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Qual é o papel dos adultos nos conflitos entre crianças?

conflitos entre crianças

Foto: Canva / Arte: Clube Quindim

Conflitos entre crianças são inevitáveis. A disputa por um brinquedo, a discordância das regras de algum jogo, quem vai ser o primeiro a descer no escorregador… Mesmo os acontecimentos mais simples e corriqueiros podem virar motivo para atritos, que fazem parte da vida, não apenas das crianças, mas dos adultos também. Acontece que, para os pequenos, os embates (ou pelo menos a maioria deles) são naturais e inerentes ao desenvolvimento social.

“Os conflitos fazem parte do desenvolvimento e podem ser, inclusive, ótimas oportunidades para que as crianças exercitem habilidades como negociação, comunicação e resolução de problemas”, afirma a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, especialista em desenvolvimento infantil. Mas quando os adultos se envolvem, situações que pareciam simples podem ganhar ares de enormes tempestades

A especialista lembra que, ao tomar conhecimento de algum desentendimento envolvendo os filhos, o primeiro passo para os pais é algo muito básico, mas que pode ser esquecido ou “atropelado” na hora do nervoso: a escuta. “A prioridade é acolher a criança, entender o ponto de vista dela e a forma como ela se sente, para ajudá-la a organizar os fatos com calma”, orienta.

Foto: Canva

Assim, antes de resolver tomar alguma atitude ou tirar satisfação com os pais do amigo ou com quem quer que seja, já se abre um espaço para um olhar mais humano sobre o que realmente aconteceu — e não sobre a versão filtrada pela nossa ansiedade e pelo desejo (totalmente genuíno) de proteger nossos filhos. 

ÀS VEZES, A SOLUÇÃO É NÃO FAZER NADA

Crianças precisam aprender a negociar, discordar e até se frustrar. Pequenos conflitos entre crianças são excelentes chances de desenvolvimento socioemocional. Às vezes, o papel dos adultos termina ali mesmo, na escuta e no acolhimento. A partir disso, a própria criança já é capaz de resolver as próprias questões. 

Mas atenção: não se envolver diretamente é bem diferente de se ausentar. Mesmo nos casos mais simples, os adultos podem e devem orientar as crianças, conversar, trazer exemplos e exercitar a empatia, perguntando como seu filho se sentiria se estivesse no lugar do amigo ou estimulando possibilidades de soluções — que podem partir da própria criança. 

Por outro lado, algumas situações exigem intervenções mais diretas. “Em casos em que se identifica agressão, humilhação, ameaça ou medo, o adulto precisa ter um papel mais participativo para garantir a proteção da criança”, diz a especialista, que destaca que isso deve acontecer não para punir o outro lado, mas para garantir limites claros e segurança emocional. 

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separe o que é o seu do que é deles

Outro ponto importante para levar em consideração antes de se posicionar ou levar a situação para outros adultos é identificar se o que está pesando nessa decisão tem a ver com a realidade e com os sentimentos da criança ou com algum gatilho da sua própria vivência.

“Comportamentos comuns da infância podem ser interpretados como ataques pessoais ou reflexos diretos da educação recebida. Quando isso acontece, o conflito é ampliado pela reação dos adultos. O caminho mais saudável é olhar para o comportamento infantil como algo ainda em formação, com imaturidade própria da idade, buscando entender o contexto e a intenção comunicativa da criança, em vez de reagir de forma impulsiva”, lembra Silvia. 

É assim que, sem perceber, os pais podem transformar um empurrão infantil em uma verdadeira batalha entre famílias. Basta uma mensagem atravessada no grupo de WhatsApp e está criada a guerra. Identificar as próprias feridas não é uma tarefa fácil. Mas, para abrir espaço para respostas mais equilibradas, é fundamental se questionar: “Isso é sobre o meu filho ou é sobre algo meu?”. 

Se há um terreno fértil para confusões, aliás, é o grupo de troca de mensagens. Por texto, é fácil, fácil perder o tom, a nuance e até a empatia. “Essas ferramentas ajudam quando são usadas para alinhamentos rápidos e objetivos, mas podem atrapalhar bastante quando viram espaço para desabafos impulsivos”, alerta Sílvia. 

A regra de ouro, segundo a especialista, é lembrar que conflitos não se resolvem no grupo. Nunca. Pais regulados criam crianças reguladas. Por isso, respire fundo, faça uma pausa, converse com outro adulto (que não esteja envolvido na situação) antes de responder. São dicas simples, que podem evitar uma escalada desnecessária, que não vai levar a lugar nenhum. 

E saiba que não se trata de enganar, engolir sapo, fingir tranquilidade ou parecer calmo. É sobre se tornar a base segura que a criança precisa enquanto aprende a navegar suas próprias emoções. Afinal, os adultos ali são vocês. 

o papel dos adultos nos conflitos entre crianças: quando o diálogo é a saída

O encontro pode ter um potencial para a resolução. É muito positivo um cenário em que, diante da existência de um conflito um pouco mais sério entre as crianças, duas famílias se sentam para conversar, com calma, e resolvem a situação juntas. Além de ser uma saída mais saudável, ainda ensina aos pequenos que as trocas podem ser a resposta para casos difíceis. “Faz sentido quando a intenção é construir soluções e não buscar culpados”, afirma a neuropsicopedagoga. 

Mas nem sempre é assim. Alguns pais chegam emocionalmente carregados. Outros têm conflitos antigos, mágoas, pouca abertura ou simplesmente não estão prontos para dialogar. Forçar uma conversa pode escalar a tensão — em vez de resolver o problema com compreensão mútua. “Quando não existe disponibilidade real para ouvir o outro, o ideal é pausar e, se necessário, pedir o apoio da escola como mediadora”, índica a especialista. 

A intenção é o coração de tudo. Em uma conversa, é importante lembrar que cada um vai olhar o lado do seu filho, cada um tem um ponto de vista, uma história prévia, um contexto. “É fundamental começar a conversa deixando claro que o objetivo é entender, e não culpar. Isso reduz automaticamente a postura defensiva”, aponta Silvia, que lista aqui outras estratégias úteis para estes momentos: 

São atitudes simples, mas que fazem a diferença e ajudam a mudar completamente a disposição do outro lado, abrindo caminho para uma conversa saudável e produtiva, na maioria dos casos.

Foto: Canva

Porém, vale lembrar que nem toda história tem uma conciliação no final. E tudo bem! Afinal, ainda que você tente dialogar com o coração aberto, paciência e disposição para chegar a um consenso, não é possível controlar as atitudes das outras pessoas — apenas a sua reação a elas. Portanto, saber a hora de desistir é fundamental. “A postura mais segura é manter o respeito e não insistir em uma conversa que pode escalar para conflito adulto”, orienta a especialista. Não é sobre vencer uma discussão, mas sobre proteger as crianças.

Nessas situações, o melhor é envolver a escola, apoiar seu filho diretamente e evitar entrar em batalhas que só desgastam.

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O QUE MAIS IMPORTA: A CONVERSA COM SEU FILHO

Mais do que resolver um episódio pontual, o pós-conflito ensina habilidades que duram para a vida. “Depois do conflito, é essencial ajudar a criança a organizar o que aconteceu. Conversas que exploram o que ela sentiu, o que tentou fazer e como poderia agir de outra forma fortalecem habilidades socioemocionais”, diz a especialista. “É importante validar sentimentos, reforçar limites e orientar caminhos mais saudáveis para situações futuras. Esse processo ajuda a criança a crescer emocionalmente, reduz futuros conflitos e aumenta autonomia”, acrescenta.

Uma lição importante, para ensinar às crianças e relembrar aos adultos, que muitas vezes se esquecem, é que os conflitos fazem parte da vida e podem ser grandes professores. Quando escolhemos não entrar em guerras, acolhemos nossos filhos, reconhecemos nossos gatilhos e priorizamos o diálogo, no lugar da disputa. Ensinamos mais que boas maneiras: ensinamos humanidade. E, no fim, é isso que realmente queremos deixar como legado.

estante quindim

Conheça três livros já entregues à Família Quindim para dialogar com as crianças sobre conflitos e formas saudáveis de atravessá-los, respeitando a si mesmo e também ao outro:

Olho d’água, de Marcelo Tolentino
Eu também, de Patrícia Auerbach e Isabela Santos
Fala baixinho, de Janaina Tokitaka

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