{"id":3695,"date":"2019-10-15T09:53:53","date_gmt":"2019-10-15T12:53:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.clubequindim.com.br\/?p=3695"},"modified":"2021-12-28T15:58:48","modified_gmt":"2021-12-28T18:58:48","slug":"dia-dos-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/dia-dos-professores\/","title":{"rendered":"Curadores do Quindim contam hist\u00f3rias memor\u00e1veis sobre seus professores"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Professores t\u00eam o poder de transformar realidades e trajet\u00f3rias. S\u00e3o figuras de autoridade e de afeto, de acolhimento e de seguran\u00e7a; profissionais cuja forma\u00e7\u00e3o \u00e9 cont\u00ednua, \u00e0 qual se integra cada experi\u00eancia, cada aluno. O of\u00edcio do professor foi e \u00e9 essencial para todos n\u00f3s, para a manuten\u00e7\u00e3o da sociedade democr\u00e1tica e a democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento. Os professores devem ser celebrados como aqueles capazes de mudar o contexto de um pa\u00eds. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste Dia dos Professores, os curadores do <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Clube Quindim (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/www.clubequindim.com.br\/\" target=\"_blank\">Clube Quindim<\/a> compartilham conosco mem\u00f3rias sobre os mestres que tanto marcaram suas hist\u00f3rias. Veja a seguir:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Volta e meia, em alguma entrevista, me perguntam quais foram minhas influ\u00eancias marcantes. Acho que querem se referir a algum escritor que eu tenha admirado muito e tentado copiar ou algo assim, n\u00e3o sei. Mas tenho certeza de que as minhas maiores influ\u00eancias foram alguns professores. J\u00e1 escrevi sobre isso uma vez para um livro que est\u00e1 esgotado. Fica dif\u00edcil limitar e escolher apenas um mestre, porque cada um me deixou marcas profundas de um modo diferente dos outros.<\/p><p>Mas, para homenagear no Dia dos Professores, eu escolho algu\u00e9m que me marcou em sala de aula, quando eu tinha 11 e 12 anos de idade. Minha professora de portugu\u00eas no Col\u00e9gio Mello e Souza: La\u00eds M\u00edriam Pereira Lira.<\/p><p>Era muito jovem e muito exigente. T\u00ednhamos tr\u00eas aulas por semana com ela \u2013 e, em cada uma, aprend\u00edamos um pouquinho mais de an\u00e1lise sint\u00e1tica. Depois, ela passava um dever de casa com algum per\u00edodo para analisar, obrigatoriamente incluindo o novo conceito que tinha ensinado. Na aula seguinte, come\u00e7ava mandando uma aluna ao quadro corrigir o dever, enquanto ia de carteira em carteira conferindo o trabalho de cada uma e rubricando. Quem n\u00e3o fizesse, perdia meio ponto da nota no fim do m\u00eas. Simples assim. Para n\u00e3o perder ponto, todo mundo fazia. Cada dia um per\u00edodo um pouquinho mais complicado. No final, est\u00e1vamos destrinchando os trechos mais sutis dos mais complexos escritores da l\u00edngua \u2013 e percebendo os delicados matizes do idioma, sua estrutura t\u00e3o rica e male\u00e1vel, o sentido da gram\u00e1tica, a l\u00f3gica subjacente \u00e0 concord\u00e2ncia ou a reg\u00eancia&#8230; Pelo m\u00e9todo mais singelo: por termos gradativamente adquirido um entendimento interno de como a linguagem funciona. E \u00edamos, ao mesmo tempo, percebendo as belezas do estilo de cada escritor, admirando a maneira pela qual ele moldava aquele repert\u00f3rio comum a todos de modo a que expressasse sua sensibilidade&#8230;<\/p><p>Isso deixou uma presen\u00e7a duradoura em minha vida. Nunca tive qualquer inibi\u00e7\u00e3o para escrever, sei que as palavras me obedecem. Pude ser professora de portugu\u00eas, jornalista e escritora, gra\u00e7as \u00e0s marcas deixadas por Dona La\u00eds. Uns trinta anos depois, quando eu j\u00e1 era uma autora premiada e dona de livraria, uma vez dei uma entrevista \u00e0 televis\u00e3o e disse isso, falando de minha eterna gratid\u00e3o a ela, quando me perguntaram por minhas influ\u00eancias.<\/p><p>Da\u00ed a poucos dias, ela entrou na livraria e a reconheci imediatamente. Vinha me agradecer pela refer\u00eancia. Foi uma alegria nos reencontrarmos. Sa\u00edmos para almo\u00e7ar. Depois organizei um grupo de ex-alunas saudosas, para visit\u00e1-la. Nessa ocasi\u00e3o, ela estava aposentada e fazia parte de um clube do livro, que se reunia para discutir literatura. Continuava brilhante e antenad\u00edssima.<\/p><p>Passei a encontr\u00e1-la com regularidade at\u00e9 que ela morreu, h\u00e1 alguns anos. Convers\u00e1vamos de tudo \u2013 da vida, de arte, de pol\u00edtica, de literatura. Acho que nesse momento, faz\u00edamos bem uma \u00e0 outra. Tenho muita saudade dela.&#8221;<\/p><cite> <p><a aria-label=\"Ana Maria Machado (opens in a new tab)\" rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/blog.clubequindim.com.br\/ana-maria-machado-curadora\/\" target=\"_blank\">Ana Maria Machado<\/a><\/p><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image size-full wp-image-3696\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" width=\"589\" height=\"389\" src=\"https:\/\/blog.clubequindim.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Colegio_Mello_Souza.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3696\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Colegio_Mello_Souza.jpeg 589w, https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Colegio_Mello_Souza-300x198.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 589px) 100vw, 589px\" \/><figcaption>Ana Maria Machado \u00e9 a d\u00e9cima menina, da esquerda para a direita, na fileira do meio. A professora La\u00eds est\u00e1 ao centro.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Foram muitos os professores que contribu\u00edram para minha forma\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos muros da escola. Eu escolhi ser professor e atuar na educa\u00e7\u00e3o por todos os referenciais que encontrei. Tenho tanto orgulho do que fa\u00e7o e do que sou que falar de mim \u00e9 rapidamente falar de todos os outros que encontrei e at\u00e9 hoje que encontro.<\/p><p>Mas quero dedicar a um professor que n\u00e3o estava na escola. Conheci Charles Raszl em um curso de percuss\u00e3o corporal e foi ele que me convidou e me fez passear pelo mundo e as linguagens da arte. Tive aula de canto, de percuss\u00e3o corporal, sarau de leituras sobre Fernando Pessoa e todos os saberes que esse amado trouxe em minha vida. Com ele tive a oportunidade de estrelar nos palcos, participar de eventos e conhecer pessoas que tamb\u00e9m me apoiaram na minha trajet\u00f3ria. Nunca contei a Charles que meu jeito po\u00e9tico de ver a vida tem um tanto da maneira como ele me ensinou a ver, enxergar, mirar e sentir. Ao Charles, aos meus e a todos os professores, obrigado.<br>Meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 de voc\u00eas!&#8221;<\/p><cite> <p>Beto Silva<\/p><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Era o finalzinho dos anos cinquenta (sim! s\u00e9culo passado&#8230;), no col\u00e9gio Canad\u00e1, em Santos. Um professor de Filosofia e uma jovem professora de F\u00edsica e Matem\u00e1tica. Professor Jo\u00e3o Jos\u00e9 Itagiba Mariuzzo e professora Maria Helena Lambert. Cham\u00e1vamos ambos pelo nome \u2013 Itagiba, Maria Helena \u2013 e os trat\u00e1vamos de \u201cvoc\u00ea\u201d.<\/p><p>Eu me impressionava muito com a seguran\u00e7a com que Maria Helena transitava pelos n\u00fameros, leis, equa\u00e7\u00f5es e f\u00f3rmulas que preenchiam a lousa e eram copiados em fich\u00e1rios e cadernos sobre os quais ela se debru\u00e7ava, conferindo o que faz\u00edamos. Sempre paciente, sempre me fazendo pensar que o universo era compreens\u00edvel&#8230;<\/p><p>O Itagiba me levava para outros caminhos. Caminhos de d\u00favidas. E a novidade de que era t\u00e3o importante formular perguntas, quanto responder a elas. Talvez at\u00e9 mais importante&#8230; De vez em quando ele nos afogava em afirma\u00e7\u00f5es. Me lembro que uma das que me impressionou mais foi \u201co ser \u00e9, o n\u00e3o ser n\u00e3o \u00e9\u201d, de um grego (?) que, segundo ele (Itagiba), influenciou Shakespeare&#8230;.<\/p><p>Acho que foi com eles que comecei a levar ci\u00eancia e literatura mais a s\u00e9rio.&#8221;<\/p><cite> <p>Marisa Lajolo<\/p><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Quando ela entrava na sala de aula, um misto de respeito e admira\u00e7\u00e3o tomava conta da classe toda. Tinha um olhar penetrante, severo e terno, ao mesmo tempo. Percorria a sala e &#8216;tomava a li\u00e7\u00e3o&#8217; de um a um, com paci\u00eancia, corrigindo ou elogiando o bom desempenho. Abolira a palmat\u00f3ria e os castigos f\u00edsicos t\u00e3o comuns naquela \u00e9poca (anos 50) em nossa cidade, Areia Branca\/RN. Dizia que para manter a disciplina bastava sua autoridade. Estud\u00e1vamos em uma escola multisseriada, constitu\u00edda de uma \u00fanica sala de aula, com alunos do primeiro ao terceiro ano do antigo Prim\u00e1rio, de modo que fui alfabetizada por ela.<\/p><p>&nbsp;\u00c0s vezes, ela nos levava a um passeio escolar em uma salina. Ali, ela nos explicava como o sal era produzido, sua import\u00e2ncia para a economia do nosso Estado. Depois, brinc\u00e1vamos, lanch\u00e1vamos e volt\u00e1vamos para casa, felizes da vida. Eu olhava para ela com admira\u00e7\u00e3o e orgulho. Ela era mais do que a nossa professora, era a minha tia <strong>Noeme Dantas<\/strong>! Quando cresci e me tornei professora, era seu exemplo que queria seguir. Queria que ela olhasse para mim com o mesmo orgulho que sentia por ela.&#8221;<\/p><cite> <p>Miriam Dantas de Ara\u00fajo<\/p><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;O Professor Miranda carregava sempre um punhado de livros com ele. Alguns amarelados, de capa dura, outros grossos. Uns magrinhos, recheados de versos. Sobre a mesa, ele ia abrindo um a um. Lia, comentava, lia de novo. E os meus olhos n\u00e3o desgrudavam da voz dele, do passar de p\u00e1ginas. Aquilo alimentava a minha imagina\u00e7\u00e3o e eu n\u00e3o perdia uma aula de portugu\u00eas. Prestava aten\u00e7\u00e3o em tudo.<\/p><p>Achava as aulas interessant\u00edssimas, porque o professor Miranda mergulhava nos cen\u00e1rios das hist\u00f3rias e nos levava tamb\u00e9m. Ele lia trechos, comentava, falava da est\u00e9tica de cada texto. Com pouco mais de 11 anos, eu j\u00e1 havia lido Jos\u00e9 de Alencar, Machado de Assis, E\u00e7a de Queiroz, Raul Pompeia\u2026<\/p><p>Fui fazer faculdade de Letras e quando reli algumas obras do Jos\u00e9 de Alencar, achei tudo bem chato. Entendi que o bom mesmo era ouvir a voz daquele professor apaixonado por literatura. E ele sabia t\u00e3o bem prender os nossos olhos e ouvidos grudados nas p\u00e1ginas dos livros.&#8221;<\/p><cite>Ninfa Parreiras<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEu estava no fim do ensino fundamental quando comecei a ter aulas com aquela professora de voz firme, cabelo curto, exigente, que sempre carregava uma pilha de livros e uma garrafinha de \u00e1gua consigo. Ela era professora de portugu\u00eas e reda\u00e7\u00e3o. Tinha um jeito de falar sobre as obras liter\u00e1rias que me encantava, revelando perspectivas que eu jamais teria observado sozinha. Uma aula em especial me marcou para sempre, em que ela falou sobre&nbsp;<em>Vidas Secas<\/em>. A edi\u00e7\u00e3o que t\u00ednhamos era ilustrada por Aldemir Martins. A professora de portugu\u00eas chamou aten\u00e7\u00e3o para o tra\u00e7o seco, simples e duro das imagens, sobre como eles conversavam com a ambienta\u00e7\u00e3o do romance de Graciliano Ramos. Eu era a \u2018desenhista\u2019 da sala, mas nunca tinha relacionado uma arte \u00e0 outra. Fiquei t\u00e3o encantada com a import\u00e2ncia da plasticidade visual, da escolha do tra\u00e7o e estilo na narrativa verbal que passei a observar isso em todas as obras que chegavam a mim. Pouco tempo depois, quando escolhi cursar Produ\u00e7\u00e3o Editorial, no desejo de trabalhar com literatura infantil, sabia que a decis\u00e3o pelo curso tinha tido grande influ\u00eancia dela, que abriu meu olhar para as rela\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos entre as diferentes linguagens que eu tanto amava, a da palavra e da imagem. Anos depois, j\u00e1 atuando como editora, encontrei-a no Orkut e deixei um depoimento contando como suas aulas haviam me impactado e influenciado minha vida \u2013 at\u00e9 meu mestrado foi sobre o livro (ou \u00e1lbum) ilustrado. Ela respondeu dizendo que uma l\u00e1grima havia escapado na leitura do depoimento. Explicou que era um trabalho de longo prazo, que a vida de professora era dura e ela pouco via de retorno sobre tanto trabalho. Nessa \u00e9poca, ela devia ter em torno de 60 anos. O Orkut morreu, e nunca mais consegui contato com ela. Mas fico feliz que ela saiba que sim, seu trabalho reverbera em mim e em tantos alunos que foram contagiados pela sua paix\u00e3o pela literatura.\u201d<\/p><cite>Renata Nakano<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, na Faculdade de Artes Pl\u00e1sticas da FAAP tive, durante dois anos, aulas de hist\u00f3ria da arte com o professor Herbert Duschenes (1914-2003). Foram aulas inesquec\u00edveis. Al\u00e9m de conhecer muito o assunto, Duschenes amava a mat\u00e9ria que dava. Seu curso funcionava como uma narrativa que colocava numa certa ordem movimentos ou momentos art\u00edsticos \u2013 e alguns de seus artistas relevantes \u2013 associando, ao mesmo tempo, essas manifesta\u00e7\u00f5es \u00e0 mentalidade hist\u00f3rica e \u00e0s quest\u00f5es filos\u00f3ficas e epistemol\u00f3gicas de cada per\u00edodo abordado. Tudo isso sempre acompanhado de proje\u00e7\u00e3o de slides (obviamente n\u00e3o existia datashow) ou filmes super 8 produzidos por ele mesmo. E mais: tudo o que ele mostrava nas aulas vinha acompanhado por uma trilha sonora feita da m\u00fasica produzida em cada \u00e9poca. Em resumo, olh\u00e1vamos uma obra de Velazquez ou Paul Klee tendo como pano de fundo sonoro a m\u00fasica do tempo de cada um desses artistas.<\/p><p>De quebra, como viajava muito, Duschenes aproveitava para, de vez em quando, mostrar filmes feitos por ele sobre exposi\u00e7\u00f5es de arte contempor\u00e2nea que tinha acabado de visitar: bienal de Veneza, Documenta de Kassel, o MoMA de Nova York etc. Suas aulas eram, enfim, um arraso e um verdadeiro privil\u00e9gio, mas quero contar outra coisa. Duschenes tinha muito mais material para mostrar do que as duas horas semanais de aula permitiam. Sendo assim, passou a convidar aqueles alunos que pareciam mais interessados na mat\u00e9ria a ir \u00e0 sua casa aos domingos no fim da tarde. Eram talvez uns 12 alunos se tanto e tive a sorte grande de estar entre eles. Fic\u00e1vamos por l\u00e1 at\u00e9 umas 10 horas da noite.<\/p><p>Nessas ocasi\u00f5es, al\u00e9m de passar filmes e mostrar m\u00fasicas, Duschenes trocava ideias com a gente sobre arte, sobre a sociedade, sobre o momento que viv\u00edamos no Brasil e sobre as quest\u00f5es de nosso tempo que de alguma forma se refletiam nas obras de arte. De vez em quando, convidava artistas amigos para participar do bate-papo e dar seu depoimento. A artista pl\u00e1stica Mira Schendel (1919-1988) era uma delas. Pois bem, num desses domingos, o professor nos contou que tinha sido chamado pelo diretor da faculdade e este lhe pediu para parar com aqueles encontros. Seu argumento era o de que havia muito zum zum zum sobre nossas reuni\u00f5es, que algu\u00e9m poderia consider\u00e1-las subversivas e isso seria problem\u00e1tico inclusive para a escola. Est\u00e1vamos l\u00e1 por 1972\/73 em plena ditadura militar.<\/p><p>Duschenes foi muito claro e direto com a gente. Disse que nossos encontros eram culturais, que n\u00e3o est\u00e1vamos fazendo mal a ningu\u00e9m e que, por ele, pod\u00edamos continuar com as reuni\u00f5es. Explicou que achou melhor colocar a quest\u00e3o para que n\u00f3s decid\u00edssemos. \u00c9ramos moleques de cerca de 20 anos e achamos \u00f3timo continuar. Hoje vejo que, na verdade, est\u00e1vamos correndo risco. Sem d\u00favida Duschenes com coragem e generosidade estava colocando ele mesmo, a sua carreira e a seguran\u00e7a de sua fam\u00edlia em risco. Eram tempos violentos onde imperavam o autoritarismo, a aus\u00eancia de direitos humanos e a ignor\u00e2ncia sobre qualquer coisa que possa ser chamada liberdade de pensamento ou de democracia. Duschenes tinha, por exemplo, uma bela e diversificada biblioteca e, sem d\u00favida, entre seus livros havia os que poderiam ser considerados de esquerda, obras de Marx e Engels, autores da Escola de Frankfurt e coisas assim. Algum policial poderia entrar l\u00e1, olhar os livros, olhar uma reuni\u00e3o de jovens e mandar prender todo mundo, principalmente o pr\u00f3prio Duschenes, sob acusa\u00e7\u00e3o de ser um professor comunista e subversivo. Tristes tempos. Da minha parte, posso dizer que eu era um e passei a ser outro ap\u00f3s as aulas desse grande e inesquec\u00edvel professor, exemplo de homem e de car\u00e1ter.&#8221;<\/p><cite> <p>Ricardo Azevedo<\/p><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns bloco-cta has-background is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"background-color:#fdb813\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-bottom is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\"><img decoding=\"async\" width=\"434\" height=\"195\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/call01.png\" alt=\"Assine o Clube Quindim\" class=\"wp-image-9392\" title=\"\"><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column bloco-cta-direita is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-text-align-center titulo-cta wp-block-paragraph\"><span style=\"color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">APROVEITE ESTE MOMENTO PARA INCENTIVAR A LEITURA!<\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button has-custom-width wp-block-button__width-100 botao-cta is-style-fill\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><span style=\"color:#e3e2e2\" class=\"has-inline-color\">ASSINE O CLUBE QUINDIM E RECEBA OS MELHORES LIVROS INFANTIS!<\/span><\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professores t\u00eam o poder de transformar realidades e trajet\u00f3rias. S\u00e3o figuras de autoridade e de afeto, de acolhimento e de seguran\u00e7a; profissionais cuja forma\u00e7\u00e3o \u00e9 cont\u00ednua, \u00e0 qual se integra cada experi\u00eancia, cada aluno. O of\u00edcio do professor foi e \u00e9 essencial para todos n\u00f3s, para a manuten\u00e7\u00e3o da sociedade democr\u00e1tica e a democratiza\u00e7\u00e3o do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":3713,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_mbp_gutenberg_autopost":false,"footnotes":""},"categories":[513,502,4,503],"tags":[],"class_list":["post-3695","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-datas-especiais","category-alfabetizacao","category-educacao","category-educacao-escolar"],"acf":{"posts_relacionados":[21211,17633,1178]},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3695","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3695"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3695\/revisions"}],"acf:post":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1178"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17633"},{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21211"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3713"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3695"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3695"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3695"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}