{"id":48002,"date":"2023-02-13T11:30:36","date_gmt":"2023-02-13T14:30:36","guid":{"rendered":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/?p=48002"},"modified":"2025-05-21T05:53:17","modified_gmt":"2025-05-21T08:53:17","slug":"jose-saramago-para-os-pequenos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/jose-saramago-para-os-pequenos\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Saramago para os pequenos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nascido no dia 16 de novembro de 1922, numa pequena aldeia chamada Azinhaga (Portugal), Jos\u00e9 Saramago \u00e9<strong> o \u00fanico autor de l\u00edngua portuguesa que j\u00e1 recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura<\/strong> (1998). Ele foi um escritor que abordou em suas obras a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do mundo, sua trajet\u00f3ria de vida, suas ideias e seus sentimentos. Em v\u00e1rias entrevistas e reportagens dedicadas a Jos\u00e9 Saramago se encontram coment\u00e1rios sobre o peso da inf\u00e2ncia em seu <a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/o-imaginario-dos-contos-de-fadas-fabulas-teatro-e-muito-mais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">imagin\u00e1rio<\/a>, assim como sua forma\u00e7\u00e3o individual e autodidata. \u00c9 poss\u00edvel perceber alguns tra\u00e7os definidores de sua personalidade: <strong>melanc\u00f3lico e reservado, solid\u00e1rio e relativista, orgulhoso e ir\u00f4nico<\/strong>. Sempre propenso \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o, ele concebia a felicidade como harmonia e <strong>achava a bondade uma das coisas mais importantes no ser humano<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"387\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio3-Copy.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-48014\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio3-Copy.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio3-Copy-150x102.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jos\u00e9 Saramago recebendo o Pr\u00eamio Nobel de Literatura, em 1998, entregue por Carlos XVI&nbsp; Gustavo da Su\u00e9cia. Cr\u00e9dito: Blog do Tempo da Outra Senhora<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">Azinhaga: fonte da imagina\u00e7\u00e3o<\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Saramago viveu na aldeia por quase dois anos, at\u00e9 seus pais se mudarem para Lisboa. Mas at\u00e9 a juventude, o menino Z\u00e9 voltava todo ano, durante as f\u00e9rias, ao vilarejo de nascimento, onde viviam seus av\u00f3s maternos, Josefa e Jer\u00f3nimo \u2014 duas refer\u00eancias fundamentais na vida do escritor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na aldeia, onde est\u00e1 a melhor mem\u00f3ria, Z\u00e9 colhia espigas nos milharais, furtava saborosas melancias, trepava nas figueiras mais doces que existiam no mundo, ajudava o av\u00f4 a dar comida para os porcos e cultivar favas na horta. Ali, <strong>o garoto tinha contato com a natureza, corria com os primos, com lama nos p\u00e9s descal\u00e7os<\/strong>. Andava sem rumo, desde manh\u00e3zinha pelas lagoas, pescando ou remando a bordo de uma canoinha. Eis um trecho da entrevista que deu \u00e0 revista <em>Elle<\/em>, de Madri, em 2007:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>H\u00e1 imagens que est\u00e3o a\u00ed. E a imagem das coisas tem muito a ver com a pessoa que somos, com o olhar que temos, com a sensibilidade que transportamos dentro de n\u00f3s. Quando me encontrei com a natureza na minha aldeia de Azinhaga, eu era um menino. Era um menino simples e pobre, nem mesmo precoce. Sens\u00edvel e s\u00e9rio, isso sim. E um menino s\u00e9rio era um bicho meio esquisito. Estava cheio de melancolia, \u00e0s vezes de tristeza. Gostava da solid\u00e3o. Os longos percursos pelos olivais, ao luar. Essa imagem da natureza que sofreu a interven\u00e7\u00e3o do cultivo do homem era minha imagem do mundo. Quando fui para Lisboa, com dois anos, passava os dias sonhando com o momento em que poderia voltar \u00e0 aldeia, que era onde eu descobria as coisas pequenas. Trepar numa \u00e1rvore pela primeira vez! Creio que a sensa\u00e7\u00e3o foi id\u00eantica \u00e0 do senhor Hillary quando chegou ao Everest e ficou ali, no teto do mundo. Eu me agarrei com for\u00e7a ao tronco, com medo porque a \u00e1rvore se mexia, mas o mundo era aquele e n\u00e3o outra coisa<\/em>.<\/p>\n<cite>\u201cEn el coraz\u00f3n de Saramago\u201d, <em>Elle<\/em>, Madri, n. 246, mar\u00e7o de 2007 [Entrevista a Gema Veiga].<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algo muito curioso na hist\u00f3ria desse autor \u00e9 que o sobrenome \u201cSaramago\u201d n\u00e3o foi escolhido por seu pai. Por conta e risco, o empregado do registro civil o adicionou ao sobrenome Sousa e o menino se tornou Jos\u00e9 de Sousa Saramago. Somente sete anos depois do nascimento, o pai do garoto descobriu o engano, quando teve que apresentar a certid\u00e3o de nascimento para matricul\u00e1-lo na escola prim\u00e1ria. \u201cO mais grave, \u00e9 que ele n\u00e3o gostava nem um pouco dessa alcunha\u201d, disse Jos\u00e9 Saramago ao jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, em 1996, quando contou a anedota.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong>O leitor autodidata<\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma coisa que muitos n\u00e3o sabem \u00e9 que Jos\u00e9 Saramago <strong>se tornou um escritor de sucesso a partir de 1980, com 58 anos<\/strong>. Isso se explica por uma vida de trabalho determinada pela origem humilde e forma\u00e7\u00e3o autodidata. Quando terminou a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, Saramago fez apenas dois anos de liceu (correspondente ao nosso Ensino M\u00e9dio), pois a fam\u00edlia n\u00e3o podia sustent\u00e1-lo at\u00e9 o final do curso. Depois disso, ele esteve numa escola industrial, onde se formou em serralheria mec\u00e2nica. Aos dezessete, foi trabalhar numa oficina de autom\u00f3veis durante dois anos: desmontava e consertava motores, regulava v\u00e1lvulas, condicionava etc. O mais estranho nesse curso industrial \u2014 segundo o pr\u00f3prio Saramago \u2014 \u00e9 que <strong>havia uma disciplina de literatura: nesse momento, o mundo se abriu para o escritor<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio4-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-48022\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio4-1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio4-1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era um leitor apaixonado. N\u00e3o havia livros na casa da fam\u00edlia, por isso, costumava ler em bibliotecas p\u00fablicas, principalmente de noite. Ainda com dezesseis anos, leu uma tradu\u00e7\u00e3o de <em>O para\u00edso perdido<\/em>, de John Milton. N\u00e3o havia organiza\u00e7\u00e3o em suas leituras, mas, com o tempo, Saramago conseguiu obter uma esp\u00e9cie de vis\u00e3o coerente da literatura, sobretudo da literatura francesa, da qual foi tradutor.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Come\u00e7ar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e dar de repente com todas as \u00e1rvores, todas as flores, todos os p\u00e1ssaros. Quando fazes isso, o que te deslumbra \u00e9 o conjunto. N\u00e3o dizes: gosto mais desta \u00e1rvore que das outras. N\u00e3o, cada livro em que eu entrava, eu considerava algo \u00fanico.<\/em><\/p>\n<cite>\u201cJos\u00e9 Saramago: \u2018Escribir es un trabajo: El escritor no es un ser extraordinario que est\u00e1 esperando a las hadas\u2019\u201d, <em>El Pa\u00eds<\/em> (Suplemento El Pa\u00eds Semanal), Madri, 29 de novembro de 1998 [Entrevista a Sol Alameda].<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong>O escritor<\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois da experi\u00eancia como mec\u00e2nico, Jos\u00e9 Saramago trabalhou em meios burocr\u00e1ticos. Em 1959, assumiu o posto de editor liter\u00e1rio na Editorial Est\u00fadio Cor, onde ficou por doze anos, <strong>dedicando-se exclusivamente \u00e0 literatura<\/strong>. Nesse per\u00edodo, publicou dois livros de poemas: <em>Os poemas poss\u00edveis <\/em>(1966) e <em>Provavelmente Alegria <\/em>(1970). Entre 1972 e 1975, o escritor passou pelos jornais <em>A Capital <\/em>e <em>Jornal de Fund\u00e3o<\/em>. A mudan\u00e7a em sua carreira come\u00e7a a acontecer em 1975, quando foi nomeado diretor-adjunto do <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias. <\/em>Nesse mesmo ano, foi demitido e decidiu mudar o curso de sua vida, <strong>tornando-se somente escritor de literatura. Sua \u00fanica fonte de renda fixa eram as tradu\u00e7\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dos 55 anos, a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Jos\u00e9 Saramago cresceu muito em rela\u00e7\u00e3o ao que ele havia escrito at\u00e9 ent\u00e3o. Mas foi em 1980, com a publica\u00e7\u00e3o do romance <em>Levantado do ch\u00e3o,<\/em> que Saramago deu a maior guinada de sua vida liter\u00e1ria. A cr\u00edtica especializada afirma que esse livro deu in\u00edcio ao <strong>estilo saramaguiano<\/strong> \u2014 longos par\u00e1grafos, pontua\u00e7\u00e3o n\u00e3o convencional na constru\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos, ao eliminar os travess\u00f5es, dando maior din\u00e2mica ao texto.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"644\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-48029\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio5.jpg 644w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio5-150x95.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 644px) 100vw, 644px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jos\u00e9 Saramago, anos 70 Cr\u00e9dito: Arquivo Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago &#8211; FJS\/Direitos Reservados<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram mais de vinte romances ao longo de sua carreira, sendo <em>Ensaio sobre a cegueira<\/em> (1994) um dos mais lidos entre os leitores contempor\u00e2neos. Mas, para o p\u00fablico infantil, o material mais abundante est\u00e1 nas cr\u00f4nicas \u2014 fonte de todo o projeto ficcional de Jos\u00e9 Saramago e resultado dos \u201cexerc\u00edcios de imagina\u00e7\u00e3o\u201d que ele publicou nos jornais <em>A Capital <\/em>e <em>Jornal de Fund\u00e3o<\/em> entre 1969 e 1973. Esses textos foram reunidos nos livros <em>Deste mundo e do outro<\/em> (1971) e <em>A bagagem do viajante <\/em>(1973).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando andava a escrever as cr\u00f4nicas que depois reuni no volume <\/em>A bagagem do viajante <em>e tamb\u00e9m naquele a que dei o t\u00edtulo de <\/em>Deste mundo e do outro<em>, n\u00e3o me passava pela cabe\u00e7a que um dia eu viria a escrever romances. \u00c9 certo, por\u00e9m, que estes n\u00e3o ser\u00e3o inteiramente compreendidos sem a leitura das cr\u00f4nicas. Por outras palavras: nas cr\u00f4nicas encontra-se o embri\u00e3o de quase tudo o que depois cresceu e prosperou\u2026 Vejo agora que, de uma maneira n\u00e3o consciente, j\u00e1 estava a apontar a mim mesmo o sentido do que iria ser o meu trabalho a partir do final dos anos 70.<\/em><\/p>\n<cite>\u201cA semente da fic\u00e7\u00e3o nas cr\u00f4nicas de Saramago\u201d, <em>O Globo<\/em>, Rio Janeiro, 28 de setembro de 1996 [Entrevista a Madalena Vaz Pinto].<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong>Leitura para os pequenos<\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de indicar as dez obras selecionadas para o p\u00fablico infantil \u2014 e tamb\u00e9m para o juvenil \u2014, \u00e9 preciso saber que <strong>Jos\u00e9 Saramago estava atento ao olhar genu\u00edno da crian\u00e7a<\/strong>, valorizado no livro <em>As pequenas mem\u00f3rias<\/em> (2006), no qual seu objetivo era \u201creconstituir\u201d o menino que foi.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Essencialmente, ao meu ver, todas as adolesc\u00eancias se parecem. S\u00f3 as inf\u00e2ncias s\u00e3o \u00fanicas. De qualquer maneira, o meu livro pode ser entendido como o pagamento de uma d\u00edvida. Eu creio que tudo o que sou o devo \u00e0quele menino. Foi ele o meu arquiteto.<\/em><\/p>\n<cite>\u201cLe piccole memorie\u201d, La Repubblica, Roma, 23 de junho de 2007 [Entrevista a Leonetta Bentivoglio].<\/cite><\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-48012\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio2.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio2-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, <strong>Jos\u00e9 Saramago n\u00e3o tinha uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com as crian\u00e7as, mas detestava a hiperprote\u00e7\u00e3o a que muitas eram expostas, pois considerava que, sozinhas, muitas vezes elas conseguiam chegar mais longe do que quando excessivamente conduzidas por adultos que as n\u00e3o deixavam em paz<\/strong>. O que Saramago admirava na inf\u00e2ncia e na primeira juventude era a curiosidade, o impulso para fazer perguntas, sem a pretens\u00e3o de querer saber tudo, porque <strong>o mundo, \u201ctodo ele, \u00e9 uma interroga\u00e7\u00e3o\u201d <\/strong>\u2014 como ele escreveu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A seguir, o <a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">clube de assinatura Quindim<\/a> selecionou quatro contos saramaguianos j\u00e1 publicados para crian\u00e7as, tr\u00eas cr\u00f4nicas com grande potencial para esse p\u00fablico, e que ainda n\u00e3o foram exploradas por nenhuma editora, e tr\u00eas contos que certamente agradar\u00e3o aos adolescentes que curtem mist\u00e9rio e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O principal objetivo, al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o do leitor \u201catento \u00e0s coisas do mundo\u201d \u2014 como queria Saramago \u2014, \u00e9 apresentar a eles um dos mais importantes escritores da l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><strong>10 obras de Jos\u00e9 Saramago para crian\u00e7as pequenas e grandes<\/strong><\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">1 &#8211; A maior flor do mundo<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado pela primeira vez em 2001, \u00e9 o \u00fanico conto em que Jos\u00e9 Saramago se dirige explicitamente \u00e0s crian\u00e7as. \u00c9 a hist\u00f3ria de um menino que sai de sua pequena aldeia para fazer algo maior do que o seu tamanho. <strong>A principal mensagem do livro diz respeito \u00e0 generosidade e solidariedade<\/strong> \u2014 projetos maiores que uma pessoa. Aqui no Brasil, o livro foi publicado pela Companhia das Letras, com ilustra\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Caetano.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>As hist\u00f3rias para crian\u00e7as devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crian\u00e7as, sendo pequenas, sabem poucas palavras e n\u00e3o gostam de us\u00e1-las complicadas. Quem me dera saber escrever essas hist\u00f3rias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena. Al\u00e9m de ser preciso escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paci\u00eancia muito grande \u2014 e a mim falta-me pelo menos a paci\u00eancia, do que pe\u00e7o desculpa. <\/em><\/p>\n<cite>(Saramago, 2001).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conto deu origem a um curta-metragem espanhol, em 2006, realizado por Juan Pablo Etcheberry, narrado pelo pr\u00f3prio Jos\u00e9 Saramago e vencedor do Pr\u00eamio Goya, em 2007.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"http:\/\/quindim.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/O-melhor-clube-de-assinatura-de-livros-infantis-do-Brasil.gif\" alt=\"O melhor clube de assinatura de livros infantis do Brasil\" class=\"wp-image-38002\" title=\"\"><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">2 &#8211; O lagarto<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 ouvi por a\u00ed. \u00c9 a cr\u00f4nica integral, retirada do livro <em>A bagagem do viajante<\/em>, publicado pela primeira vez no Brasil em 1996, com nova edi\u00e7\u00e3o para este ano. Em forma de estrofes e com xilogravuras de Jos\u00e9 Francisco Borges, apareceu por aqui em 2016. Narra, de forma extraordin\u00e1ria, a misteriosa apari\u00e7\u00e3o de um lagarto no centro de uma cidade movimentada. <strong>Possibilita muitas interpreta\u00e7\u00f5es por causa da presen\u00e7a aleg\u00f3rica<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>De hoje n\u00e3o passa. Ando h\u00e1 muito tempo para contar uma hist\u00f3ria de fadas, mas isto de fadas foi ch\u00e3o que deu uvas, j\u00e1 ningu\u00e9m acredita, e por mais que venha jurar e trejurar, o mais certo \u00e9 rirem-se de mim. Afinal de contas, ser\u00e1 minha simples palavra contra a tro\u00e7a de um milh\u00e3o de habitantes. Pois v\u00e1 o barco \u00e0 \u00e1gua, que o remo logo se arranjar\u00e1. <\/em>&nbsp;<\/p>\n<cite>(Saramago, 2016).<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">3 &#8211; O sil\u00eancio da \u00e1gua<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse texto surgiu no livro <em>As pequenas mem\u00f3rias, <\/em>em 2006. A partir de um projeto em parceria com a <strong>Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago<\/strong>, foi publicado como conto em 2021. A edi\u00e7\u00e3o brasileira apresenta ilustra\u00e7\u00f5es da espanhola Yolanda Mosquera. Do ponto de vista de um menino, o leitor acompanhar\u00e1 o relato de seu encontro com um peixe. <strong>Um acontecimento que, \u00e0 primeira vista, parece banal, adquire um vi\u00e9s fant\u00e1stico sob os olhos da inf\u00e2ncia<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tinha eu ido com meus petrechos a pescar na foz do Almonda, cham\u00e1vamos-lhe a \u201cboca do rio\u201d, onde por uma estreita l\u00edngua de areia se passava nessa \u00e9poca ao Tejo, e ali estava, j\u00e1 o dia fazia as suas despedidas, sem que a boia de corti\u00e7a tivesse dado sinal de qualquer movimento subaqu\u00e1tico, quando, de repente, sem ter passado antes por aquele tremor excitante que denuncia os tenteios do peixe mordiscando o isco, mergulhou de uma s\u00f3 vez nas profundas, quase me arrancando a cana das m\u00e3os<\/em>. <\/p>\n<cite>(Saramago, 2022, p. 13)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-48031\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio6.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio6-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">4 &#8211; Uma luz inesperada<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado como cr\u00f4nica pela primeira vez no livro <em>A bagagem do viajante<\/em>, com o t\u00edtulo \u201cE tamb\u00e9m aqueles dias\u201d, em 2021,&nbsp; reaparece como conto. Nele tamb\u00e9m <strong>acompanhamos o ponto de vista de um menino j\u00e1 com seus doze anos, ao contar sobre uma ida que fez \u00e0 feira de Santar\u00e9m com o tio. O leitor \u00e9 transportado a um mundo deslumbrante, existente apenas quando se \u00e9 crian\u00e7a<\/strong>. As ilustra\u00e7\u00f5es s\u00e3o do mexicano Armando Fonseca.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E houve tamb\u00e9m aqueles dois gloriosos dias em que fui ajuda de pastor, e a noite de permeio, t\u00e3o gloriosa como os dias. Perdoe-se a quem nasceu no campo, e dele foi levado cedo, esta insistente chamada que vem de longe e traz no seu silencioso apelo uma aura, uma coroa de sons, de luzes, de cheiros miraculosamente conservados intactos. O mito do para\u00edso perdido \u00e9 o da inf\u00e2ncia \u2014 n\u00e3o h\u00e1 outro. O mais s\u00e3o realidades a conquistar, sonhadas no presente, guardadas no futuro inalcan\u00e7\u00e1vel. E sem elas n\u00e3o sei o que far\u00edamos hoje. Eu n\u00e3o o sei.<\/em> <\/p>\n<cite>(Saramago, 2022, p. 6)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">5 &#8211; A menina e o baloi\u00e7o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta cr\u00f4nica e as pr\u00f3ximas duas que vou indicar (6 e 7), est\u00e3o no livro <em>Deste mundo e do outro<\/em> (1997, Caminho), com uma nova edi\u00e7\u00e3o pela <strong>Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago<\/strong>, mas at\u00e9 o momento, sem publica\u00e7\u00e3o no Brasil \u2014 algo muito curioso, pois o volume est\u00e1 repleto de textos potencialmente explor\u00e1veis para o p\u00fablico infantil. H\u00e1 textos que exploram os g\u00eaneros liter\u00e1rios do universo do maravilhoso \u2014 contos de fadas, f\u00e1bulas \u2014, passando pelo fant\u00e1stico at\u00e9 a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. <em>A menina e o baloi\u00e7o<\/em>, por exemplo, <strong>\u00e9 um texto que est\u00e1 no espa\u00e7o do maravilhoso, pois nos transporta para um conto de fadas. Entretanto, o narrador moderniza o relato ao trat\u00e1-lo como um simples fato<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando chegou ao ch\u00e3o, ficou enrolada como um pequeno animal ou a casca de um fruto. O nevoeiro come\u00e7ou a dissipar-se devagar, rolando em volutas desmanchadas. Por entre elas, rompiam raios de sol. E de repente desapareceu. A menina olhou para cima. O baloi\u00e7o l\u00e1 estava, muito mais alto que antes, com a sua t\u00e1bua de oiro e as cordas floridas. Mas n\u00e3o havia degraus. <\/em><\/p>\n<cite>(Saramago, 1997, p. 103)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">6 &#8211; Alice e as maravilhas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse texto faz clara refer\u00eancia ao livro <em>Alice no Pa\u00eds das Maravilhas<\/em>, de Lewis Carroll, mas <strong>pratica uma subvers\u00e3o para proporcionar ao leitor uma alegoria da passagem do tempo, tema recorrente nessa obra<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A hist\u00f3ria verdadeira n\u00e3o \u00e9 bem como Lewis Carroll a contou. Nem Alice se chamava Alice. N\u00e3o h\u00e1 sequer a certeza de o caso se ter passado com uma rapariga. Ali\u00e1s, nem eu sei se a minha vers\u00e3o \u00e9 toda ela exacta. \u00c9 bom desconfiar do que se v\u00ea ou julga ver.<\/em> <\/p>\n<cite>(Saramago, 1997, p. 105)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">7 &#8211; Um azul para Marte<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa cr\u00f4nica relata a ida do narrador ao planeta vermelho e serve como compara\u00e7\u00e3o com a Terra \u2014 o modo de vida e como se comportam os seres humanos em rela\u00e7\u00e3o aos marcianos. Assim como os autores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, Saramago apresentar\u00e1 ao leitor um ambiente estranho e imagin\u00e1rio a ser transformado num campo de novas ideias. A partir dessa narrativa, <strong>o escritor retrata tempos e espa\u00e7os diferentes dos nossos, mas que podem se fazer presentes, pois partem de percep\u00e7\u00f5es importantes para as discuss\u00f5es sobre a sociedade contempor\u00e2nea<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A noite passada fiz uma viagem a Marte. Passei l\u00e1 dez anos (se a noite dura nos p\u00f3los seis meses, n\u00e3o sei por que n\u00e3o h\u00e3o-de caber dez anos numa noite marciana) e tomei muitas notas a respeito da vida que l\u00e1 se faz. Comprometi-me a n\u00e3o divulgar os segredos dos marcianos, mas vou faltar \u00e0 minha palavra. Sou homem e desejo contribuir, na medida das minhas pequenas for\u00e7as, para o progresso da humanidade a que me orgulho de pertencer. \u00c9 muito importante este ponto. E espero, se algum dia me vierem pedir contas dos meus actos, isto \u00e9, do perj\u00fario cometido, que os n\u00e3o sei quanto bilh\u00f5es de homens e mulheres que h\u00e1 na Terra tomem todos a minha defesa.<\/em> <\/p>\n<cite>(Saramago, 1997, p. 195)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">8 &#8211; Embargo<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este e os dois \u00faltimos contos que menciono nessa sele\u00e7\u00e3o (9 e 10), est\u00e3o no livro <em>Objecto quase<\/em> (1978), com publica\u00e7\u00e3o no Brasil desde 1994. De acordo com Jos\u00e9 Saramago, os textos foram escritos \u201cao sabor das circunst\u00e2ncias\u201d, com uma proposta claramente contra a aliena\u00e7\u00e3o. Em seu pensamento, <strong>aliena\u00e7\u00e3o e morte s\u00e3o insepar\u00e1veis<\/strong>. Foi isso que procurou expressar nesse livro de contos. Com temas que dialogam com narrativas kafkianas, com as distopias e com os mitos, <strong>os contos a seguir s\u00e3o ideais para o p\u00fablico jovem<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Embargo<\/em> se desenvolve no contexto referente \u00e0 crise do petr\u00f3leo ocorrida em 1973. A partir de uma atmosfera incerta, o leitor acompanha o protagonista em sua angustiante corrida para abastecer o carro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Acordou com a sensa\u00e7\u00e3o aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidra\u00e7a, o olho esquadrado da madrugada que entrava, l\u00edvido, cortado em cruz e escorrente de transpira\u00e7\u00e3o condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se n\u00e3o conseguisse voltar a dormir j\u00e1, acabaria por ter o dia estragado.<\/em> <\/p>\n<cite>(Saramago, 1994, p. 33)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/conteudo.quindim.com.br\/assinar-newsletter-banner-blog\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"189\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg\" alt=\"Assine o clube quindim\" class=\"wp-image-38121\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim.jpg 810w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-768x179.jpg 768w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Assine-o-clube-quindim-150x35.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">9 &#8211; Centauro<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse conto, o leitor se depara com um relato que se aproxima da poesia e explora a mitologia cl\u00e1ssica, come\u00e7ando pelo t\u00edtulo. Acompanhando a trajet\u00f3ria de um centauro, aqui <strong>a literatura \u00e9 valorizada como um dos principais territ\u00f3rios da imagina\u00e7\u00e3o, onde os sonhos s\u00e3o essenciais para a sobreviv\u00eancia do humano<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Viu o cavaleiro ser atirado ao ar e depois um outro homem baixo e gordo acorrer, aos gritos, montado num burro. Ouviu que falavam numa l\u00edngua que n\u00e3o entendia, e depois viu-os afastarem-se, o homem magro maltratado, e o homem gordo carpindo-se, o cavalo magro coxeando, e o burro indiferente. Pensou sair-lhes ao caminho para os ajudar, mas, tornando a olhar os moinhos, foi para eles a galope, e, postado diante do primeiro, decidiu vingar o homem que fora atirado do cavalo abaixo. Na sua l\u00edngua natal, gritou: \u00abMesmo que tivesses mais bra\u00e7os do que o gigante Briareu, a mim haverias de o pagar.\u00bb Todos os moinhos ficaram com as asas despeda\u00e7adas e o centauro foi perseguido at\u00e9 \u00e0 fronteira de um outro pa\u00eds. Atravessou campos desolados e chegou ao mar. Depois voltou para tr\u00e1s.<\/em> <\/p>\n<cite>(Saramago, 1994, p. 113-114)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"subtituloh3 has-text-color wp-block-heading\" style=\"color:#404040\">10 &#8211; Coisas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Coisas<\/em> \u00e9 um conto pol\u00edtico sobre o que acontece quando \u201cas coisas somos n\u00f3s\u201d. Aqui, o leitor acompanha o protagonista num ambiente onde se destaca o caos da tecnologia e <strong>os indiv\u00edduos s\u00e3o identificados por letras, seguindo uma hierarquiza\u00e7\u00e3o que os massifica numa atmosfera de absurdos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O utente tirou a carteira do bolso e p\u00f4s o dinheiro necess\u00e1rio em cima do balc\u00e3o. As notas eram rect\u00e2ngulos de material fino e flex\u00edvel, de cor \u00fanica mas com tonalidades diferentes, como diferentes eram tamb\u00e9m os pequenos rostos emblem\u00e1ticos que as distinguiam. O funcion\u00e1rio contou-as. Quando as reunia para guard\u00e1-las no cofre, uma delas enrolou-se subitamente e apertou-lhe um dedo. O cliente disse:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Sucedeu-me o mesmo hoje. A casa da moeda deveria ser mais rigorosa na fabrica\u00e7\u00e3o das notas.<\/em><\/p>\n<cite>(Saramago, 1994, p. 71)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">Reconhecimento de sua arte<\/mark><\/mark><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"410\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-48010\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio1.jpg 570w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Saramago-para-os-pequenos-meio1-150x108.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 8 de outubro de 1998, Jos\u00e9 Saramago se tornou o primeiro escritor em l\u00edngua portuguesa a vencer o Nobel de Literatura. <strong>As singularidades de seu estilo, desenvolvido principalmente nos romances, exigem um leitor ativo, com quem ele gostava de imaginar ter uma rela\u00e7\u00e3o especial, exigindo que esse leitor estivesse atento \u00e0s coisas do mundo<\/strong>. Saramago acreditava que \u201co prod\u00edgio da literatura \u00e9 a capacidade de chegar mais fundo na consci\u00eancia dos leitores, mesmo se falando de uma outra coisa\u201d. O que faz dele um grande autor \u00e9 a capacidade de traduzir para seus leitores a realidade \u2014 por meio de alegorias e par\u00e1bolas que se sustentam com imagina\u00e7\u00e3o, compaix\u00e3o e muita ironia. \u201cSe eu morrer antes de ti, pe\u00e7o-te que me vejas\u201d, pediu Baltazar a Blimunda, personagens imortalizados na obra <em>Memorial do convento <\/em>(1982)<em>, <\/em>que o consagrou como escritor. A Pilar, seu grande amor, Jos\u00e9 Saramago pediu: \u201ccontinue-me\u201d. Para continuar Saramago, <strong>compartilhemos com as crian\u00e7as a sua obra<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">R<\/mark><\/mark>efer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SARAMAGO, Jos\u00e9. <em>Objecto Quase<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. <em>A bagagem do viajante.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. <em>Deste mundo e do outro. <\/em>Lisboa: Caminho, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>______. As palavras de Saramago: cat\u00e1logo de reflex\u00f5es pessoais, liter\u00e1rias e pol\u00edticas. <\/em>Fernando G\u00f3mez Aguilera (sel. e org.). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. <em>O lagarto. <\/em>Xilogravura de J. Borges. \u2014 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. <em>A maior flor do mundo. <\/em>Ilustra\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Caetano. \u2014 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. <em>O sil\u00eancio da \u00e1gua. <\/em>Ilustra\u00e7\u00f5es de Yolanda Mosquera. 2. ed. \u2014 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">______. <em>Uma luz inesperada. <\/em>Ilustra\u00e7\u00f5es de Armando Fonseca. \u2014 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro e \u00fanico autor de l\u00edngua portuguesa ganhador do Pr\u00eamio Nobel, Jos\u00e9 Saramago \u00e9, sem d\u00favida, um dos autores contempor\u00e2neos de maior relev\u00e2ncia. 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