferecer o que hoje chamamos aqui de esperan\u00e7a. Meu av\u00f4 come\u00e7ou a trabalhar a minha cabe\u00e7a, ele dizia sempre: importante n\u00e3o esquecer quem a gente \u00e9, de onde a gente veio, porque isso vai morar dentro de n\u00f3s para sempre. E quando mora dentro, a gente nunca mais se perde\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, aos 59 anos e consagrado em suas escolhas, Daniel tamb\u00e9m segue espalhando os ensinamentos que coletou pela vida atrav\u00e9s de livros, aulas e entrevistas como esta. <strong>Em tempos de desrespeito t\u00e3o grande com os povos origin\u00e1rios e devasta\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena, \u00e9 preciso parar para ouvi-lo<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como numa grande roda de conversa no fim de um dia, poder\u00edamos fazer o exerc\u00edcio de escutar outras viv\u00eancias, como as de Munduruku, para ampliar nossa vis\u00e3o para maneiras mais coletivas e acolhedoras de criar as crian\u00e7as. Afinal, segundo ele mesmo pontua, \u201co mais importante de tudo \u00e9 que os pais se questionem, porque eles s\u00f3 v\u00e3o ensinar aquilo que sabem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E quanto maior a diversidade neste olhar, maior a chance de conseguir transmitir aos nossos filhos uma maneira de transitar pela vida respeitando os ciclos (internos e externos), em sintonia com a nossa redondeza e menos conduzidos pelo tic-tac do rel\u00f3gio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A seguir, confira uma conversa enriquecedora que tivemos com o autor:<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>Fernanda: Daniel, o que voc\u00ea se lembra da sua inf\u00e2ncia?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Daniel Munduruku<\/strong>: Sou nascido dentro de uma comunidade Munduruku l\u00e1, no meio da Floresta Amaz\u00f4nica. Eu vivi minha primeira inf\u00e2ncia at\u00e9 meus oito anos dentro do contexto de aldeia. A partir disso, por quest\u00f5es pol\u00edticas (e naquele momento, eu n\u00e3o entendia direito), acabei sendo mandado pra cidade pra estudar. A mem\u00f3ria que eu tenho da <strong>minha primeira inf\u00e2ncia \u00e9 de um lugar em total sintonia com a natureza, completamente afastado de pris\u00f5es, quaisquer que sejam elas<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/conteudo.quindim.com.br\/assinar-newsletter-banner-blog\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg\" alt=\"Assine o clube quindim\" class=\"wp-image-38121\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg 810w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-768x179.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>F: <strong>E como era a rela\u00e7\u00e3o com sua fam\u00edlia e com as pessoas ao seu redor?<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: A inf\u00e2ncia ind\u00edgena, a inf\u00e2ncia Munduruku, \u00e9 muito livre. A gente trafegava por todas as casas e \u00e9 comum, desde crian\u00e7a, entender que <strong>a comunidade toda \u00e9 respons\u00e1vel pela nossa educa\u00e7\u00e3o<\/strong>. Ent\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o temos apenas um pai e uma m\u00e3e. N\u00f3s temos v\u00e1rios, todos aqueles que t\u00eam filhos s\u00e3o pais das outras crian\u00e7as tamb\u00e9m. De modo que cresc\u00edamos sem medo, sem travas. \u00c9 um pouco desse pensamento circular. De que <strong>tudo caminha bem, se todos se responsabilizarem pelo andamento das coisas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\"><strong>F: <strong><strong>Ent\u00e3o a presen\u00e7a do entorno era muito forte para o desenvolvimento infantil\u2026<\/strong><\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: \u00c9 uma vis\u00e3o coletiva de responsabilidade. Naquela \u00e9poca, por exemplo, n\u00e3o tinha escola dentro da aldeia, ent\u00e3o a ideia de professor era muito estranha pra n\u00f3s. Porque n\u00e3o tinha ningu\u00e9m que ensinasse por obriga\u00e7\u00e3o ou porque era a sua profiss\u00e3o. <strong>N\u00f3s estamos juntos e todos s\u00e3o respons\u00e1veis por passar o conhecimento que possuem para as outras gera\u00e7\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong>\u00c9 o que podemos chamar de aprendizado a partir da viv\u00eancia, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"411\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy.jpeg\" alt=\"Entrevista com Daniel Munduruku\" class=\"wp-image-48121\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy.jpeg 411w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy-300x300.jpeg 300w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy-150x150.jpeg 150w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy-100x100.jpeg 100w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy-24x24.jpeg 24w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy-48x48.jpeg 48w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/image_processing20211029-13537-4vuf29-Copy-96x96.jpeg 96w\" sizes=\"(max-width: 411px) 100vw, 411px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: Sim e a partir, quase sempre, de uma experi\u00eancia. O saber ind\u00edgena \u00e9 um saber muito pr\u00e1tico. Os ind\u00edgenas s\u00e3o muito pragm\u00e1ticos. <strong>Aprendemos aquilo que \u00e9 necess\u00e1rio saber para continuar a vida como ela nos \u00e9 apresentada<\/strong>. Por isso, a gente faz as atividades junto com os adultos. Onde a m\u00e3e vai, as crian\u00e7as v\u00e3o atr\u00e1s e n\u00e3o importa se \u00e9 a m\u00e3e biol\u00f3gica ou se \u00e9 a tia, uma prima\u2026<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong><strong>E como foi ter que ir para a escola na cidade e ter uma rotina t\u00e3o diferente da que voc\u00ea conhecia?<\/strong><\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: Foi uma ruptura muito grande. Principalmente, mental. <strong>O que prevalecia na cidade era justamente o pensamento quadrado. Ent\u00e3o, a gente tinha que aprender a pensar como eles<\/strong>. E todo o sistema estava voltado pra fazer pensar quadrado e n\u00e3o circular \u2013 o nosso pensar circular passava pela fala do idioma, pelos rituais de canto de dan\u00e7a, pela pintura corporal, pela sacralidade das coisas \u2013 e a cidade dizia que n\u00e3o cabia isso ou, se coubesse, tinha que ser de acordo com aquilo que eles imaginavam que era ser civilizado. Como se n\u00f3s n\u00e3o soub\u00e9ssemos nada e tiv\u00e9ssemos que aprender tudo. Foi um choque absurdo. Eu tantas vezes desejei fugir da escola. S\u00f3 n\u00e3o podia, porque os militares amea\u00e7avam os pais, que, com medo, nos obrigavam a permanecer na cidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong><strong>Havia acolhimento e respeito entre os colegas na escola?<\/strong><\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: N\u00e3o, era bullying direto e por isso mesmo que muita gente desistia. Depois, com o passar do tempo, a coisa entrava tanto na nossa cabe\u00e7a que come\u00e7amos a negar o nosso pertencimento. Fui at\u00e9 percebendo que quem praticava bullying em mim, na verdade, se parecia comigo. T\u00ednhamos vindo do mesmo lugar, talvez n\u00e3o do mesmo territ\u00f3rio, mas do mesmo lugar de pertencimento. Ent\u00e3o, acredito que para <strong>negar eles mesmos, eles tinham que nos ajudar a negar o nosso pertencimento<\/strong>. Era como se fosse um certificado de legitimidade para eles. Ent\u00e3o, era meio maluco. Eu sofri muito e costumo dizer que eu me vingava na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, porque me destacava e o professor voltava o olhar para mim. Hoje eu entendo que essa tamb\u00e9m era a maneira que o sistema usava pra me catequizar, me colonizar, sabe?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/o-que-e-cyberbullying\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O que \u00e9 cyberbullying e como proteger as crian\u00e7as do bullying virtual<\/a>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/O-melhor-clube-de-assinatura-de-livros-infantis-do-Brasil.gif\" alt=\"O melhor clube de assinatura de livros infantis do Brasil\" class=\"wp-image-38002\" title=\"\"><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong><strong><strong>E como voc\u00ea conseguiu preservar a ancestralidade e a import\u00e2ncia da cultura ind\u00edgena na sua forma\u00e7\u00e3o durante a juventude?<\/strong><\/strong><\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: \u00c9 a\u00ed que entra a figura do velho av\u00f4, n\u00e9? Na verdade, dos av\u00f3s em geral. A sociedade branca, para usar um termo bem gen\u00e9rico, desqualifica a sabedoria dos av\u00f3s por n\u00e3o consider\u00e1-los produtivos. J\u00e1 os nossos povos consideram os mais velhos muito importantes. Eles s\u00e3o antenas na comunidade, porque eles v\u00e3o percebendo. Naquele momento, em que o regime militar estava muito agressivo com os ind\u00edgenas, em particular, eles come\u00e7aram a perceber que iriam nos perder. Eles foram muito s\u00e1bios ao oferecer pertencimento, oferecer o que hoje chamamos de esperan\u00e7a. Quando voltei para passar as f\u00e9rias, meu av\u00f4 come\u00e7ou a trabalhar a minha cabe\u00e7a, ele dizia: <strong>importante n\u00e3o esquecer quem a gente \u00e9, de onde a gente veio, porque isso vai morar dentro de n\u00f3s para sempre. E quando mora dentro, a gente nunca mais se perde<\/strong>. E isso foi influenciando nas minhas escolhas. Fui construindo meu modo de atuar no mundo e fui sendo aquilo que o av\u00f4 ensinou que deveria ser: um cara do presente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong><strong><strong><strong>E este valor de pertencimento foi algo que voc\u00ea conseguiu transmitir aos seus filhos?<\/strong><\/strong><\/strong><\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: Eles acabaram aprendendo isso mais naturalmente. Minha esposa n\u00e3o \u00e9 Munduruku e ela tem toda essa quest\u00e3o da urbanidade dentro dela. O nosso encontro foi uma aproxima\u00e7\u00e3o muito legal, porque ela aprendeu comigo e eu aprendi com ela e essa sincronicidade acabou reverberando nas crian\u00e7as. Eu tenho tr\u00eas filhos, o mais velho tem 30 anos. N\u00e3o diria que eles s\u00e3o militantes da causa ind\u00edgena, mas <strong>s\u00e3o bem preparados, s\u00e3o tolerantes, respeitosos, mas tamb\u00e9m s\u00e3o irados contra a injusti\u00e7a, contra a viol\u00eancia, contra esse ecoc\u00eddio dos \u00faltimos anos<\/strong>. Hoje estamos sofrendo pela situa\u00e7\u00e3o dos Yanomamis, tentando fazer alguma coisa para amenizar essa dor.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <strong>No seu livro, \u201cCoisas de \u00cdndio\u201d, voc\u00ea fala: \u201cs\u00f3 respeita o outro, quem conhece o outro\u201d. Sabemos que as viv\u00eancias de inf\u00e2ncia s\u00e3o muito diferentes na cidade, nas aldeias, nas comunidades\u2026 Como \u00e9 poss\u00edvel apresentar para as crian\u00e7as outras formas de viver?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: O grande mestre dos filhos s\u00e3o os pais. A grande pergunta que n\u00f3s temos que fazer \u00e9 \u201cqual \u00e9 o ind\u00edgena que mora dentro da gente?\u201d. Se \u00e9 o ind\u00edgena romantizado que muitos pais aprenderam ou se \u00e9 um ind\u00edgena contempor\u00e2neo, envolvido com a sociedade, com a mudan\u00e7a social. Se for o romantizado, eles n\u00e3o v\u00e3o se importar se a escola resolver pintar as crian\u00e7as no dia 19 de abril. Eles v\u00e3o at\u00e9 cobrar isso! Agora, se a gente questiona, e eu acho importante que os pais sejam questionadores, eles v\u00e3o se perguntar justamente que tipo de pessoa \u00e9 essa que meu filho est\u00e1 imitando no dia 19 de abril? <strong>Isso est\u00e1 ajudando meu filho a ser um ser humano melhor? Ser\u00e1 que sair pintado e com um cocar de pena de galinha n\u00e3o vai s\u00f3 alimentar um preconceito, uma mentalidade menos respeitosa com a diferen\u00e7a? Ent\u00e3o o mais importante de tudo \u00e9 os pais se questionarem, porque eles s\u00f3 v\u00e3o ensinar aquilo que eles sabem<\/strong>. Mas se os pais est\u00e3o conscientes disso, podem perceber que h\u00e1 uma sabedoria ali que pode ser comunicada.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/20210723200545199721a-Copy.jpg\" alt=\"Entrevista com Daniel Munduruku\" class=\"wp-image-48130\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/20210723200545199721a-Copy.jpg 683w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/20210723200545199721a-Copy-150x90.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9dito: LUCIANO AVAN\u00c7O FOTOGRAFIA\/DIVULGA\u00c7\u00c3O<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <strong><strong>E a literatura \u00e9 um bom caminho para ampliar nas crian\u00e7as esses entendimentos de outras realidades e outras formas de aprender?<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: <strong>Temos que dar acesso aos seus filhos a essa cultura e a literatura \u00e9 um jeito muito bom<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa de mostrar as imagens de Yanomamis esqu\u00e1lidos que andam circulando, em que a crian\u00e7a pode criar um impacto t\u00e3o grande que faz mal a ela.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <strong><strong><strong>Mas seria interessante que os pais abordassem a realidade que estamos vendo com os Yanomamis, por exemplo, para criar indiv\u00edduos mais conscientes dos impactos que as nossas a\u00e7\u00f5es podem ter nos povos origin\u00e1rios?<\/strong><\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: Essa n\u00e3o \u00e9 a realidade dos Yanomamis. Essa realidade \u00e9 resultado de pol\u00edticas malfeitas para essas popula\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que isso pode ser discutido na mesa do caf\u00e9. Mas <strong>\u00e9 preciso cuidado para que a crian\u00e7a n\u00e3o fixe aquela imagem fora de um contexto, como sendo o retrato dos Yanomamis<\/strong>. Porque, na verdade, eles s\u00e3o alegres, s\u00e3o um povo absolutamente realizado dentro da sua cultura e do seu modo de ser. Isso \u00e9 o que as crian\u00e7as precisam saber!<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <strong><strong><strong><strong>\u00c9 ir respeitando um caminho de entendimento gradual da crian\u00e7a at\u00e9 chegar na hora de explicar o contexto atual, certo?<\/strong><\/strong><\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: E os livros podem ajudar nisso. N\u00e3o \u00e9 romantizar, \u00e9 trazer tamb\u00e9m o que \u00e9 real pra eles da vida de um povo que pode ser feliz sem precisar ter carro, casa, avi\u00e3o, sabe? Eu acho que esse \u00e9 um caminho. Deixar os livros \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o ou ler com as crian\u00e7as, mostrar ilustra\u00e7\u00f5es, como do nosso \u201c<a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/selecoes\/livro\/Redondeza---Daniel-Munduruku--9786588098028\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Redondeza<\/a>\u201d, um livro t\u00e3o bonito, t\u00e3o rico. <strong>Como educador, minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre mostrar o bonito, mas sem tapar o sol com a peneira<\/strong>: n\u00e3o estou querendo dizer que n\u00e3o tem problema, mas para essa primeira fase da vida da crian\u00e7a, \u00e9 importante mostrar o belo para que ela capte essa imagem primeiro. A\u00ed depois voc\u00ea vai colocando outras imagens que dialoguem, que mostrem a realidade desses povos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/a-cultura-dos-povos-indigenas-ao-alcance-das-criancas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Literatura ind\u00edgena: conhe\u00e7a obras que semeiam a diversidade dos povos ind\u00edgenas \u00e0s crian\u00e7as<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <strong><strong><strong><strong><strong>Liberdade, como a que voc\u00ea descreve em \u201cRedondeza\u201d, como no trecho \u201ctem floresta no quintal de casa\u201d, n\u00e3o \u00e9 o que vive a maioria das crian\u00e7as nas grandes metr\u00f3poles. Como voc\u00ea enxerga esse cerceamento do ir e vir no desenvolvimento infantil?<\/strong><\/strong><\/strong><\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DM<\/strong>: Eu acho horroroso. <strong>Na minha vis\u00e3o de mundo ideal, a escola teria que ser um grande quintal<\/strong>. Pensando que \u00e9 o lugar onde elas passam mais tempo. Ent\u00e3o, elas saem da pris\u00e3o de casa e v\u00e3o para a pris\u00e3o da escola. Isso mant\u00e9m essa vis\u00e3o linear, sabe? <strong>A crian\u00e7a s\u00f3 vai conseguir ver o mundo por essa janela que \u00e9 apresentada para ela e isso empobrece muito<\/strong>, porque ela n\u00e3o vai ter experimentado no corpo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading subtituloh2\">F: <strong><strong><strong><strong><strong><strong>Ela fica menos presente no mundo, talvez?<\/strong><\/strong><\/strong><\/strong><\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DM: Menos presente, exatamente! Pra mim o ideal de escola seria um grande quintal que as crian\u00e7as pudessem pisar no ch\u00e3o, mexer com barro, n\u00e9? Existem escolas onde h\u00e1 essas experi\u00eancias bacanas e \u00e9 a\u00ed que eu acho que as crian\u00e7as crescem mais equilibradas, sabe? Porque elas se sentem parte. <strong>Eu falo que \u00e9 necess\u00e1rio o Brasil construir a pedagogia do pertencimento. Porque isso vai gerar na crian\u00e7a o comprometimento com o lugar em que ela vive.<\/strong> Ela n\u00e3o vai simplesmente olhar pra natureza e dizer \u2018ah, posso derrubar, que t\u00e1 tudo bem\u2019. N\u00e3o, ela se compromete com aquele espa\u00e7o, ela vai perceber que aquela \u00e1rvore \u00e9 mais um ser que t\u00e1 ali e que tem direito a viver tamb\u00e9m. Criamos um pertencimento, o <strong>orgulho de estar naquele lugar<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"1170\" height=\"405\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.png\" alt=\"Assine o Clube de Leitura Quindim\" class=\"wp-image-41460\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim.png 1170w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-768x266.png 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Assine-o-Clube-de-Leitura-Quindim-150x52.png 150w\" sizes=\"(max-width: 1170px) 100vw, 1170px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O autor e educador Daniel Munduruku conta, em conversa exclusiva com o Clube Quindim, sobre sua inf\u00e2ncia e a for\u00e7a transformadora que a educa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria pode ter na vida de uma crian\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"author":57,"featured_media":48122,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_mbp_gutenberg_autopost":false,"footnotes":""},"categories":[746,4],"tags":[],"class_list":["post-48112","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-desenvolvimento-infantil","category-educacao"],"acf":{"posts_relacionados":[34633,4022,40363]},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/57"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48112"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48112\/revisions"}],"acf:post":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40363"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4022"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34633"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48122"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}