{"id":1886,"date":"2019-01-16T16:55:39","date_gmt":"2019-01-16T18:55:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.clubequindim.com.br\/?p=1886"},"modified":"2024-04-11T12:00:51","modified_gmt":"2024-04-11T15:00:51","slug":"escola-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/escola-politica\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica deve estar na escola? Ricardo Azevedo reflete sobre a quest\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ser\u00e1 que a pol\u00edtica deve fazer parte da viv\u00eancia dos alunos em sala de aula? Ricardo Azevedo, escritor e ilustrador premiado com o Jabuti e o APCA, pesquisador de folclore e um dos curadores do&nbsp;<\/em><a href=\"http:\/\/www.clubequindim.com.br\/\"><em>Clube de Leitura Quindim<\/em><\/a><em>, reflete sobre a quest\u00e3o no artigo a seguir. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falar em educa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 levar em conta procedimentos e m\u00e9todos pedag\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m pol\u00edticas educacionais.<br>Tendemos, normalmente, a confundir as duas coisas.<br>Sem entrar no m\u00e9rito de m\u00e9todos pedag\u00f3gicos, pergunto: que pol\u00edticas educacionais t\u00eam sido adotadas no Brasil? Que tipo de pessoa, afinal, nosso sistema educacional pretende formar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o tem raz\u00e3o de ser, pelo menos para algu\u00e9m que como eu vem h\u00e1 anos criticando a maneira como a literatura tem sido, em geral e tirando as exce\u00e7\u00f5es de praxe, tratada na escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o objetivo de nossa pol\u00edtica educacional \u00e9 formar cidad\u00e3os humanistas, minha discuss\u00e3o pode fazer algum sentido. Esclare\u00e7o que por humanismo refiro-me simplesmente \u00e0 vis\u00e3o do homem como um ser eminentemente social, com consci\u00eancia de que existem diferentes formas de ver a vida e o mundo, com determinadas potencialidades e limites, um ser expressivo, emotivo, criativo e ef\u00eamero, capaz de construir linguagens e s\u00edmbolos e de transformar a natureza e a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, voltando, e se o objetivo de nossa pol\u00edtica educacional for outro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu importante estudo sobre a vida moderna nos Estados Unidos, o soci\u00f3logo Christopher Lasch (A cultura do narcisismo. A vida americana numa era de esperan\u00e7as em decl\u00ednio. Rio de Janeiro, Imago, 1983) recupera, p\u00e1ginas tantas, um pouco da hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o norte-americana. Recorda particularmente um debate ocorrido no fim do s\u00e9culo XIX, entre aqueles que, como John Dewey, propunham uma escola eminentemente democr\u00e1tica, fundada em princ\u00edpios humanistas, e alguns te\u00f3ricos com posi\u00e7\u00f5es mais conservadoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escola pensada por Dewey seria, em suma, acess\u00edvel a todas as pessoas independentemente de classes sociais; pretendia substituir uma \u201chierarquia de classes\u201d por uma \u201chierarquia de capacidades\u201d; seria voltada para o desenvolvimento individual de cada pessoa; pretendia levar o indiv\u00edduo a perceber-se como algu\u00e9m vinculado, comprometido e dependente de seu meio social; propunha o combate ao individualismo tradicional, ego-centrado, solipsista, est\u00e9ril e ultrapassado etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas ideias, inspiradas em Dewey e outros, foram, no Brasil, defendidas num manifesto publicado em 1932 (e depois em outro manifesto de 1959) por educadores pioneiros como An\u00edsio Teixeira, Fernando de Azevedo, Louren\u00e7o Filho, Cec\u00edlia Meirelles e alguns outros ( conf. os dois manifestos em GHIRALDELLI Jr. Paulo. Hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o brasileira. S\u00e3o Paulo, Cortez, 2006. Tem tamb\u00e9m no google.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Infelizmente, esses importantes intelectuais pouco ou nada foram ouvidos por nossos governantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos EUA, segundo Lasch, ocorreu o mesmo. O referido debate foi vencido pelo grupo que defendia uma educa\u00e7\u00e3o tecnocrata e despolitizada, voltada para a valoriza\u00e7\u00e3o do conhecimento t\u00e9cnico, cujo objetivo era, de um lado, formar pessoas para trabalharem nas ind\u00fastrias que floresciam e, de outro, dar poder aquisitivo a essas mesmas pessoas para que pudessem constituir mercados, consumir e fazer escoar os produtos industriais, fabricados em escalas cada vez maiores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da\u00ed, Christopher Lash descreve o surgimento de um \u201cnovo analfabetismo\u201d, um analfabetismo social, resultante de uma educa\u00e7\u00e3o voltada n\u00e3o para objetivos e interesses da cidadania e da sociedade como um todo mas, sim, para objetivos e interesses industriais; a valoriza\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o apenas t\u00e9cnica; a subordina\u00e7\u00e3o de homens \u00e0s m\u00e1quinas; a inculca\u00e7\u00e3o de esquemas de disciplina e princ\u00edpios de organiza\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o inspirados nos modelos e padr\u00f5es empresariais; a valoriza\u00e7\u00e3o do utilitarismo; o treinamento \u201cvocacional\u201d (que privilegia os cargos com demanda no mercado de trabalho do momento); a supervaloriza\u00e7\u00e3o de metodologias, estat\u00edsticas, testes objetivos de m\u00faltipla escolha, classifica\u00e7\u00f5es do tipo QI etc.&nbsp;<br>Em resumo, uma escola voltada a formar t\u00e9cnicos-acr\u00edticos, ou seja, indiv\u00edduos moldados para ocupar cargos no mercado de trabalho, mas sem capacidade e instrumentos para discutir os paradigmas da sociedade em que vivem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Lasch, tal modelo escolar, eminentemente burocr\u00e1tico e t\u00e9cnico, \u201cminou a capacidade da escola de servir como agente de emancipa\u00e7\u00e3o intelectual\u201d.&nbsp;<br>Essa op\u00e7\u00e3o foi vitoriosa nos EUA e, ao que parece, disseminada por outros pa\u00edses, inclusive o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para comprovar isso, vejamos rapidamente alguns momentos das pol\u00edticas educacionais brasileiras.<br>Gustavo Capanema, ministro da Educa\u00e7\u00e3o de 1934-1945, per\u00edodo do governo de Get\u00falio Vargas, prop\u00f4s o \u201cdualismo educacional\u201d. O que seria isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Significava organizar um sistema \u201cbifurcado\u201d, com o ensino secund\u00e1rio p\u00fablico destinado, nas palavras do texto da lei, \u201c\u00e0s elites condutoras\u201d e um ensino secund\u00e1rio t\u00e9cnico e profissionalizante destinado \u201caos outros setores da popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 v\u00e1lido, naturalmente, pretender formar uma elite bem preparada, mas segregar antecipadamente quem vai e quem n\u00e3o vai estudar nas melhores escolas? Existirem, por outro lado, como estrat\u00e9gia pol\u00edtica, numa mesma e \u00fanica sociedade, escolas melhores destinadas a uns e escolas piores destinadas a outros?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00e9poca, diga-se de passagem, o colegial p\u00fablico, considerado muito bom, era acess\u00edvel exclusivamente aos jovens das classes altas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos um reflexo dessa pol\u00edtica educacional at\u00e9 os dias de hoje. Basta lembrar nossas universidades p\u00fablicas, frequentadas principalmente por jovens das classes m\u00e9dias e altas, nossas \u201celites condutoras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro exemplo. O regime militar que deu um golpe em 1964 importou dos EUA, atrav\u00e9s dos chamados acordos MEC\/USAID (United States Agency for International Development), uma esp\u00e9cie de receita para construir sua pol\u00edtica educacional. Foram doze acordos firmados entre 1964 e 1968.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por essa \u00e9poca, note-se, o ministro Roberto Campos defendia a necessidade de submeter as diretrizes da escola ao mercado de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Campos, a agita\u00e7\u00e3o estudantil brasileira \u2013 naquele tempo ela ainda existia \u2013 era devida a \u201cv\u00e1cuos de lazer\u201d que possibilitavam \u201caventuras pol\u00edticas\u201d. Pregava, por essa raz\u00e3o, a despolitiza\u00e7\u00e3o das escolas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, como sabemos, isso n\u00e3o era bem verdade. A inquieta\u00e7\u00e3o estudantil n\u00e3o podia ser considerada exclusivamente brasileira mas, sim, um fen\u00f4meno mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale lembrar os hippies, a chamada \u201ccontra cultura\u2019 ou o movimento estudantil de maio de 1968 na Fran\u00e7a.<br>Fora isso, convenhamos, a inquieta\u00e7\u00e3o sempre foi inerente \u00e0 juventude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Queremos formar jovens, independentemente de classes sociais, inquietos, criativos e questionadores que aprendam a utilizar sua energia para seu pr\u00f3prio desenvolvimento e tamb\u00e9m para aprimorar a sociedade em que vivem ou, ao contr\u00e1rio, jovens entediados, passivos, alienados, egoc\u00eantricos e, talvez por isso, imbecilizados e violentos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Campos defendia, ainda, que o ensino m\u00e9dio p\u00fablico, naquele momento j\u00e1 com conte\u00fados mais t\u00e9cnicos ou profissionalizantes, deveria atender \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u201cem sua maioria\u201d, enquanto o ensino universit\u00e1rio deveria continuar reservado \u00e0s elites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De certa forma foi o que ocorreu e continua ocorrendo, levando-se em conta a universidade p\u00fablica.&nbsp;<br>Segundo os militares da \u00e9poca, em todo o caso, o sistema educacional n\u00e3o deveria \u201c&#8230;despertar aspira\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pudessem ser satisfeitas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os acordos MEC\/USAID, em suma, modificaram a escola do fundamental \u00e0 universidade e propunham o ensino voltado \u00e0 t\u00e9cnica e a despolitiza\u00e7\u00e3o.<br>Faz todo o sentido que a pol\u00edtica de um pa\u00eds se preocupe em formar pessoas para ocupar os cargos do mercado de trabalho. Mas transformando cidad\u00e3os em t\u00e9cnicos acr\u00edticos politicamente alienados?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vejamos o que dizia o soci\u00f3logo Octavio Ianni a respeito dessa reforma universit\u00e1ria: \u201ctratava-se de dar andamento ao processo de burocratiza\u00e7\u00e3o, tecnifica\u00e7\u00e3o e \u2018despolitiza\u00e7\u00e3o\u2019 do trabalho intelectual. O sistema de poder se prop\u00f4s eliminar ou controlar o esp\u00edrito critico, inerente a toda atividade intelectual: jornal\u00edstica, art\u00edstica, filos\u00f3fica ou cient\u00edfica.\u201d (&#8230;) E assim \u201ctransformar a universidade numa ag\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos, assessores, consultores, conselheiros, executivos ou simplesmente funcion\u00e1rios\u201d do sistema vigente;\u201d ( IANNI, Octavio. Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira,1991, p.169).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda sobre a reforma universit\u00e1ria, segundo Paulo Ghiraldelli Jr., dela decorreu \u201ca departamentaliza\u00e7\u00e3o, a matr\u00edcula por disciplina, o regime de cr\u00e9ditos e a institucionaliza\u00e7\u00e3o do curso parcelado, completando uma estrutura pouco vi\u00e1vel para um ensino universit\u00e1rio eficaz. (&#8230;) A consequ\u00eancia (&#8230;) foi a inevit\u00e1vel fragmenta\u00e7\u00e3o do trabalho escolar, o isolamento dos pesquisadores e, ainda, a dispers\u00e3o dos alunos pelo sistema de cr\u00e9ditos provocando a despolitiza\u00e7\u00e3o e a impossibilidade de organiza\u00e7\u00e3o&nbsp;<br>estudantil a partir do n\u00facleo b\u00e1sico que era a turma.\u201d (C.f. tamb\u00e9m ROMANELLI, Ota\u00edza de Oliveira. Hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o no Brasil., Vozes, 2007.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado de tudo isso, esse \u00e9 o ponto que pretendo ressaltar nesse artigo, foi a despolitiza\u00e7\u00e3o da escola e, em decorr\u00eancia, da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confundiu-se, a meu ver, \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o\u201d com \u201cpol\u00edtica\u201d e, com isso, a discuss\u00e3o e a reflex\u00e3o pol\u00edtica simplesmente sa\u00edram de pauta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ocorre que a pol\u00edtica \u00e9 um instrumento fundamental inventado pelos homens para construir o futuro. Pessoas despolitizadas ficam confusas, c\u00e9ticas e desesperan\u00e7adas.&nbsp;<br>Ao serem alijados e afastados do pensamento pol\u00edtico, nossos jovens s\u00e3o levados a acreditar que a realidade social corresponde a algo fixo e imut\u00e1vel e, dessa forma, tornam-se incapazes de planejar ou mesmo de sonhar com um futuro melhor. Em outras palavras, ficam sem um canal de liga\u00e7\u00e3o entre eles e o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na minha vis\u00e3o, isso corresponde a um grav\u00edssimo crime social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num ambiente como o nosso, de individualismo sem limites, consumismo doentio, tecnocracia e despreparo e\/ou corrup\u00e7\u00e3o das autoridades p\u00fablicas, sem falar no \u00f3bvio e aviltante desequil\u00edbrio social, o efeito da despolitiza\u00e7\u00e3o tem sido simplesmente desastroso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s quase trinta anos de trabalho como escritor, uma das coisas que mais me impressionam quando visito escolas e converso com estudantes que leram meus livros, assim como com seus professores, \u00e9 a total aus\u00eancia das quest\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de uma despolitiza\u00e7\u00e3o ampla, geral e irrestrita que, ao que tudo indica, parece ter sido fruto, pelo menos em parte, das citadas pol\u00edticas educacionais.<br>Quero esclarecer que quando falo em discuss\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o penso apenas em abordar velhos, embora important\u00edssimos, temas como \u201cjusti\u00e7a social\u201d mas sim:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1. discutir a tecnocracia, ou seja, a sociedade controlada pelo poder da t\u00e9cnica;<br>2. discutir o individualismo, suas caracter\u00edsticas e suas implica\u00e7\u00f5es na vida de todos n\u00f3s (como a cren\u00e7a de que os interesses do indiv\u00edduo est\u00e3o sempre e necessariamente acima dos interesses da coletividade);<br>3. discutir a sociedade de consumo, suas caracter\u00edsticas principais, seus objetivos e valores;<br>4. discutir a chamada \u201cind\u00fastria cultural\u201d ;<br>5. discutir caracter\u00edsticas e limites das no\u00e7\u00f5es de modernidade e tradi\u00e7\u00e3o;<br>6. discutir com os alunos inclusive, por que n\u00e3o, um pouco da hist\u00f3ria da escola, sua fun\u00e7\u00e3o social e suas pol\u00edticas educacionais, ou seja, que tipo de aluno a sociedade pretende formar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos falar de uma educa\u00e7\u00e3o que vise:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1. a integra\u00e7\u00e3o da pessoa no sistema social vigente;<br>2. preparar para o trabalho produtivo, politicamente vinculado ao consumismo, dentro de uma ordem social a ser \u201cmodernizada\u201d sem ser transformada;<br>3. a capacita\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra de diferentes n\u00edveis (em suma, \u201ct\u00e9cnicos\u201d e \u201cexecutivos\u201d);&nbsp;<br>4. a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os ajustados ao status quo, ou seja, t\u00e9cnicos-acr\u00edticos prontos para constituir mercados consumidores.<br>5. enfim, no lugar de cidad\u00e3os humanistas formar t\u00e9cnicos consumidores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Creio, francamente, que numa escola assim n\u00e3o faz muito sentido discutir literatura e poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos por\u00e9m sonhar com uma educa\u00e7\u00e3o que busque:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1. a integra\u00e7\u00e3o do sujeito aos problemas de sua sociedade;&nbsp;<br>2. a forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o pol\u00edtico;&nbsp;<br>3. a forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o que saiba pensar e se exprimir livremente;&nbsp;<br>4. a forma\u00e7\u00e3o de pessoas que busquem o autoconhecimento sem deixar de compreender a necessidade do respeito ao Outro;<br>5. a forma\u00e7\u00e3o de pessoas com pensamento cr\u00edtico capazes, n\u00e3o s\u00f3 de situar-se hist\u00f3rica e culturalmente, mas tamb\u00e9m de discutir a respeito dos paradigmas e valores de sua sociedade;<br>6. a forma\u00e7\u00e3o de pessoas que saibam refletir tendo em vista o aperfei\u00e7oamento social e o fortalecimento da sociedade civil;<br>7. em suma, uma escola que sirva como agente da emancipa\u00e7\u00e3o intelectual do estudante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Queria muito poder discutir literatura e poesia numa escola assim!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Creio na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade brasileira melhor e mais justa mas isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel quando nossos cidad\u00e3os, independentemente de idades, graus de instru\u00e7\u00e3o ou classe social, se derem conta de que s\u00e3o respons\u00e1veis pela sociedade em que vivem.&nbsp;<br>A escola tem papel fundamental nesse processo.&nbsp;<br>\u00c9 preciso definir o que queremos. Formar alunos para manter o que a\u00ed est\u00e1 ou prepar\u00e1-los para construir uma sociedade mais equilibrada, competente, inteligente, criativa e humana.\u201d&nbsp;<br>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<br>Tudo isso para dizer o seguinte. A ideia de \u201cescola sem partido\u201d \u00e9 correta, creio, at\u00e9 porque uma \u201cescola com partido\u201d seria algo n\u00e3o democr\u00e1tico, t\u00edpico de um governo autorit\u00e1rio e fascista que se arvore representar o partido \u00fanico.<br>Mas isso n\u00e3o significa que a escola deva ser despolitizada!<br>\u00c9 preciso dizer o \u00f3bvio: qualquer a\u00e7\u00e3o que tenhamos, ou n\u00e3o tenhamos, sempre ter\u00e1, queiramos ou n\u00e3o, um significado pol\u00edtico e um peso nos rumos da sociedade.<br>A omiss\u00e3o nada mais \u00e9 do que um a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alienada.<br>O que precisamos \u00e9 de uma educa\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u201ccom partido\u201d \u2013 mas com no\u00e7\u00e3o do da import\u00e2ncia do que seja a Pol\u00edtica.&nbsp;<br>Em outras palavras, uma escola onde os estudantes sejam alfabetizados politica e socialmente, sejam levados a compreender o que \u00e9 a pol\u00edtica e sua import\u00e2ncia, uma escola onde possam ser levantadas e discutas que pol\u00edticas t\u00eam sido adotadas no Brasil.&nbsp;<br>O que necessitamos, portanto, \u00e9 uma escola com pol\u00edtica!<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><em>Texto extra\u00eddo do artigo \u201cArmadilhas para a forma\u00e7\u00e3o de leitores: didatismo, sistema cultural dominante e pol\u00edticas educacionais\u201d, publicado no livro <\/em>Nos caminhos da literatura<em> (v\u00e1rios autores), S\u00e3o Paulo, Editora Funda\u00e7\u00e3o Peir\u00f3polis, 2008, e tamb\u00e9m na <\/em>Revista Releitura<em>, Belo Horizonte, Junho 2008, N\u00ba 22.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns bloco-cta has-background is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\" style=\"background-color:#fdb813\">\n<div class=\"wp-block-column is-vertically-aligned-bottom is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\"><img decoding=\"async\" width=\"434\" height=\"195\" src=\"https:\/\/quindim.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/call01.png\" alt=\"Assine o Clube Quindim\" class=\"wp-image-9392\" title=\"\"><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column bloco-cta-direita is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-text-align-center titulo-cta wp-block-paragraph\"><span style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#f27059\" class=\"has-inline-color\">APROVEITE ESTE MOMENTO PARA INCENTIVAR A LEITURA!<\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button has-custom-width wp-block-button__width-100 botao-cta is-style-fill\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/quindim.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><span style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0);color:#e3e2e2\" class=\"has-inline-color\">ASSINE O CLUBE QUINDIM E RECEBA OS MELHORES LIVROS INFANTIS!<\/span><\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 pol\u00eamica sobre a ideia de ter uma escola sem partido, o escritor, pesquisador e curador do Clube Quindim Ricardo Azevedo reflete sobre o 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