{"id":3552,"date":"2019-09-19T15:20:48","date_gmt":"2019-09-19T18:20:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.clubequindim.com.br\/?p=3552"},"modified":"2021-12-28T16:04:15","modified_gmt":"2021-12-28T19:04:15","slug":"crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/crianca\/","title":{"rendered":"O \u201cmito da crian\u00e7a boazinha\u201d e como ele pode engessar a inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQue crian\u00e7a boazinha, quase n\u00e3o chora!\u201d, \u201cParab\u00e9ns, ele \u00e9 t\u00e3o comportado!\u201d, \u201cNossa, t\u00e3o quietinha sua filha, que linda!\u201d. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu essas frases antes? Quem tem filhos sabe que um dos maiores desafios \u00e9 a cobran\u00e7a das pessoas \u2013 de amigos a familiares \u2013 sobre o comportamento das crian\u00e7as. A inf\u00e2ncia \u00e9 o espa\u00e7o em que o indiv\u00edduo se encontra em seu estado mais entregue \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, \u00e0 criatividade e ao desejo de explorar o mundo. Ainda assim, vivemos em uma sociedade que espera que os pequenos cumpram normas sociais e sejam como miniadultos: silenciosos e \u201ceducados\u201d. O importante, afinal, em uma sociedade que invisibiliza a inf\u00e2ncia, \u00e9 que a crian\u00e7a n\u00e3o \u201cd\u00ea trabalho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, estar dentro de uma \u201ccaixa\u201d, de uma expectativa social, pode afastar o indiv\u00edduo da busca por quem ele \u00e9, bem como de uma experi\u00eancia plena de inf\u00e2ncia. Esse \u00e9 um dos questionamentos que o livro <em>Konrad \u2013 O menino da lata<\/em>, de Christine Nostlinger, levanta. A obra, que faz parte da sele\u00e7\u00e3o de setembro do<a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" Clube Quindim (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/www.clubequindim.com.br\/\" target=\"_blank\"> Clube Quindim<\/a>, conta a hist\u00f3ria de Dona Bartolotti, uma mulher que tem manias curiosas, como comprar tudo o que v\u00ea na televis\u00e3o. Um dia, entre as encomendas que recebe pelo correio, chega \u00e0 sua casa o menino Konrad, dentro de uma lata, fabricado para ser a crian\u00e7a perfeita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como uma \u201ccrian\u00e7a boazinha\u201d, Konrad \u00e9 extremamente educado e obediente, mas o conv\u00edvio com sua m\u00e3e e uma garotinha mais livre, vai coloc\u00e1-lo diante da import\u00e2ncia da autenticidade. Sair das caixas em que nos colocam e das expectativas sociais que esperam de n\u00f3s desde o nascimento parece ser o \u00fanico caminho para viver mais perto de nossas verdades e realiza\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><span style=\"color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><span style=\"color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">Expectativa sobre a inf\u00e2ncia: o buraco \u00e9 mais embaixo <\/span><\/span><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma ideia que vem de religi\u00f5es crist\u00e3s e do esp\u00edrito colonizador de \u201ccivilidade\u201d. Ela segmenta os povos entre os selvagens e os civilizados, e cabe a estes segundos espalhar sua cultura e iluminar o primeiro grupo. Dentro das fam\u00edlias, essa maneira manique\u00edsta de compartimentar comportamentos se repete: o adulto \u00e9 o iluminado que deve civilizar a crian\u00e7a \u2013 assim, a crian\u00e7a boa e comportada \u00e9 aquela que verdadeiramente acessou os ensinamentos do adulto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, temos a cobran\u00e7a que recai sobre os pais \u2013 e mais fortemente sobre a m\u00e3e \u2013 de que consigam completar essa tarefa de iluminar seus filhos. Em um mundo competitivo, a performance e a \u201cvit\u00f3ria\u201d s\u00e3o valores ensinados e estimulados: assim, espera-se que, por tr\u00e1s da crian\u00e7a boazinha, haja a \u201cm\u00e3e competente\u201d, aquela que soube ensinar seu filho direitinho como se comportar, aquela que \u201cdoma\u201d a crian\u00e7a. Se, por outro lado, a m\u00e3e n\u00e3o cumprir essa miss\u00e3o certamente ser\u00e1 julgada.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><span style=\"color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><span style=\"color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">Compara\u00e7\u00e3o do parquinho <\/span><\/span><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A din\u00e2mica de parquinho infantil \u00e9 toda especial. Com frequ\u00eancia as m\u00e3es comparam seus filhos e suas performances como \u201cm\u00e3es competentes\u201d. Se h\u00e1 uma crian\u00e7a que grita, que corre mais, que n\u00e3o consegue emprestar seus brinquedos ou chora, h\u00e1 um julgamento instant\u00e2neo de que aquela n\u00e3o \u00e9 a crian\u00e7a boazinha, e que portanto sua m\u00e3e n\u00e3o deve ter lhe ensinado corretamente como proceder. Muitas vezes ouvimos at\u00e9 relatos de m\u00e3es e crian\u00e7as que s\u00e3o exclu\u00eddos por n\u00e3o terem o comportamento ideal \u2013 deixam de ser convidados para eventos, por exemplo, porque a crian\u00e7a \u201cn\u00e3o sabe se comportar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, dessa forma, um v\u00edcio muito grande de controle e repress\u00e3o, eco da educa\u00e7\u00e3o destinada pelos pais nas gera\u00e7\u00f5es anteriores, bem como uma intoler\u00e2ncia \u00e0s caracter\u00edsticas da crian\u00e7a, de quem est\u00e1 tentando entender a si, \u00e0s emo\u00e7\u00f5es, ao sentimento de frustra\u00e7\u00e3o e ao funcionamento do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos adultos tamb\u00e9m n\u00e3o evitam mencionar o que pensam sobre as crian\u00e7as diante delas. Assim, afirmam: \u201cEle \u00e9 t\u00e3o t\u00edmido!\u201d, \u201cNossa, como ela \u00e9 sens\u00edvel!\u201d, \u201cEsse \u00e9 bagunceiro\u201d, \u201cEssa \u00e9 t\u00e3o delicada\u201d \u2013 rotulam os pequenos, predeterminando quem s\u00e3o e ser\u00e3o e limitando suas experi\u00eancias emocionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o de rotular os pequenos \u00e9 ainda mais importante quando se pensa em quest\u00f5es de g\u00eanero: de acordo com dados do document\u00e1rio \u201cRepense o elogio\u201d, de Estela Renner, dentre os entrevistados e entrevistadas,&nbsp; 80% dos termos ditos a meninas eram relacionados \u00e0 sua apar\u00eancia, como \u201clinda\u201d e \u201cprincesa\u201d, enquanto 70% dos elogios aos meninos estavam relacionados a habilidades, tal qual \u201cinteligente\u201d e \u201cforte\u201d. Conclus\u00e3o: a\u00ed se planta a semente das opress\u00f5es de padr\u00e3o de beleza que as mulheres carregam, assim como dos valores de <a href=\"https:\/\/blog.clubequindim.com.br\/masculinidade-toxica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"masculinidade (opens in a new tab)\">masculinidade<\/a> que pressionam os homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das melhores formas de lidar com essa quest\u00e3o talvez seja pensar em nossa pr\u00f3pria viv\u00eancia como adultos. Sabemos que n\u00e3o somos uma coisa s\u00f3, estamos longe de conseguir nos encaixar em uma caixa, e que os percal\u00e7os da vida nos transformam constantemente, fazendo com que entendamos e reinventemos quem somos a todo momento. Diante das crian\u00e7as, que possamos acolher sua inteireza e sua complexidade, base fundamental para que aproveitem a inf\u00e2ncia com a liberdade que precisam e que possam desenvolver quem s\u00e3o com amor e verdade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"subtituloh2 wp-block-heading\"><span style=\"color:#f27059\" class=\"has-inline-color\"><span style=\"color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">Conhe\u00e7a a obra Konrad, o menino da lata <\/span><\/span><\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/konrad.jpg\" alt=\"konrad o menino da lata christine nostlinger annette swoloda karina jannini\" class=\"wp-image-32802\" width=\"-19\" height=\"-26\" title=\"\"><figcaption><strong>Escritora:<\/strong> Christine N\u00f6stlinger<br><strong>Ilustra\u00e7\u00f5es:<\/strong> Annette Swoloda<br><strong>Editora:<\/strong> Biruta<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dona Bartolotti vivia uma vida tranquila tecendo tapetes, comprando coisas pelo correio e saindo com o namorado duas vezes por semana. Um dia o carteiro traz uma lata e de dentro dela sai um filho. E a partir da\u00ed nascem uma m\u00e3e, um pai e uma fam\u00edlia. E a hist\u00f3ria de Konrad, um menino fabricado que chega literalmente enlatado. Ao longo da narrativa, o filho \u201cfabricado\u201d \u00e9 desconstru\u00eddo e a ideia de perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 desmistificada. Afinal, o que \u00e9 ser perfeito? E essa ideia de perfei\u00e7\u00e3o veio de onde? Os pais sempre t\u00eam expectativas a respeito dos filhos, mas as experi\u00eancias que v\u00e3o na contra-m\u00e3o dessas expectativas s\u00e3o muito importantes para o processo de autoconhecimento, quando se busca entender a diferen\u00e7a entre quem voc\u00ea \u00e9 e quem esperam que voc\u00ea seja. E os pais s\u00e3o companheiros importantes nessa jornada, ouvindo, conversando e acolhendo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria de Konrad acontece no mundo real, com personagens bizarros por\u00e9m reais e em que a ideia de um menino fabricado \u00e9 aceit\u00e1vel. Mas sua origem, cria\u00e7\u00e3o e personalidade n\u00e3o correspondem \u00e0 l\u00f3gica da realidade e este \u00e9 ponto de partida para os conflitos e para muitas situa\u00e7\u00f5es engra\u00e7adas durante a narrativa. Muitas vezes, os personagens que est\u00e3o em contato com Konrad precisam achar desculpas para situa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis, que fora do livro poderiam ser consideradas \u201cmalucas\u201d. Mas a autora faz isso de maneira t\u00e3o h\u00e1bil que mergulhamos na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQue crian\u00e7a boazinha, quase n\u00e3o chora!\u201d, \u201cParab\u00e9ns, ele \u00e9 t\u00e3o comportado!\u201d, \u201cNossa, t\u00e3o quietinha sua filha, que linda!\u201d. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu essas frases antes? Quem tem filhos sabe que um dos maiores desafios \u00e9 a cobran\u00e7a das pessoas \u2013 de amigos a familiares \u2013 sobre o comportamento das crian\u00e7as. 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